Nascimentos dos Mitos e da Figura Mítica: Modelando Heróis e Deuses Domésticos

Imagem - MItos

O nascimento, o crescimento e a divulgação de alguns novos termos que são lançados no mercado da fala diária, muitas vezes, se espalham ao sabor do vento: “Com certeza”; “Aí”; “Virgem Maria”; “Bumbum”; “Nossa!”; “Então”; “Na verdade”; “De fato”; “De repente”; “Quer dizer”; “Né”; “Ficou”; “Ficando”. Estes são apenas alguns exemplos. Uma grande parte dessas expressões denota exclamações e emoções; outras são ligações ou pausas desnecessárias; outras, ainda, são apenas ruídos inofensivos sem utilidade informativa.

Do mesmo modo, de tempos em tempos, todos nós anotamos em nossa memória, no computador ou agendas, novos nomes e endereços de um ou outro indivíduo que, temporariamente, foi batizado como “excelente mecânico”, “grande conquistador”, “canalha”, “ótimo médico”, “melhor craque”, “língua ferina”, “perigoso bandido”, “próspero fazendeiro”, “comerciante esperto” e “linda mulher”. Essas classificações, geralmente, têm vida curta.

Não se conhece bem o processo da produção de novas palavras, bem como a “descoberta” ou julgamento das características excepcionais de determinada pessoa, isto é, da criação desses mitos. Portanto, não sabemos como nasce, nem porque isso acontece e, também, a maneira como o sucesso ou desprestígio do indivíduo se espalha nas mentes dos seus admiradores ou críticos ferinos.

Num caso ou noutro, o indivíduo se transforma num exemplar (protótipo) que será elogiado ou criticado, uma amostra ou modelo que facilitará a comparação de um indivíduo ao outro, seja semelhante, seja frontalmente oposto. Cada um de nós defende e briga em defesa de nossos argumentos: um afirma ser Edgard o melhor e mais honesto mecânico já encontrado e, ao mesmo tempo, criticamos, emocionados, o profissional defendido pelo amigo. Todos acham que têm razão, que só um está certo.

Nota-se que certos estereótipos (rótulos, denominações ou lugares-comuns fixos) encaixam-se bem em torno de um determinado indivíduo, mas não em outro e, muitas vezes, esse encaixe tem o apoio de grupos maiores, de uma comunidade, de um país ou de quase toda a população mundial: “Madre Teresa de Calcutá foi uma santa”; “Bush é um demônio!”. Soaria estranho e mesmo intolerável para nossa mente pensar ou imaginar o oposto: “Madre Teresa foi um demônio” ou “Bush é um santo”. Essas últimas afirmações nos provocam um arrepio. As primeiras fluem bem, são facilmente assimiláveis e intuitivas; elas penetram sem trabalho de nossa mente, sem raciocinar, pois a avaliação é automática. Também intuitivamente sentimos mal diante da frase “Madre Teresa foi um demônio”.

Conforme o ambiente sociocultural existente e vigorando numa época, certos conceitos e modelos ficam mais fáceis de serem atribuídos a alguém, classificando o indivíduo de certo modo e não de outro. Essas suposições, intuições ou palpites podem permitir o desenvolvimento, crescimento e reprodução das atribuições das pessoas rotuladas, ou seja, elas ficam encarceradas nos conceitos emitidos a respeito delas; tudo dependendo do ninho social onde os conceitos foram plantados ou lançados. Para que ocorra o crescimento de um conceito torna-se necessária a existência de fertilizantes adequados; um terreno propício para o conceito pegar e decolar.

O lançamento, instalação, fixação e propagação de uma idéia para classificar a conduta de determinada pessoa, boa ou má, às vezes, é lenta, outras, rápida. O rótulo “João é muito inteligente”, uma vez aceito, torna-se, para seus usuários, uma verdade insofismável, auto-evidente e “acima de qualquer suspeita”, jamais imaginada no seu oposto.

