Julgamento Moral e Motivos Defensivos

Imagem - Julgamento Moral

Durante os julgamentos morais, seja lá qual for, as pessoas têm uma forte tendência a procurar “anedotas” – relatos únicos – bem como outras evidências exclusivamente para “comprovar” o ponto de vista defendido, o lado preferido do problema. Quando uma pessoa está discutindo um assunto e imagina ter descoberto uma “evidência” ou “comprovação”, mesmo quando esta é uma pequena ou má prova, ela tende a parar e não mais procurar outros exemplos, menos ainda os fatos que poderiam ir contra a hipótese/afirmação defendida. Geralmente, as pessoas relatam apenas uma “prova” para dar sentido a sua epistemologia particular. A meta desses argumentadores amadores não é alcançar uma conclusão mais exata, mais próxima da verdade ou do real, eles desejam encontrar o primeiro fundamento (conclusão) possível de “proteger” ou se encaixar na crença existente e defendida. São comuns exemplos dessas discussões onde um caso serve de suporte à verdade defendida com ardor.

Esse tipo de raciocínio, que melhor seria chamado de pseudo-raciocínio, motiva a pessoa a alcançar uma “conclusão pré-arrumada”; a conclusão já existe antes do processo do raciocínio. De outro modo, o esforço não é dirigido para esclarecer um problema surgido. Procura-se internamente, isto é, na memória, e não externamente, o apoio para a tendência confirmatória defendida.

O processo do raciocínio no julgamento moral pode existir e ser capaz de trabalhar objetivamente apenas sob pouquíssimas situações: quando a pessoa tem tempo adequado e capacidade de ser precisa e exata; quando nenhuma decisão do julgamento é necessária para ser defendida ou justificada e, finalmente, quando não há qualquer relacionamento ou motivação para que alguma coerência seja exigida. Tudo isso é muito difícil de ser alcançado.

Explicações populares das razões do julgamento

Quando as pessoas são perguntadas acerca das causas/mecanismo de seu julgamento, elas frequentemente citam fatores que geralmente não têm importância e, ainda, não conseguem reconhecer o significado desses fatores. Entretanto, elas imaginam que estão raciocinando e construindo justificações corretas acerca do evento julgado e tendo a ilusão de possuírem um raciocínio objetivo. Assim, por exemplo, se a pessoa é perguntada acerca de seu comportamento, ela não consegue examiná-lo, apenas faz um esforço procurando expressar o que ela sentiu; uma espécie de introspecção. Entretanto, o que a pessoa não consegue procurar é a lembrança do processo cognitivo utilizado (dos paradigmas, modelos ou princípios) e subjacente ao raciocínio desenvolvido, que sustentou a conclusão e ou o comportamento atual. Acontece que esses processos mentais não são acessíveis à consciência.

As pessoas, de fato, esforçam-se para encontrar teorias plausíveis para explicar porque elas fizeram o que fizeram ou pensaram desse ou daquele modo. Elas, inicialmente, utilizam um “pool” (rede, conjunto) de suprimentos explanatórios culturais para a conduta. Assim, por exemplo, ao ser perguntada por que gostou da festa, a pessoa não relata a festa comparecida e concreta, mas inicia o relato descrevendo o conhecimento cultural (abstrato e dedutivo) acerca de porque as pessoas gostam de festa, escolhendo uma e outra dessas razões que poderiam ser aplicadas no seu caso particular: “As festas são boas e divertidas. Encontramos pessoas conhecidas e ficamos conhecendo outras interessantes. Além disso, tem bebidas e comidas…”.

A hipnose nos fornece outros exemplos. Uma pessoa, ao ser hipnotizada, recebe, por exemplo, uma ordem subliminar para realizar certa ação posteriormente, isto é, após sair da hipnose. Uma vez tendo a pessoa realizado a ação ordenada pelo desejo do hipnotizador – não dela própria – ela é perguntada por quais razões agiu daquela forma. A pessoa antes hipnotizada prontamente constrói “motivos” que parecem plausíveis para a ação executada. As razões explicitadas, de fato, são falsas, pois elas foram impressas por desejo do hipnotizador.

