O Intuicionismo Bizarro dos Sábios

Imagem - Intuicionismo dos sábios

Um pouco depois de Lumeeira ser fundada como um povoado, Empédocles, em 500 AC, descreveu a alma como aquilo que pensa, sente prazer e dor e confere ao corpo seu calor e, segundo esse grande pensador, após a morte a alma abandona o corpo em busca de outro abrigo: talvez um peixe, um pássaro ou mesmo um arbusto. Para Empédocles, durante o tempo que a alma habita o corpo ela reside no sangue em torno do coração.

Alcmaeon, tão sábio como seu antecessor, mais ou menos na mesma época, afirmou que canais recheados de espíritos (ou pneuma) atravessavam o corpo e, para ele, os espíritos, que entravam pelo nariz, eram feitos de ar, ou seja, um dos quatro elementos do cosmo (segundo os sábios da época), junto com fogo, terra e água; essa bela teoria ainda é seguida por muitos em nossa época.

Aristóteles pensava que as coisas tinham um propósito embutido nelas pela natureza; os fins ou as metas de cada objeto tinham que realizar o propósito nele existente. Da mesma forma, os cristãos medievais concebiam o mundo como uma hierarquia, onde cada pessoa e objeto, intimados pelo Divino Criador, realizavam uma função específica. Cabia a Deus o comando geral de todas as ações dos objetos, animais e pessoas, sendo que somente Ele determinava e compreendia o propósito existente no padrão estabelecido. O cumprimento ou o não-cumprimento dos diferentes propósitos estabelecidos por esses mandamentos levaria os objetos e animais a conquistarem a felicidade ou a desgraça, respectivamente; quanto maior o grau de aproximação da conduta com o exigido por Deus, mais próximo da perfeição estaria o objeto ou a pessoa. Os diferentes propósitos determinados por Deus, caso fossem cumpridos, produziriam a harmonia universal, o padrão supremo desejado. Essa totalidade idealizada não era acessível às diversas criaturas existentes no Universo, pois era compreendida apenas pelo Criador de tudo, isto é, por Deus. Aristóteles, ao defender a escravidão, baseou-se, razoável e adequadamente, nas idéias (modelos, paradigmas) da época acerca de possíveis diferenças individuais, isto é, alguns “inferiores” deviam obedecer aos “superiores”.

Aristóteles enfatizava que as crianças deviam ser concebidas no inverno, quando os ventos se achavam no norte, e, também, que se as pessoas se casassem cedo, todos os filhos seriam do sexo feminino. Aristóteles, cuja sabedoria ainda faz parte de nossa maneira de pensar, rejeitou o cérebro como o centro, pois esse não combinava com a concepção da alma. Para ele, alma é uma forma das coisas vivas, como uma casa que surge quando as pedras são amontoadas de certa maneira, sendo que um dos aspectos isolados não constitui a “casa” como nós a concebemos. Assim, a alma é uma forma viva abrangendo tudo o que um ser vivo faz para permanecer vivo. Como os organismos diferentes têm estilos de vida diferentes, do mesmo modo, as almas são distintas, cada qual com seus próprios conjuntos de faculdades ou poderes. Desse modo, ele construiu uma hierarquia: no patamar de baixo ele colocou as plantas; um pouco acima os animais, com exceção do homem; acima dos animais os seres humanos, pois só esses possuíam uma alma racional, onde se inclui o raciocínio e a vontade e, bem no alto, acima de tudo, no céu, Deus; um modelo até hoje seguido por muitos.

Para diversos sábios gregos, a carne do corpo era composta por uma combinação de elementos conhecidos como humores: a bile amarela (homens violentos, invejosos, cruéis e desafortunados); a bile negra (melancólicos, meditativos e indiferentes); os sanguinolentos (sangue) (francos, corajosos, lúbricos, venturosos, crédulos) e a fleuma (frios, indolentes, apáticos).

