Intuições Populares Adquiridas: Cultura de Massa e Domínio da Mídia

Imagem - Cultura Popular, Influencia da Mídia

A cultura de massa utiliza a imaginação como sendo a realidade. Por outro lado, a própria realidade sensorial é modificada pela imaginação. A informação transmitida de boca em boca e através da imprensa se mistura com a ilusão e com o fantástico. Geralmente, junto à realidade captada pelos órgãos sensoriais os habitantes da cidade inoculam, emocionados, o sensacionalismo, o incerto, o inesperado e o esquisito nas histórias trocadas: “uma mulher procurou o Pronto Socorro sentindo dores na vagina após copular com um cão e cortar o pênis dele que não queria sair”. A informação é o homicídio, o acidente extraordinário, o “chifre” sofrido por alguma figura conhecida e notável da cidade.

Além disso, para compor os personagens interessantes do roteiro, astros bem ou mal conhecidos, da comunidade ou das novelas e esportes, adorados ou odiados, são recrutados.

Os deuses atuais em Lumeeira - como acontece também com os relatos do Deus primeiro e único - são descritos como vivendo fora da realidade cotidiana, de forma diferente de todos nós. O que parece um sonho e que tem pouco a ver com a realidade de todo o dia é privilegiado: os encontros e desencontros dos artistas, as brigas e namoros dos grandes jogadores, as princesas ricas e as paupérrimas fantasiadas como poderosas por um dia. As conversas, discussões e os assuntos em geral versam sobre as intrigas entre os deusinhos, seres esses que fingem se assemelhar à realidade, mas exibem, nas entrelinhas, o excitante: sua diferença do banal, do feijão com arroz, do cotidiano.

A cultura fabricada pela mídia para uma população cansada, impotente diante da realidade e sem emoções próprias, transforma o percebido pelos órgãos dos sentidos em ilusões divertidas e excitantes, mas sem riscos, pois são experiências de outros. A população, com raríssimas exceções, está sempre pronta para aplaudir e agredir os ídolos; o grande sonho é ser um deles, mesmo descrevendo as misérias de sua vida íntima. Para se obter o sensacionalismo tudo vale: pegar em baratas, comer fezes ou comer quilos de comida em poucos minutos, imobilizar os músculos por horas, dançar até desmaiar, tirar a roupa no gelo, contar abusos e incestos na família. Tudo isso excita o “voyeur” por minutos, o telespectador que, carente de emoções próprias, só possui emoções vicariantes (sentidas pelo outro). O homem comum de Lumeeira não é descrito na imprensa local. Mas as “autoridades”, geralmente descritas como “uma das maiores autoridades do país”, nisso ou naquilo, ordenam de maneira formal como agir diante dos fatores possíveis de provocar as doenças orgânicas gerais. Pouco é falado da maneira particular de pensar e agir. As “autoridades”, médicos e psicólogos, como sempre, prescrevem, como sábios, deusinhos intocáveis, modos de agir para todas as pessoas e em todos os lugares; todos sabem o que o outro deve fazer.

Nos jornais da cidade e nos debates nas televisões e rádios, os termos mais pronunciados por esses pequenos ditadores são: “é preciso”; “os pais têm que”; “as pessoas devem agir”; “é preciso fazer exames da mama periodicamente, usar camisinhas, tirar a pressão arterial, praticar exercícios físicos, fazer exame de próstata, evitar bebidas alcoólicas, etc.”. Quase sempre as prescrições terminam assim: “Conforme o caso deve ser procurado um profissional competente”.

As ordens são diversas e divertidas. Pouco se ouve acerca da conduta humana normal, comum, a diversificada. Podem também surgir relatos de “doentes”: deprimidos, esquizofrênicos, obsessivos, ansiosos e outros, mas não do sadio e concreto. Não se discute a conduta, bem como a emoção, motivação e cognição normal, a não ser esporadicamente, e, geralmente, tal assunto mostra um pequeno interesse do público.