Às vezes chego a imaginar que quase todo o nosso comportamento é assim. Conforme minha especulação, agimos de um modo pelos mais diversos motivos, quase nenhum deles plenamente consciente. Depois de executado, explicamos para nós mesmos ou para os outros as razões de nossa conduta. Durante as explicações usamos raciocínios lógicos e conforme as crenças existentes e aceitas.

A engraçada memória da vida passada pode ser inoculada na mente de alguns ingênuos indivíduos; cerca de um terço dos entrevistados, segundo estudos. Numa experiência, rapazes e moças que nunca tiveram uma determinada experiência foram entrevistados para tentar lembrar do fato jamais vivido. O entrevistador, após conversar com a mãe do entrevistado, lhe dizia que sua mãe disse que certa vez ele havia se perdido num supermercado, por exemplo; um fato, segundo o relato feito pela mãe, jamais ocorrido. Pois bem. Através dessa pergunta e outras semelhantes, um terço dos sujeitos relatou memórias desse período que nunca existiu.

Tudo faz crer que mecanismo semelhante ocorre com as pessoas que “lembram” de memórias de vida passada. A “lembrança” deve ocorrer, num e noutro lugar, conforme as insinuações propositais ou não do leitor desses fatos. O escritor de ficções age de modo semelhante. Ele, por conta própria, cria imagens de um evento determinado pela sua imaginação. A partir dessas imagens ele vai seguindo o que “lê” nas suas representações à medida que elas vão sendo exibidas para ele próprio. Depois de escrevê-las, faz a limpeza necessária.

Alguns pacientes, portadores de lesões neurológicas, não têm comunicação entre o lado esquerdo e direito do cérebro. Esta lesão, que recebe o nome na língua inglesa de “Split-brain” (cérebro fendido, partido), mostra os efeitos acima descritos de forma dramática. Quando a mão esquerda, guiada pelo lado direito do cérebro, pratica uma ação (lembrar que um lado do cérebro não está se comunicando com o outro), o centro verbal do lado esquerdo do cérebro prontamente cria uma história qualquer, inventada, para explicar o que foi realizado. O centro da linguagem está tão capacitado para fazer uma explicação causal pós-fato que certos autores denominam o lado esquerdo do cérebro de “módulo interpretador”; eu prefiro o nome de “cérebro ficcionista”. Para um pesquisador, a conduta é usualmente produzida por módulos mentais onde a consciência não tem acesso. Entretanto, o módulo interpretador faz comentários acerca da conduta, buscando hipóteses para explicar porque o eu da pessoa efetuou tal conduta.

Nossos julgamentos: Intuições (opiniões ou palpites)

O homem ainda é pouco e mal conhecido, mas as fábulas descritas acerca dele são inúmeras. Persisto em mostrar que somos dominados pelo nosso organismo biológico e pela aprendizagem de idéias culturais, portanto, não somos livres como tem sido apregoado. Nós, frequentemente, gostamos ou não gostamos de alguém, amamos ou odiamos algo, isto é, estamos sempre julgando as pessoas conforme nossos gostos. Essas atitudes – puras reações motivacionais e emocionais – geram emoções positivas ou negativas, quase sempre sem o uso da razão ou da inteligência. O bem-estar da simpatia e o mal-estar da antipatia, uma vez desencadeados, intuitiva e repentinamente, dominam nosso julgamento e nossas ações. Na maioria das vezes não descobrimos porque sentimos uma paixão violenta ou um ódio destruidor.

O homem sempre admirou outros homens, desprezou e injuriou alguns outros e permaneceu indiferente à maioria. O julgamento produzido no momento, favorável ou contra determinada pessoa, possivelmente, se assemelha à avaliação efetuada diante de um quadro, de uma música e, principalmente, de uma mulher: “Margarida me deixa maluco!” ou de um inimigo: “Tenho vontade de matar aquele verme!”.

