Dois Instrumentos Diferentes: Observações e Esquemas Teóricos

Imagem - Observações e Esquemas Teóricos

A mente pode ser considerada como um sistema de abstrações capaz de produzir certa ordem relacional nos acontecimentos. Os processos implícitos nesta – não conscientes – os capazes de dar ordem aos eventos, são vistos como ocupando um nível mais elevado, inconsciente ou superconsciente. De fato, os processos implícitos governam ou comandam o processo consciente sem aparecer claramente nele. Assim é que os planos, as metas, os valores e as emoções não aparecem claramente nas ações, apesar de dirigirem estas.

Os processos implícitos fornecem, portanto, os pilares que restringem e dirigem o consciente, a atenção seletiva. O que chamamos de conhecimento explícito, o que é falado, comentado ou escrito, como a suposição e a crença exibida (desvelada), bem como os processos de representação de pensamento derivam das transformações operadas pelas regras ordenadoras profundas nos fatos observados do ambiente externo ou interno do organismo.

Vejamos um exemplo: uma pessoa observa um jogo de futebol. O jogador chuta a bola em direção ao gol e o goleiro a segura impedindo-a de entrar. O torcedor grita agitado: “Ronaldinho chutou com pouca força”. O observado nas nossas sensações foi a bola, indo de um lugar ao outro, e o goleiro segurando-a. Mas a afirmação acerca das observações foi deduzida dessa percepção, baseada em “terorias” que o torcedor tem em sua mente acerca de movimentos dos corpos pesados, existência do ar e resistência deste, força, velocidade, massa, tempo, gravidade, atrito, regras de futebol, etc. O leitor poderá discordar do que afirmei acima, mas, se ele gritou como gritou, é porque ele conhece física, mesmo que não saiba que conhece. Todos nós, para sobrevivermos mais ou menos adequadamente, precisamos conhecer um pouco de física, economia, química, psicologia, biologia, religião, etc., geralmente de forma intuitiva, isto é, aprendidas através das experiências. Essas noções de física e de regras do que ocorre no futebol foram aprendidas naturalmente, sem esforço, isto é, intuitivamente. Raramente elas são estudadas com os esforços do falante, isto é, através de estudos formais.

Assim, essas noções estão impregnadas de noções carregadas de equívocos, apesar de serem práticas para pequenos problemas da vida, como, por exemplo, xingar Ronaldinho. O leitor poderá lembrar de outros exemplos, pois, como disse, todas as afirmações estão “amarradas” em alguma “teoria”. Até uma afirmação supersimples, como “os fósforos acabaram”, pressupõe um conhecimento teórico acerca de combustão, oxigênio, calor, atrito, venda e comércio, pólvora, etc.

Portanto, para “observar” os fatos é necessário ter esquemas teóricos ou “redes” para que estes possam ser organizados, entendidos ou “vistos”. Assim, um bom médico é o que tem muitas e boas teorias em sua mente. Através desses instrumentos – teorias – o médico agrupa os fatos selecionados, captados e percebidos, e mesmo bem imaginados, em diversos compartimentos da rede teórica. De posse desses pequenos conjuntos – reunião de fatos e eventos – a pessoa procura compará-los, fazendo uso da memória, com outras situações semelhantes já vivenciadas, e poderá ainda fazer críticas das próprias avaliações utilizadas, usando, para isso, a lógica intuitiva e as diversas teorias médicas conhecidas por ela.

Por exemplo: um sinal (uma informação capaz de ser observada pelo médico), como uma febre de 39 graus, para fornecer um significado médico, deverá estar ligado a outros sinais e sintomas (queixas do paciente que não podem ser observadas; são inferidas pelo paciente) por meio de conceitos científicos (construtos) abstratos de alguma forma inteligíveis e aceitos pela maioria dos médicos. Da mesma forma agirá um bom mecânico e qualquer outro profissional.

Nos meus primeiros anos como professor na Faculdade de Medicina da UFMG, não entendia como os alunos diante de um paciente com diversos “sinais visíveis” não os “enxergavam”; sinais visíveis para mim não eram notados pelos alunos iniciantes. A resposta para isso é que só “enxergamos” se temos conhecimentos para assimilar o fato, ou, de outro modo, precisamos ter um “processador” adequado contendo o assimilador, ou seja, boas terorias e conhecimentos, ligando aqueles sinais entre si, senão estaremos cegos para os fatos. O leitor poderá lembrar de outros exemplos, como um defeito no carro, para quem tem boas teorias e para quem não as tem.

