A Dificuldade de (Assimilar) Decifrar um Evento

Imagem - Dificuldade de compreender fatos, acontecimentos, eventos trágicos

Assimilação das informações

Assisti na TV uma reportagem sobre um acidente com um ônibus numa movimentada estrada. Foi entrevistada uma senhora que comentava a morte de dois parentes. Neste desastre morreram mais de vinte pessoas. A senhora, soluçando, declarou à repórter: “Não consigo entender... Não dá mesmo prá entender. Por que morrer minha mãe e minha filha? Não compreendo!”.

Muitas vezes, ao depararmos com um acontecimento, o conhecimento por nós utilizado no dia-a-dia, que funcionava bem para fatos triviais da vida, não mais nos serve e não nos permite entender um fato mais complexo. Nesses casos, fica também difícil usar as explicações religiosas. Ficamos perplexos diante deles: choramos, xingamos e gritamos diante do evento inexplicável, para nós, desesperador.

Dois mundos: o real (sensorial) e o ideal (imaginado)

Existem dois mundos na natureza: o mundo real, percebido pelos órgãos sensoriais ou por deduções de hipóteses científicas, e o mundo imaginado (intuitivo, fantástico). Mas o mundo real, sempre, ao ser assimilado por uma mente pensante, será transformado de alguma forma conforme o indivíduo. Duas pessoas não percebem do mesmo modo uma obra musical. Além disso, a mesma pessoa não percebe do mesmo modo a mesma música em momentos diferentes de sua vida. Primeiro, a capacidade auditiva é ligeiramente diferente em cada individuo, não só pelo genoma como pelas diferenças ambientais. Segundo, o indivíduo atravessa diferentes estados fisiológicos e psicológicos ao longo de um dia ou de vários deles, que modificam as informações que os sentidos veiculam, provocando percepções diferentes.

Formação de modelos diversos a partir de uma mesma experiência

Um pesquisador pediu aos habitantes de uma aldeia que desenhassem a disposição espacial das cabanas conforme a crença de grupos antagônicos. O grupo dos “conservadores” desenhou as cabanas dispostas simetricamente em torno de um círculo tendo no centro um templo maior. Já o grupo dos “revolucionários” desenhou a aldeia como dois aglomerados distintos separados por uma fronteira invisível. Infere-se que a percepção do espaço social (divisão concreta) dependerá de constantes oculta­s na mente do grupo de observadores e não da disposição objetiva das construções.

Os homens, de fato, parecem expressar não a relação entre eles e suas condições de existência, mas o modo como eles vivenciam a relação. Isso pressupõe tanto uma relação real de duas ou mais pessoas, quanto uma “imaginária”; os padrões ou regras que devem ser usadas. Na ideologia ou na religião a relação real é inevitavelmente altamente influenciada pela imaginária. É praticamente impossível isolar uma realidade cuja coerência não seja mantida por mecanismos ideológicos. Se estes forem eliminados, a coerência antes existente se desintegrará.

Um outro exemplo simples de linguagem e explicação de um fato

Uma antiga história, de origem provavelmente hindu, conta que um cego perguntou a um sábio o significado de “branco”.

— Branco é uma cor, como, por exemplo, a neve é branca. Disse-lhe o homem.

— Eu compreendo. Retrucou o cego. Ela é fria e úmida.

— Não! Não! Ela não tem que ser úmida e fria. Ela é semelhante à pele do rato albino.

— Então é macia, uma cor coberta de penugens? Pergunta o cego.

— Não! Não necessita ser macia: porcelana é branca também.

— Talvez o branco seja uma cor dura e lisa, completou o cego.

O homem, nesse ponto, perdeu a paciência e desistiu de dar explicações.

Esta história ilustra a dificuldade ou impossibilidade de comunicação entre duas pessoas que tiveram experiências diferentes, isto é, usaram órgãos sensoriais diferentes para obter uma idéia do objeto discutido. Talvez este seja um dos grandes problemas do nosso tempo.

Um terceiro exemplo assistido por mim

Assisti certa vez a uma mesa redonda, reunindo jornalistas e juízes, quando se discutiu o Poder Judiciário visto pelos jornalistas. A discussão era principalmente sobre a dificuldade existente entre as linguagens dos juízes e dos jornalistas. Segundo deduzi, um grupo não compreende o outro. De parte a parte surgiram argumentos acalorados, tudo dentro do mais alto nível. Durante as discussões, um dos presentes argumentou: “Não vejo necessidade de modificar a linguagem de ninguém, pois todos nós falamos a mesma língua, ou seja, o português”.

Nada mais errado. Talvez seja mais fácil um juiz alemão entender um juiz brasileiro, mesmo que um nunca tenha falado nossa língua, desde que tenha à mão um bom dicionário, que um brasileiro comum entender a linguagem dos magistrados. O exemplo pode ser estendido para todas as áreas do conhecimento humano. O vocabulário de qualquer área é especializado. Os fatos e acontecimentos são codificados dentro de cada área e organizados de certa maneira, onde cada signo tem uma enorme riqueza de informações, conforme a experiência e o estudo dos peritos da área. Os mesmos sons ou códigos nada significam para os não-versados.

