Escondendo a Crença Básica: Estratégias e suas Derivações

Imagem - Criança orando

Atitude: dificuldade de extinção de intuições

Todos nós na infância recebemos, de um modo melhor ou pior, ensinamentos intuitivos simples. Entretanto, dada a importância e potência desses primeiros conhecimentos (nosso B a BA inicial), eles nunca mais nos abandonam, não mais desaparecem e dão origem a uma rede complexa de padrões (modelos, paradigmas) para compreender a realidade, que recebem o nome de “atitudes”.

Um segundo conhecimento pode ser adquirido (nem sempre isso ocorre), sem que o primeiro seja totalmente destruído. Num instante ou outro, o conhecimento primitivo ou pré-conhecimento pode emergir, principalmente quando estamos de “cabeça quente”, isto é, quando estamos dominados por nossas paixões, sejam quais forem elas (religiosa, política, sexual, poder, etc.). Ninguém está livre desse conhecimento inicial inadequado e simples: médico, cientista, político, físico ou qualquer outra profissão mais intelectualizada. Nosso raciocínio pode ser completamente dominado por esses conhecimentos iniciais não adequados à realidade. As atitudes (intuições) iniciais, de modo automático e inconsciente, se inserem – podendo dominar – em outros saberes mais sofisticados, contaminando ou transformando até os raciocínios mais exatos exibidos.

Todos nós assimilamos e usamos intuições a partir da infância. Alguns conhecimentos mais bem fundamentados, muitas vezes em oposição à atitude, tomam o lugar dessas intuições iniciais (pré-conhecimento) nas áreas nas quais aprofundamos nossos estudos. Nos outros campos, na ausência de informações mais bem elaboradas (menos profundas), continuamos a pensar conforme o aprendizado adquirido na infância, isto é, nosso pensamento é dirigido por essas obsoletas intuições. Ninguém escapa desse processo diabólico. Sem querer, ou seja, automaticamente, usamos essas intuições simples diante de emoções mais fortes ou quando estamos apressados para solucionar um problema, mesmo quando assimilamos outras suposições contrárias ao aprendido anteriormente. As pessoas, todas elas, avaliam constantemente o seu meio; nenhuma pessoa é imparcial para o que ela encontra. Seria estranho e singular uma pessoa dizer: “Eu sou completamente neutra para minha família, meu trabalho e meu cão. Não me emocionei ou julguei o café que acabei de tomar que está açucarado e frio”.

A permanência continuada e sem crítica desse modo de conhecer, na vida adulta, é observada e utilizada pelos indivíduos analfabetos ou semi-analfabetos. Nesse grupo se incluem os que vivem da lavoura, de trabalhos braçais, sobrevivendo graças ao seu engenho e força. Em parte, nós todos fazemos, num momento ou noutro, o uso dessa forma de conhecer, explicar e reagir à realidade.

O princípio inicial e o crescimento de princípios dele derivados

Uma vez semeada, nascida e desenvolvida uma crença básica (idéia-tronco), ela se transforma numa condição para a germinação de novas crenças, pensamentos e ações dela derivadas. Por isso, a crença básica tende a dar nascimento a vários outros galhos e brotos; um molde para fabricar outras convicções profundas sem justificativas racionais, de suposições não observáveis. De outro modo, a idéia-crença original inexata – a obtida através de intuições e ou pensamentos mágicos – passa a ser uma condição (o útero) para a fecundação (formação) de novas idéias, logicamente falsas, pois derivam dela. Assim, para entender uma determinada crença ou opinião torna-se necessário conhecer sua base cognitiva não revelada, implícita (de que princípio ela foi gerada) e inconsciente, inclusive para seu possuidor.

A falsa crença da inferioridade dos negros apoiou-se na manutenção do poder político e exploração de mão-de-obra. Portanto, escondida atrás dessas afirmações existem outras crenças que dão suporte ao explicitado. Os governos empregam inúmeros recursos para fornecer uma aparência de uma linha política razoável. A censura e certas formas de propaganda são esforços para moldar ou imprimir a compreensão e opinião da população conforme o desejado pelos governantes.

Princípios e atitudes

Uma atitude contém em si uma ordenação mais ou menos coerente de diferentes dados. Observações e raciocínios diversos utilizados pela pessoa devem estar arrumados e unificados para facilitar a defesa dos argumentos apresentados. O que a pessoa diz em certo ponto precisa estar ligado, de maneira inteligível, com o que se afirmou antes ou se dirá depois, assim como as partes de uma história precisam estar interligadas.

