Selecionando, Processando, Organizando e Explicando a Informação Captada

Imagem - Sábio

O homem de Lumeeira e Buenos Aires, diante do mundo local, percebido ou imaginado, dispõe, devido a fatores genéticos e culturais, de alguns processos psicológicos (procedimentos, estratégias, instrumentos) diferentes (sistemas de coordenadas) para compreender e explicar a realidade da cidade: os fatos concretos, as condutas, a ética a ser seguida, o estético, arte, saúde, doença, lazer, etc.

Cada indivíduo, devido a sua educação diferente, faz uso mais frequentemente de um modo para captar, compreender e explicar os fatos de toda espécie vivenciados. Cada morador de Lumeeira usa com mais facilidade tipos de “lentes” para conviver com a realidade. Portanto, e consequentemente, deixa de usar outros modos possíveis que dariam ao observador dados, explicações e emoções diferentes. Ao assistir um jogo de futebol, um indivíduo poderá observar a habilidade de alguns, outros a grossura das coxas, outros, ainda, poderiam focalizar os uniformes, a ruindade do jogo, o preço do ingresso, o jogo e o ser humano, o aborrecimento ou alegria causada pelo jogo em seu organismo. Existem várias outras maneiras de focalizar um fato como o jogo, bem como a missa, o casamento, nascimento de filhos, aquisição de posses, namoro, sexo, doença, morte, máquinas, animais, vegetais, etc.

Para simplificar bastante os modos de captar cada um desses eventos, aqui serão descritos uns poucos de uma forma bastante geral. Lembro que todos nós temos o nosso gosto particular por um e outro processo, que se torna o mais usado e dominante. Não há, cientificamente falando, um certo e outro errado. Tais avaliações cabem a um modo de avaliar: julgamento moral, utilitário e artístico, por exemplo.

Observando a população de Lumeeira e de Atenas, bem superficialmente, cinco funções podem ser descritas como sendo as mais importantes e mais utilizadas pelas pessoas da cidade: sensorial (sensação); dois tipos de pensamento (cognição), um formal e outro mítico ou sobrenatural; sentimento (emoção) e intuição (faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas independentemente do raciocínio – cognição – ou da análise -sensório).

Ninguém em Lumeeira usa rigidamente apenas um desses cinco modos de focalizar o acontecido. Cada um usa mais frequentemente um que o outro. Acontece que, muitas vezes, usa-se um tipo ou outro diante de certos fatos, pois o próprio acontecimento pode provocar o uso de uma lente em lugar de outra. Assim, ao assistirmos um culto, missa ou enterro, podemos ser mais estimulados a usar o processo sobrenatural de outra vida. Entretanto, se temos uma dor de barriga, podemos – nem sempre isso acontece – usar nossa observação sensorial e, também, o pensamento intuitivo sobre o possível pastel comido às pressas no boteco da cidade.

De modo mais específico e ao mesmo tempo abrangente, podemos classificar os moradores de Lumeeira conforme o uso de grupos de processos para captar o conhecimento focalizado do seguinte modo:

1- Os que usam predominantemente uma mistura do pensamento e do sensorial. Estes são os que, ao procurarem conhecer o evento, o jogo de futebol ou a missa, fazem mais uso do conhecimento frio, lento e metódico, assentados em observações captadas pelos órgãos sensoriais (visão, audição, sabor, olfato, tato, dor, etc.) e explicadas por pensamentos mais lógicos e menos emocionais.

2- Existem outros moradores da cidade que gostam mais – e são muitos – de usar principalmente o pensamento apoiado na intuição. Estes, diante do fato a ser conhecido, fazem mais uso do conhecimento imediato, holístico, cru, direto e espontâneo. Por outro lado, não usam as observações analíticas e, também, pensam de modo natural e simples, isto é, sem recorrer ao raciocínio trabalhoso, formal ou lógico e mais demorado. Esses, antes do Brasil iniciar seus jogos na Copa de Mundo, afirmavam: “Tenho certeza que o Brasil vai ser o campeão; temos os melhores jogadores do mundo. Vai ser um banho de bola”.

3- Um terceiro grupo usa predominantemente o sentimento (emoção) e o sensorial (órgãos dos sentidos). Nesse caso, a pessoa diante de um fato focaliza, enfatizando, os aspectos percebidos sensorialmente (visão, audição, etc.) e, ao mesmo tempo, os avalia conforme as emoções sentidas durante a percepção (sem usar a lógica ou razão): “A comida me agradou muito”, “ O jogo foi divertido”, “Detestei a festa”.

4- Um quarto grupo usa fundamentalmente as intuições (idéias e avaliações quentes, sem fazer uso do raciocínio lógico e nem do sensorial) e, também, utiliza as emoções (sentimentos) para avaliar o bem ou mal-estar sentido com o intuído. “Estou feliz! Vou abrir uma pastelaria e ficar rico”, “Encontrei hoje a mulher dos meus sonhos. Estou animadíssimo. Penso em me casar breve”.

