Organizando conforme a cultura as partes das informações experimentadas (Interpretação e compreensão dos fatos)

Imagem - Interpretar, compreender os fatos

Em Lumeeira, cada cidadão está sempre, após focalizar, captar e organizar o observado, buscando uma explicação para o evento conforme seu “assimilador mental” particular. Os seres humanos parecem ser motivados para tornar claro ou compreensível (inteligível) os acontecimentos observados no meio ambiente ou internamente em seu próprio organismo. Numa esquina de Lumeeira, José encontra Haroldo. Este está com a “cara fechada”.

— Como vai Haroldo? Você sumiu.

— Mais ou menos. E você?

— Vou bem. Vejo que está com a cara ruim. Aconteceu alguma coisa?

— Nada. Ou melhor, minha mulher me largou.

— O quê? Marta te largou! Por quê?

— Ela descobriu que eu tinha outra.

— Mas também você! Foi pouco cuidadoso. Para que arrumar outra se você já tinha uma?

A conversa poderia continuar com José fazendo perguntas e mais perguntas a Haroldo. julgamentos seriam feitos e, também, uma busca para explicar o observado, a “cara fechada”, e o verbalizado, a procura de outra mulher, etc. Em resumo: constantemente estamos informando ou procurando informações para entender e explicar, conforme as normas (padrões) implícitas (inconscientes) e explícitas (conscientes) do lugar, isto é, porque tal fato aconteceu de um ou outro modo.

As religiões, ideologias e teorias científicas, todas elas, fazem o mesmo que ocorreu entre Haroldo e José. Os dois procuraram, bem ou mal, certo ou errado, de modo mais superficial ou profundo, mais concreto ou abstrato, conhecer e explicar os acontecimentos e as relações entre eventos diversos.

Uma das principais funções, as razões de ser ou o apelo da maioria ou todas as religiões tem sido proporcionar explicações e significados para as diversas ocorrências do drama do ser humano: as razões de seu nascimento, da vida e da morte, dos sofrimentos e prazeres, etc. Do mesmo modo, as ideologias procuram explicar condutas adequadas do homem na sua vida social conforme conjuntos de convicções filosóficas, sociais, políticas, etc. A ciência, por outro, busca explicar a natureza (biologia, física, química etc.) através de um corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e interpretação de determinadas categorias de fenômenos e fatos; posteriormente os conhecimentos são formulados metódica e racionalmente.

Estudos mostraram enormes e significativas diferenças entre as diversas explicações ou interpretações dos fatos conforme as diversas informações religiosas, científicas, ideológicas e, também, míticas. O povo de Lumeeira, bem como o de Porto Alegre, através de seu microcomputador, recebe informações de todos esses aglomerados de conhecimento. Cada conjunto de informações utiliza diferentes maneiras para captar, observar, intuir, descrever, organizar e compor as mensagens selecionadas do lugar, isto é, dos corpos físico-químicos, da conduta biológica, psicológica e social do homem, do mundo espiritual e artístico, ou seja, dos diversos conhecimentos existentes no megacomputador do lugar.

Conforme focalizamos nossa atenção num ou noutro aspecto, numa ou noutra área, observamos, conceituamos e selecionamos fenômenos diversos e, também, usamos termos de forma diferente para representar os aspectos (fatos) e as relações entre eles.

Muitas vezes nossa descrição verbal dos acontecimentos é contraditória, ambígua e obscura. Vocábulos diferentes, usados para uma e outra área do conhecimento, frequentemente, são usados para descrever o mesmo comportamento e mesmas palavras são usadas para representar diferentes comportamentos. Alguns termos são estreitos em seu foco, outros são amplos e difíceis de se definir, principalmente quando a fala parte dos “intelectuais”. Esses senhores, que se dizem sábios, fazem tantas e tantas abstrações que perdem totalmente as ligações de seu discurso com a realidade que parecia estar sendo explicada.

Experiências humanas e composição das explicações

Quando os primeiros grupos humanos foram formados, em Lumeeira, Atenas e Roma, bem com em outros locais, as experiêcias de uma comunidade eram observadas, enfatizadas e organizadas através de explicações, geralmente conforme os problemas particulares enfrentados pelos habitantes: comida, segurança, criação de filhos, etc.