Para o genial Platão, o cérebro era o centro da alma principal, onde foi plantada a semente da vida para aqui efetuar a missão divina reproduzindo a harmonia e a beleza do cosmo. No restante do corpo os deuses colocaram almas de outra natureza: nas entranhas habitava “a porção da alma que deseja carne e bebidas e as outras coisas de que necessita em razão de sua natureza corpórea”. Essa era chamada de alma vegetativa, responsável pelo crescimento e nutrição do corpo, mas também por suas paixões inferiores – luxúria, desejos e ganâncias. Para aprisionar essa besta selvagem, os deuses erigiram um muro – o diafragma – separando-a da alma superior que Platão situou no coração. A alma vital, dotada de coragem, paixão e afeita às disputas, flutua do coração juntamente com o sangue, impelindo o corpo à ação. Para impedir que as almas inferiores poluíssem a alma imortal na cabeça, os deuses levantaram uma outra barreira: o pescoço. Platão construiu uma verdadeira “anatomia espiritual”.

Platão recomendou a morte de crianças, Segundo li, a perseguição à criança para matá-la não se restringia ao filho de Maria e José. Era, na antiguidade, uma regra, usada de tempos em tempos, para todas as crianças de certa época, conforme a escassez de alimentos. Era preciso impedir a superpopulação. Nada mais simples para as idéias da época matar os recém-nascidos. Em outras épocas, algumas mulheres, negros e judeus também foram condenados a morrer por motivos os mais esquisitos. Já houve épocas que as “bruxas” (o que seria isso?) foram enviadas às fogueiras públicas.

Mais e mais teorias diferentes da observação sensorial e prática

Vamos a mais “teorias” explicativas das causas das condutas. O cristianismo primitivo condenava o riso. Tertuliano, Ciprião e São João Crisóstomo foram contra espetáculos nos quais o riso imperava, afirmando que este não provinha de Deus, mas sim do Diabo.

O cristão deveria conservar uma seriedade constante. Entretanto, segundo as mesmas idéias, fora da igreja era preciso legalizar o riso, a burla e a alegria, o que deu origem às formas puramente cômicas ao lado das canônicas. Existem outras pérolas. Um bispo devia ter apenas uma esposa. Uma mulher podia ser possuída por vários homens devido à pobreza de cada um desses para manter, cada um deles, uma mulher diferente.

O terceiro decreto do Concílio da Igreja de 358 anatematizava (excomungava, amaldiçoava) aqueles que pleiteavam a abolição da escravatura: “Se qualquer pessoa sob pretexto de devoção, incita um escravo a desprezar o seu senhor e a recusar-se a servi-lo em vez de permanecer um fiel servidor, que ele seja excomungado”. Santo Agostinho, da mesma forma, disse em termos bastante claros: “A escravidão é vontade de Deus e constitui oposição à sua vontade desejar suprimi-la”.

Todos os eventos existentes e já consagrados deviam ser obedecidos, pois “decorriam da vontade de Deus”. Coitado de Deus; todas as desgraças e desumanidades, segundo essa crença da época e ainda usada, partiam Dele. Ele era o responsável por todos os acontecimentos funestos.

Continuando: a servidão era plenamente sancionada e apoiada pela Igreja. “Foi vontade de Deus”, diz o preâmbulo de um Ato Eclesiástico, “que entre os homens alguns sejam destinados a ser senhores e, outros, escravos, de maneira que constitui o dever dos senhores amar a Deus e, dos servos, amar e venerar seus senhores”. Do mesmo modo, a igreja destinava à mulher um lugar diferente e inferior ao do homem: “2.2 Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; 2.3 Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja; (…)”. São Paulo: Efésios, 5: 22 – 24

Quando Benjamin Franklin inventou o pára-raios, o clero protestou. Segundo a maneira de pensar (as teorias aceitas) do chefe religioso da época, o raio era enviado por vontade divina, como tudo o mais, a fim de punir a impiedade ou algum pecado grave. Portanto, a invenção de Benjamin Franklin estava indo contra a vontade de Deus, pois este, irado, por motivos não conhecidos pelos homens, queria enviar um castigo para alguns. De forma semelhante, os tratamentos médicos deviam ser impedidos de serem realizados, pois a doença era uma vontade de Deus e, portanto, devia ser respeitada. O pastor Price foi mais longe. Ele afirmou que os terremotos acontecidos em Boston na época dos primeiros pára-raios instalados eram formas indiretas de Deus contornar o obstáculo criado pela colocação do pára-raios. Com o terremoto, o Deus sagaz driblava e punia os pecadores que ousaram ir contra sua vontade.

