Estímulos, Regras, Axiomas e Princípios

Imagem - Estimulos

Frequentemente as emoções desencadeadas no indivíduo têm um grande papel na elaboração de nossas opiniões e argumentos (avaliações ou julgamentos). Nesses casos, quase sempre, começamos a opinar introduzindo um “eu acho”, “na verdade”, “para mim”, “veja bem”, “aí”, “né”, “entendeu”, “não é”, “quer dizer”, etc., principalmente nas discussões do boteco, nos programas de discussões ou opiniões das TVs e nas Câmaras de vereadores, deputados e senadores e, possivelmente, mas menos frequente, nos julgamentos dos juízes e desembargadores.

Assim, de um lado temos certos estímulos como uma fala, a cor da pele, um corte de cabelo e o tamanho de um busto; de outro, uma pessoa que vai ser estimulada por esses fatos pouco ou nada significativos ou representativos aos olhos da ciência, religião, política, economia, etc.

Acontece que os receptores para esses estímulos podem estar mais ou menos sensibilizados para eles, prontos a reagir contra ou a favor do objeto. Portanto, os diferentes estímulos que atingem nossos órgãos sensoriais (uma chuva, a figura de uma mulher, o cheiro do gás, o gosto do escargot) irão provocar reações diversas conforme a genética individual, a cultura e a história particular de cada um dos observadores, além do momento que ele está vivendo.

É diferente a visão da maconha para um viciado (louco para encontrar a droga) comparada com a visão de um combatente de drogas. Da mesma forma, é diferente a visão de uma arma para um ansioso que nunca pegou nela e para um criminoso desejoso de assaltar alguém. Uma coxa feminina pode excitar imensa e perdidamente um tipo de homem, causar uma pequena emoção num outro e, ainda, uma aversão num terceiro. Uma briga simples de trânsito pode ser fatal para um motorista altamente sensível às frustrações e provocar apenas um leve aborrecimento para um outro acostumado a enfrentar esses problemas. Você, leitor, caso queira, poderá lembrar de diversos outros exemplos quando vivenciou ou assistiu ao nascimento de emoções fortes. Nessa ocasião você se sentiu atraído ou com repulsa para um ou outro estímulo.

Axiomas subjacentes aos julgamentos construídos

Os processos do raciocínio captam informações simbólicas (fazem uso de símbolos, como as palavras) para produzir resultados simbólicos. Para isso usamos de certas informações iniciais que damos o nome de axioma (fórmula que se presume correta, embora não susceptível de demonstração).

Portanto, os axiomas não derivam da lógica, mas simplesmente de crenças, de induções inferidas (deduzidas) ou, mais simplesmente, de pressupostos, premissas, suposições ou intuições.

Por trás de todos os nossos julgamentos acerca de condutas existem sempre regras (normas, modelos, princípios) ou axiomas gerais - afirmações aceitas como verdades evidentes, que não precisam e nem podem ser comprovadas. De outro modo, os raciocínios usados para fazer julgamentos (“Que mulher bonita!” , “Que homem mais antipático!” , “Que comida detestável!”) acerca de condutas ou de formas como a beleza, a bondade, a capacidade, a inteligência, a habilidade, etc., nascem ou assentam-se em crenças não criticadas - estacas não examinadas - pilares nos quais acreditamos, com muita fé, representar o ponto de partida de outras verdades.

As partir dessas premissas (princípios) iniciais - algumas dessas crenças não têm nenhum fundamento empírico ou lógico - inferimos ou criamos suposições que irão guiar nosso raciocínio e conduta. Em resumo: frequentemente raciocinamos sustentados por essas estacas frágeis e tortas enterradas no terreno argiloso de nossamente. Geralmente não as examinamos, pois não temos acesso fácil a elas. A geração do nosso raciocínio e da conduta é fabricada a partir dessas pilastras iniciais sem solidez e lógica. A lógica interna, a que nasceu do axioma, pode estar correta, mas, mesmo quando isso acontece, o raciocínio pode estar errado por ter sido gerado por suportes (premissas, paradigmas) falsos.

Além disso, os processos mentais que transformam as afirmações iniciais - axiomas cheios de fé em diversos resultados (galhos e ramos), são impostos pelas chamadas regras de inferência (não observadas pelos órgãos sensoriais) que aprendemos, geralmente na lógica usada pelos ocidentais. Em resumo: o axioma não determina a razão do argumento.