As avaliações dos comportamentos

As avaliações das condutas como as citadas acima são fáceis, simples e automáticas de se fazer. Elas não nos dão trabalho mental. Para se chegar à conclusão que “Margarida é uma mulher atraente” não precisamos fazer nenhum esforço e nem usar o raciocínio ou a lógica para produzir a afirmação, exortando-a. O sentimento de amor, atração, ódio, compaixão, vergonha, orgulho ou satisfação – um tipo de julgamento intuitivo emocional (conhecimento de algo) – brota fácil na totalidade do corpo e mente do homem. Margarida me atrai porque sinto que ela me atrai; tudo realizado pela leitura que faço num certo momento no interior do meu organismo, do meu bem-estar e, por fim, da tradução que fiz do estado corporal para palavras.

Ninguém fica cansado ou exausto ao avaliar a beleza ou a feiúra de Margarida, as ações, os tipos de pessoas ou coisas. O julgamento explode de modo simples, sem estudo e sem razão plausível. Ele emerge automaticamente, independente do nosso desejo.

É impossível ou extremamente difícil arrumar e organizar argumentos bem colocados, válidos e racionais, para culpar ou justificar as ações de Pilatos, Átila, Jesus, Maomé, Buda, Moisés, Hitler, Bush e Saddam Hussein. Os homens citados nos agradam ou desagradam.

Caso gaste meu tempo explicando porque Margarida me atrai ou porque não gosto de Bush, irei pescar em minha memória argumentos para comprovar o que já tinha sido decidido pelo meu organismo: Margarida me atraiu profundamente e, por outro lado, quando vejo Bush sinto náusea e repulsa. No caso exemplificado, irei agir como o advogado contratado para a defesa do indiciado (Margarida) e de acusação do outro (Bush).

Entretanto, diante de um e outro – Margarida e Bush – não irei agir como se espera de um juiz, isto é, que se esforça para ser imparcial, racional e lógico. O magistrado, diferente do advogado contratado, constrói uma sentença após examinar minuciosamente os fatos e fazer uso da lógica assentada na lei. O advogado, diferente do juiz, defende ou ataca o já estabelecido: detesto Bush ou adoro Margarida. O meu organismo, em virtude da eclosão de certos sentimentos, arrumará argumentos a favor ou contra, para justificar minha avaliação espontânea desencadeada para Margarida e Bush. Se me perguntarem por que eu não saberia; possivelmente minhas explicações não iriam convencer nem mesmo a mim, pois seriam “argumentos” arranjados após os sentimentos.

Portanto, os “argumentos” inventados por nós para justificar a simpatia ou antipatia são somente fabricados a partir do aparecimento da emoção agradável ou desagradável. Essas emoções nascem em todos nós diante de um ou outro estímulo. As emoções, uma vez detonadas, coordenam e colorem as “razões” produzidas posteriormente, conforme um ou outro sentimento; usamos ou um discurso (elogiar Margarida) ou outro (xingar Bush).

As emoções são ruídos passageiros. A nossa admiração por Margarida, numa ocasião, pode se transformar em agressão num outro instante. Além disso, uma vez estabelecida a produção da crença, a favor ou contra, e o sentimento de bem-estar (Margarida) e de mal-estar (Bush), uma vez traduzidos para palavras, como “Ela é maravilhosa” ou “Ele é nojento”, tendem, diferente da emoção que deu origem às verbalizações, a permanecer por muito tempo, às vezes, por toda a vida: “Quando vi Margarida, me apeguei a ela. Nunca mais me saiu da cabeça. Mas que mulherão! Não encontro outra igual!”.

Temos a tendência de manter uma opinião emitida num certo momento devido às razões mais diferentes. Por exemplo: numa conversa ou discussão passamos a negligenciar a ação nefasta de nosso parente (primo, sobrinho ou outro). Nessas ocasiões procuramos “razões” plausíveis para sustentar a defesa anteriormente já feita. Posteriormente, os fatos vão ficando mais claros. O nosso sobrinho Pedro, cada vez mais, mostra que é um “mau-caráter”. Entretanto, o seu defensor emocionado continua a desculpá-lo e a manter outros e outros argumentos visando a encobrir sua conduta anti-social ou desonesta. O oposto ocorre quando estamos atacando um possível inocente.

Lembro ao leitor que não podemos generalizar essas afirmações; elas nem sempre acontecem. Muitos são capazes de rever suas opiniões a favor ou contra alguém, mas essa não é a tendência geral.

