Introdução ao Estudo das Intuições: O que é Intuição?

Imagem - Intuição

Intuição, segundo o dicionário Houaiss: 1) é a faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise; 2) segundo a filosofia: forma de conhecimento direta, clara e imediata, capaz de investigar objetos pertencentes ao âmbito intelectual, a uma dimensão metafísica ou à realidade concreta.

As palavras, intuição e raciocínio, são usadas visando a capturar duas espécies de conhecimentos contrastantes segundo dezenas de filósofos e psicólogos. Uma importante distinção é a de que a intuição ocorre rapidamente, sem esforço e automaticamente, sendo que o resultado final não foi processado por uma consciência plena e acessível. Por outro lado, o raciocínio ocorre mais lentamente, exige algum esforço e envolve, no mínimo, alguns passos que são acessíveis à consciência. A intuição, o raciocínio e as avaliações são processos cognitivos que encerram em si emoções.

Conduta e princípios subjacentes: duas intuições antagônicas

Você, leitor, deve ter percebido o desacordo entre dois princípios básicos que você usa para compreender a conduta dos filhos, dos amigos e inimigos. Dependendo do momento usa-se um princípio, num outro, usa-se um diferente. Tudo bem caso fossem usados para o mesmo fim, mas eles são antagônicos.

Num instante, xinga-se o filho de vagabundo, pois ele não fez os deveres de casa e não estudou como se esperava. Subjacente ou ligado a esse modo de pensar, encontra-se a suposição (um princípio) de que o filho, se quisesse, podia ser um bom aluno e, para isso, bastava ter “força de vontade”. De outro modo: o filho, se desejasse, poderia “escolher” ser um bom aluno e tirar boas notas. Imaginamos, quando classificamos nosso filho de “preguiçoso” ou “vagabundo”, que nossos objetivos foram determinados por nós ou por nossa suposição intuitiva da existência da “livre vontade”.

Num momento diferente, no trabalho, no laboratório ou mesmo no trânsito, você, que defendia anteriormente a “liberdade de escolha” e a “força de vontade”, passa a usar um outro princípio orientador das observações. Sem perceber e de modo natural, você usa o entrelaçamento de um fato a outro (um princípio de causa e efeito), como nos exemplos: “choveu devido à chegada de certa nuvens frias que se encontraram com outras quentes”; “durante a chuva, sem lugar para me abrigar, molhei toda minha roupa”.

Nessas afirmações você narrou algumas “razões” do aparecimento da chuva e também de ter se molhado conforme causas anteriores. Mas os exemplos acerca da ligação de um fato a outro são diversos. Pensamos que a causa da pressão alta e da obesidade pode ser devido ao uso de certos alimentos e de um tipo de vida. Também, ligamos o trânsito fácil ou engarrafado segundo um feriado sem movimento ou devido a uma batida. Relacionamos ainda a criminalidade que cresce a alguma coisa, bem como o desemprego, a roubalheira e os acidentes nas estradas e até mesmo a possibilidade do Brasil ganhar a Copa do Mundo ou, ainda, de ganhar a sena.

A maioria das pessoas age assim. Apresentam um raciocínio lógico, tanto no serviço, como nos aspectos de sua vida relacionados à sua área de trabalho; eles pensam matemática e logicamente. Não há imprecisão, nem idéias preconceituosas. Durante seu trabalho, de cada premissa elaborada, sempre bem posta, elas deduzem conclusões com proposições que não contêm nenhuma dúvida, exibindo clareza de pensamento produzido por uma razão lúcida e expresso sem palavras ambíguas.

Esse modo formal de raciocinar, entretanto, se transforma totalmente – vira de perna pro ar – quando focaliza alguma conduta humana, fora do seu domínio estrito; elas se perdem completamente. Muitos médicos clínicos, capazes de pensar com precisão com respeito aos problemas orgânicos do paciente, tornam-se “débeis mentais”, no bom sentido (figurado) da palavra, quando navegam nos problemas emocionais e motivacionais do cliente. Nesse caso, seu raciocínio, antes impecável, torna-se carregado de crenças e intuições sem nenhum suporte sensorial, lógico e racional. Esse modo de avaliar foi aprendido muito cedo.

Nesta virada de princípios sustentadores do raciocínio a ser elaborado, os indivíduos deixam de lado a impecável lógica usada e partem para o emocional: xingam o juiz do jogo de futebol, batem no filho que o desafiou e agridem a empregada devido a sua “má vontade”. Essas pessoas podem ser, na política, Bushistas, na religião acreditam em milagres e no poder de comprar Deus com uma rezinha acanhada e fingida, para ganhar mais dinheiro e não permitir que sua esposa descubra quem é sua amante e no futebol sua paixão é o Atlético.

