Absorvendo o “ERRADO” e o “CERTO” na Família

Imagem - Família

Os pais em Lumeeira, como todos os pais do mundo, muito cedo, percebem os filhos como possuidores de certas características mais chamativas que outras e, naturalmente, as nomeiam com um ou outro termo; a partir desse momento passam a tratar os filhos conforme os rótulos aplicados. Desse modo, um deles é o bonito, o outro o inteligente e um terceiro pode ser qualificado de preguiçoso e pirracento. Essas categorias estabelecidas, criadas sem nenhum cuidado, uma vez usadas e estabilizadas na memória dos pais, levam estes a ter um determinado tipo de resposta padrão diante da conduta ou da simples presença do filho. Assim agimos com todas as pessoas, conforme os modelos que desenvolvemos a respeito delas.

Por outro lado, os filhos que recebem um determinado rótulo e tratamento dos pais moradores em Lumeeira tendem a se comportar conforme os procedimentos que foram se tornando padronizados. Explicando melhor: a expectativa do filho com relação à maneira como ele é visto e tratado pelos pais (companheiro, colega) leva-o a agir de modo a se adequar (confirmar) ao esperado pelas outras pessoas, isto é, pais e outros. Os pais têm crenças intuitivas (elaboradas sem precisão) e, a partir delas, eles concluem que o filho, independente do julgamento estabelecido, possui a suposta característica autônoma (bonito, inteligente, preguiçoso, tímido, falante). Essa característica nomeada pelos pais é percebida por eles como se existisse um atributo real no filho, uma existência própria, livre da avaliação e de outros fatores do meio ambiente que poderiam ter importância para a conduta imaginada. Por exemplo: o menino “preguiçoso” pode ser “preguiçoso” para estudar matemática, mas “não-preguiçoso” para jogar futebol, isto é, depende do estímulo e do momento. Do mesmo modo, o menino “falante e engraçado” pode agir assim somente na presença dos familiares que o classificaram desse modo, sendo ou oposto, ou seja, calado e tímido, diante da colega que deseja se aproximar para namorar. Não é difícil perceber um comportamento diferente de cônjuges nos momentos em que estão juntos e quando estão separados um do outro.

Com o passar dos anos as hipóteses construídas vão sendo geralmente confirmadas em função das respostas obtidas. Quando suposições acerca do filho se tornam cristalizadas, seus pais também cristalizam seus modos de responder à criança e assim passam a ter condutas fixas para estes conforme o imaginado, reforçando a crença quanto à atitude dele.

Decorrente das rotulações hipotéticas, os pais gastam mais ou menos tempo com o filho conforme o rotulou de “bom ou mau ouvinte”. Também, irão se apoiar emocionalmente mais nos filhos “bons”. Por exemplo: os pais fazem, sem perceber, mais esforços para ajudar os “bons” e lhes dão mais oportunidades para aprender, sair, perguntar e brincar. O filho “mau”, por outro lado, tende a receber atenção apenas devido ao seu comportamento negativo, isto é, sendo criticado, punido, etc.

Vários fatores constroem a crença positiva ou negativa acerca do filho. Praticamente toda crença se relaciona com emoções sentidas, agradáveis ou desagradáveis, pelo julgador diante de fatos presenciados e imaginados no filho. Entre as características provocadoras de julgamentos negativos estão, por exemplo, ele não ter sido desejado, ser feio segundo os padrões dos pais, magro ou gordo demais, ter dado muito trabalho antes, durante e após o nascimento, ter piorado a vida dos pais, ser dependente ou independente demais, etc.

Uma vez criadas estas idéias elas se tornam não só difíceis de serem extintas, mas, também, dão origem a uma “teoria” positiva ou negativa acerca do filho, também, muitas vezes, pelos amigos, vizinhos ou pela população da cidade. A manutenção da característica imaginada é construída através do uso de conceitos abstratos, isto é, não possíveis de serem observados, comprovados ou refutados; por outro lado, um conceito concreto, como, por exemplo, “José é baixinho”, sendo um conceito concreto, poderá ser comprovado ou negado.

A partir da construção da “teoria”, “Mário é um menino obediente e amoroso”, “Lúcio é preguiçoso; além disso, é mentiroso”, torna-se muito difícil mudar a opinião já formada. Uma vez sendo elaborada e cristalizada a avaliação, a presença do menino “ruim” diante dos pais irá provocar emoções negativas (raiva, mal-estar, desprezo, desanimado) e, o contrário, o menino rotulado como “bom” provocará emoções positivas (relaxamento, alegria, prezar, ânimo).

Mesmo quando os pais observam (percebem, visualizam) a conduta do filho frontalmente contra as “terorias” existentes, estes, apesar do observado, mantêm as crenças originais. Os motivos são diversos. Normalmente as pessoas observam no filho “bom” apenas as condutas “boas”, fazendo “vista grossa”, automaticamente, às negativas. Quando o filho “bom” falha, esta falha é atribuída a fatores ambientais ou externos; não a ele próprio. Por outro lado, o fracasso do filho “mau” é imputado à sua burrice, preguiça e mau-caráter, ou seja, é fruto de sua incapacidade pessoal (fatores internos e impossíveis de serem modificados) e de suas características negativas (devidas a “traços” ou “estados”) e personalidade, que “não mudam”; uma nova crença intuitiva que leva a pessoa a aceitar a desgraça desse filho ruim como um fardo que terá que carregar. As boas condutas do “mau” filho são atribuídas ao acaso ou a outros fatores externos a ele; nunca devido a sua habilidade e capacidade.

