Processos mentais x rotina mental: (Cerebelo, Gânglios Basais e Hipocampo)

A percepção da tomada de um café apóia-se numa série de sinais, atividade composta de numerosos mapeamentos de regiões do cérebro dedicadas à percepção sensorial. Os muitos mapas que são criados são inventariados pelo cerebelo, gânglios basais e hipocampo. Essas três áreas, em conjunto, formam uma espécie de supermapa que abrange múltiplos mapas locais.

Através do supermapa se cria um sistema de conexões para categorias inteiras de informações, bem como de padrões de atividade motora, dando como resultado uma infinita variedade de pensamentos e comportamentos da pessoa.

Cada região do cérebro contribui para o reconhecimento de uma área: a xícara branca, o cheiro do café, o sabor, a quentura, etc., e, também, a avaliação se está gostoso (agradando) ou ruim (desagradando). Assim, o reconhecimento final, do rosto de uma pessoa ou da casa que estamos procurando numa rua X ou Y, pode aparecer repentinamente na mente devido a um ou mais elementos sensoriais diferentes: os cabelos grisalhos, uma voz rouca metálica típica de quem fumou muito, o cheiro de seu perfume dos anos trinta, etc.; tudo isso nos leva a formar a imagem total daquela mulher de cinquenta anos atrás, a oradora da casa ao lado, a que tocava piano.

Isso cria um sistema de conexões para nomear categorias inteiras de informações, bem como padrões de atividades motoras. Cada região cerebral contribui para o reconhecimento de um aspecto da região procurada de uma pessoa, o que explica por que o reconhecimento pode ser desencadeado por qualquer quantidade de diferentes elementos sensoriais.

Assisti a um programa de TV no qual os candidatos-observadores tentavam adivinhar o rosto de um artista conhecido através de pequenos detalhes de sua face que eram mostrados parte por parte. Alguns descobriam de quem era o rosto observando uma pequena parte deste, como, por exemplo, os olhos ou o nariz.

Para nós, os fora do palco, e não convidados para participar do programa, é possível identificar nosso interlocutor pelo cheiro, o tipo de voz, o modo de andar, de tossir, coçar a cabeça quando nervoso, o fungar do nariz e muito mais. Assim, captamos alguns estímulos do ambiente ou da pessoa que conversa conosco, ajudados por nossa memória do trabalho, que, por sua vez, busca dados na memória episódica (autobiográfica). Os dados, muitas vezes, simples, fornecidos pelo ambiente ou pela pessoa, se enriquecem pelo nosso conhecimento anterior armazenado na memória a respeito do observado.

O produto final é formado por um conjunto constituído por diversos subconjuntos, ou seja, dos sinais percebidos ou escutados mais os dados existentes em nossa memória conforme nosso conhecimento anterior. Esse conjunto global formado vai dar origem a um modelo mais rico, pois ele contém as informações captadas num momento mais as já existentes e armazenadas.

Um exemplo vivido por mim recentemente. Fui procurado para examinar e opinar acerca de uma paciente. Esta, segundo a médica que a enviou e encarregada de seu tratamento, tinha brigas frequentes com o marido que, além de beber, não trabalhava. Segundo a médica, há cerca de três meses, a paciente foi ficando “esquisita” (lerda, dando respostas diferentes das usuais, custava para entender o discutido ou explicar os acontecimentos).

Para resumir, durante a entrevista, muitas vezes normal, observei que a paciente mantinha com pouco vigor mental (atenção focalizada) o que era perguntado e, também, tinha dificuldade de organizar em sua mente as respostas. Fiz perguntas a respeito de sua idade e dia e ano do nascimento. Ela não se lembrou do ano em que nasceu. Depois pedi a ela que diminuísse quatro de cinquenta e, do resultado, ela continuasse a diminuir quatro até zerar. Estranhamente, ela não conseguiu obter o resultado da primeira operação, isto é, cinquenta menos quatro igual a quarenta e seis. Lembro ao leitor que ela comprava e vendia roupas. Apelei para uma conta mais direta: alguém comprando um lenço de quatro reais e dando a ela uma nota de cinquenta reais. Nesse caso, quanto de troco ela daria? Ela não conseguia manter sua atenção no perguntado; repetia sem chegar à conclusão alguma: “Cinquenta menos quatro… cinquenta menos quatro… É… não consigo não.”