Ao discutirem cada um desses temas, essas pessoas se tornam, de repente, perfeitos animais irracionais e idiotas. Nós todos agimos assim: alguns mais, outros menos. Toda a bela lógica mental é transformada em palpites, preconceitos, desejos, fé cega, superstições, incoerências umas após outras, deduções apressadas e hipóteses duvidosas e não comprovadas; nesses momentos a maneira de falar do indivíduo envergonharia qualquer tratado elementar de lógica.

Durante essas discussões irracionais, os indivíduos se tornam outros seres, mais animais que humanos, mais impulsivos e emocionais que racionais. Incorporados por esses espíritos, esses indivíduos não mais sabem argumentar nem ouvir argumentos de seus opositores. Levantam a voz, se enfurecem, desafiam, e, às vezes, agridem fisicamente seus opositores, isto é, tudo contra os princípios defendidos e usados no trabalho.

No primeiro caso, a pessoa é racional, no segundo, irracional. No primeiro caso a pessoa raciocina usando a lógica aprendida após seu nascimento, um atributo próprio do homem; faz uso para raciocinar de seus córtices cerebrais. No segundo caso, durante suas críticas e motivações emocionais, o indivíduo faz uso de atributos já existentes ao nascer (reações emocionais e motivacionais diante de frustrações); para xingar e agredir, a pessoa utiliza-se de regiões do cérebro subcorticais, ou seja, parte do cérebro que nós compartilhamos com boa parte dos outros animais.

Ora, segundo o último princípio (crença) usado, você afirma o oposto do primeiro princípio, isto é, conclui que o estado de espírito, o sentimento e a vontade humana, bem como suas ações, relacionam-se ou dependem de cadeias causais inquebrantáveis. Entretanto, no primeiro princípio (regra, direção) declara seu oposto, ou seja, que o homem – seu filho ou inimigo – é o responsável por seus atos, isto é, que nós poderíamos agir, se quiséssemos, de forma diferente de como agimos. De onde nasceu esse “querer”? Onde ele está apoiado? No ar? Não! Ele está presente em nossos desejos e intuições; uma forma de pensar impossível de ser explicada por razões lógicas.

Tipos de intuições

Que intuições são essas? Muitos cientistas cognitivos acreditam que o raciocínio humano não é executado por um computador único e sim por vários. Para essa idéia, nosso organismo é equipado com diferentes tipos de intuições e de lógicas, da mesma forma que o mundo é heterogêneo. Cada uma dessas é apropriada a uma área da realidade. Uma pessoa pode ser precisa e realista em uma área, como, por exemplo: ser um excelente físico ou químico e rigoroso e exato em suas pesquisas. Entretanto, pode ser, também, em outra área, um seguidor de doutrina avessa à experimentação exata, admirador de macumba e de rezas milagrosas, quando alguém da família adoece. Esses diferentes modos de conhecer e lidar com a “realidade” têm sido chamados de sistemas, módulos, posturas, faculdades, órgãos mentais, modelos, inteligência múltipla, dupla atitude e mecanismos de raciocínio.

Nossos processos (assimiladores) mentais emergem no início da vida, estão presentes em todas as pessoas normais e parecem estar localizados em conjuntos de redes parcialmente distintas no cérebro. Podem ser instalados por diferentes combinações de genes ou emergir quando o tecido cerebral se auto-organiza em resposta a diferentes problemas a serem resolvidos e a diferentes padrões de estímulos sensoriais (sua plasticidade). Em resumo: nosso assimilador mental desenvolve devido aos genes, à plasticidade cerebral e aos estímulos do meio ambiente. Esses três fatores dão origem ao modo de captar informações e de lidar com elas.

Por desejo próprio, mas principalmente devido ao acaso, o homem comum aprende noções de ciências, como as de Psicologia (como pensam e agem as pessoas) e de Física, para acompanhar como os objetos caem, ricocheteiam e vergam. A intuição central é o conceito de objetos, que ocupa um lugar, existe por um intervalo de tempo contínuo e obedece a leis de movimento e força; o povo não se apóia na Lei de Newton, mas sim nas ingênuas idéias de Aristóteles, descritas alguns séculos antes de Cristo. O homem comum aprende, também, um pouco de Química (o gosto do sal e do açúcar) e de Biologia (os animais amigos e inimigos, as plantas venenosas e as comestíveis), entrelaçadas ao aprendizado religioso, ideológico e outros conhecimentos.

Entre as informações aprendidas estão os diversos mitos (histórias fantásticas) acerca do homem, de suas relações, da ordem social, da saúde e da doença, da religião e de Deus, das leis e da ética, do bem-estar, do poder, da afeição e amor, das habilidades excepcionais, bem como do universo em geral.

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