Pobre do mau filho! Se ele age acertadamente seus pais se sentem mal e confusos, pois esperavam o contrário e, nesse caso, não se sentindo bem, eles tendem a arrumar argumentos para justificar suas crenças e não suas observações: “Ele está fingindo”; “Foi por acaso, daqui a pouco estará fazendo tudo errado de novo”. Muitas das crenças que os pais formam acerca do filho “bom” permanecem por ser o filho obediente ou semelhante aos pais. Os pais dão mais liberdade para os “bons” filhos e impõem atividades mais rígidas para os “maus”, numa tentativa de manter o controle sobre este que se crê perdido.

Os pais percebem e armazenam os fatos que vão ocorrendo de acordo com as teorias compostas a respeito deles. Portanto, se temos “teorias negativas” a respeito de um filho, “Paulo é vagabundo”, temos tendência de observarmos e lembrarmos apenas dos fatos “ruins”, os que confirmam a hipótese. O mesmo ocorrerá com o filho “bom”. Temos grande dificuldade para processarmos informações diferentes das esperadas, pois caso isto ocorresse, seríamos forçados a mudar o ponto de vista já fixado; essa conduta não é a comum. Como se sabe, poucos são os que conseguem mudar suas opiniões com respeito aos julgamentos feitos. Entretanto, não é difícil mudar um conhecimento concreto, como, por exemplo, imaginar que a capital da França é Madrid e aprender que é Paris; chamar taioba de inhame; achar que São Jorge mora na Lua e, depois, aprender que ele parece morar em outro lugar.

Esses novos conhecimentos - os perceptuais ou sensoriais - são aprendidos facilmente. Mas reaprender que o presidente que adorei não merecia minha adoração não é fácil. De modo semelhante: se não me simpatizo com o nosso presidente, torna-me difícil admirar seus “belos” cabelos ondulados. Assim, se um fato diferente do esperado fosse aceito com facilidade, como no exemplo “Paulo, que é um filho denominado de ‘mau filho’, fez uma grande ação”, seríamos capazes de observar dois aspectos ao mesmo tempo numa mesma pessoa: “Paulo, que é ‘mau’, teve uma conduta elogiável”, isto é, Paulo também é “bom”. Isso é possível (recebe o nome de atitude dual), mas não é fácil. Se isso ocorresse frequentemente, a conduta elogiável não seria mais incoerente com a possível conduta indigna (má), que seria prevista como possível e normal (Paulo, como todos nós, pode, devido às circunstâncias internas e externas, agir bem ou mal.)

Em resumo, uma suposição inicial, criada pelos mais diversos e transitórios motivos, muitas vezes, pode perdurar e nos forçar a lembrar e procurar as informações adaptadas para confirmar as crenças construídas e possivelmente fabricadas por emoções detonadas num certo momento. As informações, não confirmatórias, são rejeitadas - não são assimiláveis - pelas crenças preexistentes.

A pessoa que tem auto-estima baixa está sempre procurando e selecionando os fatos que possam confirmar a crença original: “Eu não tenho nada de bom”. Uma moça com estas características, ainda que não goste, pensará que seu amigo censurador a conhece melhor que o elogiador. Por isso, para estar junto do conhecido, ela tende a se aproximar mais do recriminador, pois este a “conhece melhor” ou é “mais honesto e espontâneo”. Segundo minha especulação, caso uma pessoa, por exemplo, Pedro, que apresenta uma auto-estima baixa e namore uma outra que a elogie, possivelmente ela tende a não gostar de sua admiradora. Isso ocorre porque Pedro pensará mais ou menos assim: “Como pode alguém gostar de mim; eu não tenho nada que agrade alguém. Se ela gostou de mim é sinal que ela também não tem nada de valor, pois do contrário ela arrumaria alguém melhor”. Acredito ainda que uma grande parte das pessoas age da maneira de Pedro de Lumeeira: aprecia a pessoa que a despreza, pois essa, sendo “importante” e possuindo “muitas qualidades”, não irá gastar tempo como alguém insignificante como ele. Mas essa opinião (palpite) nada mais é que uma intuição minha.

Existem pais rígidos, isto é, os que têm certeza acerca de suas suposições. Os rígidos, também chamados de autoritários ou dogmáticos, são mais insensíveis às mudanças de comportamento dos filhos que poderiam contradizer suas hipóteses originais. Esses pais confiam mais nas suas crenças intuitivas (sem fundamentos empíricos) existentes em sua mente que em suas observações; eles julgam e agem conforme o seu rótulo e não de acordo com o percebido e mais real. Os pais de suposições flexíveis são capazes de reverem e mudarem suas hipóteses conforme os fatos observados.

Se o filho acreditar que para atingir seus objetivos ele dependerá mais de si próprio, mesmo sendo visto como mau, ele poderá ter sucesso. Entretanto, se sua crença for a de que seu futuro depende dos pais, ele pensará que não há nada a fazer. Assim, o conceito (a teoria dele mesmo) que o filho forma de si próprio, após ter sido rotulado ainda criança, terá uma importância crucial para a melhor adaptação na futura vida.

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