Para finalizar: a consulta não foi tão simples como resumi. Vários outros detalhes não falados foram percebidos por mim por ter vivenciado, devido a minha formação, clientes semelhantes. Orientei a família a procurar, com urgência, um bom neurologista, pois imaginava, além dos fatos presenciados pelos meus órgãos dos sentidos, outros fatos, conforme teorias acerca do funcionamento da atenção e memória. Em seguida, formei um conjunto maior composto do percebido e mais o que já possuía a respeito de alguns problemas neurológicos. O conjunto final, fruto do observado e do pensado fazendo uso de minha memória, possibilitou um diagnóstico mais amplo e produtivo do que “a paciente está esquisita”. Imaginei a possibilidade da paciente apresentar algum problema cerebral, possivelmente um tumor fazendo pressão no lobo frontal: o encarregado de sintetizar os dados, manter a atenção e, por fim, tomar decisões.

Poucos dias depois tive notícias que ela começou a ter convulsões e foi levada para o Hospital João XXIII. Examinada, através de neuro-imagens, constataram um imenso tumor localizado numa região inoperável. Morreu dias depois.

Resumindo o que deu origem a essa história dolorosa: o que eu obtive da família, da médica e da própria cliente serviu de indício para que eu recuperasse conhecimentos fora do exame, isto é, do reservatório de minha memória. A reunião de um com o outro deu origem à hipótese.

Portanto, enquanto um novo dado está sendo identificado e memorizado, um trabalho realizado pelos neurônios de associação do córtex frontal, neurônios vizinhos põem de lado o que estavam fazendo e começam a ajudar o processo em andamento. Nesse caso, o território focalizado onde se instala a nova aprendizagem é ampliado a fim de proporcionar o espaço suficiente para o contínuo influxo de informações.

Uma vez a tarefa dominada sendo executada um número razoável de vezes, os padrões de ativação adquirem estabilidade e, consequentemente, o comportamento se torna automático, isto é, ele deixa de exigir atenção consciente. Lembre-se de como você aprendeu a chutar uma bola, digitar o computador, dirigir o automóvel e, talvez, tocar piano, flauta ou violão. Compare sua eficiência atual, bem como sua facilidade para executar essas tarefas, com o período inicial, quando você estava aprendendo essas atividades.

Existem tarefas que aprendemos durante muito cedo e continuamos a usá-las, como, por exemplo, falar escolhendo a palavra indicada a cada instante; reconhecer um rosto, um ambiente, uma cidade ou o caráter bom ou mau do vendedor de imóvel e de computador. Geralmente, devido ao treino, tudo isso nós fazemos automaticamente, quase sem prestarmos atenção ao que estamos realizando. Entretanto, nem sempre nossas ações dão certo. A lâmpada que íamos trocar emperra. Quando isso ocorre somos obrigados a voltar a utilizar o trabalho da atenção, dos córtices associativos, das avaliações, isto é, reformular o aprendido.

Os programas automatizados – não os corticais – existentes em nossa mente parecem fazer uso do cerebelo e dos gânglios basais, quase sem fazer muito uso do córtex frontal. Adquirir numerosos repertórios de ações automáticas é essencial à sobrevivência. Ninguém aguentaria passar o dia fazendo uma reflexão atrás de outra, ou mesmo pensando em algo muito simples, como que roupa vou vestir hoje, pois esfriou bastante. Se tivéssemos de prestar conscientemente atenção a todas as nossas ações, o tempo todo, os córtices ficariam exaustos e ocupados com fatos de menor importância e, portanto, deixariam de fazer outras ações. Isso ocorre quando entramos numa disputa, por exemplo. Nesse caso, ficamos pensando, grande parte do tempo, no modo de destruir ou fugir do perverso inimigo. Algumas pessoas passam o dia olhando a poeira dos móveis ou pensando que roupa fica melhor para ir à padaria da esquina comprar o pãozinho francês.

O mesmo acontece com nossa dinâmica cognitiva. Processos cognitivos semelhantes ocorrem ao lermos o jornal da manhã; nós não lembramos como aprendemos a leitura. Não nos esforçamos para conversar e encontrar as palavras desejadas na maioria de nossos “bate-papos”. Todas essas ações, atualmente simples para quem as automatizou, foram convertidas em rotinas fixas, instintivas, inconscientes (atitudes, reações) e, ao mesmo tempo, processa funções motoras e mentais em paralelo. Lembre-se, prezado leitor, de um semi-analfabeto tentando compreender um texto lido num jornal. Por não possuir um automatismo, devido à falta de treino, ele terá que realizar um enorme trabalho intelectual para “entender” cada termo lido e, ainda, relacioná-lo aos já lidos.

