Uma Diarréia e Sete Explicações (Princípios e Verdades)

Cólicas

Um homem pálido, magro e encurvado, de aproximadamente 25 anos de idade, vestindo uma camisa amarela desbotada, olhando para o chão, aproxima-se do balconista da única farmácia de Lumeeira.

Logo que o atendente da farmácia chegou à sua frente, o paciente, sem cumprimentá-lo, bastante pálido, foi explicando o que sentia e o que desejava com sua voz fina e baixa:

— Desde ontem estou passando mal. Acho que foi uma fruta estragada que comi em casa. Estou enjoado, vomitei muito.

Falando mais baixo ainda, Arnaldo continuou:

— Defequei sem parar. Deve ser gastrenterite. Você não acha? Que remédio bom você tem pra isso?

— Com certeza, você tem uma gastrenterite, disse o vendedor.

O atendente não precisou pensar muito, pois o diagnóstico já fora feito pelo cliente. Ele buscou em sua memória os medicamentos indicados para o som ouvido, “gastrenterite”, que o freguês lhe comunicou. Sem questionar, retirou da prateleira um medicamento usado para o imaginado pelos dois. Uma vez embrulhada a droga, o homem pálido agradeceu e saiu apressado.

O que ocorreu entre eles? O diagnóstico rápido

A informação selecionada, observada e fornecida pelo freguês (homem pálido), de modo superficial, descreve certos fatos percebidos: “enjoado”, “passei mal”, “disenteria”, etc. Após a descrição dos eventos, ele imaginou um possível mecanismo/causa (uma fruta estragada) para o acontecido e, por fim, o homem pálido classificou (nomeou) o conjunto de fatos e eventos ocorridos separadamente num só conceito: “gastrenterite”, por sinal um bonito nome, sério, usado também pelos médicos e, por isso mesmo, digno de respeito e de crédito.

O atendente, do outro lado do balcão, distraído e cansado das queixas e do calor do dia ensolarado, sem pestanejar, aceitou as informações ouvidas do paciente não só com respeito aos sintomas mencionados como também da categorização. Sem lhe fazer perguntas, vendeu-lhe um determinado medicamento, aleatoriamente indicado para o nome escutado: “gastrenterite”.

Não devemos nos espantar com essa maneira simples e prática de resolver problemas; ela tem sido usada constantemente por nós. Os dois, freguês e balconista, por viverem numa mesma sociedade, por participarem de crenças, costumes e modos semelhantes de captar, selecionar, categorizar e explicar os fatos e acontecimentos de seu meio, tendem a concordar em diversos pontos nas suas inter-relações. Os dois também, sendo parecidos na maneira de raciocinar (realismo ingênuo), concordam com a descrição - diarréia, vômitos, etc. - e as suposições de causalidade - “talvez uma manga estragada” - e, além disso, estão de acordo, também, quanto ao “poder das drogas”, isto é, quanto aos medicamentos usados para debelar o que estava funcionando anormalmente no organismo do freguês. Por tudo isso, eles não pensaram duas vezes (não raciocinaram mais profundamente) para decidir o que fariam para retornar o organismo ao seu estado de saúde anterior.

Outros modos de explicar (diagnosticar conforme modelos diferentes)

Mas os leitores poderão pensar, espantados: “Existe um outro modo diferente deste?”.

Estimulo sua mente para outras estratégias, muitas delas usadas por você. Há sempre alguém que pensa diferente. O fato captado pelos órgãos sensoriais, “diarréia”, caso ela tenha existido (visão de fezes líquidas, cheiro, facilidade de deixar o intestino, etc.), não pode ser mudado e é percebido mais ou menos do mesmo modo por todos. Entretanto, há diversos modos de interpretar o percebido, isto é, a diarréia, ou qualquer outro fato, conforme idéias ou princípios diferentes.

Um poderá imaginar que o mal-estar do homem pálido foi “colocado” por vingança ou, muitas vezes, por inveja. Todos nós sabemos que certas pessoas - ou seriam todas? - não gostam de ver as outras saudáveis e felizes quando elas mesmas não estão bem. Para esses sofredores, se uma pessoa está bem, amando e saudável, fatalmente ela estará atrapalhando outras que concorrem, pois têm as mesmas opções. Portanto, muitos procuram macumbeiros, videntes e outros profissionais semelhantes para “desfazer” o bem-estar do indivíduo feliz - que podia ser o caso do homem pálido -, através de técnicas diversas, como poções, rezas especiais, defumadores, etc. Para esse grupo, o mal-estar sofrido pelo homem pálido não é uma doença médica e sim um “encosto” provocado pelos inimigos, o conhecido desmancha-prazer. Como o mal foi posto por alguém, o paciente deverá submeter-se às ações executadas pelos “entendidos” para tirar ou eliminar o “encosto”, o “mau-olhado”, como um requintado “banho de descarrego” ou um banho santo para proteger o corpo; não de um medicamento vendido nas farmácias. Esse tipo de ação - anular o que foi posto - tem sido chamado de ritual mágico-religioso. Portanto, nesse caso, a “causa” da doença foi outra - não foi a fruta estragada-, logo o “remédio” deverá ser outro também; tudo conforme nosso raciocínio lógico ou formal correto em virtude do princípio existente.