Enquanto escrevia esses dados lembrei-me, não de Margarida, mas de “Duília”. Li, anos atrás, um conto escrito com o título de “Viagem aos seios de Duília”, acho que escrito por Aníbal Machado. Não tenho certeza. A lembrança desse conto ajuda-me a explicar a idéia acima. De modo muito resumido, o conto relata um aposentado que nunca esquecera os seios mais lindos do mundo, vistos de relance, quando ele, ainda jovem, morando no interior, foi até a sua casa por motivos que não me lembro. Logo depois esse rapaz foi trabalhar no Rio de Janeiro e lá ficou. Tomava o bonde todos os dias, no mesmo horário, para ir até a Secretaria onde trabalhava. Um dia ele se aposentou. Estando ainda solteiro, lembrou-se de Duília, sempre imaginando seus belíssimos seios que haviam lhe provocado, no momento da descoberta, uma emoção superagradável que nunca mais foi esquecida. O aposentado decidiu ir atrás dos seios de Duília, talvez não dela mesma.

Pois bem. O fim vocês já imaginaram. Depois de uma grande procura ele a encontrou: estava mais velha que ele. Os seios atuais e envelhecidos de Duília ele não conseguiu ver; mal-escondidos debaixo de um vestido velho, sujo e amarrotado, estavam dois ovos fritos achatados. O aposentado, desiludido, retornou à pensão onde se hospedou na pequena cidade e lá permaneceu à espera da próxima “jardineira” que o levaria de volta ao Rio de Janeiro. Seu sonho terminou: os seios de Duília desapareceram no tempo. Agora, enterravam as lembranças do aposentado. Era o fim de um sonho, de um julgamento feito anos e anos atrás.

Os estudos atuais mostram que quando certas pessoas julgam as condutas relacionadas ao aborto, homossexualismo, pornografia ou incesto como violações morais, geralmente elas discutem esses problemas focalizando e enfatizando suas possíveis consequências danosas. Por outro lado, as pessoas que expressam não serem tais ações erradas, geralmente não citam nenhuma consequência danosa. Também, uma pessoa que pensa que a vida começa na concepção geralmente se opõe ao aborto, enquanto que a que pensa que a vida começa mais tarde, quase sempre, não se opõe ao aborto. Para muitos pesquisadores, o simples julgamento (um sentimento de asco ao aborto) produz uma representação mental que inclui o aparecimento da vida começando na concepção, ou seja, uma explicação arrumada automaticamente é gerada após o sentimento de asco diante da imaginação do evento.

Alguns autores examinaram respostas de americanos e de brasileiros para ações não aceitas culturalmente, mas, por outro lado, não ofensivas à moral vigente. Entre essas esquisitas condutas para serem avaliadas estavam: comer o nosso cãozinho de estimação que morreu; limpar nossas partes íntimas com a bandeira nacional e outras semelhantes. As histórias foram cuidadosamente construídas de modo a não trazer danos plausíveis, pois ninguém seria vitimado pelas ações perguntadas. Mesmo assim os participantes da pesquisa disseram que as ações eram universalmente erradas. Eles, com frequência, afirmaram: “é errado comer o cãozinho de estimação…”.

Suas reações afetivas para opinarem sobre as histórias contadas foram ótimos indicadores para antever o julgamento moral que os sujeitos fariam em seguida. A maioria dos julgamentos são causados por intuições morais vagas, podendo ou não ser seguidas por raciocínios construídos após a intuição moral.

O homem ainda é pouco e mal conhecido, mas as fábulas descritas acerca dele são inúmeras. Persisto em mostrar que somos dominados pelo nosso organismo biológico e pela aprendizagem de idéias culturais; portanto, não somos livres como tem sido apregoado. Nós, frequentemente, gostamos ou não gostamos de alguém, amamos ou odiamos algo, isto é, estamos sempre julgando as pessoas conforme nossos gostos. Essas atitudes – puras reações motivacionais e emocionais – geram emoções positivas ou negativas, quase sempre sem o uso da razão ou da inteligência. O bem-estar da simpatia e o mal-estar da antipatia, uma vez desencadeados, intuitiva e repentinamente, dominam nosso julgamento e ações. Na maioria das vezes não descobrimos porque sentimos uma paixão violenta ou um ódio destruidor.

