Observações e Preposições de Observações: O Sensorial e o Pensamento

Imagem - Observações / Preposições

Quando um observador emite uma frase acerca de um acontecimento, como “o brasileiro deixa tudo para última hora”, ele não está, ao emitir a afirmação, observando fato algum. Ele está intuindo, isto é, deduzindo ou concluindo sem levar em conta as observações ou o raciocínio.

Primeiro que os observados – se é que alguém foi observado – foram “alguns brasileiros” entregando a declaração de renda no último dia marcado. Sabemos que ninguém consegue observar tudo que se encontra diante dele. As pessoas selecionam e captam certos fatos e deixam de lado muitos outros durante as observações. Desse modo, quando elas constroem a frase acerca da observação de um aspecto do mundo, extraem apenas certos acontecimentos deste, os que lhes interessavam para relacioná-los, ou seja, os selecionados por suas mentes. Estes fatores foram enfatizados, entre diversos outros, para a elaboração da afirmativa ou proposição. Desse modo elas criam o modelo (resumo, síntese) de um detalhe do mundo.

Em qualquer afirmação de observação, como “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”, o mesmo processo ocorre. Nota-se que nesta conclusão diversos fatos foram selecionados pelos órgãos dos sentidos, que supostamente têm relação com o que está na afirmação. Nesse momento o falante não mais faz uso dos órgãos sensoriais, mas, sim, de sua cognição, ou melhor, de sua intuição. E, como sabemos, o pensamento não “vê” ou nota o afirmado, ele, no máximo, relaciona algumas observações que são selecionadas, servindo de modelos (ou protótipos), mantidas num certo momento na consciência e, por fim, reunidas através de conceitos.

A cognição não percebe os fatos do meio ambiente. Ela trabalha com circuitos e estações, que captam os acontecimentos. Portanto, nosso pensamento relaciona uns dados com os outros através de elos inventados chamados pela ciência de “construtos” (conceitos científicos) para desempenhar esse papel. Os construtos são, portanto, de nível mais elevado de abstração que os fatos simples selecionados, pois servem de elementos de ligação entre esses. Os construtos não são os fatos, eles mesmos. Quando não os temos, descrevemos fatos isolados, não interligados; parece que o homem primitivo (como as crianças que começam a falar) apenas expressava fatos isolados.

Um outro aspecto importante é que na afirmação de observação existem conceitos novos, diferentes dos que são usados para observar; a pessoa, ao afirmar algo sobre o observado, constrói seu “modelo particular do mundo”. O ponto crucial é o de que, ao construir, ao formar um todo coerente, o construtor inclui certos conceitos relacionais, apenas alguns. Mas estes conceitos já existiam em mente antes dele focalizar ou prestar atenção aos fatos, portanto, eles não foram observados nos fatos; foram usados para reunir alguns fatos selecionados, bem ligar alguns conceitos com outros.

Este conhecimento preexistente, ou seja, os conceitos – elementos de ligação – ou, ainda, ferramentas ou instrumentos que reúnem eventos, servirão de direção, “guia” ou “rede” para as observações. Estas últimas são escolhidas ou “recolhidas” para se enquadrarem na rede usada, podendo, como já disse, serem as mais diversas. Ao formar uma ou outra, circuitos cerebrais diferentes são postos para funcionar (estimulados).

Vamos a um exemplo: ao assistir a um jogo de futebol poderemos afirmar: “No campo estão 22 jogadores”. Entretanto, poderemos, usando outro esquema ou rede, dizer: “existem 8 negros e 14 brancos”; “10 vestem camisas listradas, 10 azuis e dois de várias cores”; “todos são homens”; “4 são pequenos e 18 altos”; “todos são jovens”; “eles usam chuteiras”; “no campo tem um homem que apita”, etc.

Em cada uma dessas classificações foram utilizados conceitos diferentes não observados, isto é, existentes apenas na cabeça do classificador e não no campo. Estes conceitos isolaram certos fatos e apenas estes, deixando de lado os diversos outros. Os conceitos utilizados propiciaram a seleção das observações feitas no campo.