Tanto os axiomas (afirmação inicial básica, postulado) como as regras de inferência constituem, ambos, trabalhando em conjunto, a essência ou sustentáculo onde se apóia a alavanca do raciocínio do ser humano, chamado de racional. Entretanto, os métodos do raciocínio, eles mesmos, não podem justificar os axiomas ou as regras de inferência. Esse elemento arbitrário, impossível de ser examinado pela razão, nos leva a duas consequências:

  1. Afasta a idéia de certeza de qualquer julgamento (de Margarida ou de Bush), pois não há um princípio irrefutável de indução que nos permite, através do raciocínio, inferir leis gerais infalíveis, sem margem de erro, a partir de fatos específicos. Além disso, os fundamentos destas induções iniciais - os fatos crus - assentam-se numa completa e por vezes instável base de observação, percepção e inferência, influenciada, frequentemente, pelas crenças subjacentes.
  2. O princípio de que “não há conclusões sem premissas” exclui definitivamente as afirmações de caráter normativo (proposições que encerram um dever básico).

A razão funciona somente após ter recebido um conjunto adequado de informações iniciais ou premissas. Se a razão for aplicada à descoberta e à escolha de percursos de ação (qual a melhor ação), então, essas informações que recolhemos incluem um conjunto de proposições com a partícula “deve” ou valores a serem alcançados, e um conjunto com a partícula “é” (o que é isso?) ou fatos sobre o universo em que a ação vai ser concretizada.

Portanto, a razão é totalmente instrumental. Não nos pode dizer para onde vamos e quando muito pode nos indicar como chegar lá. É uma arma mercenária que pode ser posta a serviço de qualquer dos nossos objetivos, bons ou maus. Por tudo isso fica muito difícil criticarmos um discurso de um charlatão que usa boa lógica a partir de falsas premissas; muitos têm sucesso.

Geralmente, quando uma posição é defendida com calor e violência, se torna necessário examinar com cuidado as suas premissas e suas inferências. Daí a razão não pode e não foi a principal arma contra o nazismo, fascismo, comunismo e religiões diversas, e também não será uma boa arma contra o crime.

O tem de ser não pode derivar apenas do ser. Muitos dos “tem de ser” (dever, obrigação) que proferimos não são normas de conduta definitivas, mas apenas objetivos secundários, adotados como meios para outros fins, durante certo tempo em uma cultura e outra.

As decisões não são escolhas com base em vastas áreas de vida, mas somente em relação a aspectos específicos, considerados, corretamente ou não, relativamente independentes de outras dimensões da vida igualmente importantes. Para dar um exemplo: a compra de um carro terá pouca relação com outros tipos de problemas, até mesmo com respeito ao carro, poluição, trânsito ou o menu do jantar de hoje. A compra do carro lembrará alguns aspectos da vida em detrimento de outros. Seu novo possuidor talvez, ao comprar o carro, leia mais sobre estradas ou viagens e deixará de pensar em comprar uma nova casa, etc. Tudo isso são exemplos de racionalidade limitada ou intuições parceladas.

Vivemos num mundo onde existem milhões de variáveis que em princípio poderiam afetar umas às outras, mas que não o fazem na maior parte das vezes. Nós só podemos detectar, quase sempre, apenas um reduzido número de variáveis ou de considerações dominantes; nossa mente não suporta trabalhar com muitos dados.

A irracionalidade (bobice) de nossas deduções e “certezas” que nos servem de bússolas orientadoras, frequentemente, nascem dessas crenças fundamentais (axiomas). Pensamos e agimos apoiados nesses princípios e eles nos orientam a nos comportar de um modo ou de outro, de matar ou defender, fazer uma guerra ou combatê-la, escolher um candidato ou outro, fazer ou não o vestibular para isso ou aquilo, criar um tipo de cabelo, “piercing”, tatuagem, etc. Essas poderosas molas propulsoras de nossa cognição, emoção e conduta, muitas vezes tolas, que carregamos no fundo de nossas almas, produzem nossas idéias gerais de onde fluem nossos “sábios raciocínios” posteriores.

Além disso – e para piorar-, as crenças básicas, estacas para a construção das demais idéias, são geralmente inconscientes. Nós não sabemos o modo pelo qual edificamos nossos julgamentos orientadores, como nossa escolha de ir ou não à festa, de casar com esta ou aquela mulher, de fazer esse ou aquele curso.

Diante de tudo isso, tristemente, especulo a respeito da minha e da sua liberdade: raciocinamos e julgamos de forma mais ou menos automática e inconsciente. Onde estaria a minha e a sua liberdade de escolher? Não somos o que pensávamos ser! Estamos perdendo toda nossa antiga harmonia explicativa.

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