5 – Há ainda um último grupo, mas diferenciado dos outros, que faz uso apenas do pensamento mágico (mítico) ou sobrenatural. Nesse caso certos problemas enfrentados são assimilados devido a crenças religiosas, espirituais, etc.: “Maria não morreu; ela desencarnou e vai se encarnar em outro ser humano”, “Tive uma dor de dente porque Deus quis”.

As duas funções: sensorial e intuitiva

Conforme a idéia, alguns indivíduos, ao tentarem assimilar um fato ou evento, se inclinam mais pesadamente para a função sensorial (sensações psicofísicas), provocadas por estímulos físicos (luz, sons, sabores, temperatura, pressão, dor, odor, tato, etc.). Há outros que, de modo diferente, focalizam e processam a apreensão da realidade a partir da função intuitiva (cognitiva quente), isto é, são dominados por uma opinião, julgamento e conhecimento sem cogitar ou observar analiticamente os dados da realidade.

Os mais propensos a seguir a primeira função (pensamento-sensorial ou analíticos) examinam os dados do mundo externo através dos órgãos sensoriais. Os seguidores do segundo caso (pensamento-intuição ou teorista conceitual), os intuicionistas, trabalham ou extraem os “conhecimentos ou dados” do próprio processo mental psicológico interno, isto é, do existente em sua mente (palpite, pressentimento, suspeita sem crítica) e não do que está ocorrendo no meio ambiente.

Não devemos nos assustar se uma pessoa favorece ou se apóia num processo psicológico, enquanto uma outra assimila o evento através de um outro modelo. Uma e outra tendem a não perceber a existência do outro dispositivo (mecanismo, ferramenta, procedimento, estratégia) durante a captação da informação (apreensão de algo intelectualmente, utilizando a sua capacidade e técnica de compreensão, de entendimento peculiar: sensorial ou intuitiva). Na verdade, o dominado por um desses modos deixa de perceber a outra maneira ou mesmo a vê de um modo hostil: “Idiota! Como não percebe que o real (verdade) é isso”.

O tipo intuitivo prioriza o cru ou o quente acima de tudo. O conhecimento é obtido ou alcançado através da interocepção de sensações vagas corporais, principalmente nas vísceras e nos músculos esqueléticos, isto é, de origem interna, juntamente com sentimentos, aflição, angústia e pressões internas. Eles “lêem” suas “disposições corporais” e, a partir delas, conhecem e julgam as informações: “Eu sei que vou me casar com Maria”, “Meu filho é muito inteligente”, “Tenho um pressentimento de que isso não vai dar certo”.

O tipo sensorial, do mesmo modo, pode criticar a visão imensa holística que é utilizada pelo tipo intuitivo (não analítica) sem dados empíricos e totalmente simplório ou imbecil. O tipo sensorial é mais realista e, baseado nisso, adere aos fatos objetivos e firmes. Ele é prático e mais fortemente orientado para o que é mais possível no presente imediato do que o que se espera no futuro distante. O tipo sensorial, ao contrário do indivíduo intuitivo, trabalha com os dados.

O tipo intuitivo focaliza as possibilidades hipotéticas, numa situação melhor que nos fatos imediatos. Ele utiliza-se de uma ampla idéia, de uma visão aberta do problema, concentrando-se no “que podia ser” mais do que no “que é”: “Vou passar nesse exame”. Tem sido dito que o tipo sensorial não consegue ver a floresta, pois só vê as árvores (específica). Por outro lado, o tipo intuitivo (global) não pode ver as árvores, pois só vê a floresta.

Apesar dessas diferenças, contudo, ambos os tipos, sensorial e intuitivo, são denominados não-racionais, não porque eles são contrários à razão, mas devido a operarem fora da competência da razão (não fazem uso da lógica e da avaliação afetiva) e, portanto, não estão apoiados ou restritos por ela.

As duas funções lógicas (razão): pensamento e sentimento (decisões)

Deve ser lembrando que as funções razão e sentimento não são usadas para captar o existente sensorial e ou intuitivo, conforme uma ou outra tendência. As funções racionais e sentimentais são utilizadas para avaliar e julgar a validade ou não de uma e outra postura (intuitiva e sensorial). Por isso elas recebem o nome de racionais, uma tentativa de compreender o observado sensorialmente ou o intuído pela suposição sem crítica.

O tipo que utiliza o “Racional”, para o sensorial ou o intuitivo, faz esse uso como processo para alcançar uma decisãoa ser tomada. Ele procura explicar o fenômeno interno ou externo captado pela intuição ou sensação com termos técnicos, lógicos ou teóricos, independente dos propósitos humanos, necessidades ou preocupações. O tipo Racional classifica, clarifica e categoriza. Ele é mais preocupado com o conteúdo que com os valores éticos, estéticos ou morais existentes; ele busca o geral. O tipo Racional pergunta se alguma coisa é lógica, consistente e em concordância com decisões anteriores, outras teorias já aceitas, com regras ouvidas, mitos, religiões, ideologias ou teorias científicas.

