Julgamento e Distância Psicológica: Tempo, Lugar e Proximidade

Imagem - Julgamento

A distância psicológica temporal

Do mesmo modo como o julgamento de pessoas é alterado conforme estamos “quentes” ou “frios”, as diversas avaliações também podem ser mudadas se estamos psicologicamente mais ou menos distantes da pessoa, fato ou situação a ser avaliada. O julgamento será mais “quente” (afetivo) quando estivermos mais perto da situação e mais “frio” (cognitivo) quando estivermos mais distante.

A pessoa pode fazer planos para, num tempo distante, talvez daqui a três, quatro ou cinco anos, se casar, ter filhos, netos, viajar feliz com a família, etc. Tudo isso é muito fácil de ser imaginado conforme um plano muito distante a ser realizado. Quando imaginamos um futuro muito distante, como o relatado acima (fazer um vestibular e formar numa faculdade), visualizamos o futuro de modo ultra-simplificado, e, portanto, deformado, pois dispomos somente de idéias abstratas (cognições, pensamentos) e muito gerais, com poucos, caso tenha, dados concretos e ou específicos.

Geralmente as pessoas têm menos informações de um futuro distante do que de um mais próximo. As construções de níveis altos contêm menos aspectos incidentais (imprevisíveis) e contextuais (o fato no seu todo) e, consequentemente, as abstrações (a generalidade) comumente escondem (encobrem) a realidade a ser enfrentada e alteram as predições. Por isso, por não percebermos a realidade futura, quanto mais distante mais difícil será nossa objetividade. Temos uma maior confiança no futuro distante que no mais próximo; avaliamos um e outro de modo diferente.

As pessoas adiam; podem e deixam, muitas vezes, para depois, as ações relacionadas ao futuro distante esperando uma maior informação que estiver mais perto do tempo/fato. Algumas pessoas são mais capazes que outras, mais bem treinadas a examinar uma situação de futuro-distante com os olhos de um futuro próximo, focalizando os detalhes, o concreto e os aspectos práticos.

Possuidoras de avaliações otimistas, mas intuitivamente com medo de encarar o fato presente, as pessoas podem, muitas vezes, adiar suas decisões até que cheguem muito perto da situação futura a ser enfrentada. Elas podem, portanto, começar pensando acerca da situação futura em termos de seu conhecimento geral e ou abstrato, deixando para mais tarde as metas e os pensamentos adiados – deixar para depois – acerca do mais específico, do concreto, dos aspectos secundários e desagradáveis da situação: “Estou engordando; vou fazer um regime e ginástica, pois isso irá me ajudar”. Uma idéia como essa você já deve ter dito para você mesmo muitas vezes. Entretanto, poucos iniciam a atividade concreta e específica descrita de forma abstrata e agradável no plano.

As predições de todo o dia, os julgamentos e as escolhas pertencem a acontecimentos que ocorrem em algum ponto de um futuro mais próximo ou mais distante. Podemos decidir, nesses casos, num curto ou num longo tempo, em avançar e progredir, como no caso de avaliar a aceitação de um emprego, de tirar umas férias numa certa época e lugar ou iniciar uma dieta. O ponto aqui enfatizado é o julgamento, e a decisão é muito diferente quando estamos mais perto do momento da decisão a ser tomada do que quando ela é apenas desenhada (imaginada) mentalmente. Construímos planos mais abstratos para os eventos imaginados de ocorrer num futuro distante (Que curso farei?) e planos mais concretos e específicos para os eventos que devem ocorrer num futuro próximo (O que farei hoje à noite?)

Os planos que fazemos muito distantes quanto ao tempo tendem a ser imaginados mais positivamente, isto é, julgamos os fatos futuros de maneira favorável e agradável, pois nessas especulações quase nunca trabalhamos com a incômoda presença dos fatos reais e possíveis de serem observados, muitos deles indesejáveis, mas sempre presentes durante a realização concreta da ação. É muito diferente imaginar “Irei um dia à Índia” do que realmente, daqui a dois dias, viajar para esse país.

Portanto, os fatos chatos e concretos somente aparecem em nossa mente, com extrema nitidez, quando planejamos uma ação que deverá ser executada num futuro muito próximo, como, por exemplo, ir hoje à tarde ao dentista. Esse último caso é bem diferente do plano de um dia ir à Índia, pois ir daqui a pouco ao dentista obriga a pessoa a trabalhar com fatos concretos: a roupa a vestir, a hora de sair, o preço do tratamento, se a anestesia irá atrapalhar falar ou engolir os alimentos, o trânsito, os “trombadinhas”, etc., etc.

Nós todos, presumivelmente, planejamos ou concebemos nossas idéias usando níveis mais elevados de informação (abstrações) quando pensamos acerca de eventos que ocorrerão num futuro mais remoto, em localizações geográficas mais distantes, em objetivos sociais longínquos e no caso de eventos hipotéticos e ou incertos, bem diferentes dos níveis usados (mais concretos) em casos opostos: fatos com pessoas, lugares e épocas mais próximas e com mais probabilidade de acontecer.

Tudo isso tem recebido o nome de “distância psicológica”, um processo que tem muito a ver com o valor “afetivo ou quente”, caso o fato esteja mais próximo e, de forma diferente, um valor “cognitivo ou frio” (calmo), se o fato estiver distante.

