Introdução

“Na aurora de sua longa viagem, a Ciência aparece sob a forma de Janus, o deus de dupla face, guardião das portas: uma das faces abre para o horizonte seus olhos claros, a outra deixa vagar, na direção oposta, um olhar de vidro, um olhar de sonho”.

A. Köestle

Podemos comparar a vida de uma pessoa, do nascimento à morte – no que diz respeito ao conhecimento – com a jornada do saber ocorrido a partir do aparecimento do homem até a atualidade. No início, histórias e mais histórias, até que bem mais tarde começa a aparecer a ciência voltada mais para as observações e questionamentos das antigas verdades aprendidas sem críticas.

No nosso desenvolvimento, do nascer ao morrer, percorremos caminho semelhante. No início de nossa vida escutamos as mais diversas histórias, as que têm pouco ou nada a ver com a realidade. Devagar, trombando a todo instante com a realidade frustrante, somos forçados a encará-la de frente e, consequentemente, obrigados a modificar muitas de nossas suposições acerca da família, religião, justiça, amizades e tudo o mais.

Previamente a todo saber sempre há uma primeira aquisição de informações adquiridas de modo natural ou espontâneo: é o pré-saber. Este conhecimento inicial, apesar de conter inúmeros erros quanto à realidade que iremos enfrentar, servirá, mais tarde, de base para as construções das outras informações que serão adquiridas. Na maioria das vezes, nós carregamos esse pré-saber para sempre e, lamentavelmente, raciocinamos a partir desse fundamento equivocado a respeito de quase tudo no que diz respeito às normas, lógica, composição e causas dos acontecimentos.

Aristóteles afirmou: “Toda disciplina susceptível de ser aprendida e todo estudo comportando progresso intelectual constitui-se a partir de um conhecimento já existente. O teorema de Gödel (1931), que provocou uma revolução quanto à validade ou não de um argumento, demonstrou que a aritmética (como qualquer outra área do conhecimento) contém enunciados que não podem ser demonstrados a partir dos axiomas da aritmética. A demonstração da aritmética exige uma teoria que transcenda a aritmética (uma meta-aritmética). De outro modo: nenhum sistema lógico é completo por si mesmo (auto-suficiente), pois só pode ser descrito e compreendido através de um outro sistema, ou seja, do metassistema.

Esta idéia tem sido aceita e seguida pelos que buscam, de modo sério e honesto, defender seu raciocínio. Portanto, todo sistema possui limites. Esta limitação constitui um antídoto lógico contra os delírios retóricos dos discursos totalizantes das pseudociências, de pregadores e políticos. Tentando clarear o descrito acima: não devo – não tem valor – explicar um acidente de carro afirmando que os acidentes ocorrem, pois sempre aconteceram. Entretanto, poderá ter alguma validade explicá-lo através de outros sistemas já conhecidos e aceitos, por exemplo: que havia excesso de velocidade, que a neblina dificultou a visão do motorista e do pedestre, que o motorista dormiu ao volante, que ele estava bêbado, que o carro foi fechado por outro, etc.

Voltando ao nosso desenvolvimento. Pouco a pouco, caso tivermos sorte, durante e após nossa juventude, passamos a ouvir ou a ler outros relatos, outras histórias mais plausíveis e relacionadas ao mundo percebido, isto é, uma realidade mais relacionada ao observável que aos mitos (fantasias). Sei que os leitores, como eu, foram, desde cedo, se acostumando e, inclusive, apreciando mais as falsas histórias acerca da realidade que as mais verossímeis.

Eu, entretanto, por ser um pouco ou muito teimoso, resolvi escrever esse livro criticando uma das faces de Janus: a do olhar de vidro, o olhar de sonho. Por que faço isso?

Parece-me que todos nós, em qualquer profissão, procuramos saber mais acerca do que fazemos, isto é, ter maior conhecimento da realidade com a qual relacionamos. Lidando com objetos ou pessoas, fatos ou acontecimentos, temos que, frequentemente, deduzir qual a conduta será mais adequada para solucionar esse ou aquele problema. Ninguém se sairá bem, será eficiente e produtivo ao trabalhar como motorista, vereador, engenheiro, pedreiro, cozinheiro, varredor, lavrador, fazendeiro, etc., ao usar conhecimentos produzidos por suas ilusões ou sonhos, ou seja, pelo seu pré-conhecimento. Infelizmente, frequentemente, isso ocorre.