Já o tipo “Sentimento”, ao contrário, para alcançar uma decisão faz uso de um processo baseado no julgamento de valor que pode ser único para um indivíduo singular; ele busca o particular. O tipo “Sentimento” promove seus julgamentos através de valores, tais como beleza, verdade, compaixão, equilíbrio, prazer, desprazer, etc.

Tipos de personalidade: sensorial x intuição e avaliação teórico-cognitivo geral x sentimento-emocional e individual

As características quanto ao modo de coletar ou selecionar os dados existentes (sensorial ou analítico de um lado e intuitivo e quente, por outro) e de avaliar o apreendido e organizado no modelo utilizado dão origem a tipos de personalidades diferentes. Ninguém escapa: cada um de nós deve assimilar nossa experiência da realidade acerca do mundo usando nossas funções sensoriais ou intuitivas (favorecendo uma ou outra) e, também, caminhar para uma conclusão (avaliação) acerca delas usando mais os nossos pensamentos formais ou sobrenaturais ou os sentimentos (favorecendo um processo ou outro).

Em resumo: captamos (apreendemos, assimilamos) a “realidade” (o mundo) através das sensações (sensorial) ou das intuições (palpite), ambas irracionais, e não há outras saídas. Depois, tentamos compreender o “assimilado” através do pensamento lógico-racional e geral, pensamento mágico ou sobrenatural, ou através dos sentimentos (valores, desejos) individuais. Assim concluímos e agimos.

Em um indivíduo, cada uma dessas cinco funções tende a dominar as outras. Assim, uma pessoa poderá ser chamada de “tipo sensorial”, uma outra de “intuitiva”, enquanto outra poderá ser chamada de “tipo sentimental”, “tipo racional-cognitivo” ou “tipo mítico ou sobrenatural”. Deve ser lembrado que cada uma deve usar, no mínimo, uma função não-racional (sensorial ou intuitiva) para compreender (captar ou conhecer) o mundo e uma função racional (pensamento formal, mágico ou sentimento) para explicar (entender e esclarecer) o apreendido e, assim, tomar as decisões acerca do percebido. Entenderam?

Exemplos dos cinco tipos:

1- O Tipo Analítico (sensório-pensamento)

Para esse, o mundo é representado pelos dados objetivos da natureza. Sua característica principal é a exatidão, precisão, fidedignidade, ceticismo e objetividade. O modo preferido de inquérito é a pesquisa – a investigação controlada embutida no conceito clássico de hipótese falsificável e do experimento.

2 – O Teorista Conceitual (Intuição-Pensamento)

Enquanto o analítico trabalha melhor com o simples, com o bem definido, com a explanação autoconsistente, o Teorista Conceitual prefere (compor) construir pontes entre os dados, acreditando que a natureza deve ser tratada holisticamente e conceitualmente. Este valoriza a criação de possibilidades conceituais novas, esquemas e hipóteses que permitam uma revisão e conceitualização que desafiam as afirmações defendidas. O objetivo último da ciência, para esse modelo, é uma construção de esquema conceitual o mais amplo possível.

3- Humanista Conceitual (Sentimento-Intuição)

O conhecimento científico pode ser visto como uma atividade valor-constituído. Seu objetivo último seria promover o desenvolvimento humano na escala mais alta possível. Ele é mais interessado que desinteressado, mais pessoal que impessoal, e pronto para admitir, conscientemente, sua própria tendência.

4- Humanista Particular (Sentimento-Sensório)

Informado pela função dos sentimentos, mas orientado para os particulares, como é característico dos tipos sensórios, o Humanista Particular insiste que o objetivo último das ciências seria ajudar uma pessoa específica a conhecer sua unicidade própria, alcançando a autodeterminação. Dentro dessa idéia, a ciência não ocupa necessariamente uma posição privilegiada. Ela pode ser subordinada à literatura, arte, música e misticismo. O Humanista Particular pode ser descrito como subjetivo, poético e comprometido para postular uma ação orientada na ciência. A lógica usada é a do singular e única e o estudo de caso é o modo preferido. Tendem a trabalhar sem uma teoria explícita usando os aspectos do sensório-sentimento da personalidade. A filosofia usada é profundamente humanística, acreditando que a vida é um processo de tornar-se, de realizar o potencial inerente.

5 – O Mítico

Para esse o mundo pode ser processado, percebido, compreendido e explicado conforme as prescrições ditadas pela história mítica adotada: “O mundo foi criado por Deus; os homens estão aqui para cumprir uma vontade divina. Portanto, o mal e o bem, a saúde e a doença, devem ser entendidas como desígnios divinos”; “A fúria de Anselmo decorre de ele ter sido possuído pelo demônio”.

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