O Aprendido Não se Ajusta à Realidade Vivida

Imagem - Aprendizado vs Realidade

Conforme foi mostrado anteriormente, o habitante de Lumeeira e de outras comunidades adquire informações (conhecimentos) para possibilitar sua convivência – um contato frequente – com ele mesmo, com outras pessoas e com o meio ambiente; muita coisa aprendida e memorizada não se encontra ajustada à realidade vivida. A representação (o mapa) assimilada quase sempre não fornece uma descrição objetiva, sistemática e abrangente da estrutura (território) existente.

Ao nascer, quando ainda não temos consciência do valor e crítica das informações, aprendemos quase tudo que nos é ensinado: ações práticas (pegar num garfo, tomar banho) e muitas teorias (como o mundo foi criado, como a cegonha trás o irmão, a morte como uma viagem ou outra vida, a ação de espíritos ou fantasmas, que Deus castiga os meninos desobedientes, etc.). Portanto, cedo, a criança forma em sua mente um rudimento de sua cosmologia (pré-saber intuitivo; sem o uso da razão), isto é, noções vagas e informações diversas acerca do universo onde ela está inserida. O compreendido é armazenado na mente da criança sob a forma de representações de fatos concretos, conceitos, dogmas, axiomas, teorias, prescrições da conduta certa, regras e princípios ordenadores.

A informação sensorial adquirida quase sempre se encontra transformada e interligada às ideologias intuitivas, aos mitos e às religiões seguidas, também intuitivas, e às idéias científicas (transformadas por assimilações populares) e pseudocientíficas existentes e em vigor na cultura; uma mistura de informações diversas, confusas e contraditórias, chamada por alguns de “pré-saber” ou “pré-conhecimento”. Em resumo, uma bagunça, difícil ou impossível de ser organizada de modo lógico.

Aos poucos as informações vindas de fora se interiorizam e passam a fazer parte do arsenal mental do indivíduo particular. É apoiada nessas informações que a pessoa assimila (vem a conhecer, aprende, compreende, explica) outros fatos e eventos, raciocina, conclui e decide que caminho tomará.

Como afirmei, inúmeras informações depositadas no fundo de nosso cérebro não são realidades vivenciadas, são conhecimentos teóricos transmitidos pela fala e leitura que podem ser criações lógicas ou ilógicas, mágicas ou reais, com ou sem sentido, se analisadas através de hipóteses formais que mantêm relações diretas ou indiretas com dados empíricos, ou seja, podendo ser testáveis pelos fatos observados direta ou indiretamente.

Portanto, todos nós nascemos e fomos criados num mundo altamente complexo, confuso, injusto e imperfeito. Entretanto, geralmente, nos ensinam, teoricamente, a vê-lo como ordenado, simples e fácil de ser entendido por meio de explicações altamente superficiais e inadequadas. Há, portanto, uma diferença gritante entre o realmente experimentado e as explicações teóricas acerca do vivido. Por isso fazemos tantas bobagens.

Trabalhamos, geralmente, com um mapa mental que não corresponde ao território experimentado. Erramos muito em nossas previsões, pois usamos uma bússola (a teoria) defeituosa. Ficamos assustados a todo instante diante do observado e vivenciado que difere do imaginado. Imprimiram em nossa mente um “mapa” pouco ou nada proveitoso, isto é, adquirimos, durante nosso desenvolvimento, um preparo para viver nesse mundo, uma representação errônea acerca das coisas e das pessoas (protótipo, exemplo); talvez nos ensinaram um modelo para viver no paraíso e não nesse mundo.

Entretanto, é esse “modelo”, aprendido e armazenado como instrumento de investigação, o utilizado, a todo instante, para obter informações (avaliadoras) da realidade vivida (território existente). Através do mapa desajustado que adquirimos e vamos formar uma concepção ideal e pessoal de determinada coisa, acontecimento, pessoa, sociedade, natureza. De outro modo, tentamos captar, compreender e explicar o mundo interno (nosso corpo) e externo (outras pessoas, coisas e grupos) através do modelo (mapa) mal elaborado adquirido e impresso muito cedo.

O resultado é um desastre: a pessoa usa como instrumento (bússola) para conhecer os eventos ferramentas inadequadas, como um serrote para parafusar uma placa de ferro. O leitor irá deduzir que o resultado desse trabalho deverá ser mal feito. Nesse caso a pessoa percebe e convive com uma realidade que é irreal: escuridão, ignorância, traços, manchas, sombras, riscos, fantasmas, espíritos e demônios, pois o mapa teórico aceita tudo isso sem reclamar.

Concluindo essas idéias: é nesse terreno (nossa mente) contendo muitas sementes de má qualidade, cipoais e ervas daninhas, que crescerá nossa visão do mundo; descrições, interpretações, explicações e, também, planos e avaliações de ações. Infelizmente, o nosso “processador de informações” é, quase sempre, pobre para analisar os fatos do mundo e, além disso, é também tendencioso e preconceituoso e, para piorar, nosso modelo, na maior parte dos casos, não é capaz de detectar a sua própria ignorância; não sabe que não sabe.

