Recepção de Estímulos

Imagem - Estimulo

O conhecimento necessário para ser utilizado num momento, em virtude do modo como o cérebro foi construído, dependerá das estimulações que estão sendo efetuadas ao mesmo tempo, isto é, resultado final das ativações de diversos sistemas localizados em regiões cerebrais separadas espacialmente, mas interligadas por meios de conexões ou circuitos (pontes) neurais. Vamos dar um exemplo do relatado acima através da tomada de café.

Ao tomar o café existente numa xícara a pessoa recebe do meio ambiente várias sensações (estímulos sensoriais) ao mesmo tempo: visuais, olfativas, gustativas, tácteis, etc. Cada estímulo captado pelo organismo só poderá ser representado, a cada instante, na memória de trabalho da pessoa num determinado circuito cerebral. Assim, o indivíduo sentirá numa região do cérebro o bom ou mau cheiro do café; em outra área, perceberá a quentura deste, bem como a pressão dos dedos na alça da xícara e o movimento da mão ao segurar e virá-la para engolir o café. Sentirá ainda a cor branca da xícara, o desenho desta e o vapor que sobe no ar. Somado a tudo isso, a pessoa sentirá também o sabor ou gosto do café, as emoções prazerosas ao ingerí-lo, a contração de parte dos lábios e os movimentos da língua e da garganta no ato de engolir; tudo isso provoca sensações e, geralmente, prazer. Além de todos esses estímulos, quase ao mesmo tempo, possivelmente o tomador de café se lembrará de outros cafés já tomados e até mesmo de alguns lugares especiais onde tomou cafés semelhantes, das companhias nessas ocasiões e muito mais.

De outro modo: as sensações, bem como os pensamentos recuperados na memória, foram, conforme o exemplo, estimulados pelos diversos aspectos da tomada do café: a xícara, o café, o ambiente, as pessoas em volta, etc. Todo esse conjunto de informação enviado através dos estímulos foi, primeiramente, captado pelos nossos órgãos (receptores) sensoriais. Uma vez captadas, as informações apreendidas são distribuídas para diferentes regiões cerebrais, ativando algumas áreas e, ao mesmo tempo, desativando outras. Por fim, as informações em determinados locais dão origem à liberação de substâncias químicas (neurotransmissores, peptídeos, etc.) diversas de acordo com as emoções detonadas durante a estimulação e pelos possíveis pensamentos associados ao fato vivenciado.

As sensações, motivações, emoções e pensamentos gerados em conjunto, após serem reunidos (associados) ou compostos pela mente do tomador de café, irão dar origem a uma imagem mental que pode ser única e organizada: o café sendo ingerido, as idéias produzidas e a emoção sentida. Para finalizar esse processo complexo, a tomada do café poderá ser traduzida em palavras. De outro modo, as sensações, captadas e reunidas pelo hemisfério direito, podem ser enviadas para o hemisfério esquerdo; este, por sua vez, transformará as mensagens sensoriais numa frase, como, por exemplo: “O café está delicioso!”.

Nesse caso, após ingerí-lo, talvez, a pessoa tome uma outra xícara, pois além de sentir o prazer das diversas sensações, construiu uma frase favorável, que, por sua vez, tende a reforçar o fato anteriormente sentido pelo corpo.

Algumas vezes, as imagens separadas e sem-palavras sentidas pelo nosso cérebro, uma vez reunidas ou reconstruídas pela mente, ou, de outro modo, traduzidas ou transformadas numa linguagem com palavras, formam a frase seguinte: “O café hoje está frio, fraco e fedorento, horrível! Esperava um melhor!”. Rapidamente, vai até o lavabo e dá uma cuspida, evitando ingerir o que lhe resta na boca.

O que desejo aqui é enfatizar que cada estímulo sensorial isolado percebido será sem-palavras; entretanto, muitas vezes as sensações são traduzidas. Posteriormente às sensações, condensadas no relato fazendo uso de palavras, podem ser utilizadas ou convocadas para descrever o evento total percebido e sentido ao relembrar a impressão fisiológica sentida anteriormente.

O conhecimento final exige a contribuição de peças anatômicas isoladas e interligadas, localizadas em circuitos existentes em pontos diferentes do cérebro. Assim, a nossa percepção e, consequentemente, o raciocínio acerca das diversas percepções, exigirá, durante o processo da informação (a tomada do café), a retenção ativa e continuada da representação de diversos fatos, todos reunidos e ao mesmo tempo: a quentura do café; o cheiro; o sabor doce ou amargo; a cor e o tamanho da xícara; o movimento da mão e outros detalhes mais.

Se a manutenção do retido na memória que está trabalhando – tomando o café – não for fixada para se ligar às outras, não poderemos ter a imagem final ou a idéia completa ou próxima do todo. Essa atividade complexa, manutenção, ao mesmo tempo, de diversas imagens inter-relacionadas, é executada pela “memória de trabalho”, que é a memória que está sendo utilizada no momento da ação visando a ajudar o entendimento de uma conversa, leitura, observação de situações ou fatos.

Deve ser lembrado que a disponibilidade atentiva no momento necessária para que formemos uma idéia total das partes percebidas, como no caso do café, dependerá, em grande parte, da boa condição física dos circuitos cerebrais, que não podem estar lesados, e também da produção e liberação de quantidades adequadas de neurotransmissores e peptídeos, particularmente do neurotransmissor dopamina. No caso de existir uma lesão em alguma parte do circuito que detecta e conduz a mensagem, desde sua origem (receptores sensoriais químicos, calor, mecânicos, etc.) até a geração da identidade (isso é um café), bem como da nomeação do percebido, especificamente, que atingiu a parte relacionada ao odor, sabor etc., haverá problemas quanto às sensações e nomeação do fato ocorrido.

Assim, a pessoa não sentirá o sabor comum do café caso, antes de tomá-lo, tenha escovado os dentes ou teve sua boca anestesiada pelo dentista. Em todos esses casos, e outros mais, a pessoa terá dificuldade para perceber os estímulos sensoriais, movimentar lábios e língua e engolir o café, pois os estímulos sensoriais existentes não conseguirão estimular, como antes, as papilas gustativas, os movimentos dos lábios, língua e, possivelmente, a percepção do odor, que, por sua vez, afetará a sensação do gosto. Outros fatores, também, como a temperatura (quente demais; ou gelado em excesso), nos impedirão de sentir o gosto genuíno ou “normal”. Em todos esses exemplos a tomador de café ficará prejudicado de sentir e relatar o fato vivido como de costume.

Caso o indivíduo tiver lesionado apenas a região relacionada à formação de palavras para descrever o processo, ele sentirá todos os estímulos de forma normal, mas não poderá comentar o ocorrido, narrando-o ou comentando-o.

Resumindo: tem sido mostrado que caso haja lesões num ou outro circuito cerebral, ou quando há diminuição de dopamina, a pessoa se torna incapaz de manter, ao mesmo tempo, várias imagens, palavras e estímulos na memória que trabalha para agrupar os diversos componentes num conjunto compreensível, conduzindo, portanto, à dificuldade ou impossibilidade da formação eficiente dessas imagens que precisam estar presentes para que se faça uso do raciocínio.

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