Uma determinada atitude encontrará resistência caso vá contra sistemas que imperam: socioculturais e religiosos. Há uma tendência para buscar a estabilidade, e, por outro lado, uma transformação numa parte muito poderosa do sistema pode iniciar um processo até então inexistente e, consequentemente, alterar o sistema amplo como um todo.

Podemos afirmar que: 1) uma atitude é uma organização de experiências e dados referentes a um objeto; uma estrutura de ordem hierárquica, cujas partes funcionam de acordo com sua posição no todo; 2) uma determinada atitude é uma estrutura semi-aberta que funciona como parte de um contexto mais amplo. Ela tem o caráter de um compromisso com a orientação da cultura, sendo parte dependente do sistema mais vasto.

Função da atitude

Uma função importante da atitude é providenciar resumos avaliadores rápidos e simplificados do meio ambiente; elas atuam como indicadores promovendo uma predisposição ou prontidão para a resposta. As atitudes sinalizam para as pessoas se os objetos de seu meio ambiente são bons ou maus, e, consequentemente, se elas devem realizar uma ação de aproximação ou de fuga. Para servir a esta função é necessário que a atitude tenha uma valência simples, ir ou não ir. Quando surgem valências de ida e volta, ficamos em dúvida (ambivalência – duas valências), como frequentemente ocorre: “Comer o churrasco ou emagrecer”; “Sair para as férias ou economizar para pagar as dívidas”.

As pessoas rapidamente decidem se um objeto é bom ou ruim para elas, conforme a atitude seja a mais usada e a primeira a aparecer. A maioria dos teóricos define a atitude como “um resumo unidimensional de afirmações”. Decorrente dessa definição nasceu o uso de escalas unidimensionais para medi-las. Por exemplo: pergunta-se à pessoa se ela tem uma atitude (sentimentos) negativa ou positiva para diversas coisas como situações sociais; consumo de produtos; candidatos políticos; companheiro amoroso; administração participativa, etc. As pessoas diante dessas perguntas exibem poucos problemas para responder ao perguntado.

Mas nem sempre essas respostas são simples. Há casos, contudo, variando com a mente do entrevistado e com sua “abertura mental” ou seu “pluralismo”, que as pessoas têm mais de uma avaliação, ao mesmo tempo, do mesmo objeto/atitude; uma pode ser mais acessível que a outra. Retorno ao exemplo dado anteriormente de ser contra e, também, a favor da pena de morte, ou, ainda, comprar o objeto sedutor ou guardar o dinheiro; continuar ou acabar com o atraente e maldito namoro; ter ou não ter filho; etc.

Os americanos não têm consciência com respeito às suas atitudes implícitas para os afro-americanos. Os questionários largamente usados e descritos pela mídia examinam apenas os motivos explícitos ou “auto-atribuídos motivos”, isto é, medem a negação do preconceito implícito existente e não as atitudes implícitas (escondidas).

Avaliações, baseadas nessas idéias, diferentes das perguntas feitas pelos “Ibopes” da vida ou por “Você decide” mostram apenas nossa atitude explícita. Esse tipo de pergunta (pesquisa) não revela as atitudes mal vistas, as que a pessoa sabe que geralmente ela será avaliada negativamente. Mas as outras atitudes, as criticadas, podem emergir sem a pessoa, muitas vezes, perceber, mesmo estando bem guardada.

Citarei alguns poucos exemplos da exibição da atitude primária mesmo quando o entrevistado responda, explicitamente, que não tem preconceitos contra o negro, a mulher ou o idoso.

Perguntou-se a pessoas, usando o teste simples, de uma só resposta, sim ou não, se achavam os negros e brancos iguais ou desiguais. Depois foram apresentados ao grupo que não mostrou preconceitos testes diferentes. Num deles pedia-se aos sujeitos da pesquisa que completassem frases. Uma delas dizia mais ou menos o seguinte: “Elizabeth, uma afro-americana, brigou com sua mãe e depois com sua família. Furiosa, ela deixou sua casa para nunca mais voltar, tornando-se uma…”. Foi pedido ao entrevistado que completasse a frase. Uma grande parte dos sujeitos da pesquisa completou a frase com palavras negativas, algumas pesadas, entre elas “prostituta”.

Numa outra pesquisa pediu-se a meninos na escola que lessem uma história contendo fatos e situações positivas e negativas para os afro-americanos. Tempos depois foi pedido a esse mesmo grupo que escrevesse o que eles lembravam da história lida há semanas. Os alunos suspeitos de serem racistas lembraram quase que apenas os fatos narrados negativos ao negro. Os outros lembravam situações diversas como haviam lido. Isso mostra que retemos um fato ou outro conforme os princípios que nos dominam.

Portanto, alguns poucos questionários, mais sutis e implícitos, podem captar o preconceito existente, como no caso de completar a frase já discutida: “Elizabeth, uma negra ….”.

