Cultura: Princípios, Programas e Condutas

Imagem - Princípios, Programas, Condutas

Princípios orientadores da conduta, como honestidade, responsabilidade, habilidade, religiosidade e outros parecem existir em todas as culturas. Quando se fala em princípios não se fala em atos (fatos) ou especificações de atos, mas sim de qualidades gerais possíveis de se manifestarem em determinados atos. Portanto, não percebemos os “princípios” através dos órgãos dos sentidos (sensoriais), mas sim a partir de abstrações cognitivas.

Ao fazer as atividades concretas, como pegar uma caneta, partir um pão, calçar os sapatos ou ir ao banco, a pessoa pode manifestar alguns ou vários princípios, entretanto, jamais fará “honestidade” ou “responsabilidade”. As atividades concretas (o possível de ser observado pelos órgãos sensoriais) têm sido chamadas de programas ou, ainda, roteiros ou “scripts” na língua inglesa. Por outro lado, os princípios que estão por detrás ou subjacentes aos atos irão influenciar a qualidade dos programas a serem executados, pois são esses princípios que agem como valores de referências potenciais, direcionando as escolhas possíveis dentro de um programa.

Os programas de ação são as espécies de atividade que a maioria das pessoas chama de comportamento: ir a um supermercado, escrever uma carta ou fazer um café; esses são todos eles programas. Mas existe um outro problema: os programas, por sua vez, são feitos de sequências de movimentos. Eles envolvem pontos de escolhas, como “vou ao supermercado, comprar feijão; depois, irei cozinhá-lo”. Portanto, os programas incluem uma série de sequências que vão do trivial ao importante.

Quando uma ação se torna suficientemente bem aprendida, isto é, promulgada, ela, uma vez começada, torna-se automatizada, isto é, passa a ser comandada por outra região do cérebro.Não há mais necessidade de ficarmos cogitando (pensando acerca dela) em como executá-la, como, por exemplo, as vias que usarei para chegar ao serviço após um cansativo aprendizado. Quando uma tarefa alcança esse nível – automatização – pô-la em atividade quase não exige esforço da cognição, pois ela passa a ser controlada pela região subcortical do cérebro e não pelos córtices cerebrais. Nesse caso ela se torna uma sequência de movimentos (pegar um copo com água, levá-lo até a boca, abrir a boca, virar o copo, engolir a água). O mesmo acontece ao andar de bicicleta, dirigir o automóvel, etc. Nota-se que quanto mais alto nossa mente estiver orientando e dominando nossas ações, os aspectos mais baixos e menos importantes serão desconsiderados para dar sentido ao eu, isto é, às suposições gerais ou princípios que determinam as ações, como no exemplo: vou tomar um banho. Nesse caso, os aspectos tirar os sapatos e as roupas, abrir a torneira do chuveiro, pegar o sabonete, o xampu, ensaboar, fechar a torneira e enxaguar serão controlados pela idéia geral “tomar um banho” e não cada idéia em separado.

O poder da contaminação de um valor contido num princípio – irei atuar com honestidade – no nível baixo da ação (tirar do bolso o talão de cheques para fazer o pagamento exigido) dependerá do grau pelo qual sua execução vai contribuir para o sucesso de outros níveis mais elevados (honestidade, neste caso). A retirada do talão pouco ou nada tem a ver com o princípio que está comandando a ação, como a compra de um determinado objeto.

Sempre as ações do organismo tentam reduzir a discrepância (ou desarmonia, desencontros) criada pelos níveis mais elevados diante de um meio ambiente externo ou, também, interno: “estou sentindo uma coceira no olho esquerdo”; “caiu o garfo”; “o carro já vem em disparada”; “vou abrir o guarda-chuva, pois a chuva começou”; “estou com sono”.

Às vezes, a auto-regulação (esforço do organismo para se reequilibrar), voltar à harmonia ou homeostase, como coçar a pálpebra, não exige um compromisso total com princípios mais elevados na hierarquia de cima para baixo. Mesmo nos caso simples citados, o organismo pode estar tentando eliminar um fato que está atrapalhando sua saúde, que pode ser desconfortável ou ser um perigo maior para o organismo. Qualquer que seja o nível que estiver temporariamente focalizado ele está funcionalmente subordinado, no momento, à regulação de outro nível mais elevado: saúde, aborrecimento, desviando o objetivo principal, etc.

