Histórias Infantis Contaminadas com Princípios Discutíveis

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Logo após o nascimento, os pais, os avós, tios e outros criadores de Lumeeira contam belas histórias e cantam canções melodiosas e ternas para as ainda inocentes e puras crianças. Muitas e muitas histórias, bem como letras de músicas, nunca mais abandonam a cabeça da criança: “A Gata Borralheira”; “Branca de Neve e os Sete Anões”; “Pinocchio”; “As aventuras de Gúliver”; “Alice no País das Maravilhas”; “Peter Pan”; “Cinderela”; “O sítio do Pica-Pau Amarelo”; “Boi da Cara Preta”; “Dorme que estou ao seu lado” e dezenas de outras. Todas elas são lindas, emocionantes e contêm pessoas boas e más, vivendo em lugares pobres e ricos e um grupo poderoso e outro submisso, geralmente feliz por agradar o importante, rico e bonito. Sempre há os “maus”, que pensam e agem contra o estabelecido e são punidos: presos, expulsos ou mortos. Mas há, também, o outro lado da maldade, os heróis, ricos e belos, quase sempre homens. Esses são agraciados, após uma vida cheia de lutas e vitórias, com uma “vida feliz para sempre”.

Escondidos nessas belas e, aparentemente, inocentes letras e histórias habitam princípios ou regras injustas, fruto de nossa maneira implícita de pensar quando havia uma aceitação pacífica e geral das desigualdades sociais, culturais e educacionais, pois essas faziam parte dos “desígnios de Deus”; sem dúvida nenhuma, diga-se de passagem, de um “Deus” parcial e favorável à escravidão e outras atitudes que hoje repelimos.

Para dar ao leitor um bom exemplo do dito acima, narro um trecho de uma canção inglesa muito cantada, segundo minha cansada e triste lembrança: “Os ricos em seus castelos, os pobres em seus porões, Deus os fez assim, diferentes uns dos outros...”. A idéia prescrita, em diversos relatos de séculos passados, era a aceitação sem revoltas do existente, pois este fazia parte de aspirações divinas. Por isso não devíamos ir contra o que acontecia, ou seja, contra a realidade, pois, do contrário, como contavam as histórias, nós seríamos castigados por Deus, já que Ele não gostava de questionamentos, mudanças e desobediências. O hino nacional inglês, que escutei durante a Copa de Mundo, é, sem parar, uma louvação ou exaltação à rainha; uma outra “Deusa”. Estou aqui criticando uma falsa idéia do senso comum acerca de Deus.

As histórias existem e, talvez, sempre existiram, em todos os lugares desde que o homem adquiriu a fala. Recentemente, houve um aumento das histórias e dos escritores de histórias infantis; salvam-se pouquíssimos que não cochilaram repetindo e mantendo os preconceitos nelas existentes; as discriminações comuns e mostradas nessas histórias.

O núcleo das histórias infantis, de mãos dadas aos preconceitos não percebidos dos pais e professores inocentes, dá origem, prepara e facilita a criação, sem revoltas, do respeito e aplausos pelas prerrogativas de alguns em detrimento da maioria; postos e honrarias, onde uns poucos têm acesso adequado ao crescimento. O resto da população é lixo. Uns vivem para aplaudir, rezar, orar, votar, bajular e servir aos importantes senhores do mundinho da comunidade; os outros, para serem aplaudidos, louvados, adulados. O grupo privilegiado se serve dos humildes para que esses realizem os trabalhos penosos e “não apropriados aos importantes”. A mídia (novela), frequentemente, mostra tudo o descrito acima.

Os princípios implícitos nas histórias aparentemente ingênuas

Tendo a cabeça já preparada pela família, desde o nascimento, para aceitar e contribuir para o processo de domesticação orientado para o “certo” e o “errado”, conforme os ditames fabricados por alguns poucos interessados na manutenção do existente, a frágil e inocente criança entra para a escola e, lá, escuta outras histórias, geralmente seguindo os mesmos roteiros: alguns homens poderosos (não me lembro de mulheres poderosas nas lendas, apenas as bruxas, as más), bonitos, inteligentes e ricos gozam a vida; outros, sem poder, feios, desdentados, pobres e idiotas vivem na miséria, sofrem, lutam e morrem, como soldados rasos, para agradar e defender o bem-estar dos poderosos.

As professoras de Lumeeira, como toda a população, ouviram e gravaram as mesmas histórias, contendo as mesmas informações e, portanto, não criticam suas prescrições veladas. Encobertos nas histórias habitam princípios inconfessáveis: o povo deve trabalhar e morrer para a felicidade de alguns poucos, os escolhidos por Deus e pela rainha, como fala a canção. Mais tarde, após ultrapassar o período da infância, os adolescentes e adultos jovens começam a trabalhar. Nessa época, a cabeça “já está feita”, prontinha para ser obediente e ordeira, que nada mais é que aceitar sua vida miserável, sem conhecimentos e oportunidades.

Na adolescência todos os princípios acerca dos valores de uma cultura já foram aprendidos e já se fixaram na mente dos jovens, pois, segundo os estudos, aprendemos esses valores entre os 9 e 16 anos, geralmente dos companheiros (e não dos pais como se acreditava) um pouco mais experimentados e que compartilham experiências semelhantes (locais onde residem, colégios onde estudam, tipos de lazer e condições econômicas semelhantes).

