Assimilação Simbólica das Informações

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Há uma recusa de encarar a realidade existente, principalmente quanto às questões relacionadas ao ser humano. É mais suportável conhecer a realidade física ou química: o copo caiu e se quebrou; a água sanitária queimou minha mão. Está ocorrendo uma substituição da realidade pelo mundo imaginário. Evita-se enxergar claramente as causas reais da fome, dos despreparos, das doenças que atingem os mais humildes, das responsabilidades do poder político e econômico, etc. Estas são substituídas por uma responsabilidade imaginária dos Deuses bem distantes de nós. Instaura-se uma espécie de fobia diante das leis da natureza concebidas como susceptíveis de impedirem nossas liberdades fundamentais, notadamente nossa liberdade espiritual, pois somos, quase sempre, determinados pelos nossos genomas e pelas idéias culturais que nos foram impostas.

Portanto, desde cedo, tem-se a impressão de que o homem revoltou-se contra o mundo real. Ele sempre teve uma imensa atração por explicações teóricas, principalmente pelos mitos, e tudo indica que quanto mais falsa a narração mítica mais seguidores fanáticos ela terá. Desgostoso com a realidade existente, o homem tem criado um fantástico mundo de idéias (de si mesmo, de sua família, de seu povo, da natureza humana em geral, de uma outra vida e dos meios para alcançá-la, do perfil dos heróis, dos criminosos e de muito mais). O ser humano é um grande admirador da descrição abstrata e simbólica dos fatos e situações e não é muito atraído pela observação do concreto (este parece dar mais trabalho) e do possível de ser focalizado e percebido pelos órgãos sensoriais.

O mundo foi dividido em concreto e abstrato; experimentado e teórico ou imaginado. Percebe-se que a descrição popular (às vezes a científica) de uma área do mundo, muitas vezes, pouco ou nada tem a ver com o mundo real ou bem observado, isto é, frequentemente o mundo teórico não está relacionado ao mundo real ou sensível.

Inventamos símbolos e enchemos o mundo deles para descrever a realidade e as nossas ações. Criamos símbolos, também, para descrever as nossas descrições de nossas descrições e continuamos a descrever as descrições das nossas descrições nos levando ao infinito. São os símbolos que vão intermediar o real com nossa história. A tartaruga, a borboleta e o mosquito, ao contrário dos homens, reagem ao meio existente num certo momento. Não precisam dos símbolos para viver e parece que vivem felizes em contato direto com a realidade. Nós, confusos com tantos símbolos, ao que tudo indica, estamos infelizes. Construímos, sem parar, outros e outros mundos simbólicos diferentes e sempre achamos que os novos mundos por nós criados são mais certos que os antigos.

O ser humano, há cerca de 50.000 anos, ao adquirir a linguagem, tornou-se um grande admirador da descrição abstrata e simbólica de fatos e eventos, mostrando não ser muito atraído pelo concreto, pela análise, pelo estudo profundo do real, isto é, do possível de ser observado, esmiuçado, comprovado ou refutado, usando os órgãos sensoriais para assimilar a realidade. Esses dados, possíveis de serem observados pelos nossos órgãos sensoriais, posteriormente, devem ser interligados e sintetizados a partir da lógica e de teorias científicas possíveis de serem refutadas ou comprovadas. Mas isso dá trabalho e é cansativo. As histórias inventadas são mais fáceis de serem construídas. Elas seguem o imaginário, seja qual for, de qualquer modo e sem exigir disciplina e rigor.

O homem, como outros animais, procura a solução mais fácil diante de um problema. Ele inventou, dependendo da época e do momento, histórias espetaculares para explicar a conduta humana. Ora, se é complicado examinar seriamente a vida, a morte, a injustiça, a doença, o início do Universo e da vida, a atração sexual ou pelo alimento, por que não inventar uma interpretação qualquer que sirva para tudo? E assim os homens, mentindo para eles mesmos, afirmam, da boca pra fora, viver felizes imersos nesse caos.

