A Responsabilidade Humana é uma Ficção?

Imagem - Responsabilidade Humana

Nada é universal e absoluto. Tudo muda conforme o momento, o local e as idéias dos “donos da verdade”. As regras morais, como tudo o mais, variam diretamente com a distribuição do poder, a época e a moralidade predominante. Sabemos, por exemplo, que a ética dominante nunca foi a dos perdedores ou submissos.

Para exibir para a população uma impressão superficial de justiça, fingimos e mostramos nossas mentiras uns para os outros de maneira hipócrita. Através das palavras mentirosas mantemos um suposto equilíbrio, uma pseudo-harmonia da justiça dos fortes e dos fracos, dos “escolhidos” e dos “rejeitados”, dos dominadores e dos dominados.

Sem exceção, nós mesmos, julgadores não-julgados num momento, querendo ou não, fazemos parte de um ou outro grupo e, nesse caso, tendenciosamente, enxergamos e avaliamos o mundo segundo o ponto de observação provisoriamente ocupado por nós, conforme as lentes que estamos usando no momento. Ora pertencemos à classe médica, ora à política, mas também podemos fazer parte do grupo dos pacientes, representar e pensar como o eleitor, lixeiro, pai, cliente, filho, irmão, católico, ateu, ocidental, oriental, latino, mineiro e, até, como itabirano.

Sempre usamos, durante nossos julgamentos, a tela (óculos) do momento - pai ou filho, médico ou cliente - que nos cega, dificultando-nos a enxergar o lado de lá, muitas vezes oposto, o que está sendo acusado ou elogiado. Creio ser impossível julgar um povo sob a tela visual despreocupada, otimista e folgazã do político e examinar o lixeiro através dos “olhos” indiferentes do produtor do lixo.

A descrição da realidade de outros animais

Engraçado. Os humanos descrevem a realidade acerca da conduta dos outros animais com bastante precisão através do nosso hemisfério direito. Somos, portanto, muito realistas quanto ao comportamento e inteligência dos animais ditos inferiores. Na descrição dos outros animais, somos compreensíveis, bondosos e amorosos para com eles. Mas, quando descrevemos o homem, o esclarecimento acerca de quem é o homem é abandonado. Na descrição do homem, que é uma lástima, inventamos e inventamos histórias e mais histórias nunca observadas, isto é, que nada têm a ver com a realidade existente, vivida e percebida. Deformamos o que é o homem de verdade. Essas histórias mentirosas e espetaculares do homem atraem a nossa bobice, espalham-se com incrível facilidade e, como passam a ser posse da maioria, se tornam “verdades quase universais”. As invenções espetaculares, diferentes dos fatos crus e sem graça, estimulam e atraem os homens e dominam suas mentes, impedindo a entrada de outras explicações mais simples, sem graça, revelando que não somos o apregoado. Até quando vamos ser enganados por essas explicações que não retratam o que somos?

Correntes de pensamentos que nos dominam: existe liberdade? E responsabilidade?

Se não estudarmos como possíveis as grandes e poderosas correntes do pensamento que nos dominam, o jogo complexo acerca da conduta humana jamais será decifrado. No lugar de uma eficiente e produtiva definição do comportamento humano existirão vultos desconectados, perdidos e assentados na argila mole dos cérebros plásticos capazes de assimilarem qualquer idiotice relatada. Somente há cerca de aproximadamente duas décadas foram iniciadas pesquisas sérias e bem fundamentadas nessa área.

A bela e admirada responsabilidade moral é uma ficção que começa a desabar e a ficar fora de moda após estudos mais responsáveis e menos especulativos. A responsabilidade moral cada dia mais se assemelha a um dinossauro, uma criação pré-científica que deverá morrer quase sem deixar vestígios; sem foguetes e sem luar. Espera-se, com o aumento do conhecimento, o desaparecimento da antiga explicação ou, no mínimo, sua reformulação quanto aos princípios básicos. Usamos, constantemente, expressões “carregadas de valor” e, também, falsas noções de democracia e de liberdade humana, na qual se fundamenta a idéia de responsabilidade. Espera-se que essa idéia acabe para os homens esclarecidos e se alastre para toda a população restante.

Há uma maneira rápida, mas complexa, para entender a conduta negativa ou positiva de alguém. Para isso basta tomar, imaginando, o seu lugar e representar seu papel provisoriamente, e, se possível, identificar os aspectos biológicos da pessoa que estamos julgando e, também, as condições como o “clima” intelectual, religioso e social da época e do lugar onde ela cresceu e se desenvolveu até chegar no ambiente onde agiu. Desse modo pode se conseguir uma visão mais clara e aproximada dos motivos e ações que estamos criticando negativamente ou exaltando.

