Um elogio final para as idéias passadas

As antigas idéias intuitivas da antiguidade, esquisitas sob a visão atual, têm seus méritos indiscutíveis. Foi através delas, do seu exame e crítica, que brotaram as terorias e explicações modernas e mais bem elaboradas e menos protetoras de alguns poucos grupos detentores de poder. As descrições e explicações antigas não mais servem; elas ultrapassaram o limite de nossa burrice. É preciso nascer na mente popular, para melhorar sua vida, uma nova idéia do Deus bondoso, um novo Cristo que lutou contra os opressores, de Maomé, Confúcio, Buda, Lao-Tsé, novos modos de entender as ciências, a política, o homem, o cérebro e tudo o mais.

Adquirindo conhecimentos um pouco mais próximos da realidade, o homem simples seria capaz de fazer críticas ao existente, às injustiças e às trapaças frequentes. Um maior e melhor conhecimento crítico (um saber profundo e crítico), tornaria o homem humilde menos submisso e menos dependente dos que o exploram, isto é, mais capaz de se livrar de seus dominadores encapuzados de santos tipo satanás.

Não sairemos dessa possível estagnação ou involução que se encontram as diversas culturas (aumento da criminalidade, guerras continuadas, crescimento do uso de álcool e drogas, terrorismo, domínio e exploração comercial de uns poucos, globalização, etc.). Se não mudarmos a mente atrasada e infantil existente na maioria das cabeças que ocupa todos os espaços da sociedade (lavradores, operários, professoras primárias, profissionais liberais, políticos, governadores, presidentes e reis), vamos, pouco a pouco, nos afundar nesse lamaçal de corrupção e ladroagem, onde o mais importante é o mais hábil embusteiro, isto é, o que confirma as crenças mais estapafúrdias (ilógica).

Por ignorância ou maldade, muitos dirigentes e formadores de opiniões mantêm e estimulam a continuada enxurrada de preconceitos, princípios inadequados ou falsos nas mentes moles dos assimiladores mentais, ingênuos e semi-analfabetos. Ninguém ainda conhece o homem e suas tendências às trapaças.

O prejuízo de usar as antigas “idéias esclarecedoras” (as falsas crenças nascidas de intuições ingênuas) acerca do universo e do homem domina a mente dos menos capazes, dos excluídos diante do conhecimento profundo e crítico. Continuamos, até hoje, a usar descrições dominadas por dogmas e aceitas como se fossem “verdades eternas”. Tais explicações (acerca de uma só verdade) partem de um princípio que vai contra o crescimento intelectual do indivíduo: a afirmação de que as idéias apresentadas como verdadeiras não podem ser questionadas e nem mesmo discutidas, pois partiram de uma “autoridade” no assunto ou foram obtidas através de “revelações”. Devemos desconfiar das intenções dos que defendem uma idéia única e dos que, cinicamente, fazem elogios à “inteligência” e “sabedoria” do povo. A vida de cada um pertence a ele próprio e não a outros indivíduos.

Saberes diversos, usando argumentos e dados bem fundamentados, têm criticado inúmeras explicações populares aceitas sem crítica pelos mais humildes; há proibições e mesmo punições para quem discordar. Um enorme esforço, bem como bastante coragem, tem sido realizado por um pequeno grupo de homens mais lúcidos, corajosos, esclarecidos e mais livres que os demais.

Enquanto nenhuma descrição acerca do universo externo ou interno, isto é, relativo às ciências Físicas, Biológicas e Psicológicas, tem característica de imutabilidade, ensina-se, de maneira geral, o contrário disso. Tudo muda, pois a realidade é um tipo de explicação do homem acerca de uma área focalizada. As interpretações, como sabemos, estão sempre mudando.