Invenções de teorias: explicações da realidade

Os chineses antigos não reconheciam apenas quatro elementos proclamados pelos gregos. Eles acrescentaram mais um: água, ar, terra, fogo e, também, a madeira. Heráclito reduziu tudo a um só fator: o fogo. Matematicamente a ordem tende para a desordem. Os antigos gregos regularam certas medidas da terra e, a partir de dados, elaboraram suas terorias. Eles certamente se valeram dos métodos de agrimensura egípcios, desenvolvidos para observar as relações em constante transformação entre o Nilo e a Terra. Verificaram que existiam, na origem de todas as mudanças, certos princípios geométricos imutáveis, que foram aperfeiçoados pelos gregos. Esta geometria ainda é ensinada mais ou menos mecanicamente. Aprendemos princípios geométricos meramente como fatos, mas os gregos os consideravam como eternos, puros e absolutos.

Apareceram os alquimistas que falharam por falta de rigor. Eles multiplicavam seus problemas no laboratório como um cozinheiro inexperiente que exagera nos temperos. Além disso, esses “pesquisadores” sentiam uma relação mítica com seus ingredientes. Desse modo, em lugar de observar, eles rezavam.

Os homens do clero consideram a verdade como coisa puramente espiritual, uma questão de idéias à qual corresponda o mundo físico, sem necessidade de observação. Mas se a correspondência é exata, onde está a distinção entre eles? E se é inexata, a matéria é então falsa? Para alguns sim, mas basta tomar uma picada de mosquito ou injeção para provar o contrário. A idéia da dor e a dor de dente não são a mesma coisa; pertencem a áreas diversas, isto é, o pensamento e o sensorial.

A ciência moderna baseia-se em experiêcias mais estritamente controladas. A maior parte do equipamento foi idealizada com o propósito de eliminar fatores estranhos ao observado. Distraidamente, esqueceu que o homem é um estranho; daí falta conhecer o realizador da pesquisa. Agora a ciência está começando a demonstrar maior respeito pelo homem que a faz, isto é, pelo que acontece dentro da mente do experimentador e a experiência a ser realizada. Assim, só há pouco tempo começaram a explicar o explicador das explicações.

O físico atual faz coisas mais valiosas que o alquimista que “fabricava” o ouro dos trouxas e descobre fatos antes profetizados. Contudo, nem mesmo a ciência pode penetrar muito na natureza; o observador “penetra” apenas nas idéias ou representações que ele tem da natureza, jamais na própria natureza.

As concepções do homem são limitadas ao que lhe é revelado pelos seus sentidos. A verdade, se considerarmos de forma pragmática, é o que pode provado. Atualmente, distante do Iluminismo, percebe-se que o homem é limitado para elaborar uma teoria integral da realidade. Ele ainda pouco sabe do conhecedor da realidade observada.

Os cientistas tendem a considerar a verdade como um conglomerado de coisas, sobre as quais podemos ter idéias. Mas, se a verdade somente existe no plano material, de onde vêm nossas idéias que examinam as coisas? Do reino das ilusões? Precisamos explicar a gênese das idéias dos homens e de cada um deles.

O poder das crenças e a realidade experimentada

A filosofia, bem como a religião e as ideologias, ainda fazem parte da nossa maneira de pensar. Os filósofos sempre reconheceram dois tipos de problemas. Um deles é o “o que são as coisas, o que é uma pessoa, e de que espécie é o mundo”; estes são os problemas de ontologia. O segundo tipo de problemas é “o de como nós podemos conhecer qualquer coisa”, ou mais especificamente, “como nós (conhecemos) sabemos que espécie de mundo que ele é, e que espécie de criaturas nós somos e como podemos conhecer-nos”; estes são os problemas da epistemologia.

As concepções gerais do mundo, como as noções de causa e propósito, do bem e do mal, liberdade e escravidão, coisas e pessoas, deveres, leis e justiça, verdade e falsidade, para tomar algumas idéias centrais, dependem diretamente da estrutura geral dentro da qual elas se formam, por assim dizer, seus pontos básicos (as diferentes epistemologias).

Embora os fatos classificados e arranjados sob essas diferentes noções não sejam de forma alguma idênticos para todos os homens, em todos os tempos, ainda assim, essas diferenças (com respeito aos fatos) – que as ciências examinam – são muito menores que as diferenças profundas surgidas quando se usa as lentes ou padrões desiguais.

