Dúvida do Lumeeirense: Conflitos de Valores

Imagem - Conflito de valores

Em Lumeeira, como no resto do país, houve um referendo para julgar se devíamos ser a favor ou contra o uso de armas. O povo de Lumeeira, confuso, gastou um bom tempo para decidir acerca da escolha. Eles perceberam que, muitas vezes, eles têm, ao mesmo tempo, duas opiniões contrárias, ou melhor, podem ser a favor de duas coisas vistas como contraditórias. Assim, diante das questões: “Devemos ser a favor ou contra o uso de armas?” ou “A favor ou contra a pena de morte?”, eles ficaram indecisos e confusos, pois são a favor e contra, dependendo da maneira de focalizar a situação concreta. Eles, quando pensam conforme um tipo de mapa (princípio), têm uma resposta favorável à questão, mas quando usam um outro modelo (padrão) ficam contra o perguntado.

Os Lumeeirenses ficam perplexos diante de outras questões além dessas duas acima citadas, como, por exemplo: “Devemos lutar a favor ou contra a permissão do aborto?”; “Devemos internar o paciente psiquiátrico?”; “Devo acabar com o maldito casamento?”. Eis alguns exemplos de dúvidas que perseguem a população de Lumeeira quanto à escolha de um valor ou outro, pois eles sempre descobrem argumentos a favor e contra as questões. Para muitos, esse modo de pensar é caótico.

Um anarquista meio-maluco de Lumeeira, sem o que fazer, defendia a igualdade dos seres humanos. Esta idéia era a sua bandeira, o seu valor máximo. Para conseguir o desejado ele defendia o fechamento de todas as escolas, principalmente das universidades do país. Para o anarquista, os estudiosos se tornam pessoas desiguais; homens superiores se comparados aos não-estudiosos. Ele tem toda razão se apoiarmos no “princípio de igualdade” entre as pessoas; um princípio defendido por todos.

Havia na cidade uma discussão entre os magistrados e os religiosos acerca da justiça e do perdão. Os debates argumentavam que um mundo de perfeita justiça não é compatível com a misericórdia. O Direito, de um lado, diante de um delito qualquer, exige a pena prescrita no código. A ética religiosa, por outro lado, defende o perdão, independente da transgressão realizada. A defesa de um valor nos leva a ir contra um outro, geralmente, também defendido. O que fazer? Os lumeeirenses andam tontos acerca da decisão a ser tomada.

Mas as dúvidas continuavam: a liberdade procurada por todos não convive bem com a igualdade. Se José é livre para fazer o desejado, durante uma briga, ele, sendo mais forte que Gervásio, poderá, usando sua liberdade, agredir seu desafeto. Se defendermos a igualdade, não devemos ultrapassar outras pessoas quanto aos bens materiais (propriedade, dinheiro), nem com respeito aos bens intelectuais, espirituais e artísticos (conhecimento, perícia, governo, arte), pois, se ultrapassarmos os outros, seremos desiguais.

A felicidade e o conhecimento podem ser ou não compatíveis. Alguns pensavam que o conhecimento sempre liberava e salvava o homem e aprisionava o ignorante. Nem sempre ele libera: se fico sabendo que sou portador de um câncer incurável - um conhecimento - não me torno mais feliz e mais livre.

Admiramos a criatividade, o nascimento livre das idéias e obras-de-arte. Entretanto, essa liberdade não é compatível com a capacidade de planejamento cuidadoso e eficaz, sem o qual não pode ser criada nenhuma vida organizada e segura.

Ter uma companhia amiga é uma meta cobiçada por todos. Mas essa companhia, rotulada de agradável conforme o princípio, pode ser a fonte principal de futuro sofrimento, da perda da querida liberdade e do sossego. Os cônjuges brigam entre si, batem e exploram um ao outro; os amigos matam, traem e mentem; os colegas podem ser egoístas, competitivos e agressivos, portanto, nem sempre é bom estarmos ligados. Mas se ficamos livres dos sofrimentos das relações, nós não gozamos os prazeres do amor ou da amizade.

Armado e desarmado, liberdade e igualdade, criatividade e segurança, felicidade e conhecimento, misericórdia e justiça, solidão e amizade: esses são valores procurados por todos em Lumeeira, mas são incompatíveis entre si. Quando somos obrigados a escolher um deles temos que deixar de lado um outro valor de importância.Sempre iremos sofrer perdas, às vezes, trágicas. Esse outro lado da escolha deve ser aceito com naturalidade, pois, no momento, escolhemos um valor que parece ser mais importante. Estudar Medicina ou Direito?

A idéia do mundo perfeito, onde só as boas coisas podem ser realizadas, não existe. A escolha de certo valor impedirá gozar o prazer possuído pelo valor descartado. Há sempre ganho de um lado e perda de outro. Não existe projeto de vida ideal pelo qual deveríamos sacrificar nossa vida; não há “vida perfeita”. Essa quimera jamais será atingida; não podemos nem imaginá-la, pois, se observo o lado bom, também vejo o ruim. Sempre são dois lados da mesma moeda.

Mas tem um modo de resolver essa dicotomia de valores: jogar fora a maneira de pensar ocidental e adotar a oriental. O modo dialético dos orientais admite a existência da contradição (dois valores ao mesmo tempo), ou seja, a presença continuada do “bom” e do “ruim” em todas as nossas ações. Para esse modo de compreender e explicar a realidade, tudo é, ao mesmo tempo, bom e ruim; precisamos trabalhar com os dois lados ao mesmo tempo, por exemplo, pode ser bom viver e, também, bom morrer. Outro exemplo: a comida deliciosa engorda; a namorada altamente atraente me impede de ler meus adorados livros e ouvir minhas deliciosas músicas, etc.

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