A Intuição como Pré-conhecimento

Imagem - Intuição

As intuições como um ninho (modelo) para a colocação (entrada) de outras

As instituições educacionais ignoram (ou fingem ignorar) esse poderoso e dominante “conhecimento”, um protótipo ou pré-conhecimento (pré-saber), adquirido cedo pelo indivíduo. Este pode ser o único conhecimento usado pela pessoa e, também, outras vezes, servirá de base para a instalação de outros saberes mais complexos que exigem esforço e determinação, como, por exemplo, o da ciência mais profunda, de uma religião adulta e não infantil (pré-conhecimento).

As intuições primitivas, desenvolvidas visando a nos ensinar e facilitar nossa compreensão e ação diante dos problemas enfrentados, podem, ao contrário do desejado, nos impedir de agir eficientemente, pois o ensinado, frequentemente, não é adequado e não tem a profundidade necessária para o conhecimento eficiente, ou, muitas vezes, é falso, isto é, pode não permitir o assentado de outros saberes mais eficientes. Um exemplo simples: o conhecimento popular acerca da saúde e da doença. O conhecimento intuitivo existente impede ou dificulta a entrada de um conhecimento mais sofisticado.

A professora (bem como os pais) na escola, como qualquer ser vivo vivendo numa certa cultura, transmite aos alunos, geralmente, o vivido e pensado intuitivamente por ela, junto com outros fatos e eventos que são discutidos: científicos, históricos, geográficos, etc. Ela, naturalmente, de forma automática e espontânea, incute atitudes, valores, gêneros, sexualidade de uma forma ou outra, bem como o direito de um grupo de privilegiados a ter mais posses e de poder desperdiçar, enquanto outros passam fome, a superioridade dos homens sobre as mulheres, dos brancos sobre os negros, dos descendentes de certas famílias sobre os “sem-nome”, dos moradores de uma determinada zona da cidade e os favelados. Tudo conforme o “catecismo” aprendido nos primeiros anos de vida e, geralmente, de forma inconsciente.

Assim são aprendidos todos os nossos preconceitos (intuições deformadas), ou seja, eles são impressos em nossa mente logo após nosso nascimento. O preconceito nada mais é que uma “intuição” defeituosa, como outras, aprendido muito cedo como um modo correto de avaliar pessoas ou coisas. O preconceito é uma forma de conhecimento deturpado (um mito ou fábula), por falta de um saber mais profundo e adequado. Não aprendemos cedo o conhecimento mais exato e profundo, explicativo, relacionado às razões para as nossas conclusões inexatas. Nosso cérebro não é capaz desse complicado trabalho associativo nos primeiros anos de vida.

Lamentavelmente, nossa sociedade, em todos os países, aprende noções, não somente simples, mas, pior, tendenciosas e falsas. Muitas dessas informações, que não mais nos largam, irão servir de base para outras aprendizagens assentadas nesses conhecimentos inexatos transmitidos de boca a boca.

Um dos aprendizados adquirido, produtor de muitos dissabores futuros, é o desconhecimento de nossa ignorância com respeito aos nossos pilares, podres e aleijados, base para a edificação de nossas outras conclusões e decisões. Desconhecendo nossa ignorância, deixamos de prestar atenção a outras formas de explicação e temos “certeza” que nossa crença nos revela a verdade.

Deve ser lembrado que o aluno, ao começar seus estudos no pré-primário, não é um receptáculo vazio. Está equipado com uma caixa de ferramentas elementares ou noções rudimentares (pré-conhecimento) contendo implementos, um ninho preparado (melhor ou pior) para captar as outras informações que virão do meio, as técnicas de raciocinar e fazer uso, de modo pré-determinado e específico, para adquirir outros conhecimentos.

Esses implementos primários, diante de informações mais sofisticadas, têm de ser recrutados com sagacidade para dominar problemas para os quais não foram estruturados. Isto requer não só inserir novos fatos e habilidades na mente das crianças, mas depurar e desativar fatos e habilidades antigas inadequadas.

Isto não só é muito difícil, como algumas vezes impossível. Os estudantes não podem aprender a Física newtoniana antes de desaprenderem a física intuitiva baseada no ímpeto do objeto; daí os imensos prejuízos do já aprendido. Não podem aprender Biologia moderna antes de desaprenderem a biologia intuitiva dominadora da mente, que raciocina com essências ou fluidos vitais, e não podem aprender evolução antes de desaprenderem sua engenharia intuitiva, a que atribui a estrutura dos seres às intenções não reveladas de um criador. O novo conhecimento não consegue atravessar a barreira construída pelo antigo “conhecimento”.

Pré-saber, crenças e atitudes

Tudo o escrito acima nos leva a um ponto super importante. Para entender uma determinada crença ou opinião é necessário conhecer sua base cognitiva (impressa muito cedo em nossa mente, bem como a forma usada para captar o aprendido), onde a idéia defendida está assentada: a explicação da diarréia, do início do mundo, da permissão ou proibição do aborto ou da venda de armas. Não tem sentido falar de atitudes diante da educação ou do capitalismo a não ser que saibamos o que estas categorias significam para o indivíduo. Também, não pode haver uma mudança de atitude sem uma transformação correspondente no conhecimento, ou melhor, na crença básica ou fundamento.

Condições semelhantes fornecem formas semelhantes de compreensão do ambiente. Estas condições definem, de maneira mais ou menos específica para os indivíduos, as propriedades das coisas, pessoas, grupos e ações. Por outro lado, as opiniões diferentes, ou seja, as oposições, resultam das diferenças de conteúdo cognitivo ou do nível de conhecimento. Se um indivíduo tem apenas um conhecimento parcial dos fatos, ele estará enfrentando uma situação diferente da pessoa que tem uma visão mais abrangente, uma potencialidade para examinar o fato de diversas maneiras.

Nas esferas sociais e políticas (governo propriamente dito, cúpulas religiosas, comerciais, profissionais) esse problema é de extraordinária grandeza. Não é raro ouvirmos frases como esta: “Se neste Natal aumentarmos em 5% nossas vendas, será um Natal muito bom”.O comerciante, tão acostumado à crença de que um “bom Natal” ocorre porque ele vende muito, ganha mais dinheiro e enriquece, não percebe que esse seu prazer, provavelmente, decorre do gasto, prejuízo e sofrimento do lado do comprador de bugigangas. Os de um lado geralmente empregam todos os recursos para dar uma aparência de coisa razoável à sua linha de ação. A censura - escrachada ou velada -, bem como certas formas de propaganda, nada mais é que esforço para moldar a compreensão da população conforme desejos dos donos da censura (de seus princípios ou modelos), dos proprietários das casas comerciais, etc.

As crenças são mais que uma expressão do conhecimento; isso seria muito pouco. Há muito mais coisas escondidas por trás do explicitado: sempre há. Elas, quase sempre, escondem o mais importante e mais perigoso para minar seu poder. As necessidades e os interesses particulares não explicitados (não mostrados claramente), muitas vezes nem percebidos ou conscientizados (poder, domínio), são pontos decisivos na elaboração da crença e tornam-se responsáveis pelas semelhanças e diferenças entre os grupos.

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