Deduzi – posso estar errado – que seria interessante conhecer com os olhos claros do Deus Janus a conduta humana, pois o comportamento do homem tem sido descrito, quase sempre, através do olhar dos sonhos (mitos, fantasias). Eu sei que ele é mais agradável, pois descreve um mundo e pessoas otimistas e boas, onde há, quase sempre, um final feliz. Mas esse relato não descreve a verdade; ela tem nos enganado.

Quase toda a literatura que li sobre o comportamento durante minha juventude e no início de minha carreira de médico, psicólogo e professor, descreveu a cognição humana, emoção e a conduta com os olhos de vidro embaçado. O resultado todo leitor deduzirá. Se você não aprendeu cientificamente, aprendeu com o pré-saber – apenas com olhos de ilusão – você irá dirigir seu carro em alta velocidade, não calculará o peso do carro numa batida, a incapacidade do freio diante da velocidade, que sua visão piora à noite, que o álcool faz você se sentir mais capaz quando está incapaz, etc. Todas essas suposições do pré-saber levarão você a ter mais propensão a bater, se ferir ou morrer enquanto dirigir seu carro com essa mente infantil e tola.

Do mesmo modo, se você tem apenas um pré-conhecimento de eletricidade e vai arrumar a fiação de sua casa, está sujeito a tomar um choque ou incendiar sua casa, talvez a família. Do mesmo modo, se você atua com o pré-conhecimento com seus filhos, com o namorado, vizinho, colega, pais, etc., isto é, com o saber dos sonhos ou ilusões, você está sujeito a “queimar a cara” diante do que acontecerá no futuro. Provavelmente estará frequentemente frustrado diante das decepções e dos sofrimentos. Talvez se torne um queixador crônico e passe a usar álcool, calmantes, cocaína, ecstasy, crack ou outras drogas para suportar as desgraças da vida.

Aprendemos a nossa profissão fazendo cursos complexos para isso; entretanto, aprendemos na família, na rua, nos cursos idiotas e superficiais, carregados de asneiras como conviver com as pessoas, como arrumar um namorado, cuidar dos filhos, tratar os subordinados ou patrões e, principalmente, como administrar de modo eficiente sua própria vida, geralmente com os olhos de vidro. Nesse caso, você está frito! Sua vida vai ser um inferno de fracassos.

Na minha observação de psiquiatra e psicólogo, fundamentado na filosofia, – tendo muita sorte e algum jogo de cintura, felizmente escapei de ser intelectual -, imagino que a maioria das pessoas, devido ao precariíssimo conhecimento que tem de si mesma e, portanto, dos outros, executam uma péssima administração da própria vida. De outro modo, o indivíduo se acha abandonado por ele mesmo, poucos se salvam tentando conhecer mais o ser humano, isto é, o “objeto” que ele relaciona vinte e quatro horas por dia.

A maioria das pessoas cuida melhor, de modo mais eficiente e profundo das rosas do seu jardim, das abelhas, panelas, cortinas e do seu cãozinho que de si mesma.

Por isso escrevi esse livro. Ele é nada mais nada menos que meu esforço para entender um Galeninho tolo e infantil que habitou e dominou muitas e muitas vezes minha mente. Mesmo atualmente, bem mais maduro, o Galeninho, sorrateiramente, algumas vezes, retorna ao meu corpo cansado do real e usa os olhos embaçados e de vidro.

Aos poucos, lendo e escrevendo, fui sendo capaz, estudando muito para isso, de me compreender um pouco menos mal que antes. Consegui ser menos burro que era. Como sou igual, na maioria dos pontos, a você, penso que esse livro, lido e relido, poderá motivá-lo a lutar para se conhecer melhor e, também, conhecer com maior profundidade as outras pessoas. Isso, sem dúvida, tornará sua vida mais fácil e produtiva.

Os livros de ficção são bem mais fáceis e agradáveis de serem lidos; eu sei disso: gosto muito deles. Aqui usei os conhecimentos que adquiri através de minha vida. Aos trancos e barrancos, me apoiei na minha teimosia e curiosidade de ler e ler. Calculo que nos últimos três anos li aproximadamente 400 artigos sobre o ser humano, a maioria escrito a partir do ano 2.000 e, além disso, li e reli dezenas de livros sobre neurociência, todos atuais. Reli ainda outras dezenas ou centenas de textos filosóficos, principalmente sobre valores. Se isso ainda é pouco para você, largue meu livro rápido e escreva o seu.

Boa sorte!

O autor

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