A partir da rotulação, os homens e as mulheres classificados passam a ser tratados pelos conhecidos, amigos ou inimigos conforme o rótulo recebido. Se o indivíduo é denominado “engraçado”, “palhaço”, “grande contador de anedotas” e mesmo “filho da mãe”, uma vez acreditando na rotulação, aprisionado à categorização, ele irá se esforçar, como pode, para desempenhar, no carnaval ou no velório, o personagem designado pelo roteiro. Já assisti, muitas vezes, colegas de sala de aula rotulados de “engraçados” representarem, de tempos em tempos, conforme os fatos existentes, o papel exigido pela turma, inventando sempre que possível uma “graça” qualquer, mesmo uma graça sem graça, pois, do contrário, frustrariam a platéia e poderiam perder o conceito recebido, passando a ser um qualquer, um joão-ninguém, semelhantes aos colegas não classificados de alguma coisa. Da mesma forma, se o indivíduo recebe a classificação e os comentários necessários dos observadores de que é “bonito”, “elegante”, “inteligente”, “bom de cama”, “burro”, etc., ele deverá desempenhar esse papel nas ocasiões esperadas. Assim, ele não poderá ser “bom de cama” durante a discussão filosófica na qual deveria representar o papel de “inteligente”.

Uma vez rotulado, forçado a agir como tal, devido a pressões externas e internas, o antigo cidadão, Carlos ou Diva, desaparece. Assim vai se formando o novo ator, o transformado no rótulo, passando a agir de acordo com o novo conceito ou mito criado em torno dele: “Aninha é bonita”; “Dirce é inteligente”; “Pedro é um crápula”.

Criando o verdadeiro mito: os “sortudos”

Alguns sujeitos têm mais sorte que outros: são percebidos pela população como possuidores de características muito “superiores” às normais, por isso são chamados de “gênios”, “santos”, “heróis”, artistas excepcionais, craques tipo Pelé ou Ronaldinho ou “grandes bandidos” como o “Fernandinho”; estamos longe desses felizardos. Alguns indivíduos não se transformaram apenas em bons médicos, excelentes atletas ou artistas, eles se transformaram em mitos. Chamo a atenção do leitor, pois uma coisa é diferente da outra.

Alguns indivíduos abandonaram sua “humanidade”, isto é, as mazelas e singularidades positivas e negativas próprias dos homens; sofreram uma metamorfose. Deixaram a pele humana e passaram a usar vestimentas gloriosas dos maiorais, tornando-se “heróis”, “santos” ou “malfeitores” extraordinários.

Faço uma pergunta para mim mesmo: O que faz com que um determinado indivíduo, aos poucos, deixe de ser homem e torne-se um mito? O que leva uma pessoa (ou um fato ou história) a receber dos outros seres humanos uma categorização de tão alto nível? Não estou falando de uma habilidade comum, como “ter um bom ouvido”, uma “bela voz” ou uma boa memória. É muito mais.

Discuto por que o processo de cristalização dessas honrarias ou acusações se deu em torno daquele determinado indivíduo e não de outro qualquer? De modo concreto: por que Santo Antônio tornou-se santo numa certa época e não antes ou depois e, além disso, santo casamenteiro? Por que São Judas Tadeu metamorfoseou-se em santo protetor das “causas perdidas” e Fernandinho Beira-Mar virou um perigosíssimo bandido?

Frustro o leitor. Não tenho resposta lógica ou racional, apenas especulações, ou melhor, intuições, que tanto critico. Talvez certos indivíduos sejam possuidores de determinados aspectos físicos, intelectuais ou morais que se adaptam melhor a uma história mítica preexistente, bem conhecida, contada repetidamente, como certo modo de ser, olhar, andar e usar roupas que facilitariam uma melhor assimilação conforme o modelo de “Cinderela”, enquanto outros se assemelham mais ao estereótipo de “demônio”.

Todos nós ouvimos, muito cedo, histórias míticas ou lendas, contadas pelos nossos pais, avós e professoras. Entre essas se encontram a da Gata Borralheira, Chapeuzinho Vermelho, Robin Hood, Gúliver, Pinóquio, Os Três Mosqueteiros, Branca de Neve e muitas outras. Elas arrumaram espaço muito cedo em nossa mente ainda vazia. Por outro lado, também os jornais, os filmes e as TVs nos informaram acerca de bandidos espetaculares, craques fora de série e homens geniais. Mais tarde, ao observamos certas condutas, determinamos e selecionamos certos aspectos da pessoa e de sua conduta e, após enfatizá-los, identificamos os atributos com as características armazenadas em nossa mente do mito: “Oh! É a própria Gata Borralheira!”; “Esse é outro Pelé!”; “É outro bandido da mala”.

Com as pistas e as noções memorizadas da lenda aprendida, associamos alguns fatos percebidos do indivíduo alvo, isto é, do protótipo ou exemplar. Os fatos selecionados e enfatizados, muitas vezes, são características quase ou nada significativas, seja no aspecto físico, seja na conduta do indivíduo observado para que seja dado o rótulo final de gênio ou de santo. De posse das idéias da lenda armazenada em nossa memória, assimilamos (muitas vezes de modo forçado) o cidadão focalizado e passamos a classificá-lo disso ou daquilo. Não sei se essa explicação tem algo de verdadeiro, mas é um palpite meu nesse momento.