Portanto, à medida que vamos nos familiarizando com uma atividade (descascar uma laranja, amarrar o cordão do sapato, encontrar a palavra para escrevê-la ou pronunciá-la, dirigir o automóvel, digitar, etc.), deixamos de lado o penoso trabalho de prestar a atenção em cada detalhe ou etapa da atividade. De modo simples, as atividades se automatizam, se realizam por si mesmas, sem esforço ou deliberações de nossa vontade.

Assim, felizmente para nós, processos fundamentais e cujo entendimento e manejo (manuseio) foram dominados pela prática, se armazenam no cérebro inferior (região subcortical) e passam a ser executados sob o domínio de regiões do tronco cerebral.

Existem (faça um ligeiro esforço com seus córtices cerebrais para evocá-los) inúmeras rotinas cognitivas usadas a cada momento por nós. Uma vez aprendido e repetido, o, às vezes, doloroso e cansativo processo cognitivo, é convertido em rotina e torna-se fácil, até divertido; processando funções motoras e mentais em paralelo, tudo ao mesmo tempo. Por isso completei essa frase com facilidade, pois meus dedos, automaticamente, obedeceram minhas idéias, à medida que elas foram sendo geradas. Todo processo, cujo entendimento foi dominado, é armazenado no cérebro inferior (subcortical) e ali se mantém pronto para ser ativado contando com a participação de áreas do tronco cerebral, gânglios basais e cerebelo.

As ações e cognições que são mais complexas, bem como as ações ou conhecimentos novos, precisam ou exigem a administração das regiões do cérebro situadas mais acima (córtices cerebrais), principalmente as áreas situadas na parte frontal (córtices frontais). Assim, ao longo do percurso das diversas informações existentes (memória, emoção, lógica, avaliações) empregam-se mais regiões cerebrais ao mesmo tempo, propiciando ao setor decisório do organismo, não somente mais informações, mas também, mais tempo para reflexões. Todo esse complicado mecanismo permitirá que mais neurônios sejam envolvidos no reajuste e modelagem de uma ação final ou de um processo cognitivo mais preciso, confiável e efetivo.

Duas áreas são ativadas quase ao mesmo tempo, sendo que o processo de uma detona o processo da outra: a função cognitiva (constatação de um problema e possíveis soluções virtuais) e a função motora (movimentos dos músculos, efetivação do imaginado, conduta). À medida que o organismo põe em ação a parte motora (comportamento), a sua realização vai fornecendo informações aos córtices (tomada de decisão) do andamento da solução do problema: “Agora parece que a lâmpada começou a girar; não, enganei-me. Vou usar uma chave inglesa”.

As novas informações podem fazer com que as decisões sejam mantidas, ou, também, que elas sejam reformuladas, caso o desejado não esteja sendo alcançado. Nesse caso, há um retorno da informação para pontos onde ela já tinha sido examinada e arquivada.

Quando temos dificuldades com a organização e ou planejamento de um ato cognitivo, muitas vezes, a utilização de um ato físico (andar de um lado a outro) pode nos ajudar a superar o problema. Experimente dar uma caminhada para facilitar as dificuldades de como fechar o mês sem dívida; romper ou não aquele namoro que parece estar trazendo mais sofrimento que prazer; concentrar-se nos estudos para o vestibular. O mecanismo subjacente ao explicado acima é simples: embora diferentes áreas do cérebro estejam envolvidas no movimento, algumas dessas conexões estão extremamente próximas das regiões que determinam nossa atividade, entre elas, partes da região emocional.

Em cada nível do nosso cérebro existem diferentes mecanismos para manter ativado e executar certas funções e, também, deixar de lado, eliminar as não desejáveis no momento, muitas delas, até tentadoras. Lembre-se de seu plano para emagrecer e o delicioso sorvete existente no congelador; o plano de saborear o sorvete irá tirar de sua mente o plano para emagrecer. Ativa-se o plano: “quero dar prazer às papilas gustativas da minha língua”. Um outro exemplo é a luta do plano que está demorando a ser efetivado – fazer exercícios físicos – de um lado, e, de outro, convidativo estofado macio, confortável, encosto para a cabeça, pudim, vendo a TV exibindo seu programa favorito, a novela da Globo. A tentação é grande, nos faz lembrar da sofrida por Cristo.

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