Em cada momento da seleção, a mente organizou as observações de um modo diferente; o modelo organizador nos força a examinar um e outro aspecto do sensorial. O “observador”, a partir desses modos, “inventa” ou “constrói” uma descrição ou mesmo uma “história” acerca dos fatos. E, naturalmente, esta construção é agora teórica, não mais sensorial. Mas mesmo ao falar que 22 são jovens, é necessário que o observador tenha uma idéia de “terorias” acerca de idades diferentes e de certos sinais existentes nas pessoas que discriminaram jovens de velhos e de crianças. Diversas outras suposições e pré-suposições a pessoa irá usar, sem querer, de forma inconsciente, automaticamente, no instante que afirma o que está sendo dito.

Para terminar: é claro que se o conhecimento prévio estiver pouco preciso, o observador, ao reunir os fatos com certos conceitos, poderá estar muito afastado do que realmente existe na realidade.

A proposição de observação, ao contrário das percepções, que como vimos encontram-se “presas” ou fundamentadas nas sensações, são entidades comuns, isto é, gerais e universais. Elas foram aprendidas na cultura ou no estudo, ao passo que as observações são entidades particulares de um só indivíduo, singulares, inatas (utilizando-se de processo inato). Usamos as afirmações extraídas das observações, para comunicação de algo, para “entender” o fato, isto é, relacioná-lo a outro já entendido, que por sua vez está relacionado a outro, e assim por diante. Esta comunicação pode ser do indivíduo para discutir consigo mesmo ou para informar seus pensamentos a alguém. Nesse ponto a pessoa está fazendo uso de pensamentos e não mais de percepções originadas nas sensações. Nesse caso, foram abandonadas as sensações vistas, ouvidas, sentidas, etc., internas ou particulares, e partiu-se para construções mentais ou pensamentos. Os símbolos agora usados são relações entre acontecimentos e não mais do fato observado.

Pois bem. O novo acontecimento, “comunicação”, de nível mais elevado que o anterior, abandona o fato observado – cada um dos brasileiros vistos, fatos onde houve alguém que vendeu uma bicicleta velha por um preço determinado ou outros fatos percebidos semelhantes. Passando para um outro nível, agora linguístico, proposicional, o falante o formula numa linguagem capaz de ser entendida por outro.

Para isso necessita-se construir com pilares ou princípios que já tinham sido aprendidos, como as diversas afirmações acerca do mundo, de suas causalidades, relações, etc. Jamais se poderia relacionar fatos observados sem algo interno já conhecido que serve de rede ou ligação. Portanto, as proposições de observação sempre envolvem organizações mentais diversas, que servem de fundo onde se assentam os fatos, onde eles são colocados para ter sentido.

Na maioria das vezes a pessoa não tem consciência das teorias – paradigmas; conceitos gerais ordenadores – que habitam sua mente e que organizam, compõem e dão sentidos aos fatos vistos. O fato observado é “tecido” nas estruturas já existentes implicitamente, automaticamente, sem esforço da pessoa, desde que ela tenha uma “teoria” capaz de assimilar fato. Caso contrário, quando lhe falta a teoria assimiladora, ela não “entende” o evento.

É sabido que a criança só fala após ter adquirido um estrutura mental capaz de permitir o aprendizado ou a colocação dos fatos nos conceitos, isto é, tem diversas representações sem palavras habitando sua mente. Não se pode usar palavras sem dados e sem teorias por trás delas para sustentá-las, a não ser no papagaio. Ocasionalmente encontramos pessoas que usam palavras, por achá-las bonitas, fora do contexto onde elas adquirem seu significado. Nesse caso, não “entendemos” ou assimilamos o que é dito.

Este “fundo” servindo de base para os fatos é o que chamamos de “terorias”. Estas são de vários graus de generalidade e sofisticação, simples ou complexas. Todos os indivíduos as têm, boas ou más, eficazes ou ineficazes, orientadoras com respeito ao mundo ou desorientadoras. Elas pré-existem na mente do indivíduo para que ele selecione e coloque os fatos onde eles devem ficar, de acordo com as teorias seguidas.

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