Entretanto, não sei se por sorte ou azar, na prática, por preguiça ou ignorância, quase todos os comportamentos humanos são auto-regulados no nível de programa, com pouca ou nenhuma consideração (reflexão) aos valores mais elevados. Assim, automaticamente coço meus olhos diante do aborrecimento, sem pensar em minha saúde, possível cegueira ou mesmo morte do meu organismo.

Essas concepções que as pessoas podem ter provavelmente são centrais para a pessoa, mas são muito gerais e abstratas, sem relação direta com as ações concretas. Entretanto, se faço um pagamento e devolvo o dinheiro recebido a mais, estou realizando ações periféricas e concretas, possíveis de serem observadas por outros e que se subordinam à ação central “sou honesto”. Do mesmo modo, se vou à igreja e rezo à noite, por exemplo, também mostrei uma conduta concreta e possível de ser percebida, portanto, periférica e que se submete à idéia central: “sou religioso”. Esta afirmação, abstrata e muito geral, faz parte do núcleo da pessoa e não pode ser observada diretamente.

Pensando assim, podemos imaginar que para que haja uma conduta coerente para o indivíduo, num dado momento, alguns desses auto-esquemas (honestidade, religiosidade, culto, brincalhão, sério, submisso, humilde, arrogante, espontâneo, criador de caso, pacífico e diversos outros.) precisam estar sintonizados ou ativados pela consciência pessoal no momento da ação. De outro modo, são esses princípios fundamentais que passam a coordenar, no momento das ações, através de lembranças recuperadas, modulando e orientando a maneira de pensar e de agir nas atividades de níveis mais concretos ou periféricos, ou seja, as ações percebidas pelos órgãos dos sentidos como nos exemplos acima: devolver o troco, ir à igreja, orar, etc.

A ativação de um auto-esquema provoca o aparecimento de “eus possíveis”, como os eus sérios, cheios de fé, amedrontados, desejosos, esperançosos, raivosos, alegres, pai, filho, amigo, amante e milhares de outros eus que um indivíduo possa vir a ser.

Por outro lado, são esses eus possíveis ou virtuais que, num momento, ao despertarem, formam o “autoconceito em ação”, o eu real (o outro lado do eu virtual), que geralmente vai sendo mudado constantemente e dinamicamente. Num momento focalizo minha honestidade: devolvo o troco recebido a mais como modo de confirmar, para mim mesmo, o princípio central acerca da honestidade. Depois, muda-se a conversa e passo a discutir a fé das pessoas: nesse ponto estou transvestido no eu religioso. Num outro instante, ainda, falo acerca do último clássico do futebol e assim por diante, transformando-me num eu esportista. Em todos os momentos da ação concreta – não central – os meus diferentes eus se desnudam (se revelam), e se mostram para quem quiser observar e julgar minhas ações concretas com respeito aos princípios defendidos.

A estabilidade e coerência da pessoa, formadas pelas idéias armazenadas no seu sistema de memória autobiográfico, fornecem os auto-esquemas que irão representar os diversos eus, como o religioso, honesto, futebolístico e piadista, constantemente em ação em diferentes experiências da vida, estimulado por fatores do meio ambiente externo e interno.

As metas do eu em ação são limitadas: agora estou escrevendo; agora você lê o que escrevi, etc., todas as ações dirigidas pela memória autobiográfica minha e sua. Não é difícil perceber que jamais irei pensar e agir de certa maneira, se não possuir ou sem nunca terem sido armazenadas tais orientações em minha memória autobiográfica: pensamentos, emoções e motivações necessárias para organizar o modo de pensar exigido para isso. Portanto, o conhecimento A e B limita as possibilidades e tipos de metas que um indivíduo saudável pode realisticamente buscar alcançar ou não.

Do mesmo modo que a pessoa que não tem bons músculos não pode praticar corridas profissionais, um analfabeto não poderá pensar como um homem culto, um religioso budista não pensará como um cristão, se estou cursando Medicina posso imaginar-me como futuro professor da escola, um homem criado num mundo machista não pensará como uma mulher mais livre, etc. Em resumo: somos (pensamos, compreendemos e agimos) o que nossa memória biográfica estocou e é capaz de exibir num certo momento; não há como escapar disso. Podemos fazer um discurso diferente; não condutas diversas diferentes. Somos governados totalmente por nossos princípios, ou, simplesmente, por reações diretas e reflexas ao meio ambiente. Os princípios foram aprendidos naturalmente – sem consciência ou esforço – na cultura onde vivemos (pais, vizinhança, leituras, etc.).