O que transmitimos quando falamos ou escrevemos, seja para nosso filho, aluno ou leitor, bem como quando brigamos, defendemos ou atacamos um ponto de vista, é o nosso porão mental, nossa maneira particular de representar (captar, compreender e explicar) o mundo e o nosso sistema de crenças, ou seja, o assimilador mental usado para compreender o que estamos focalizando ou para dar uma explicação ao mesmo.

Uma vez formados e assentados, estes pressupostos ordenadores funcionarão como órgãos sensoriais mentais, prontos para entrar em ação, seja ignorando a maioria dos estímulos existentes, cujo assimilador é incapaz de perceber, seja detectando informações inúteis e, em seguida, dando-lhes um significado importante e inadequado. Podemos afirmar que nossos pensamentos fatalmente serão erguidos nas pedras primitivas (pré-conhecimento) e mal fincadas nos primeiros anos de vida. São esses alicerces precários, feitos de argila pastosa, que irão fabricar o sentido à compreensão ou significado para explicar o que nos cerca, isto é, para orientar nossas tomadas de decisões: casar ou não casar; frequentar esta ou aquela religião, como criar os filhos; como agir com o patrão ou o empregado; em quem votar; onde morar; que curso fazer, etc. O resultado será o “da morte anunciada”.

O fato concreto isolado percebido pelo indivíduo, através de seu “assimilador mental”, será transformado pelo processador de informações em conceitos abstratos, permitindo, desse modo, a possibilidade da fala, da linguagem interna ou externa, vaga e geral, fácil de ser deduzida, geralmente errada, como. “Eu acho que o sexo…”, “Para mim, os políticos…”, “Precisamos trabalhar mais, pois…”, “Os jovens são rebeldes; não querem nada com …” e milhões de outros “achismos” ou intuitivismos infantis de má qualidade.

O papel dos conhecimentos estocados; o processador de informações.

Diante dos acontecimentos, no nosso dia-a-dia, os pressupostos estocados e adormecidos na memória (princípios, paradigmas, modelos, esquemas) podem ser despertados (estimulados) por certos estímulos externos ou internos, por situações que, uma vez ativadas, iniciam o processamento das informações recebidas, propiciando planos de ação para o problema: ora é um carro que pode matar-me, como informação exterior, ora, num outro momento, as informações vêm do interior: “Estou com sede. Onde encontrarei água?” ou “Preciso de umas férias” ou, ainda, “Penso que minha namorada está me traindo”.

Qualquer informação que é notada pelos órgãos sensoriais internos e externos diante de um fato ou outro, bem como pela nossa cognição ao tentar inferir uma conclusão de um pensamento, será decodificada, isto é, traduzida ou processada por essa rede inconsciente de suposições armazenadas. O papel desse processador, que geralmente cresce em complexidade com o tempo, será o de transformar as experiências perceptíveis concretas em conceitos abstratos e relacionar a nova informação com as antigas e armazenadas. Desse modo forma-se uma teoria do eu individual, ou seja, um conjunto de suposições e afirmações sobre o mundo interno e sobre o seu próprio organismo e modo de pensar.

De posse deste “instrumento” – também chamado de “óculos”; “base ou rede de referência”; “modelo do mundo”; “intuição”; “referencial”, “lente”, etc. – somos capazes de traduzir as experiências perceptivas, intelectuais e emocionais para a linguagem. O modelo final, num momento, constitui nossa maneira de decifrar um evento, selecionando e valorizando um aspecto em detrimento de outro. Agindo assim, para um observador atento e sagaz, o indivíduo se desnuda e mostra suas partes íntimas, as que ele esconde dele mesmo, como os preconceitos, seus julgamentos morais e seus pontos fracos.

Diante disso, podemos imaginar que caminhamos no escuro ao interpretar não só a nossa conduta e das pessoas, como a Política, a Economia, a Física, a Química, a Biologia, a Religião e tudo mais. Nós utilizamos, na maior parte dos casos, pressupostos ou fundamentos pobres e confusos; uma rede de conhecimentos básicos muito difíceis ou mesmo impossíveis de serem investigados pela introspecção ou por nossa consciência. Só temos consciência do produto final, do já fabricado e pronto, dos acontecimentos contaminados e alterados pelos princípios subjacentes e não acessíveis à consciência. Apesar de nossa cegueira, temos que navegar sem conhecer as forças que nos impelem a isso e sem saber, ao certo, para onde estamos sendo levados. De outro modo, essa dissociação entre o “ideal” (o mapa) e o “real” (o território) leva-nos a avaliar incorretamente tanto nossas ações e conhecimentos como dos outros.

