O Conhecimento: Factual e Dedutivo

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Em Lumeeira e Itabira, as pessoas estão sempre dando palpites (explicações) sobre a tosse do Jacinto, acerca da derrota do Brasil na Copa do Mundo, sobre o “Mensalão” e os “Sanguessugas”. A população gosta de compreender e explicar os acontecimentos que defronta. Conforme a maneira de focalizar, compreender e explicar os fatos, o indivíduo realiza ações diferentes, pois usa processos e “teorias” explicativas diversas (mágico/religiosas, filosófico/racionais, científico/lógicas, intuitivo/ingênuas, etc.). Se concluirmos, através de uma teoria, que o carro bateu porque o motorista estava embriagado, usaremos uma explicação e teremos um tipo de emoção e conduta. Entretanto, se o mesmo fato for compreendido como sendo devido ao motorista, como ter tido um infarto antes da batida, a emoção sentida e a conduta a ser tomada serão outras. Podemos afirmar ainda que tudo aconteceu por “vontade divina”, ou que o motorista parece ser um “maluco”.

Fatos e deduções: escolhendo o tipo de pergunta

Uma característica fundamental do pensamento humano é que, através de um questionamento (dúvida) esclarecedor qualquer (para a batida do carro, etc.), o homem terá um conhecimento da direção que deve ser tomada para tentar responder o perguntado, pois assim ele obterá a resposta desejada. A história do pensamento é, em grande parte, um esforço continuado para formular perguntas possíveis de serem respondidas com respeito ao próprio homem e ao mundo que o circunda.

As perguntas encaixam-se, quase sempre, numa ou em outra área: uma empírica (observável, perceptível), isto é, uma pergunta e resposta que depende de dados obtidos por nossos órgãos sensoriais; uma segunda chamada formal (dedutiva), isto é, questões cujas respostas dependem de puro cálculo, sem o uso do conhecimento factual. Essa divisão é, de fato, uma grande simplificação, pois os conhecimentos empíricos e formais (dedutivos) se acham interligados. O nome dado para um tipo e outro de conhecimento varia com o autor, por exemplo: concreto e abstrato, real e ideal, sensorial e cognitivo, etc.

Onde coloquei meus óculos? Porque Lula foi eleito presidente? Nota-se que essas perguntas, imediatamente, levam o leitor, caso ele deseje respondê-las, a caminhar numa ou noutra direção. Esse processo é realizado sem nenhum esforço mental, ou seja, a questão, por si só, gera a busca da resposta. Nos dois casos acima fica fácil procurar uma resposta qualquer. A facilidade de procurá-la ocorre mesmo quando a resposta não é encontrada, mas pelo menos sabemos como procurá-la. Assim, diante da pergunta acerca da eleição de Lula como presidente não iremos procurar uma resposta dentro da gaveta ou no cesto de lixo, isto é, uma possível resposta diante da primeira pergunta: “Onde coloquei meus óculos?”.

Essas duas perguntas são fáceis de serem compreendidas. Uma das perguntas, a dos óculos, pode ser procurada por meio empírico, isto é, por observações (uso do sensório/perceptual) ou experimentos ordenados, como os do senso comum ou das ciências naturais. A outra classe de perguntas, a da eleição de Lula, exige caminhos mais tortuosos e menos seguros. Há necessidade de usarmos disciplinas formais, tais como a matemática, estatística, lógica e mesmo os valores, entre outros meios. Nesse caso as explicações podem ser as mais variadas.

Posso “explicar” a pergunta acerca de Lula por meios empíricos: “Ele foi eleito por ter tido mais votos”. Entretanto, a resposta pode levantar a segunda pergunta: “O que ocorreu que o levou a ter mais votos?” Nesse último caso, os conhecimentos acerca da eleição de Lula, não observáveis ou não empíricos, são de fato instrumentos para se obter outros conhecimentos. Estes são definidos em termos de certos princípios, axiomas fixos e certas regras de dedução. A resposta mais acertada diante dessa pergunta exige a aplicação de regras apropriadas ou prescritas. Ninguém irá procurar respostas para problemas matemáticos, por exemplo, examinado o interior do armário ou dentro do bolso. Em resumo: cada tipo de pergunta – factual ou formal – possui sua técnica especializada.