Uns estudam onde se ensina que sua família faz parte dos possuidores de maior poder e, nesse caso, poderão ser políticos, médicos, economistas, empresários, etc. Outros frequentam escolas onde o aprendido é o oposto e, nessa caso, eles poderão ser serventes de pedreiro, lavradores, lixeiros ou pequenos ladrões. Quando procura o primeiro emprego ou o primeiro vestibular, a cabeça do jovem já foi preparada para perceber, avaliar, pensar e viver do modo como foi determinada pelo seu grupo de referência, isto é, seus modelos. Um vai mandar e poderá ganhar fortunas e o outro vai obedecer e receber o salário mínimo.

A partir desse período, o jovem caminha aceitando tudo que ocorre conforme o modelo aprendido como natural e correto; uma obra do destino; um mandado de Deus. Em resumo, regras que devemos obedecer, pois só assim seremos aceitos como fazendo parte da “sociedade correta”, “honesta” e ordeira. Cada jovem, imaginando ser um bom cristão, vive conforme os desejos de Deus (um falso Deus impresso em sua mente para dar ordem e sentido ao absurdo). Desta forma, sente-se bem adaptado, um bom cidadão, pois vota e vive conforme as regras ensinadas nas escolas, nos livros, no interior das famílias e nas prescrições da Igreja e do Estado. Não devemos ir contra as regras atribuídas à Deus, à Justiça, à família e aos desejos da maioria, pois, nesses casos, seremos desordeiros ou loucos.

Essas regras impiedosas e desumanas passam a dominar todos os habitantes de Lumeeira. Uma vez impressas, assimiladas e armazenadas nas memórias de todos, elas permanecem e fazem parte do conhecimento ou saber popular. A partir de então, possuidor e possuído por essas crenças, o indivíduo defende, briga, mata ou morre em defesa dos princípios que o escravizam e o discriminam.

A Igreja, o Estado, o Papa, a escola e a família exortaram (persuadiram) ao obediente cidadão/cristão que ele deve, não só aceitar a vida miserável que leva, como, também, agradecer ao Presidente e ao falso Deus (inventado para isso: manter as diferenças) por ter nascido e que “a vida é bela”. Esta é uma das prescrições: temos que gostar da vida, das crianças e aceitar as desgraças como um presente divino. Alguns, mais agradecidos, imaginam ser a vida miserável que levam ainda pouco. Esses, visando a ganhar mais simpatia e amor da família, companheiros, guias espirituais, professores e do seu esquisito Deus, se autocastigam com chicotadas, penitências, jejuns, trabalhos forçados e outras condutas semelhantes, pois, desse modo, mostram aos seus diversos Senhores, irados e orgulhosos, sua submissão e aceitação.

De modo semelhante, um chimpanzé macho, bem como outros mamíferos machos, após perder uma briga com outro macho mais forte, encurva-se ou deita-se no chão (semelhante às fêmeas), sem mais esboçar reações agressivas. Essa conduta de derrotado expressa a aceitação do domínio do inimigo mais forte que ele e o desânimo em continuar a luta, pois, sendo mais fraco e impotente para esboçar qualquer reação contra o vencedor, ele está pronto para aceitar as exigências ou desejos do mais poderoso.

Histórias sobre uma conduta bárbara ou cruel do homem, do Estado e de “Deus” têm sido divulgadas através dos tempos. O humilde escravo desse aprendizado de submissão, aceitação e obediência às regras e aos superiores, disciplinado, sorri feliz por tolerar, sem reclamar, a crueldade e injustiça do “chimpanzé” vencedor. De tempos em tempos, alguns escolhidos, dóceis e servis, são agraciados com medalhas pelos chefes, numa noite escura e chuvosa, através de uma cerimônia hipócrita e insossa. Nesse seu dia amargo de rei de cuecas, ele recebe palmas de um auditório cansado e desconfiando da farsa que ali está sendo encenada.

A multidão solitária caminha feliz abraçada à hipocrisia da vida, dominada por uma ética leonina. Uma vez adulto o pobre cidadão, a argila mole de sua mente já endureceu e encontra-se moldada para se adaptar e se submeter a qualquer roteiro inventado pelos artistas do poder e cada peça. Uma vez terminada a tragicomédia, o homem solitário segue seu destino, um caminho jamais determinado por ele próprio, mas sim pela cabeça e mão do artista admirado como grande escultor: um grande político ou religioso. Seus senhores lá em cima, aclamados e endeusados, e o povo lá em baixo, ignorado, humilhado e desconsiderado. Tudo “como Deus os fez” e desejou, segundo a letra do famoso hino cantado na Inglaterra.

Dessa maneira o aprendiz a cidadão, após alguns anos na escola, vai se instruindo a julgar o certo e o errado em função dos elogios ou das críticas recebidas diante de uma ou outra conduta, conforme os princípios ou regras implícitas imorais, quase sempre não percebidas pelo pacato e domesticado cidadão.

Pouco a pouco, o operário, o lavrador, o jornalista, o médico, o engenheiro e o professor - todos homens comuns e desprivilegiados, sem assento entre os deuses - vão assimilando intuitivamente os modos simples, fáceis e práticos de avaliar o comportamento conforme os ditames do meio ambiente onde foram criados. Os “Deuses” de barro, os chimpanzés vencedores, os donos do poder, não ensinam os perdedores a realizarem análises críticas da vida que levam, ou seja, a razão da obediência a uma ou de outra regra e a razão de transformar cérebros possíveis de serem criativos e críticos em cérebros iguais, submissos e estéreis, como obedientes ovelhas clonadas pelos princípios falsos e injustos.

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