Ignorando a maioria da população de Lumeeira - o homem comum e peculiar - incentivada pela “informação” da mídia superficial e geralmente incorreta - o cidadão de Lumeeira torna-se cada vez mais infantil e tolo. Mais e mais jornais, revistas, livros e TVs, continuando o desensino iniciado em casa e na escola, divulgam temas infantis (história em quadrinhos, imagens, desenhos e fotos e mais fotos).

Assim encontra-se o povo de Lumeeira: a criança finge de adulto; sem saber, representa um tolo dando opiniões sem respaldo; o adulto, por sua vez, tenta representar o que seria segundo a teoria, o homem adulto padrão; para isso imita o que já é há muito: um imbecil como os outros. Os jovens, por sua vez, cospem regras e normas, mensagens sem carne e osso; deduções retiradas de princípios intuitivos infantis, usados por toda a população, informações que não se baseiam em nenhuma experiência vivida e nem em teoria científica digna desse nome, isto é, bem fundamentada e experimentada.

O velho de Lumeeira, coitado, se aposentou, geralmente muito cedo, realizando o seu grande sonho desde que adquiriu a fala: não ter nenhuma obrigação a cumprir. O idoso se tornou “caduco”, “incapaz”, “velhinho”, “coroa”, “lindinho” e “engraçadinho”. O antigo pai deixou de ser o orientador de pessoas. Assimilado e sorvido pelos roteiros das novelas ou dos filmes, renasceu sob a forma de “amigão bobo”: dança sem graça, faz piadas contra si mesmo e mente, sem graça e sem ânimo, que vive a “melhor época da vida”. Os idosos de Lumeeira, seguindo a afirmação de que “fomos feitos à imagem e semelhança de Deus”, procuram ser eternos e famosos como Ele e os Anjos e, assim, não morrer e nem envelhecer.

O pai, tendo morrido antes da hora, passou a viver desprovido de emoções próprias (entediado), e, para emocionar-se, adotou as emoções representadas pelo filho, personagens de novelas ou netos: “Nada mais gratificante que ter um neto para criar”.

Da mãe, a mulher antiga envolvente e serena do passado, nasceu a nova mãe: agitada, pisando duro, de terninho, trabalhando sem parar, trinta horas diárias. Todas elas, para serem bem julgadas pelo júri popular, para o qual elas representam, são forçadas, pela sua obediente mente, a declarar publicamente (para se convencer) que são felizes, pois estão sempre prontas para amar e amar, depois de trabalhar e trabalhar sem saber para que e porque fazem uma e outra coisa.

Os antigos modelos de identificação antes existentes em Lumeeira, bons e maus, estão cada vez mais escassos; não mais se fabricam os antigos e poderosos heróis/endeusados pela população. Seres imaginados pela cultura de massa, não seres reais, tomaram o poder tradicionalmente ocupado pelos expoentes da família, da escola ou vizinhança. Todos querem ser parecidos com essa “forma” divulgada: o grande cantor, ator, jogador ou, até mesmo, bandido.

Um novo modelo de vida é a busca frenética, desenfreada e maluca da auto-realização, custe o que custar. Seu objetivo fundamental é ser o “maior”, “principal”, “importante”, “melhor” e conseguir entrar no livro dos recordes ou dos excepcionais. Há uma luta constante para ser o melhor do mundo no futebol, na beleza, ter o melhor corpo, ser o cientista mais famoso, maior assassino, maior idiota ou ter mais casos familiares ou sexuais esquisitos, etc. Todos precisam aparecer, representar algo que chame a atenção, mesmo que seja para transmitir um ato deplorável: matar a mãe e o pai a porretadas e depois, para comemorar, comer lagosta ou caviar e beber champanhe francês. Por fim, transar no motel de luxo, pois, uma vez a notícia sendo divulgada, o desconhecido indivíduo torna-se o comentado em todos os lugares, isto é, se transforma de ignorado a famoso.

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