A experiência focalizada foi concebida e classificada: o organismo versus ajuntamentos formando um todo; o propósito (intenção) versus a causalidade mecânica; os sistemas versus meras simultaneidades; o dever versus o desejo; o valor versus o fato. Essas são categorias, modelos, lentes focadas conforme os fatos e usadas diferentemente por um e outro indivíduo.

Algumas dessas categorias são tão antigas quanto a própria experiência humana, outras mais recentes e mesmo transitórias. Os diferentes modelos e estruturas, com suas concomitantes obscuridades e dificuldades, apareceram em diversas épocas. Na política, por exemplo, os homens tentaram conceber a sua existência social por analogia com vários modelos.

Numa certa época, Platão, talvez seguindo Pitágoras, tentou estruturar o seu sistema da natureza humana, os seus atributos e metas, seguindo um padrão geométrico, pois pensava que esse explicaria tudo que havia. Seguiu-se o padrão biológico de Aristóteles; as muitas imagens cristãs, que existem em abundância nos escritos dos Padres da Igreja, bem como no Antigo e Novo Testamento como descrito anteriormente; a analogia com a família, que lança luz sobre as relações humanas não contempladas por um modelo mecânico; a noção de um exército em marcha com a sua ênfase em virtudes como lealdade, dedicação e obediência necessárias para surpreender e esmagar o inimigo; a noção de Estado como um guarda de trânsito e um guarda-noturno que impede as colisões e cuida da propriedade, que está no fundo de muito pensamento individualista e liberal, parte de um grande organismo, etc.

Uma visão geral mostra que esses modelos, muitas vezes, contêm atitudes opostas, uma contra a outra. Além disso, diversos modelos se tornam inadequados por deixarem de explicar muitos aspectos da experiência a ser compreendida e, por fim, são, por sua vez, substituídos por outros modelos que enfatizam o que esses últimos omitiram.

Uma tarefa importante da filosofia, frequentemente difícil, é desnudar, desembaraçar e exibir as categorias e modelos ocultos subjacentes ao raciocínio humano. Geralmente seu possuidor não percebe que está usando este ou aquele princípio, isto é, que ele está “enxergando o mundo com suas lentes particulares”. A tarefa da filosofia tenta descobrir, verificando o uso de palavras, imagens e outros símbolos, e desvendar o princípio subjacente; revelar o que é obscuro ou contraditório neles, para discernir os conflitos existentes entre eles. Essa tarefa muito difícil tenta impedir a desordem de nosso raciocínio e a construção de modos mais adequados de organizar, descrever e explicar a experiência humana quanto à realidade física e ao comportamento. É amplamente aceito que toda descrição, assim como toda explicação, implica sempre em algum modelo subjacente conforme o que se descreve e explica.

A Filosofia, depois, num nível ainda “mais elevado”, examina a natureza dessa própria atividade (epistemologia, lógica filosófica, análise linguística), isto é, há uma crítica do modelo usado, buscando sempre trazer à luz os modelos ocultos que estão operando na própria atividade filosófica.

As explicações acima podem dar a impressão de que tudo isso não só é bastante abstrato, bem como distante da experiência diária. O leitor poderá pensar que isso não lhe interessa, pois não diz respeito aos seus interesses centrais, à sua felicidade ou infelicidade e ao destino supremo do homem comum. Essa intuição popular é falsa. Usamos, sem parar, para pensar ou expressar nossos pensamentos, essas categorias filosóficas.

Não há como viver, a não ser um débil mental extremamente grave, sem perceber o meio ambiente, seja lá qual for, e, posteriormente, procurar descrever e explicar o universo para si mesmo, incluindo seu próprio organismo. Mais uma vez chamo a atenção do leitor: os tipos diferentes de modelos empregados para descrever e explicar afetam profundamente a maneira de perceber, sentir, pensar e se comportar de cada pessoa, principalmente quando (geralmente são) esses pilares sustentadores das explicações são inconscientes. Grande parte da desgraça e frustrações dos homens se deve à aplicação mecânica ou não consciente, bem como deliberada de modelos inadequados à realidade vivida. Por isso, nada mais prejudicial (funesto) para o indivíduo que o uso de modelos em desacordo (incompatíveis, inconciliáveis) com a realidade.

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