Apesar dessa “verdade” (uma “meta-verdade”, que diz algo acerca de outra “verdade”) acima descrita (não há verdade alguma que possa durar uma eternidade), muitos modelos do mundo que foram construídos inicialmente e plantados em nossa mente, de forma fácil e simples, continuam a ser ensinados pelos pais aos filhos ou, até mesmo nas escolas, aos alunos como dogmas que obrigatoriamente devem ser aceitos. Estes modelos são transmitidos aos filhos e alunos, entrelaçados às idéias “científicas”, nos fornecendo uma falsa idéia de que as ciências são estáticas e dogmáticas, como algumas religiões e ideologias políticas anacrônicas.

Os modelos científicos modernos vão, muitas vezes, totalmente contra as idéias contidas nas primeiras teorias do mundo, ou seja, nas histórias contadas e passadas, de geração em geração, pelos mitos. O prejuízo desses ensinamentos, onde o mito não é mostrado como tal, mas ensinado como relato científico do universo (injeta-se uma coisa como se fosse outra), é que produz, desce cedo, uma considerável confusão na mente da criança e, pior que isso, impede a possível germinação de interpretações mais fecundas, mais justas, críticas, funcionais e bem feitas da natureza e dela própria.

Algumas das crenças narradas pelos mitos são imaginadas como provenientes de divindades, entretanto, não devemos nos esquecer que as próprias divindades, os diversos deuses, nasceram, cresceram e são alimentados pelas construções cognitivas humanas diferentes e, também, constantemente mudando. O Deus descrito na época de Cristo não é o descrito por nossas idéias atuais e, também, não será o descrito mais tarde. Não tem sentido para nós humanos pensarmos num Deus sem ninguém para venerá-lo. Do mesmo modo, não podemos falar que o açúcar é doce se não temos ninguém para prová-lo. Para manter sua existência, Deus precisa do homem, como o homem precisa de Deus. Entretanto, os relatos míticos, numa só via, são ensinados às crianças como fatos “do além”, nascidos do nada, o que é impensável de acordo com a idéia de dupla “causalidade” (duas vias) usada pelas ciências; ou aceitamos uma ou outra, pois elas são antagônicas.

Nós só podemos pensar com nossa mente, não com outra cabeça, e, assim, consequentemente, todas as idéias do universo foram construídas e descritas por mentes humanas, contadas na linguagem do homem e não na linguagem da barata, do besouro ou do hipopótamo. Tudo isso não poderia ser diferente.

Alguns homens organizaram e contaram certos fatos de um modo peculiar, em certo momento da história. Eles foram chamados por nós, ou por eles próprios, de “filósofos”, outros “sábios”, “alquimistas”, “cientistas”, “religiosos”, “ideólogos” e outros. Alguns deles, para adquirir ou manter o poder e o domínio, se denominaram de seres superiores e intocáveis. Segundo esses importantes senhores, eles tinham conhecimentos superiores, revelados, sobrenaturais ou outras origens; isso não importa. As histórias míticas cresceram e cresceram; tornaram-se, para nós, dignas de fé e impossíveis de serem questionadas.

Para seus fundadores, alguns narcisistas fanáticos, estas descrições propostas teriam tido uma origem diferente da de todos nós. Fica a pergunta: Por que interessaria a um Deus genuíno e verdadeiro uma certa história a respeito do Universo e não uma outra? Por que somente uma explicação é a certa? Seria para mostrar que quem manda é ele? Nesse caso, e sob esse prisma, Deus seria, no mínimo, ridículo, orgulhoso e tirano. Esse é o falso Deus, o Deus semelhante ao pai orgulhoso e bobo, pois o verdadeiro não deveria ter ligações com essas tolices, pois essa atitude, caso o Deus verdadeiro a tivesse, iria contra sua definição de bondade, amor, tolerância, perdão e, principalmente, de imensa sabedoria.

Mas tem mais: em que linguagem essas pequenas e ridículas mensagens foram construídas? Como elas foram entendidas por um ou outro homem vivendo numa ou noutra cultura e numa ou noutra época? Como ela foi decifrada e qual a validade dessa tradução? Eu não tenho respostas.

Um comentário para “Um elogio final para as idéias passadas”

  1. Tudo o que escreve é valioso,parabens professor !

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