Lumeeira e o megacomputor: Normalizador Cultural

Imagem - Normas Culturais

Ao nascer, cada indivíduo morador em Lumeeira (cidade luz), como todos nós, acha-se inserido ou aprisionado numa organização já estabelecida (ocidental ou oriental), numa teia ou certa ordem invisível (mais perceptual ou mais conceitual), mas bem definida e conhecida, que nos engloba e nos obriga a viver conforme essa estrutura. As pessoas que ali nasceram e foram criadas passaram a ser controladas e domesticadas por um potente e complexo megacomputador. É este mecanismo que organiza e ordena, de forma metódica, os moradores da sociedade local a pensarem e a se comportarem conforme o modo estabelecido.

A cultura de Lumeeira, bem como a de Itabira, Tóquio, Washington ou Paris, nada mais é do que uma espécie de um possante e complexo megacomputador capaz de armazenar toda a produção cognitiva existente no lugar. É deste megacomputador que partem as informações acerca do mundo vivido, das prescrições do que pode e não pode ser feito (do certo e do errado), bem com dos modos de perceber ou de obter os conhecimentos permitidos.

Microprogramas individuais existentes na mente de cada indivíduo particular de Lumeeira recebem e enviam informações para o megacomputador da comunidade (estoque geral de informações). Portanto, do megacomputador invisível, mas poderoso, nascem milhares de informações que são enviadas para diferentes direções; mensagens que retornam e alimentam o próprio megacomputador.

Assim, inseridos em cada microcomputador, às vezes implicitamente (às escondidas), encontram-se princípios impostos quanto à maneira de assimilar o conhecimento (sensorial, intuitivo, teórico, produtor de prazer ou de sofrimento). O conhecimento final, obtido através do sensorial ou intuitivo, irá propiciar ao microcomputador individual processar os “fatos do mundo” e, consequentemente, entender, explicar e responder à realidade física, química, biológica, psicológica, religiosa, moral, econômica e outras.

Cada indivíduo (microcomputador), para viver adequadamente naquela cidade e ser aceito como fazendo parte daquela comunidade, deve assimilar o que é bom e mau, verdade e mentira, pontualidade e religião certa. Tudo de acordo com os mapas (princípios) adotados abstratamente pela população de Lumeeira. Cada cidadão, ainda, para ser aceito como “igual” e “compreendido”, deve aprender como tratar seus conterrâneos e, também, os estranhos ao lugar; como conviver, conforme as normas, com os familiares e vizinhos do mesmo nível sociocultural; como tratar os “superiores” e os “inferiores” a ele. Em resumo: o megacomputador prescreve para cada indivíduo, de modo sutil, como ele deve viver e conviver adequadamente com outros conforme os padrões do lugar. Nesse caso o indivíduo será melhor aceito pelos conterrâneos e sua vida será facilitada. Os microcomputadores, por sua vez, retornam informações ao megacomputador para possíveis reformulações das regras ou exigindo punições dos infratores das normas estabelecidas.

A coação cultural existente, ou seja, a força exercida pelo megacomputador, é grande. Ela exige que cada habitante da cidade, sempre atento, combata os em desacordo às normas ali em vigor; princípios estranhos devem ser desconsiderados ou descartados. Desse modo, noções teóricas orientadoras de conduta que não fazem parte da cultura do lugar, isto é, do programa do megacomputador, não deverão ser aceitas, talvez, nem imaginadas como possíveis de existirem naquela cidade mais pura de contaminação. A sociedade de Lumeeira, como a de Londres ou Berlim, com raríssimas exceções, é conservadora por excelência e, portanto, procura a mesmice, pois através da repetição de normas conhecidas haverá mais harmonia e paz para todos.

Através das informações em voga, fazendo parte de um grupo cultural semelhante, a pessoa se torna em Lumeeira, sem querer e sem raciocinar, escrava das instruções e prescrições que devem ser seguidas para o bem da ordem da comunidade onde reside. De outro modo, cada mente individual é um terminal isolado; a soma de todas as interações possíveis, dentro do permitido.

Por viverem numa cidade de certo modo fechada, os moradores de Lumeeira possuem apenas assimiladores mentais capazes de processar os fatos e eventos experimentados na sua comunidade. Treinados pelo megacomputador do local, cada morador, automaticamente, tende a usar determinadas estratégias para obter o conhecimento; busca, além disso, uma vez alcançado o conhecimento desejado através de certa técnica, compreendê-lo e explicá-lo de certa maneira conforme os ensinamentos provincianos, isto é, os modelos do lugar.

Por tudo isso, os moradores daquela cidade pacata recusam, para manter seu equilíbrio interno e externo, as informações que se mostram em desarmonia (não-adequadas) às suas convicções. Todos ali criticam, como errados, os métodos diferentes dos ali usados para obter uma compreensão dos eventos.

O mundo real percebido e manipulado pelos habitantes de Lumeeira foi automática e inconscientemente construído, em grande parte, pelos padrões linguísticos do grupo, portanto, não só limitando a percepção como, também, ditando o pensamento, a maneira de perceber a realidade, de explicar os fatos e, também, de comunicar consigo mesmo ou aos outros as noções sobre as coisas e as pessoas. O resultado final de tudo isso é que os habitantes de Lumeeira se comportam de forma uniforme, têm crenças semelhantes e descrevem ou explicam a realidade de forma parecida.

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