Mas vamos um pouco além dessa idéia, pois já penso ser ela simples demais, até um pouco boba. Talvez ganhe mais sua atenção com as novas suposições que acabei de ter. Na maioria das vezes, o rótulo colocado é percebido pelo “rotulador” como tal, ou seja, como rótulo. Nesse caso, o “rotulador” reconhece claramente que o rotulado não é o personagem do mito. Exemplificando: a pessoa sabe que o símbolo por ela usado ao chamar determinada mulher de “Gata Borralheira” não representa a realidade, pois ela é, de fato, a lavadeira Teresa.

Entretanto, algumas vezes ficamos maravilhados e podemos confundir as idéias estocadas em nossa mente com respeito ao mito com a pessoa identificada e, posteriormente, rotulada. Nesse caso, passamos a acreditar que Teresa é a “Gata Borralheira” e não a lavadeira.

Não se assustem, pois isso não é tão raro assim. Por ser bastante comum, essa explicação torna a conduta complicada. Passamos a denominar e, logicamente, a enxergar ou tratar a pessoa rotulada conforme o rótulo usado: gênio, herói, santo, milagreiro, etc. Assim, passamos a acreditar totalmente na nossa categorização e no rótulo usado, deixando de lado o exame sensorial realístico ou as observações possíveis de serem realizadas.

Imaginemos, por exemplo, a afirmativa: “Minha mãe foi uma santa”. Se repetimos tal rotulação por diversas vezes, contando para os outros e para nós mesmos, aos poucos, para nós, ela se torna “santa”. Entretanto, ela jamais agiu conforme as determinações dos candidatos a santos, mas passamos a acreditar nas nossas idéias, que eram inicialmente meras suposições e, numa época, sabíamos que estávamos conjeturando.

Aos poucos, com segurança e sem dúvida, passamos a acreditar na nossa idéia delirante, ou seja, que nossa mãe, sem dúvida alguma, foi mesmo uma santa, não a do pau oco. Nesse caso, falamos que houve uma transformação do real para o ideal. Como afirmou o “gênio” Pascal: “Aja como se acreditasse; reze, ajoelhe-se e você acreditará, a fé chegará por si”. Você poderá lembrar de outros rótulos: burro, bonito, inteligente, esperto, molenga, educado. Um outro exemplo: por mais que a pessoa demonstre que ela é gente como a gente, como aconteceu com Maria da Silva, que tem diarréia, menstruações dolorosas, alimenta e defeca e age, muitas vezes, burramente, como todos nós, passamos a imaginá-la como santa, gênio ou uma perigosa bandida, isso não importa; ela passa a ser classificada como muito diferente de nós.

Num grau semelhante e bastante frequente, a rotulação inadequada ocorre quando amamos ou odiamos alguém. Embevecido, arrebatado pelo desejo e paixão avassaladora, Amadeu visualiza e categoriza sua amada não como ela é de fato, com suas pernas finas e as coxas grossas, um ombro mais alto que outro e a testa cheia de rugas. Amadeu enxerga Clara conforme os mitos que possui acerca da beleza e elegância e, inconscientemente, como afirmou Pascal, passa a enquadrá-la: “um corpo esbelto, uma testa lisa e sedosa, olhos brilhantes e sedutores e uma sagacidade de espantar, um amor de mulher”. A “sabedoria” popular tem um provérbio para resumir tudo isso de forma mais simples e mais exata do que escrevi: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”.

Portanto, algumas pessoas se transformam em mito para um indivíduo – como exemplifiquei acima – outros, para um grupo, país ou para grande parte da população mundial, como ocorreu com Madre Teresa de Calcutá, Fidel Castro, Getúlio Vargas, Hitler, Stalin, Einstein e, para uns, até Lula.

A Irmã Teresa de Calcutá, como consta em sua história, viveu parte de sua vida como uma santa, mas não toda a vida. Sei que é difícil ir contra esse estereótipo para os seguidores do catolicismo. Alguns leitores não gostaram e, provavelmente, franziram a testa reprovando minhas especulações, mas essa afirmação encaixa-se no exemplo geral do que estou descrevendo: uma transformação ou um estereótipo mítico de uma pessoa que viveu, até uma época de sua vida, como todos nós.

