A Teoria Moral e a Intuição

Imagem - Desenvolvimento da moral

A teoria da moral, antes de qualquer outra consideração, pode ser definida como uma rede de suprimentos (provisões, dados) para criticar e, principalmente, julgar a conduta das pessoas. A teoria, a princípio, forneceria razões aceitáveis para elogiar ou desapreciar alguém de acordo com o modelo que prescreve que “as pessoas deveriam se esforçar para viver conforme os mandamentos de Deus”, por exemplo, ou conforme o Código Penal ou qualquer outra regra usada ou aceita.

Os pesquisadores mais antigos afirmaram, com convicção, que foram “as razões justificadoras que deram origem aos julgamentos”. O reverso disso é mais plausível, pois as pessoas não têm acesso aos seus processos automáticos de julgamento, geralmente, já que não há como acessá-los. Estudos demonstram que as crianças de muitas culturas defendem a teoria da moral afirmando que “os atos que são punidos são os errados e os atos que são recompensados são bons”. Tais afirmações são as regras que geralmente as crianças usam para avaliar ações: “as ações não punidas não são más ações”.

Muitas pessoas usam a teoria de que elas agem e devem agir, primariamente, sem ser para seu próprio interesse (egoísmo), isto é, para o interesse do outro (altruísmo). Entretanto, ser egoísta é uma tendência natural de todo ser vivo. Para sair dessa armadilha-afirmação errônea, elas precisam fabricar explicações para seus atos egoístas, os de auto-interesses para harmonizar a conduta real com o princípio de ser altruísta. Isso ocorre, por exemplo, nas ações de caridade e na assistência aos necessitados, quando tudo dá a impressão de que a pessoa está agindo contra seus auto-interesses. Ouvi uma apresentadora de programa de televisão falando a respeito de um trabalho que ela estava fazendo para ajudar os outros: “O bom de nosso trabalho é que ele melhora agente mesmo. Eu estou muito melhor depois que comecei essa atividade”. Parabenizo essa simpática apresentadora. Ela percebeu e externou publicamente que estava, também, ajudando a si própria ao ajudar os outros. Muitos falam o oposto: “Apesar do sacrifício, sempre procurei ajudar as pessoas. Cuido mais delas que de mim…”. Uma afirmação como esta é mentirosa; este indivíduo gosta e se sente bem com sua atividade.

A construção do raciocínio moral, feito após o julgamento, visa a justificar automaticamente as intuições (sem o uso de observações cuidadosas e sem o uso da razão) morais. Nossa vida moral está dominada por duas ilusões. A primeira é que acreditamos que nosso julgamento moral é impulsionado ou ativado pelo nosso raciocínio. Isso não é verdadeiro. A segunda ilusão é que nós esperamos refutar com sucesso os argumentos do nosso oponente, com o intuito de mudar o modo de pensar dele. Isto não acontece nas discussões. Usamos muito a frase: “Precisamos dialogar mais com nossos filhos, alunos, etc.”. Na maioria das vezes, quando o conhecimento é intuitivo, como quase sempre é, nenhum muda seu “ponto de vista”.

A pessoa acha que ela própria percebe o mundo como ele é, mas seu oponente teimoso não o enxerga ou não quer enxergá-lo da maneira correta. Imaginamos que o nosso chato oponente pensa erradamente por ser tendencioso, pois tem sua mente infiltrada por ideologias e auto-interesses mesquinhos. Nós todos somos assim. Criticamos o outro e não percebemos a venda existente em nossos olhos impedindo-nos de perceber que existem outros modos de avaliar e, também, da inutilidade da discussão. Cada um de nós discute usando a própria teoria, isto é, assimilamos a realidade com o modelo que possuímos e não entendemos ou nos identificamos com a outra maneira, a estranha para nós: “Deus existe e criou o mundo” para um, mas, para o outro, “Deus não existe, portanto não criou o mundo”. Jamais um vai convencer o outro de que sua “verdade” é a verdadeira e certa.

Dando um outro exemplo: num debate acerca do aborto ou política ambos os lados acreditam que suas posições são baseadas no raciocínio acerca dos fatos e problemas envolvidos. Ambos acreditam que o que eles pensam e apresentam durante as discussões são excelentes argumentos para apoiar suas posições e crenças. Cada lado espera que o outro lado seja sensível a tais brilhantes e sagazes razões. Quando o outro lado fracassa para ser afetado por tais “boas” razões, cada um conclui que o outro deve ter uma mente fechada, insincera ou outro nome pejorativo: “Ele é um idiota”.

A pessoa não concebe que ela está agindo de modo parecido ao do seu contendor e que seu raciocínio não é raciocínio e seu julgamento se baseia em crenças e emoções intuitivas e não numa lógica pura e imune ao irracional. Desse modo, a pessoa é incapaz de perceber suas ilusões quanto à lógica. Pensando assim, poderíamos, caso estivéssemos com raiva, chamá-lo de “idiota”.

Os argumentos morais são, portanto, como combater sombras numa luta. Cada contestador acerta ou lança golpes nas sombras do oponente. A pessoa fica surpresa ao ver a sombra intacta, não derrubada, por mais que ela seja atacada. Da mesma forma do fracasso de agredir sombras, o ataque do raciocínio moral atinge pouco o adversário, ou seja, tem pouco efeito persuasivo nas brigas conflituosas.

Um estimulante para o leitor já meio desanimado diante do pessimismo das discussões. Em algumas raras vezes o raciocínio moral pode ser efetivo para influenciar as pessoas antes de o conflito surgir. Palavras e idéias afetam amigos, aliados e mesmo estranhos por meio dos elos racional-persuasivos que possam existir e serem detonados. Adianto que isso não é nada fácil.

A estratégia a ser usada deve tentar conseguir que a outra pessoa veja o problema discutido de um novo modo, sob um novo ângulo, de uma maneira diferente da anterior, para que assim haja a produção de outras emoções e intuições diferentes, de preferência opostas à anterior. Tudo isso, portanto, visa a impedir que o problema ventilado desencadeie outras intuições contrárias ao nosso objetivo. Nesse caso, a geração de outras intuições, semelhantes à original, irá reforçar a defesa da intuição inicial incitando mais a defesa contra nosso argumento. Então, se tivermos sorte, poderemos influenciar os outros com nossas palavras. A famosa frase de Martin Luther King Jr., “I have a dream”, foi efetiva. Luther King usou uma metáfora e uma imagem visual em lugar de um raciocínio lógico proposicional para obter dos Americanos brancos uma nova visão da segregação racial, das injustiças, etc.

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