Para facilitar a compreensão, vamos a um outro exemplo: a palavra “força” só adquire significado, digno do nome, na teoria física e mecânica newtoniana. Na linguagem quotidiana, frases como “força das circunstâncias”, “por motivo de força maior”, “a força do argumento” ou “ela me dá muita força” são imprecisas exatamente porque as “terorias” por trás das afirmativas, isto é, as correspondentes e existentes por trás dessas frases são variadas e imprecisas, não preenchem o requisito básico exigido para que se construam proposições de observações confiáveis e precisas. Nos exemplos, o conceito “força”, que nasceu e possui um sentido numa teoria científica, ou seja, num modo de descrever o mundo, sai do seu nicho – física newtoniana – e se acomoda num ninho estranho, “argumento”, “circunstâncias”, etc. Neste leito estranho à sua origem, a “força” perde seu significado obtido na sua família de conceitos semelhantes e interligados, perde a definição anterior e se prostitui como no uso que fiz, neste momento, da metáfora “prostitui”.

Caso a teoria existente na mente da pessoa seja ingênua, mal formulada ou inadequada, fatalmente assim também será sua observação, pois esta estará organizada e será extraída a partir de teorias defeituosas e impróprias da descrição do mundo. Assim, estes “fatos”, forçosamente, acompanharão a inadequação de suas teorias.

Infelizmente, as más teorias estão em todas as partes. Se colocarmos um leigo diante de um paciente com diversos sintomas e sinais, este, como não tem “boas teorias” acerca de doenças, nada irá “ver” ou observar de “importante”. Poderá “notar” uma série de fatos, como o dia em que ele nasceu, a sua cor, o mês de nascimento, que dia ele foi internado, quantas letras tem seu nome, a sua cor preferida, a forma e o tamanho de sua íris e outros indicadores, não de doenças, mas de outros acontecimentos que nada têm a ver com doenças, e que até hoje não estão incluídos em nenhuma teoria médica aceita e não fazem parte de matéria ensinada em nenhuma escola de medicina séria do mundo. Assim, esse médico amador não poderá concluir nada, a não ser retirar de seu sistema de crença um conceito, que nada tem a ver com os sinais e sintomas fornecidos aos seus sentidos e que poderiam ter sentido para diagnosticar doenças.

Como as afirmativas acerca das observações foram organizadas e adquiriram significado de acordo com terorias, concluímos que as proposições de observação, obrigatoriamente, serão feitas utilizando a linguagem de alguma ou de várias teorias que servem como redes, esquema ou fio invisível, necessário para ligar os fatos observados, assentadas em premissas ou axiomas.

Lemos e ouvimos, frequentemente, a frase: “o sistema de saúde está falido”. Essa afirmação precisa ser esclarecida ou explicitada dentro de conceitos ligados a doença, como bactérias, traumatismos, tumores, genética, meio ambiente, médicos, aparelhos, estatísticas e muitos outros conceitos. Qualquer um que for usado deverá ser explicitado, ao usar tal afirmativa, pois a frase só adquire sentido correto caso saibamos cada um dos fatores implicados e suas ligações teóricas. Talvez, apenas alguns poucos, como os médicos sanitaristas e secretários de saúde, por exemplo, poderiam compreender essa informação extremamente complexa; para o povo, nenhuma compreensão importante será possível.

Prezado leitor. Ao ouvir a frase de sua amada: “Você me deu uma força”, o melhor é não perder o sono tentando entender o que foi dito, caso inicie seu raciocínio a partir da fórmula da mecânica newtoniana, na qual o conceito “força” adquiriu significado – “força é a massa multiplicada pela aceleração”. Em lugar disso pense que a frase é irrelevante, nada diz e durma tranquilo.

Milhões de frases semelhantes a esta são ditas o dia inteiro, mas não devemos nem defendê-las, nem combatê-las, pois elas nada significam. Essas frases existem para encher o tempo do falante e para produzir sons, como uma melodia criada ou assobiada por uma pessoa, como fazem as crianças quando descobrem que podem produzir sons. A fala do político, do grande pregador e do professor, comumente, apresenta uma melodia inebriante e também vazia de conteúdo.

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