Mahatma Gandhi, companheiro de idéia do pastor Price, também afirmava que os terremotos tinham razão de ser como punição aos pecadores. Um clérigo, em 1916, na Inglaterra, afirmou que o fracasso militar na guerra era obra divina para punir os pecadores que, com a permissão do governo, plantaram batatas aos sábados, um dia proibido pela Igreja. Em diversos conventos, as freiras só podiam tomar banho cobertas por camisolas, pois não era respeitoso para com Ele, o Senhor, enxergar as mulheres peladas.

A rejeição da lei acerca da eutanásia na Inglaterra apoiava-se no seguinte raciocínio: se havia o consentimento do paciente, seria um suicídio deste, pois, como se sabe, é pecado suicidar-se. Portanto, a eutanásia não podia ser permitida. Por outro lado, é permitido maltratar os animais, pois estes não têm alma. A cremação deve ser proibida, pois, uma vez cremados os cadáveres, ficaria difícil ajuntar suas partes para conduzi-los até o céu.

A Igreja proibiu durante séculos a dissecação de cadáveres. Vesalius, que era médico da corte de Carlos V, protegido desse, conseguiu permissão para dissecar o primeiro cadáver da história. A partir dessa primeira experiência, ele dissecou outros cadáveres. Mas, com a morte do imperador, Vesalius se viu em maus lençóis: foi acusado de assassinato por inimigos que afirmaram que um cadáver dissecado por ele demonstrara sinais de vida. Ainda protegido pelo Rei Filipe II, teve sua pena diminuída. Em lugar de prisão e morte, a pena foi reduzida: Vesalius foi obrigado a ir numa peregrinação à Terra Santa. O infeliz médico morreu após o navio, no qual viajava, ter se afundado. Durante séculos as cirurgias para ensinar os estudantes de Medicina foram realizadas em manequins. Estes, semelhantes aos anjos, não tinham nem vagina, nem pênis; eram lisos nas partes pudentes.

O sexo tem sido um dos pontos mais difundidos do pecado: “É melhor ser celibatário, mas aqueles que não possuem o dom da continência devem se casar”. Esta foi uma orientação da Igreja Católica. Mas tem mais: as relações sexuais no casamento não constituem pecado, contanto que sejam motivadas pelo desejo de ter descendentes. Toda relação sexual fora do casamento constitui pecado, o mesmo acontecendo com tais relações no casamento se forem adotadas quaisquer medidas tendentes a impedir a concepção.

Jamais consegui esclarecer para mim mesmo as razões desses princípios. Seria proibição de prazeres? Mas como ficaria o prazer da comida, de dormir e de vestir um agasalho durante o frio?

A interrupção da gravidez é pecado, mesmo que, segundo a opinião médica, seja a única maneira de salvar a vida da mãe. A teoria especula: como a opinião médica é falível e, como se sabe, Deus sempre pode salvar uma vida por meio do milagre, assim devemos esperar as determinações divinas, isto é, esperar Deus decidir tirar a vida da pessoa. Mas quem fez o indivíduo ficar doente?

A doença venérea, dentro dos conceitos religiosos, como outras doenças, era uma maneira de Deus castigar o pecado da relação sexual proibida, segundos as teorias do passado. O casamento é indissolúvel. Se se casarem de novo, os envolvidos estarão cometendo adultério perante Deus. Tolstói, na velhice, achava o fumo tão negativo para o homem quanto é o sexo.

A obediência às teorias intuitivas e míticas não pára aí. Elas eram idéias tidas como corretas numa época, isto é, aceitas pela maioria da população, uma opinião fabricada pelos lideres políticos e religiosos. Antes de relatar mais exemplos, lanço uma pergunta crucial: Quais atitudes assentadas em teorias sem suporte científico ou ético nós ainda estamos aceitando com naturalidade e sem reservas? Possivelmente, daqui a algumas dezenas de anos, nós, nossos filhos ou netos, todos irão se arrepender e se envergonhar de tê-las adotado como verdades.

Mais recentemente, em 1931, uma série de Encíclicas Papais, imitando modelos bem antigos, assentou o trabalho industrial no seu lugar: “Os trabalhadores devem aceitar sem ressentimento o lugar que lhes foi assinalado pela Divina Providência” (Quadragésimo Ano 1931). Estamos conversados.

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