A Cultura destaca dois modos para observar e representar o Mundo: Percebido (mais realista), e Imaginado (mais livre e criativo)

Imagem - Observar o Mundo

A nossa visão do mundo é, quanto à causa, dependente tanto do modo como o mundo é (a realidade externa) quanto do modo como nós somos (criativos, simbólicos); da “lente” usada para decifrar as informações no megacomputador . Todo o nosso conhecimento do mundo (o casamento ou a diarréia) depende da nossa capacidade para construir modelos (esquemas, moldes, os vários diagnósticos) dele e, como esta capacidade é um produto da seleção natural, o nosso conhecimento, na verdade, depende de nossa característica biológica de ser humano, como também das coisas como elas mesmas são, incluindo a cultura onde fomos criados, isto é, os vários aprendizados mágico/religiosos, ideológicos, científicos e do valor atribuído a cada uma dessas “ferramentas” mentais.

Para entender e se adaptar ao meio externo (ambiente físico e social) e interno (o próprio organismo), cada morador de Lumeeira (a cidade luz) precisa conhecer razoavelmente esses dois universos, isto é, rudimentos (noções, pré-saber) acerca da conduta humana, dos animais e vegetais, das substâncias químicas e físicas, etc. Este aprendizado é adquirido através de diversas informações: genoma humano, experiência própria (ensaio e erro) e informações provenientes de relatos de experiências e explicações de outras pessoas. A importância desse último aprendizado é enorme. Recebemos, a partir do nascimento, informações vindas dos nossos pais, amigos, vizinhos, professores, imprensa, livros, etc.

O terceiro aprendizado, relatos de outros/abstrações, opera unicamente com idéias ou associações de idéias e não com a realidade sensível, como ocorre com a experiência própria do indivíduo. Portanto, o conhecimento abstrato (teórico ou de idéias) é uma informação de “segunda mão”, “leituras”, “traduções” ou opiniões de outras pessoas acerca de determinado assunto: político, religioso, educacional, comportamental, etc. Portanto, a maior fatia de informações (conhecimento) por nós adquirida e usada origina-se das intuições (opiniões e idéias) de outras pessoas sobre determinado tema.

Pois bem. É através desses instrumentos precários, nos quais apenas uma pequena parte decorre da experiência do seu proprietário, que percebemos e formamos o mapa do mundo onde estamos inseridos. Munidos dessa representação, em parte alheia e de origem duvidosa, assimilamos os dois universos (organismo e meio ambiente externo) que nos cercam. Assentados nessas idéias espúrias bem aprendidas e memorizadas resolvemos nossos problemas, isto é, escolhemos um ou outro caminho e tomamos nossas decisões mais importantes, como, por exemplo, seguir esta ou aquela profissão, escolher esse ou aquele cônjuge, morar num ou noutro lugar. Portanto, agimos mais persuadidos (orientados) pelo que ouvimos dos outros do que pela experiência por nós vivida.

O modo de representar o mundo simbólico (a linguagem), nos fornece um meio de não só representar a nossa experiência como também transformá-la em símbolos conforme nosso estado emocional, desejo e apego a uma ou outra área de conhecimento. O homem, a cada dia mais, usa a forma simbólica, bem modificada e afastada da realidade, para representar seu mundo. Um modo de representar a realidade, como o uso da forma simbólica, pressupõe o empobrecimento de uma outra forma, como a motora e a sensorial (analítica e observacional).

O sensorial, perceptual e o pensamento (cognitivo)

Para alguns autores existem três formas básicas de representar o nosso mundo interno: representação motora, sensorial e simbólica. Essa última, a linguagem, nos fornece um meio de não só representar a nossa experiência como também transformá-la em símbolos. O homem, a cada dia mais, usa a forma simbólica, bem modificada, para representar seu mundo. Um modo de representar a realidade, como o uso da forma simbólica, pressupõe o empobrecimento de uma outra forma, como a motora e a sensorial.

O módulo sensorial/perceptual é desencadeado (acessado) de forma automática e limitado numa extensão de estímulos sensoriais, por exemplo: “vejo a chuva”, “sinto o gosto do café”, “tenho uma diarréia”. Como se vê, ele está geralmente associado pela limitação (coação, limitação) da arquitetura neural. Seu processamento é rápido, sem necessidade de conhecimento consciente (reconhecimento de face, da cor, identificação de objetos, sabor, dor, etc.) .

Uma boa parte de nossos pensamentos e conceitos geralmente é evocada por experiências sensoriais e têm significado com referência a elas. Por outro lado, no entanto, outros pensamentos são produtos de atividade espontânea de nossas mentes. Assim, esses últimos podem não manter relação lógica criteriosa com os conteúdos dessas experiências sensoriais; posso imaginar um anjo me visitando à noite.

O fenômeno chamado de percepção consiste na associação, pelo observador, das regularidades de comportamentos distinguidos no organismo observado com as condições do meio que é visto como desencadeante dessas regularidades. Se alterarmos a estrutura do organismo, por exemplo, a da rotação em 180 graus do olho do sapo, ele, uma vez “deformado”, passa a errar seus botes em 180 graus, e, consequentemente, não mais pega nenhum inseto, pois há um erro dependente da estrutura do organismo.