O conhecimento filosófico: uma terceira questão, diferente da mítica, factual ou dedutiva

Para complicar, há inúmeras perguntas diferentes das classes discutidas. Muitas delas são formuladas por nós sem parar, mas elas não cabem nos escaninhos cômodos do factual, nem nas regras rígidas e lógicas da orientação formal. Por exemplo: se pergunto “O que é o espaço?” ou “Qual o significado de futuro?” ou, ainda, “A vida é boa?”, não temos como usar a lanterna do factual ou do formal, pois essas questões são distintas das anteriores. A pergunta em si, nesse último exemplo, não fornece ou ilumina nossa mente para procurar uma resposta ou encontrar uma solução. As outras questões, factual e formal, contêm essa indicação.

As questões sobre o tempo ou espaço deixam perplexo quem faz a pergunta, exatamente porque não parece levar à resposta clara ou a um conhecimento eficaz qualquer. Essas questões perturbadoras e impossíveis de serem respondidas em sua totalidade têm sido chamadas de perguntas (especulações) filosóficas. Elas têm sido desprezadas pela maioria do povo, ou olhadas, por este, com desconfiança. Entretanto, são questões frequentemente levantadas por todos nós.

O esforço do homem para encaixar todas as perguntas no factual ou no dedutivo

Pois bem. A história do conhecimento humano tem sido uma tentativa continuada de colocar todas as questões existentes (filosóficas ou ideais/míticas) em uma das duas categorias: factual ou formal (dedutiva), isto é, as estratégias que nos orientam quanto às possíveis obtenções de respostas capazes de serem encontradas. Assim, estamos sempre tentando, baseados em nossas fantasias, responder as perguntas filosóficas usando a técnica empírica (factual) ou formal (dedutiva).

As perguntas impossíveis de serem respondidas aparecem quando o homem especula ou pergunta a outros, formulando questões não só muito gerais, mas, também, envolvendo conflito de princípios e, ainda, de pouca ou nenhuma utilidade prática.

Essas questões são de diversas naturezas. Algumas parecem (mas não são) ser questões de fatos, outras parecem ser mais relacionadas ao valor; muitas são questões sobre palavras. Outras, ainda, por sua vez, são métodos buscados por aqueles que os usam, como, por exemplo, os cientistas, artistas, críticos, o homem comum nas situações da vida. Há ainda outras que são sobre as relações entre várias áreas do conhecimento, algumas tratam das pressuposições do pensamento, algumas da natureza e dos fins da ação moral, social e política: “Qual é a vida correta?”

A característica comum em todas essas questões é que elas não podem ser respondidas pela observação nem pelo cálculo (inferência, dedução), por métodos indutivos ou dedutivos. Os que as propõem são confrontados com perplexidade desde o início da elaboração da pergunta, pois eles próprios não sabem onde e como procurar a resposta. Apesar da frustração, os problemas filosóficos estão aí, mais vivos que nunca. Eles jamais foram eliminados mesmo em ciências “exatas”, como é o caso da Física, por exemplo, quando se discute a estrutura de alguns de seus conceitos fundamentais: força, massa, velocidade, etc. As hipóteses da Física devem ser formuladas e as informações interpretadas conforme esses termos filosóficos (construtos científicos). Pois, afinal, “O que é força?” e “O que significa velocidade?”. Não sei se há algum meio empírico ou dedutivo para responder o significado desses conceitos; somente através da filosofia.

Um comentário para “O Conhecimento: Factual e Dedutivo”

  1. What words..

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