O homem sempre admirou outros homens, desprezou e injuriou alguns outros e permaneceu indiferente à maioria. O julgamento produzido no momento, favorável ou contra determinada pessoa, possivelmente, se assemelhe à avaliação efetuada diante de um quadro, de uma música e, principalmente, de uma mulher: “Margarida me deixa maluco!” ou de um inimigo: “Tenho vontade de matar aquele verme!”.

As avaliações dos comportamentos

As avaliações das condutas como as citadas acima são fáceis, simples e automáticas de se fazer; elas não nos dão trabalho mental. Para se chegar à conclusão que “Margarida é uma mulher atraente” não precisamos fazer nenhum esforço e nem usar o raciocínio ou a lógica para produzir a afirmação, exortando-a. O sentimento de amor, atração, ódio, compaixão, vergonha, orgulho ou satisfação – um tipo de julgamento intuitivo emocional (conhecimento de algo) – brota fácil na totalidade do corpo e mente do homem. Margarida me atrai porque sinto que ela me atrai; tudo realizado pela leitura que faço num certo momento no interior do meu organismo, do meu bem-estar e, por fim, da tradução que fiz do estado corporal para palavras.

Ninguém fica cansado ou exausto ao avaliar a beleza ou a feiúra de Margarida, as ações, os tipos de pessoa ou coisas. O julgamento explode de modo simples, sem estudo e sem razão plausível; ele emerge automaticamente, independente do nosso desejo.

É impossível, ou extremamente difícil, arrumar e organizar argumentos bem colocados, válidos, racionais, para culpar ou justificar as ações de Pilatos, Átila, Jesus, Maomé, Buda, Moisés, Hitler, Bush e Saddam Hussein. Os homens citados ou nos agradam ou desagradam. 

Caso gaste meu tempo explicando porque Margarida me atrai ou porque não gosto de Bush, irei pescar em minha memória argumentos para comprovar o que já tinha sido decidido pelo meu organismo: Margarida me atraiu profundamente e, por outro lado, quando vejo Bush sinto náusea e repulsa. No caso exemplificado, irei agir como o advogado contratado para a defesa do indiciado (Margarida) e de acusação do outro (Bush).

Entretanto, diante de um e outro – Margarida e Bush – não irei agir como se espera de um juiz, isto é, que se esforça para ser imparcial, racional e lógico. O magistrado, diferente do advogado contratado, constrói uma sentença após examinar minuciosamente os fatos e fazer uso da lógica assentada na lei. O advogado, diferente do juiz, defende ou ataca o já estabelecido: detesto Bush, adoro Margarida. O meu organismo, em virtude da eclosão de certos sentimentos, arrumará argumentos a favor ou contra, para justificar minha avaliação espontânea desencadeada para Margarida e Bush. Se me perguntarem porque eu não saberia; possivelmente minhas explicações não iriam convencer nem mesmo a mim, pois seriam “argumentos” arranjados após os sentimentos.

Portanto, os “argumentos” inventados por nós para justificar a simpatia ou antipatia são somente fabricados a partir do aparecimento da emoção agradável ou desagradável. Essas emoções nascem em todos nós diante de um ou outro estímulo. As emoções, uma vez detonadas, coordenam e colorem as “razões” produzidas posteriormente, conforme um ou outro sentimento; usamos ou um discurso (elogiar Margarida) ou outro (xingar Bush).

As emoções são ruídos passageiros. A nossa admiração por Margarida, numa ocasião, pode se transformar em agressão num outro instante. Além disso, uma vez estabelecida a produção da crença, a favor ou contra, e o sentimento de bem-estar (Margarida) e de mal-estar (Bush), uma vez traduzidos para palavras, como, “Ela é maravilhosa” ou “Ele é nojento”, tendem, diferente da emoção que deu origem às verbalizações, a permanecer por muito tempo, às vezes, por toda a vida: “Quando vi Margarida, me apeguei a ela. Nunca mais me saiu da cabeça. Mas que mulherão! Não encontro outra igual!”.