Sempre o homem procurou interpretar os fatos que ocorriam em um mundo aparentemente anárquico através de um modelo coerente e simples de narrativa. Parece que a base de sustentação desse modelo inicial, muitas vezes, estava contaminada pelo sobrenatural (fantástico, milagroso, mágico), por falta de outro grupo de conhecimento. Durante séculos, as interpretações mágico/religiosas dominaram todas as outras explanações. Muito mais tarde apareceram religiões mais livres do sobrenatural (do fantástico). Mais tarde ainda, nasceram as ideologias (democrática, socialista, marxista, totalitária e outras), essas, em parte e não totalmente, dividiram as explicações com as religiões. Ao mesmo tempo, um novo modelo explicativo surgiu, o científico.

Portanto, o roteiro (enredo) sagrado e não-sagrado tem servido de pilar (sustentação) para captar, selecionar, organizar e explicar as informações caóticas do mundo onde vivemos. O senso comum (povão), ao assimilar, mal ou bem, esses ingredientes diversos, usa, enfatizando, ora um ora outro modelo (padrão) para explicar os fatos e eventos que ocorrem ao seu redor.

Na realidade, a experiência que temos do mundo é um caos dentro do qual nós nos vemos perdidos. O indivíduo suspeita disso, mas tem medo de encarar essa verdade assustadora de frente. Diante desse quadro de incerteza, o senso comum tende a ocultar, com cortina de fantasias, de mitos e crenças variadas, a complexidade existente e ainda pouco revelada, principalmente a respeito de nós mesmos, isto é, do homem.

O ser humano, através do tempo, explicou razoavelmente bem a astronomia, física, biologia, química e outras áreas do conhecimento. Entretanto, talvez amedrontado consigo mesmo, evitou explicar a si próprio. Quando tentou tal proeza usou fantasias míticas (o modelo religioso e mágico) e não observações, como as usadas para explicar as outras áreas do conhecimento científico ou prático e técnico.

A explicação fantasiosa é mais excitante e mais fácil de aprender e de usar. Escondido nessa teia de explicações, o indivíduo supõe ou finge que tudo está claro. Afirma, para ele mesmo, que o mundo é compreensível e que ele possui explicações convincentes e eficientes para lidar com a realidade, por exemplo: “Graças a Deus, escapei do acidente; todos morreram, menos eu. Foi um milagre”. Esse tipo de explicação é por nós ouvida sem parar. A explicação mais científica (analista e observador) incluiria uma série de “acasos” e de sorte, que, por sua vez, poderiam também ser explicados de forma extremamente complexa. Esta última explicação não só daria muito trabalho, como, também, seria enfadonha.

As explicações do senso comum (pré-conhecimento, pré-saber, intuitivo) geralmente são equivocadas e extremamente simples. Frequentemente, um mito, uma metáfora ou comparação serve de base para o entendimento (“Pedro é um cavalo. Só fala abobrinhas.”). O resultado disso é um constante fracasso de lidar ou de prever os acontecimentos, pois o valor de uma eficiente explicação é a sua capacidade de previsão mais aproximada do desejado.

O uso dos modelos religiosos ou ideológicos não alcança o desejado quanto ao campo físico, químico, biológico, etc. Enquanto a religião e a ideologia prevaleceram não houve grande necessidade de outros enredos para os papéis serem distribuídos e representados. Mas como tanto a religião quanto o dogma ideológico perderam suas forças em razão do fracasso em prever acontecimentos, houve o aparecimento das primeiras idéias científicas (Descartes, Newton, Galileu, Copérnico). A partir das explicações científicas, a pseudo-harmonia, antes existente, desabou a construção e a explicação da vida e do Universo. O poeta John Donne, de forma resumida, expressou seu sentimento diante desse “desastre”: “Foi-se toda a coerência”.

As explicações simples e fáceis haviam se despedaçado e a antiga coerência (explicações e descrições do vivenciado) não mais servia. Ainda não foi construída uma outra teoria firme e capaz de resistir às críticas bem assentadas, por isso ainda prevalecem as explicações míticas; essas nos aliviam, e, por isso, talvez, sejam ainda mais utilizadas que as mais assentadas na realidade.

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