Incutindo Intuição de Causalidade Sobrenatural

Imagem - Causalidade e Sobrenatural

Entre as explicações atuais acerca das causas dos acontecimentos encontram-se duas interpretações: as científicas e as míticas (mágica, sobrenatural). O povo de Lumeeira, em geral, ao interpretar um fato, faz uso, frequentemente, das relações míticas (“Graças a Deus, Mimosa, minha vaca malhada, deu um cria belíssima!”). Esse tipo de interpretação, também chamada de mágico-religiosa, composto de “alma do outro mundo”, “mula sem cabeça”, “fantasma”, “capeta”, etc. serve, de modo superficial e inadequado, para compreender e explicar as causas e consequências de um evento. Mas o meio ambiente da cidade propicia, ao mesmo tempo, o aprendizado de noções superficiais de ciências, geralmente idéias acerca do mundo visto como uma máquina que possui um mecanismo exato.

Para atribuir causas aos acontecimentos, há uma tendência das pessoas para formular e testar suas predições procurando certas informações que são prováveis de confirmar as expectativas ou crenças existentes e desejadas e muito pouco se usa para coletar dados para negar ou desconfirmar o esperado. Esta tendência tem sido chamada de “tendência confirmatória do raciocínio”. Se desejo escolher um bom vendedor, procuro um que confirme a minha crença de que os “bons vendedores são extrovertidos”, por exemplo. Seleciono este e continuo a manter minha crença de que para vender bem é necessário ser extrovertido e jamais tento fazer uma hipótese contrária a esta.

A inferência causal, na sua forma mais simples, consiste meramente na aplicação de determinada crença no acontecimento focalizado e ou percebido, inclusive crenças acerca da maneira de conhecê-lo (sensorial, intuitivo, teórico, emocional). O acontecimento, ele mesmo, serve para indicar o tipo de poder que podia ter operado para acontecer o fato identificado pela pessoa. O observador acredita que alguma coisa na proximidade do efeito tem, em sua crença, o poder para produzir o efeito visto.

Um céu avermelhado não é causa de um bonito dia seguinte. É meramente um sinal de um bom dia que pode vir. Esta interpretação inadequada é comum. Também a seta de um carro indicando que este irá virar à direita não é causa desse movimento, mas um sinal do que poderá ocorrer. Do mesmo modo, muitos fenômenos sociais exibem regularidade por serem fixados por um conjunto de regras processuais. Assim, uma regularidade nessas associações não pode ser interpretada como causa, como, por exemplo, o que acontece num ritual na igreja.

As causas dos fenômenos sociais são complexas e difíceis de serem conhecidas. Muitos fenômenos sociais exibem regularidade, não porque um causou o outro, mas, sim, porque eles estão ordenados de certo modo de acordo com certas regras ou ritos. Quando uma pessoa bate palmas, uma palma não é a causa da próxima, pois a sequência é devida a um estado interno da pessoa, do mesmo modo quando damos um passo quando caminhamos.

As pessoas, uma vez presas às crenças contidas em alguns mitos antigos, imaginam, no universo, um poder controlador de tudo. Este grande poder estaria colocado no topo de uma hierarquia. Sua influência procede para baixo e não para cima, semelhante ao poder patriarcal numa família, que tem o poder de gerar a vida, impor um padrão de conduta e de ordem na casa, tudo isso sem perder nada de sua força dominante. No topo da hierarquia encontra-se Deus ou a natureza. Logo abaixo está o tempo (estações do tempo), particularmente mudança de temperatura e a atividade dos seres humanos. Na base, mas sem poder, estão os animais e os vegetais. Esse modo de perceber a natureza leva as pessoas a supervalorizarem os efeitos do homem e a menosprezarem as reações da “base”. Para o povo, as coisas que estão no alto da hierarquia são vistas como grandes fontes ou origens do poder e domínio (causas e explicações de tudo) e este poder passa para baixo, ficando mais fraco com respeito à quantidade de efeitos capazes de produzir, até dissipar nos níveis inferiores da hierarquia.

Aristóteles visualizava as causas como poderes produzindo e gerando efeitos, de uma maneira antropomórfica de pai. A causa superior está sempre exercendo seu poder sem ser atingida pela de baixo, não tendo antecedente além dela. Daí talvez a frase popular: “O que vem de baixo não me atinge”, ou seja, só somos atingidos pelo que vem do alto. O nível do cume controla o que está nos níveis mais baixos no sentido que ele é a causa original e não tem causa além dele. Este poder não é afetado por outras causas ou pelo que está abaixo. O povo, como defendia Aristóteles, atribuía causas finais aos espíritos e ações vitais. De acordo com essa crença, os espíritos agiriam para ajudar ou prejudicar uma determinada pessoa, isto é, suas ações visam a um fim. Há ainda uma tendência popular para interpretar os acontecimentos naturais animisticamente. Muitas interpretações populares são carregadas de animismo e antropomorfismo: “A bola de bilhar deu um coice na outra e mandou-a voar”.

Teorias explicativas diferentes dessas têm mudado a visão popular acima descrita. Mostrou o conceito de organização, onde diversas relações de interdependência existem no mundo natural. Por exemplo, o indivíduo Pedro interage com sua família, seu grupo social, com seu coração, suas células, seus prótons e nêutrons. Cada um desses sistemas tem seus limites e suas peculiaridades de relacionar. Os sistemas podem exibir circularidade, criando assim ciclos e respostas tanto negativas, como no termostato, onde as ações são diminuídas, como positivas, onde as ações são acentuadas.

O povo também vê o mundo ou universo como um todo, como uma larga e complexa máquina, a qual opera suavemente e nunca falha ou deixa de seguir o que devia ser (essencialismo?). Nesse ponto de vista o universo é dotado de qualidades antropomórficas de propósito, direção e justiça social para formas mais maduras e construtividade. Há na máquina um espírito que a controla e dirige.

A origem do mundo do senso comum está de acordo com essa maneira de pensar: “As pessoas necessitam acreditar que elas vivem num mundo onde as pessoas geralmente obtêm o que elas merecem”. O termo “necessitam” mostra que a hipótese do povo é construída de acordo com essas necessidades de “um mundo justo”.

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