Uma função geral da memória autobiográfica (MAB) é cultivar uma idéia do eu diferente dos outros. As metas possíveis para uma pessoa, como disse, não podem ser adotadas por pedido, requerimento ou, mesmo, ser irrealistas, pois elas estão cravadas, enterradas na pessoa particular, conforme seu auto-sistema de memória que possibilita representar, com antecedência, seu eu agindo num determinado meio também imaginado.

Assim, uma pessoa não pode manter uma meta, ou estruturas de metas, que contradiz o conhecimento autobiográfico que ela trás consigo. Por exemplo: uma pessoa não pode imaginar-se como tendo tido no passado uma realização acadêmica excelente – a não ser uma pessoa com disfunção cerebral: um doente mental– quando suas memórias estocaram uma péssima realização acadêmica. Portanto, as metas imaginadas pela pessoa encontram-se delimitadas pelo conhecimento autobiográfico que, de forma consciente, estabelece as possibilidades e limitações das metas a serem alcançadas pelo eu ação, de curta ou longa duração.

Quando os atuais planos e metas, ou eus em ação possíveis, estão em oposição ao conhecimento autobiográfico, há um transtorno na função normal do conhecimento autobiográfico, e, dependendo da severidade, o sistema pode estar doente. Essa incompatibilidade entre o conhecimento do auto-sistema de memória e as metas pode ser observada nos pacientes com danos neurológicos dos lobos frontais e, também, nos pacientes esquizofrênicos paranóides (“Eu sou Cristo”) .

Deve ser lembrando que, no início da vida, antes da formação das primeiras memórias do sistema autobiográfico, a pessoa é estimulada apenas pela memória da espécie, a inata, a única que ele tem nesse período; ela promove principalmente as ações para manter vivo o organismo do recém-nascido: busca de alimento, contato com os protetores, reflexos inatos para escapar de dores, luzes, desconfortos físicos diversos, etc.

Portanto, as características dos objetivos do eu em ação e como elas aparecem são considerações importantes. Elas parecem derivar do esforço que o organismo faz ou busca diante dos desequilíbrios/desarmonias corporais e cognitivas. Para alguns, existem três domínios principais relacionados ao eu:

  1. O eu atual (uma representação de si mesmo, a mais acertada possível);
  2. Um eu dever (nossa ética; o eu que a gente deveria ser conforme foi especificado pelos princípios ditados por nossos pais, companheiros, educadores e outros de importância);
  3. Um eu ideal (o que o eu aspiro ser; em harmonia ou baseado nos valores sociais).

A desarmonia entre os três domínios conduz a formas características de experiência emocional negativa. Esta pode começar muito cedo na vida da criança, podendo trazer consequências sérias para a pessoa. Essas memórias de experiências críticas são muitas vezes retidas e acessíveis, especialmente quando certas pistas do meio ambiente estimulam as informações importantes para a percepção da discrepância existente.

Podemos dizer que o termo “eu em ação” procura chamar a atenção para a conexão existente entre o “eu” da pessoa e sua memória de trabalho – a que está funcionando no momento de uma atividade qualquer (conversa com uma pessoa, leitura, etc.). Especificamente, acredita-se que a parte central da memória de trabalho processa, coordena e modula outros sistemas durante uma conversa, leitura ou reflexões.

O nome “memória de trabalho” tem sido usado para descrever as ações do “eu” ou da memória envolvendo processamento de informações no momento em que estas estão sendo percebidas, exibidas na consciência e ou usadas. Durante nossas ações, ao mesmo tempo, comparamos as informações recebidas com outras preexistentes na memória, as que foram ativadas para ajudar a compreensão e a produção do pensamento e da fala, ou externa ou interna.

O homem vive no presente, mas ele, através de sua memória de trabalho, forma a conexão que liga seu passado ao seu futuro. Ele tenta construir uma harmonia entre o eu anterior (passado), o eu presente e o eu futuro (planejado). Daí pensar que o homem (amadurecido) antecipa acontecimentos.

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