Caso conseguíssemos isso - sei que é impossível - todo o vocabulário das relações humanas sofreria um abalo radical. Expressões como “Não devia ter feito isso”, “Como é que você pôde escolher X?”, além de toda a linguagem pejorativa e enaltecedora usada por nossa consciência para avaliarmos nós e os outros passaria por uma transformação total. As expressões linguísticas seriam muito diferentes das atualmente usadas.

Se os progressos existentes nas neurociências e na psicologia continuarem, caso não haja censuras constrangedoras para manter as mentes nas trevas da ignorância, seremos obrigados a usar novos modos de pensar, de avaliar e de conceituar os eventos acerca da responsabilidade, do crime, do engrandecimento ou glorificação de pessoas. Isso marcaria uma revolução no modo de raciocinar e de julgar, maior que a ocorrida durante o Renascimento.

Tudo o que pensamos está impregnado por essas categorias de uma forma tão arraigada, tão difundida e universal que afastá-las e pensarmos de outro modo é quase, senão totalmente, impraticável. É fácil, intuitivamente, esculachar alguém: “É um tarado; merece ser morto!” ou seu oposto “É um homem excepcional, extremamente inteligente e bondoso; merece toda nossa consideração!”.

O peso da responsabilidade de toda ação humana deve deixar de ser posto no indivíduo, João ou Maria, e transferir-se para outros aspectos ou forças diferentes das comumente chamadas pessoais: circuitos cerebrais, hormônios, neurotransmissores, lesões, drogas, educação, cultura, época, idade, doenças, pressões diversas, profissão e um pouquinho do que chamamos “vontade”. Todas essas estruturas, biológicas, bioquímicas, psicológicas, culturais e religiosas possuem um maior potencial explicativo que a que habita o fraco e isolado João Ninguém ou Bush o Grande Irmão.

Aplaudir ou acusar alguém nada mais é que interpretar superficialmente uma pessoa, ou melhor, se prender apenas à tinta externa, à casca facilmente visível orientada por um princípio determinante. Denominar alguém de responsável ou irresponsável, culpado ou criminoso, é um modo simples de escapar do penoso e longo esforço, sutil, chato e carregado de dúvidas visando a desembaraçar os intrincados e desconhecidos laços que dão nascimento às intenções humanas. Você escolherá um ou outro caminho, e, sem dúvida alguma, será o rápido, quente e intuitivo, pois é mais fácil: “Viva X!” ou “Assassino!”.

Por tudo isso, ora batemos palmas para o homem, ora queremos sua morte ou prisão. O homem oscila de Deus (amamos e perdoamos) ao Demônio (odiamos e matamos injustamente), e, às vezes, se aproxima da burrice. Como somos um produto da evolução, estamos aprisionados às forças que nos obrigam a preservar a nossa vida e a da espécie.

Fica difícil, talvez esteja além de nossos poderes normais, conceber qual seria nossa imagem do mundo se acreditássemos e empregássemos seriamente as idéias aqui defendidas: procurar entender o mecanismo biológico, o meio cultural e as oportunidades que levaram João a ser ladrão e Bush a ser presidente dos Estados Unidos. Segundo essas idéias, nós não pensaríamos em penalizar João e nem em aplaudir Bush, pois, entendendo uma e outra conduta, não estaríamos espantados com o realizado por um e outro personagem.

O melhor é desistir de mudar a forma de pensar

As mudanças envolvidas, segundo as críticas acima descritas, são radicais. Por tudo isso, talvez seja melhor continuarmos iludidos. Estou em dúvida se a verdade deve ser sempre exibida para todos. Até agora, todos, mesmo os que defendem a verdade, escondem os casos em que ela põe em perigo a ordem pública, o grande temor de nossos dirigentes. Por absoluta falta de resposta, uma indecisão atroz, aceito a possibilidade que seria melhor deixar tudo como sempre foi, todos nas trevas, como tem acontecido através dos séculos.

Talvez não valha a pena pensar do modo como defendi acima, pois experimentaríamos consequências terríveis caso mudássemos nossa maneira de avaliar as pessoas. Por isso, vocês decidem se é melhor continuar a exclamar: “Viva Bush!”, “Enforque Saddam!”, “Mata o estuprador!”, “Suzane, assassina!”. Cada uma dessas expressões impulsivas, emocionais e não cognitivas e racionais são fáceis e práticas. Além disso, a sua expressão não nos causa nenhum trabalho mental e, também, não teríamos que repensar diante da nova realidade. Assim é melhor: continuarmos aninhados na nossa acolhedora e santa ignorância. Também para que usar um raciocínio mais exato e cansativo? Talvez o homem não mereça tanto!

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