Quanto maior for a distância temporal, mais provavelmente serão os eventos representados em termos simplificados, contendo poucos aspectos do imaginado: “Acho que tem um lugar para mim no céu. Acredito que a vida lá deva ser agradável” ou “Tenho vontade de ir à Lua”. Esse mapa supersimplificado tem sido chamado de construção de alto nível, diferente da construção de baixo nível criada para os fatos imaginados mais próximos relacionados a detalhes mais concretos e relações incidentais.

Pensando assim, percebemos que as construções de alto nível (mais abstratas e afastadas), comparadas com as de baixo nível (as concretas e próximas), têm impactos diferentes tanto em nossos julgamentos como nos comportamentos.

A desejabilidade refere-se ao valor de um estado final de uma ação, enquanto que a possibilidade refere-se à facilidade ou dificuldade de alcançar o estado final. Exemplo de desejabilidade refere-se ao valor de conseguir um emprego oferecido, enquanto a possibilidade diz respeito à quantidade de tempo e de esforço que vamos investir para obter o emprego imaginado. A desejabilidade refere-se ao “porque” dos aspectos da ação, enquanto a possibilidade reflete o “como” dos aspectos da ação. A desejabilidade constitui a construção do alto nível da ação, enquanto as considerações de possibilidade constituem as construções de baixo nível da ação. Certos planos são primariamente guiados pela desejabilidade da atividade. Ao fazer planos para um futuro distante, o indivíduo parece considerar cada atividade isoladamente e falha para tomar em consideração que cada atividade que ele planeja surge às expensas de alguma outra atividade que ele pode querer engajar ao mesmo tempo.

Tipos diferentes de abstrações nas construções relatadas e avaliadas

As ações dirigidas a uma meta podem ser construídas em termos de metas com diferentes níveis de abstrações. As construções de níveis altos são provavelmente criadas para incluir identificações de ações do nível “meta/porque” e não do nível “meios/como”, ou seja, no nível mais baixo. As propriedades dos objetivos últimos do Estado (governo, nação), bem como as propagandas enganosas, usam e abusam do “meta/porque”, pois são provavelmente parte das construções de níveis mais elevados, enquanto as propriedades dos “meios/como” para se alcançar os fins são para os níveis mais baixos de construção. Um exemplo: a afirmação “Farei uma tese” apresenta um nível mais elevado que a proposição “Testarei hipóteses da tese”, pois esta apresenta um nível mais baixo.

Nota-se que os aspectos da ação que estão relacionados à meta “Farei uma tese” são mais centrais para o significado da ação que os não relacionados à meta durante o “Testar hipóteses”.

Os eventos imaginados como fazendo parte de um futuro distante, como os relatados nos exemplos citados anteriormente, podem ser classificados através de poucas, ao mesmo tempo, categorias mais abrangentes ou gerais. Por outro lado, os eventos imaginados como fazendo parte de um futuro próximo são classificados num número relativamente grande de categorias, mas estas são mais específicas e restritas. De forma semelhante: é diferente a visão da pessoa diante de um quadro contendo uma grande pintura e diante do mesmo quadro olhando-o numa perspectiva mais próxima. Nesse último caso, os detalhes são observados com esmero e mais nomes são dados aos detalhes observados.

Emoções ligadas às construções abstratas e concretas (geral e específica)

Vamos supor, por exemplo, uma construção abstrata, bastante geral, vaga e distante: “Ajude sua comunidade”. Esta idéia geralmente produz mais emoções (intuições) positivas ou agradáveis que uma construção mais concreta e específica, como, por exemplo: “À noite, dê um prato de comida para um sem-teto”. Podemos predizer que a construção inicial e mais geral é provável de ser adotada mentalmente, apenas mentalmente, para, se possível, num dia qualquer, ser usada num futuro distante. Para a segunda e mais concreta construção (dar um prato de comida ao sem-teto), o inverso seria observado. A ação imaginada num futuro distante é sentida como mais agradável que a outra; ela é a construção preferida e mais usada pelos políticos e governo em geral, isto é, discursos sobre as metas e não sobre os meios de alcançá-las.

Distância psicológica: cognição e emoção

Uma outra hipótese afirma que o efeito da distância temporal variará conforme a valência do efeito seja positiva ou negativa. Para essa idéia o valor de todo efeito diminui (cai, enfraquece) conforme a menor distância temporal. Por exemplo: o valor prazeroso de receber um hóspede deverá aumentar durante um “futuro distante”. Nesse caso, a pessoa, bem antes da visita chegar, pode imaginar: “Que bom! Daqui a um mês minha querida amiga M. virá passar uns dias comigo!”. Entretanto, ao se aproximar o dia da chegada do hóspede, a pessoa tende a pensar de outra forma: “Meu Deus! Amanhã terei que mudar toda minha rotina, pois M. vai chegar. Por que fui convidá-la para vir agora?”.

Portanto, algumas vezes a pessoa “saboreia” o prazeroso evento ao antecipar a consumação de um evento positivo. Por outro lado, a antecipação da consumação de um evento potencialmente negativo provocará uma sensação desagradável diante da possibilidade de sua obrigação (o dia de pagar uma dívida feita há um ano ou de se hospitalizar para submeter-se a uma cirurgia, etc.).

Muitas vezes, os desconfortos e gratificações momentâneas podem impedir a pessoa de atingir seus interesses a longo prazo: uma pequena dor física pode desencorajar o paciente a se submeter a um teste médico, um bolo de chocolate pode levar a pessoa a quebrar a dieta, um leve desacordo pode provocar um agressão incontrolável.

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