Temos a tendência de manter uma opinião emitida num certo momento devido às razões mais diferentes. Por exemplo: numa conversa ou discussão passamos a negligenciar a ação nefasta de nosso parente (primo, sobrinho ou outro). Nessas ocasiões procuramos “razões” plausíveis para sustentar a defesa anteriormente já feita. Posteriormente, os fatos vão ficando mais claros. O nosso sobrinho Pedro, cada vez mais, mostra que é um “mau-caráter”. Entretanto, o seu defensor emocionado continua a desculpá-lo e manter outros e outros argumentos visando a encobrir sua conduta anti-social ou desonesta. O oposto ocorre quando estamos atacando um possível inocente.

Lembro ao leitor que não podemos generalizar essas afirmações; elas nem sempre acontecem. Muitos são capazes de rever suas opiniões a favor ou contra alguém. Mas essa não é a tendência geral.

Enquanto escrevia esses dados lembrei-me, não de Margarida, mas de “Duíla”. Li, anos atrás, um conto escrito com o título de “Os seios de Duíla”, acho que escrito por Mário de Andrade. Não tenho certeza. A lembrança desse conto ajuda-me a explicar a idéia acima. De modo muito resumido, o conto relata um aposentado que nunca esquecera os seios mais lindos do mundo, vistos de relance, quando ele, ainda jovem, morando no interior, foi até a sua casa por motivos que não me lembro. Logo depois esse rapaz foi trabalhar no Rio de Janeiro e lá ficou. Tomava o bonde todos os dias, no mesmo horário, para ir até a Secretaria onde trabalhava. Um dia ele se aposentou. Estando ainda solteiro, lembrou-se de Duíla. Sempre imaginando seus belíssimos seios que haviam lhe provocado, no momento da descoberta, uma emoção superagradável que nunca mais foi esquecida. O aposentado decide ir atrás dos seios de Duíla, talvez não dela mesma.

Pois bem. O fim vocês já imaginaram. Depois de uma grande procura ele a encontrou: estava mais velha que ele. Os seios atuais e envelhecidos de Duíla ele não conseguiu ver; mal-escondidos debaixo de um vestido velho, sujo e amarrotado, estavam dois ovos fritos achatados. O aposentado, desiludido, retornou à pensão onde se hospedou na pequena cidade e lá permaneceu à espera da próxima “jardineira” que o levaria de volta ao Rio de Janeiro. Seu sonho terminou: os seios de Duíla desapareceram no tempo; agora, enterravam as lembranças do aposentado. Era o fim de um sonho, de um julgamento feito anos e anos atrás.

Os estudos atuais mostram que quando certas pessoas julgam as condutas relacionadas ao aborto, homossexualismo, pornografia ou incesto como violações morais, geralmente elas discutem esses problemas focalizando e enfatizando suas possíveis consequências danosas. Por outro lado, as pessoas que expressam não serem tais ações erradas, geralmente não citam nenhuma consequência danosa. Também, uma pessoa que pensa que a vida começa na concepção geralmente se opõe ao aborto; enquanto que a que pensa que a vida começa mais tarde, quase sempre, não se opõe ao aborto. Para muitos pesquisadores, o simples julgamento antiaborto (um sentimento de asco ao aborto) produz uma representação mental que inclui o aparecimento da vida começando na concepção, ou seja, uma explicação arrumada automaticamente é gerada após o sentimento de asco diante da imaginação do evento.

Alguns autores examinaram respostas de americanos e de brasileiros para ações não aceitas culturalmente, mas, por outro lado, não ofensivas à moral vigente. Entre essas esquisitas condutas para serem avaliadas estavam: comer o nosso cãozinho de estimação que morreu; limpar nossas partes íntimas com a bandeira nacional e outras semelhantes. As histórias foram cuidadosamente construídas de modo a não trazer danos plausíveis, pois ninguém seria vitimado pelas ações perguntadas. Mesmo assim os participantes da pesquisa afirmaram que as ações eram universalmente erradas. Eles, com frequência, afirmaram: “é errado comer o cãozinho de estimação…”. 

Suas reações afetivas para opinarem sobre as histórias contadas foram ótimos indicadores para antever o julgamento moral que os sujeitos fariam em seguida. A maioria dos julgamentos são causados por intuições morais vagas, podendo ou não ser seguidas por raciocínios construídos após a intuição moral.

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