Geralmente, diante de uma engenheira (médica, artista, etc.) afro-brasileira temos a tendência de declarar, ao indicá-la para alguém: “Aquela negra ali é formada em Engenharia”. Entretanto, caso a engenheira seja branca usamos uma indicação diferente: “Aquela mulher ali é engenheira”. Usamos o mesmo modelo com respeito aos outros excluídos. Em lugar de “sirva um café para aquele homem de terno cinza”, falamos “sirva um café para um velhinho de terno cinza”. Também, “entregue esse embrulho para aquela gorducha que está lá no fundo” e não “entregue esse embrulho para a mulher que está lá no fundo”. Usamos o mesmo modelo para deficientes, homossexual, altura baixa, ou seja, tudo aquilo que julgamos não ser o usual e ou correto, segundo julgamentos aprendidos muito cedo. Os certos são: brancos, jovens, heterossexuais, ótimo físico, sem problemas físicos visíveis, bonitos e bem vestidos. Sob pressão e pressa é mais fácil o aparecimento das atitudes AP(atitude primária) ou as motivações implícitas – que são ativadas automaticamente. Nesses casos, torna-se mais difícil a pessoa retirar a avaliação secundária, aprendida mais tarde, menos automática ou explícita da mente.

Portanto, uma pessoa criada numa família racista com respeito aos afro-brasileiros, ao estudar, quando adulta, Biologia, adota uma atitude igualitária, pois percebe cientificamente de onde provém a cor negra da pele, que nada tem a ver com as outras características que ela assimilou em casa ou com os companheiros. Mas esta segunda crença não toma totalmente o lugar da primeira, a racista. Ela passa a viver com as duas atitudes; a negativa para os afro-brasileiros (uma avaliação negativa, preconceituosa, obtida na infância) e uma atitude mais recentemente construída alicerçada na observação e estudo da ciência. A atitude mais recente, a secundária, é a explicitada em condições comuns de tranquilidade. Assim, esse indivíduo repele, não considera ou, ainda, domina, em certos momentos, a atitude primária e inicial aprendida. Entretanto, a atitude primária, que habita a mente dessa pessoa, pode, de modo automático e implícito, aparecer e dominar a cena. Os brancos expressam mais atitudes positivas aos negros nas medidas explícitas (conscientes e pensadas) que nas implícitas (inconscientes e impulsivas) e a correlação entre uma medida e outra é bastante baixa.

Para muitos, as atitudes deformam as observações, a percepção e o pensamento. Elas funcionam como fontes de enganos e nos tornam sugestionáveis para certas experiências. As crenças, por trás das atitudes, são mais do que uma expressão do conhecimento. As necessidades e os interesses são pontos decisivos na elaboração da crença e tornam-se responsáveis pelas semelhanças e diferenças entre os grupos.

As atitudes têm objetos, ou seja, formam imagens mentais; seus conteúdos nascem desses objetos, tão direta e inexoravelmente quanto uma emoção específica surge de determinada visão de uma situação.

Quando me formei em Filosofia, o grupo total incluía formandos em Letras, Geografia, História, Biologia, etc. Eram mais de duzentos formandos. Entre eles haviam alguns afro-brasileiros e, também, três deles portadores de pequenos problemas para caminhar. Pois bem. Os dois grupos receberam uma quantidade de palmas muito maior da platéia do que os outros. Essa conduta indica claramente a eclosão do preconceito primário mal encoberto pelo aprendizado posterior.

Um outro teste para terminar. Pares de nomes, como “jovem” e “velho” e “mãe” e “pai”, foram apresentados aos sujeitos da experiência. Circunscrevendo cada palavra (jovem e velho; pai e mãe) apareciam várias palavras indicadoras de atitudes positivas (bonito, simpático, alegre, esperto, bom, acessível, etc.) e negativas (feio, lerdo, fechado, tapado, enjoado, sujo, etc.). Era pedido aos jovens testados que ligassem, por exemplo, o termo “jovem” e “velho” às palavras que mais identificassem essas diferentes pessoas. Pois bem: a maioria dos termos positivos foi ligada aos jovens e os negativos aos idosos.

Concluindo, a pesquisa que pergunta acerca de uma atitude, por exemplo, “Você acha que os idosos são iguais aos jovens?”, mede uma postura verbal explícita e é respondida pela maioria com um tranquilo “sim”, “claro” ou “com certeza”. Entretanto, sua outra atitude diz o contrário: “Que bonitinho!”; “Ele é engraçado”; “Está com a memória até boa”; “É um velho esperto; não tem nada de bobo”, indicando a invasão de traços dos preconceitos.

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