O papel da experiência na formação do modelo e de sua descrição

Todos nós sabemos ligar um aparelho de TV, entretanto, um técnico em consertos saberá mais alguma coisa, já que seu modelo do aparelho é mais rico, mais abrangente e melhor coordenado em sua mente. Mas o engenheiro, projetor de aparelhos de TV, terá um mapa ainda mais detalhado, organizado e rico sobre uma televisão que o técnico em consertos. Nas outras atividades o mesmo ocorre.

As palavras têm um significado especial para nós, porque tivemos experiências diferentes, mais ricas ou mais pobres, mais simples ou mais complexas com elas. Ao olharmos o dicionário, vamos encontrar apenas outras palavras que significam coisas semelhantes, mas jamais a vivência ou experiência. Esta é crucial para o entendimento. Para obtermos experiência precisamos de tempo, talvez a vida toda, além da posse de algum talento na área onde investimos.

Pode-se, dessas reflexões, questionar, ao ler nos jornais, notícias de que um senhor sisudo, um empresário, uma beata, uma criança e outros estão recebendo mensagens de Nossa Senhora ou do ET. Como será que ela ou ele se comunicou com os felizardos? Como o cego? Será que a Santa aprendeu português e conseguiu captar nossas experiências culturais e sociais deste final do século XX?

Imagino que ela ficará bastante confusa ao ouvir as mensagens carregadas de problemas atuais do nosso mundo, diferentes das vividas por ela numa época X ou Y de sua história e, além de tudo, formulada em outra língua. Mas, de qualquer modo, sempre há leitores interessados nesse assunto fantástico, extraordinário. Quem não é?

Comente!

Você precisa fazer LogIn para publicar um comentário.

Você está lendo...

Segredos da Mente

Capa  Segredos da Mente

Podemos comparar a vida de uma pessoa, do nascimento à morte - no que diz respeito ao conhecimento - com a jornada do saber ocorrido a partir do apar ...

Livro online (leia aqui!)

Painel de acesso

Veja também…

Abuso / Violência Sexual Abusos nas Receitas Médicas Agressividade e Violência Alcoolismo (vício em álcool) Ansiedade Ansiolíticos Antidepressivos Aprenda a não ser tolo Avaliação Psicológica / Diagnósticos Casamento: felicidade e problemas Charlatões / Manipuladores Comportamento / Condutas Consultas médicas / Exames / Tratamentos Crenças antigas / Mitos / Superstições Cérebro e Mente Dependência Psicológica Dependência Química / Drogadição Depressão Desenvolvimento Cognitivo / Cognição Disfunções Sexuais (Problemas Sexuais) Divórcio / Separação Doentes Mentais - Pacientes Psiquiátricos Doenças e Doentes Doenças Mentais (transtornos) Dopamina Drogas / Medicamentos / Remédios Educação e Conhecimento Efeitos Colaterais Emoções Primárias Emoções Sentimentos Controle Entendendo o Ser Humano Esquizofrenia Estresse (Stress) Estresses Problemas e Adversidades Estruturas Neurais Estímulos Emocionais Estímulos Sensoriais Evolução da Mente Família e Casamento Festas populares e Lazeres Filhos Filosofia Funções Cerebrais Guerra dos sexos Ideologias e sonhos Informação Linguagem e comunicação Jovens Ligações Amorosas / Afetivas / Sociais Linguagem médica / Jargões Livros Online Grátis Livros Psicologia Livros Psiquiatria Mapa mental Medicina Antiga Medo Pânico Memória e Indivíduo Médico vs Paciente Neuro-hormônios peptídeos Neurociência Neuropsicologia Neurotransmissores Oxitocina ou ocitocina Pensamento / Raciocínio Percepção Estímulo Poder da mente Política: Políticos e Corrupção Problemas sociais Psicologia Psicose (Delírios / Alucinações) Psicoterapia / Psicanálise Psiquiatria Psiquiatria Antiga Razão vs Emoção Receitas Médicas / Prescrição de Medicamentos Relacionamentos Religião Riscos para Saúde Saúde mental Serotonina Sexo e Sexualidade Simbolismos Sinapses Sistema Emocional Sistema límbico Sistema Motivacional Sistema Neural Neurônio Sistema Sensorial Sociedade: Valores e Cultura Solidão Suicídio Suicidas Síndrome de Abstinência Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) Transtorno de Personalidade Anti-social (antissocial) Transtorno de Personalidade Narcisista Transtornos de Ansiedade Transtornos de Personalidade Transtornos dos Hábitos e dos Impulsos Transtornos Emocionais (de Humor) Transtornos Sexuais Uso de Drogas (Consumo)