Podemos dizer, de uma outra maneira, que a população absorveu a pessoa indicada e que ela se encaixou no assimilador mítico preexistente (mito do herói, do rei justo, do fora-da-lei, do nobre, do santo, do sábio, do terrível ditador, etc.), como pessoa mítica, isto é, possuidora de características excepcionais anteriormente já descritas para outras figuras mitológicas. Essa adaptação do indivíduo ao mito do herói, santo ou demônio apareceu muito cedo na imaginação dos homens.

Uma vez iniciada a construção do mito, ou seja, a transformação de um homem normal num mítico excepcional, esta edificação continua através de sua vida. A partir do seu reconhecimento como homem extraordinário, seus novos feitos ou condutas, geralmente semelhantes às de todos nós, passam a ser vistas de forma deformada pelo estereótipo existente (novas lentes). A conduta do ser mítico é observada e julgada com os novos óculos usados, o novo prisma deformador da realidade, e, como qualquer mito, abandona a realidade para se enquadrar na idealidade (conforme nossas paixões ou desejos) de acordo com o rótulo recebido: santo, herói, malfeitor, um amor de mulher, super-honesto ou outro qualquer.

Nomeado herói, santo, craque ou grande artista, os esforços são feitos para que ex-candidato à figura mitológica, uma vez empossado no cargo, se estabilize, ou seja, não retorne à sua normalidade anterior, de um homem qualquer, medíocre, como todo mundo é. Dessa forma, os fatos ocorridos anteriormente, isto é, antes da pessoa ter se tornado uma “figura mítica”, a “santa” ou o “herói”, passam a ser examinados de maneira deformada. Procuramos dar a eles uma conotação “santificada”, “heróica” ou “malfeitora” para se adaptar ao novo status atingido mais tarde. Ele não é mais um homem qualquer, logo, não mais pode ser examinado como tal. Ele agora é Chico Xavier, um santo, um homem extraordinário, boníssimo. Não poderemos mais enxergar nele as características humanas que todos nós possuímos, pois ele é um ser diferente. Só pode ser examinado, observado e avaliado conforme o molde mítico existente na mente dos observadores. Sentimos mal e asco se usarmos nosso assimilador mental normal para examinar Moisés, Chico Xavier, Madre Teresa, Freud, nosso pai, mãe e, logicamente, nossa querida e amada namorada.

Temos a tendência de manter inalterável um determinado modelo que construímos acerca das pessoas com as quais lidamos. Assim, por exemplo, se gosto de uma pessoa, procuro focalizar comportamentos seus que comprovem minha hipótese, inclusive os fatos que aconteceram antes de conhecê-la. Por outro lado, não percebo, não aceito ou não acredito nos eventos que negam as crenças existentes em minha mente. Se odiar, utilizo o raciocínio oposto.

Muitas vezes, após aceitarmos por muito tempo algum indivíduo como super-homem (herói, bandido, etc.), damos uma rasteira no seu prestígio, destruímos sua santidade ou heroísmo e o transformamos num homem normal e irracional. Isso tem ocorrido entre os grandes estadistas e mesmo entre os santos, já que alguns foram destituídos do status que gozavam. Recentemente até Plutão foi desclassificado como planeta.

O candidato a covarde ou a herói, demônio ou santo, dando tudo certo, não surgindo nenhum acidente de percurso, se transforma em mito e passa a ser admirado como tal. Mas não devemos nos esquecer do essencial: fomos nós, os “rotuladores”, que o construímos, e para isso usamos mais os símbolos de histórias míticas anteriores e menos a realidade observada.

Fórmulas comuns usadas para construir as figuras míticas

Nossa cultura tem poucas fórmulas para usar como receitas para fabricar os nossos atuais super-homens: heróis, santos e outros fora de série. A mente humana, esgotada, interrompeu sua fábrica criativa de novos padrões capazes de transformar um homem comum num mítico, como Bush, Hussein, Hitler e, também, Einstein, Madre Teresa, Leonardo da Vinci ou o nosso Tiradentes.

Sem outra alternativa, só nos resta aplicarmos o modelo antigo existente num ou noutro candidato a esse posto tão cobiçado. Para que os candidatos possam se adequar aos modelos e símbolos preexistentes dos antigos mitos é preciso que eles exibam modos de agir e de pensar sugerindo figuras míticas conhecidas.

Quais seriam as características necessárias para que um indivíduo, na infância ou mesmo mais tarde – até certa época quando era igual a todos os outros homens -, comece a ser percebido, observado e, finalmente, rotulado de gênio, herói ou santo?