Os males das teorias “corretas” e “únicas”

Quantos e quantos danos e sofrimentos foram e são causados, desnecessariamente, devido a aplicação de atitudes bárbaras, derivadas de crenças absurdas incorporadas pelas diversas autoridades: castigos e disciplinas rígidas ditadas pelos pais; professores ferozes incapazes de ouvir o aluno; governantes sanguinários e arbitrários e “religiosos” fanáticos e supersensíveis às críticas ou desobediências insignificantes? A história relata isso constantemente; os abusos cometidos em nome de uma teoria ou religião. A história de todo indivíduo, inclusive a minha própria, está cheia de episódios de castigos e rejeições, por não fazer parte do grupo que detém o modo de pensar “certo” e vigente. Já fui expulso do Sesi por discordar da política assistencial dada aos segurados. Também fui expulso do Instituto Raul Soares por criticar a ideologia da época e a psicanálise. No grupo escolar onde estudei fui obrigado a retirar, sob vaias, a imagem de Nossa Senhora porque, evitando mentir, falei que não tinha ido à missa. Penso que bastam esses exemplos. Sei que você, leitor, tem uma série de casos semelhantes; foi punido ou rejeitado por, espontaneamente, talvez de modo inocente, transmitir para os grupos de poder sua opinião sobre um acontecimento ou um palpite que não comungava com o modo de pensar da maioria.

Os desencontros da teoria (mapa) e do real (território)

Nos primeiros anos da infância, os desencontros entre o “mapa” do mundo aprendido e a realidade são menos percebidos. A partir da adolescência, cada vez mais, o fosso entre um e outro emerge. Caso comecemos a perceber que a orientação existente em nossa memória não condiz com a realidade encontrada, podemos desmistificar nossos pais e, mais tarde, toda a família. Antes, ela era a melhor família desse planeta, mas torna-se, muitas vezes, segundo a nova classificação, a pior, isto é, vista pelo novo mapa adquirido, que, naturalmente, pode ser tão ruim ou pior ainda que o antigo. Mas de qualquer modo, se uma pessoa conseguir deixar de lado seu mapa inicial e adquirir outros mais modernos e eficientes, significa que o aprendido anteriormente permitiu a mudança.

Voltaire, no seu livro “Cândido”, descreve o esforço e fracasso do personagem, Cândido, para tentar harmonizar as idéias adquiridas de seu preceptor cristão com o mundo enfrentado, real e selvagem, onde passou a viver. Todos nós temos dentro de nós um pouco do “Cândido”. Estamos, como ele, tentando adequar o que observamos e vivenciamos com nossas idéias básicas ou nossos princípios referenciais. Muitas vezes nós agimos como Procusto (proprietário da pousada) fazia com os viajantes que iam dormir na sua hospedaria; caso seus corpos não se adaptassem às camas, suas pernas eram esticadas ou cortadas para que coubessem. Infelizmente, com frequência, como não ocorre a harmonia sonhada, agimos como o bondoso Cândido ou o tirano Procusto.

Certa vez um menino perguntou ao pai se “escargot” era gostoso. O pai lhe respondeu: “Coma-o e veja”. A maioria sabe, sem comer, através do modelo (esquema, teoria intuitiva) mental impresso na sua mente, que “escargot” não é saboroso. Esses sabedores sem experiência conservam o “mapa” do mundo obtido de segunda mão – por ouvir dizer – sem experimentar e avaliar diretamente o fato concreto. Há uma separação enorme entre a “realidade da mente” e a “das coisas e dos eventos”.

Alguns podem, pouco a pouco, com muito esforço, mudar suas concepções acerca do mundo e da conduta dos outros. A maioria, por outro lado, morre com a impressão inicial intacta, isto é, mantém bem conservada a bússola estragada, presente dos pais, amigos e professores queridos, conservando-a até a morte, com alegria e orgulho, mantendo o mapa primitivo adquirido: “Penso e atuo como minha mãe, que, por sua vez, seguiu minha avó”. Todos esses tradicionalistas de um só mapa do mundo, quando suas ações dão errado – o que ocorre frequentemente – culpam as outras pessoas por seus fracassos; geralmente jamais examinam o próprio mapa “orientador” estragado e anacrônico que foi usado para orientar a conduta.

Para melhorar a situação do indivíduo e da sociedade, o remédio reside em trazer à luz esses modelos, sociais, morais, políticos, e, sobretudo, os padrões metafísicos subjacentes em que estão enraizados, tendo em vista examinar se são adequados ao seu mister. Essa é a tarefa da Filosofia: examinar tudo que não parece suscetível aos métodos da ciência ou à observação cotidiana, como, por exemplo, categorias, conceitos, modelos, modos de pensar ou agir e, particularmente, os modos como eles colidem uns com os outros. O objetivo é construir outras metáforas, imagens, símbolos e sistemas de categorias com menos contradição interna e (embora isso nunca possa ser plenamente alcançado) menos suscetíveis de perversão.

Uma das causas principais da confusão, da desgraça e do medo, quaisquer que possam ser suas raízes psicológicas ou sociais, é uma adesão cega a noções gastas e impróprias, uma ausência de qualquer forma de auto-exame crítico, esforços furiosos para impedir qualquer grau de análise racional daquilo pregado ou promulgado.

Seria interessante combater toda defesa de um único modo de pensar, do uso de um mapa apenas para explicar o homem e suas condutas. Esse é um trabalho perigoso e difícil, social e intelectualmente, frequentemente, torturante e ingrato, mas sempre importante, pois poderá ajudar os homens a compreenderem a si mesmos e assim operar na claridade e não loucamente no escuro. Acho que vale a pena; estou aqui tentando fazer isso.

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