Os seres humanos, ao explicar os eventos, constantemente categorizam objetos e acontecimentos. Para isso certas regras são usadas, mas essas, muitas vezes, são difíceis ou impossíveis de serem descritas verbalmente, como, por exemplo, a maneira feita pelo provador de vinho para categorizar os sabores ou os artistas para categorizar as obras-de-arte que estão sendo observadas. Por outro lado, certas categorizações são fáceis de serem explicitadas, como um retângulo, um triângulo, a laranja ou o limão.

Pois bem. Conforme o exposto acima, uma característica da utilização cognitiva é sua evidente dificuldade de inibição ou crítica de sua atividade, ao contrário do conhecimento perceptivo: “Isto é uma laranja”. Esta afirmação, sendo sensorial/perceptiva dificulta a discordância. Torna-se bem mais difícil categorizar o ET, a alma, a outra vida ou Deus, ou seja, classes cognitivas e não perceptivas.

Nesse caso particular, uma vez possuidor da crença “Deus existe”, ou seu contrário, “Deus não existe”, a pessoa é também possuída (controlada) por uma ou outra crença (não uma realidade perceptível): a existência ou a não-existência de Deus. Tais crenças auxiliam (o modo certo ou errado não interessa aqui) seu possuidor a explorar, organizar, explicar e a conhecer o mundo que o circunda, ou seja, olhar as regularidades e irregularidades e buscar explicações das observações iniciais, conforme uma ou outra premissa (imaginação).

Portanto, fazendo uso das crenças (teorias explicativas), diferente da percepção (observação mais sensorial) da laranja, a pessoa poderá pôr ordem nas circunstâncias ordinárias e não se tornar ordenada por elas mesmas; isso facilita a sobrevivência do indivíduo. Por isso estamos sempre “ordenando”, com nossas crenças, o ambiente, qualquer que seja ele: um jogo de futebol ou a morte.

Mas, por outro lado, o uso de crenças (o conjunto de elos que reúne fatos desconexos) tem uma possível grande desvantagem, pois dificulta a apreensão da “verdade”, o que está por detrás do cosmo que está sendo explicado: a separação dos cônjuges. Por conseguinte, as crenças originais, simples e fáceis de serem assimiladas ou adquiridas muito cedo, pouco ou nada ajudarão para conhecer a realidade física mais complexa, enfrentada por todos nós o dia inteiro: dormir mal, escovar os dentes, tomar o ônibus lotado, etc. Ao contrário, diversas crenças podem dificultar ou impedir o conhecimento mais exato do nosso meio ambiente, isto é, a entrada em nossa mente de outras informações mais práticas e menos imaginativas; mais adaptadas à realidade experimentada. É desse modo que as pessoas (todos nós) aprendem.

O conhecimento popular é intuitivo (holístico, não analítico) e, como se sabe, as noções intuitivas são produzidas naturalmente, sem que haja nenhuma dificuldade para aprendê-las. Pesquisas mostram que mesmo os estudantes, pesquisadores e filósofos acham difícil abandonar totalmente as noções do senso comum aprendidas cedo. Essas crenças, mesmo quando sabidamente inadequadas pelo seu possuidor, muitas vezes, dominam a mente até mesmo dos mais sábios.

O domínio e ajuda dos princípios do megacomputador: uma aquisição precoce

A cultura humana adquirida pelo povo (senso comum) favorece uma rápida seleção das idéias que prontamente ajudam as pessoas a resolver, de forma prática, problemas relevantes do meio ambiente (cuidados com a alimentação, relações com pessoas, riscos de acidentes, etc.). Esses conhecimentos são facilmente memorizados e processados pelo cérebro humano e ainda facilitam (servem de base ou molde) a retenção e a compreensão de idéias que são mais variáveis ou mais difíceis de aprender (ciência, filosofia).

Com o tempo, diferentes culturas, estruturas taxonômicas (uso de termos para isso ou aquilo) e conteúdo podem se tornar mais profundos ou superficiais nas diferentes populações. Não obstante, os princípios (modelos, esquemas, paradigmas) organizadores subjacentes ao organizado permanecem fortes e dominantes.

Em resumo: a espécie de informação cultural que é mais sujeita a ser influenciada para compor o processamento das informações e a adquirida na infância é a mais facilmente transmitida de indivíduo a indivíduo (companheiros da escola ou da vizinhança mais experimentados), e mais apta para sobreviver dentro de uma cultura determinada (os que vivem do lado de lá e do lado de cá da ferrovia) através dos tempos. E essa cultura particular irá fornecer a entrada adequada de apoio sociocultural, como, por exemplo, o uso de uma roupa ou cabelo, o modo de falar, bem como os termos usados, o gosto pelos líderes e heróis do grupo ao qual pertence, uma boa ou má auto-estima.

As pessoas têm à sua disposição pelo menos dois sistemas de categorização separados: um sistema verbal baseado num raciocínio explícito que está sob controle consciente, aprendido mais tarde, e um sistema implícito que usa a aprendizagem processual (escrever, construir frase, digitar, etc.) e, também, os princípios implícitos, entre eles, a forma de avaliar ou de julgar a conduta moral nossa e dos outros; esse aprendizado é adquirido muito cedo.

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