Sabemos que, segundo as histórias míticas, numa visão retrospectiva, o fantástico continuadamente esteve presente na vida do candidato a mito sempre após ele ter alcançado o trono. Muitas histórias descrevem que o incrível sempre dominou a vida dos santos, do nascimento à morte. Seu azar e, ao mesmo tempo, a capacidade de suportar provações terríveis dominaram sua vida, sem que eles jamais abandonassem seus objetivos. São inúmeros os relatos dos super-homens que realizaram façanhas sobre-humanas na política, religião e esporte, proezas jamais realizadas por nós pobres mortais de segunda ou terceira classe.

Um fator necessário à fabricação de um homem mítico tem sido seu nascimento e sua morte diferentes dos outros homens. Os grandes santos ou heróis não nascem como nós. Histórias incríveis têm sido contadas para descrever o nascimento da figura mítica, enquanto outros relatos associam a morte do mito às grandes catástrofes. Uma associação da morte do herói com as desgraças sociais leva a população a imaginar uma ligação de causalidade entre os dois fatos. Na mente de seus adoradores, a morte do herói passa a ser “causa” dos sofrimentos do povo, gerando o raciocínio de que, caso ele estivesse vivo, os acontecimentos tomariam um rumo diferente: “A partir da morte de minha amada não fui mais o mesmo homem. Ela era tudo para mim”.

Os heróis ou santos também não morrem como nós. As histórias nos mostram que a maioria dos super-homens teve morte trágica. Não fica bem para um ser excepcional ter uma morte devido a um nó nas tripas ou a um engasgo com um naco de carne. A morte desastrosa sempre estimulou a mente popular para lembrar e venerar mais e mais seu herói predileto por algum tempo. Para ficar com os exemplos nossos, brasileiros, figuras que os mais velhos ainda se lembram, como, por exemplo, os mitos brasileiros e suas mortes: João Pessoa, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e outros.

O processo de cristalização de personagens míticos não se restringe aos governantes. Como exemplo de mitos não-governantes podemos citar Padre Eustáquio e Ayrton Senna. Mas, além desses heróis, o molde mítico pode adaptar-se também a outros tipos, os chamados heróis-marginais ou vilões populares: Hobin Hood, Escadinha, Mariel Mariscot, Fernandinho Beira-Mar, Lúcio Flávio, Saddam Hussein, Bush e outros.

A sabedoria também é um fator importante na feitura do mito. Não se pode conceber um santo ou um herói burro. Um Ulisses da Odisséia, ou o Guimarães, Einstein, Churchill ou Lenine, foram considerados, todos, muito inteligentes. Incorporado à sabedoria, o homem-mito necessita ser sagaz e esperto, além de possuir a bravura e audácia, como tem sido descrita pelos admiradores de Hitler, Stalin e Fidel Castro. Precisa ainda ter uma força extraordinária, como Hércules, Atlas e, também, se possível, poderes imensos que possibilitam ligações com outros deuses excepcionais ou mesmo sobrenaturais: Lao-Tsé, Buda, Confúcio e Maomé, entre outros.

Alguns homens que foram transformados em mitos assimilaram, ao mesmo tempo, diversos estereótipos míticos. Eles se encaixaram entre os “plurimitos” ou “supermitos”. Esses felizardos, inicialmente, tiveram um nascimento fantástico, depois, uma sabedoria superior ao homem comum, além disso, possuíam a esperteza dos foras de série e ligações poderosas com forças do bem ou do mal. Tinham, ainda, para esnobar, uma força física extraordinária e, também, ações impossíveis de serem realizadas pelos normais. Um exemplo desse supermito é o de Ulisses, o da Odisséia de Homero, retratado há mais de 2.000 anos. Este mito encarna as peripécias sensacionais de um herói capaz de causar inveja a qualquer candidato a aprendiz a semideus ou a deus.

Lamentavelmente, muitos supermitos e mitos, da mesma forma que se tornaram homens percebidos como superiores, rapidamente, se transformaram em antimitos. O povo ora elege um homem a santo ou guerreiro, ora o destrói, tão rapidamente como o construiu, e o mito anterior torna-se um covarde, demônio ou idiota. A história nos mostra a ascensão e queda de diversos ídolos mundiais, eles tiveram duração efêmera: Hitler, Stalin, Mussolini, Getúlio Vargas e Collor são alguns exemplos.

Alguns, nem todos, anos depois de atingirem o status de mitos, passaram a ter dores de barriga, câncer, Doença de Alzheimer ou de Parkinson, isto é, adoeceram e morreram confusos, esqueléticos, fracos e submissos, como, possivelmente, acontecerá com todos nós.

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