Mas podemos imaginar outros modos (terorias) de examinar e tratar as doenças além do médico, do balconista e do mágico-religioso. Podemos, por exemplo, pensar que a diarréia nada mais é do que um castigo colocado por um deus doméstico sem o que fazer, e que, por isso, decidiu, para se divertir nos seus dias de tédio, importunar o nosso amigo “cara pálida”. Essa idéia é expressa, de forma resumida e simples, através de afirmações populares como: “O rapaz adoeceu porque Deus quis”.

A diarréia poderia ser causada, ainda, segundo outros sistemas de pensamento, mais ou menos sofisticados, por outras forças poderosas. As forças do além, sempre vigilantes, punem os seguidores de sua crença quando esses praticam atos contrários aos desejos dos deuses poderosos e vingadores. Para curar esse tipo de mal, precisamos rezar ou orar e fazer penitências a fim de acalmar os irados seres melindrosos e caprichosos. Nesse caso, o “cara pálida” adoeceu por não estar seguindo, de forma adequada, os ordenamentos ou prescrições dos deuses da igreja vingadora.

Mas há outras interpretações: o homem pálido poderá ter adoecido porque sua “natureza” nunca tolerou manga; todas as vezes que a ingere, principalmente as primeiras que amadurecem, fazem com ele tenha diarréia. Nesse caso o tratamento é evitar comer mangas no início da safra.

Entretanto, o médico adepto da medicina psicossomática poderá pensar:

— Conheço esse cara. Sua namorada o deixou. Todas as vezes que ele é abandonado por qualquer rabo-de-saia adoece: vomita, tem náuseas e diarréia. É fácil curá-lo, basta sua “cara metade” retornar ou ele arrumar outra mulher para preencher sua temível solidão. Esse médico, caso seja um psicanalista, indicará para o rapaz, agora denominado de paciente, uma longa e custosa terapia. O médico ganhará bastante dinheiro e o agora cliente perderá parte de seus ganhos, tudo em nome de outros princípios e de ações deles derivados, que, fatalmente, seguirão roteiros ou estratégias diferentes.

Há ainda uma explicação mais filosófica para a diarréia do homem pálido, típica dos médicos mais sisudos e especuladores:

— Este ser está vivendo uma crise existencial. Lançado num mundo confuso, o coitado analisa sua existência vazia e caótica. Desesperado e isolado, ele busca um significado para sua vida. O homem pálido não conseguiu assimilar e digerir as misérias e injustiças dos homens, a degradação dessa sociedade podre, imoral e hipócrita. Revoltado ele expele no mundo sua sujeira interna, agredindo os valores universais através de metáforas. Perdido, evidencia através das fezes e dos vômitos seu desprezo por tudo que aqui é cultivado com orgulho por um bando de irracionais. Cria simbolicamente significados novos e singulares gritando por socorro ao perceber a humanidade perdida. Defeca e vomita no nada, no mundo inóspito e incompreensível, uma diarréia há muito espalhada por todos os cantos do mundo.

Decidi parar, pois não mais consigo continuar a descrever outros modos de examinar uma indigestão. Fiquei emocionado com as palavras do existencialista ao lembrar-me de uma época de minha vida que li demais acerca desse assunto e entrei feito idiota para um grupo de pensadores. Mais burrinho que os outros, não consegui adaptar-me aos intelectuais da época. De qualquer modo, aprendi muito sobre minhas diversas burrices e, também, acerca da composição da inteligência dos intelectuais.

Mas, num último esforço, devo-lhe dizer, prezado leitor, que cada um rotula e esquematiza suas ações e as dos outros conforme seus óculos (a cabeça que dá suporte a eles). Consequentemente, há a proliferação de diferentes diagnósticos e terapias, todas, por sinal, corretas quando são analisadas por suas próprias terorias (lógica interna) e por seus ramos diretos. Entretanto, essas mesmas teorias, adoradas pelos seus seguidores, são incoerentes e absurdas quando são analisadas pelas teorias rivais e diferentes. Comprei, há muitos anos, um livro sobre psicoterapia que contém um pouco mais de mil diferentes teorias-técnicas dessa especialidade.

Não presenciamos o mesmo no campo da Física, Química, Astronomia ou Biologia. Essa proliferação de terorias (palpites) ocorre somente nas chamadas “Áreas Humanas”, onde o desenvolvimento sendo precário permite a intromissão dos mais variados palpiteiros e tranbiqueiros (amadores, profissionais das mais diversas áreas, entre elas, a religiosa). Cada um fala sobre o homem o que quiser e acredita, como ninguém, na sua verdade particular.

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