Modificações de circuitos encefálicos: neuroplasticidade

A capacidade de adaptação do sistema nervoso, em especial dos neurônios, às mudanças nas condições do ambiente que ocorrem no dia-a-dia da vida dos indivíduos chama-se neuroplasticidade ou, simplesmente, plasticidade. Toda vez que alguma forma de energia proveniente do ambiente de algum modo incide sobre o sistema nervoso, esta deixa alguma marca, isto é, modifica o neurônio de alguma maneira. Como essa mudança ocorre continuadamente, a neuroplasticidade é uma característica marcante e constante da função neural (escuto um número de um telefone; guardo-o e disco; vejo uma batida de veículos e, depois, lembro-me dela; arrumo a primeira namorada e nunca mais me esqueço do fato).

Foi constatado que em alguns casos é possível identificar mudanças morfológicas (modificações na anatomia cerebral) resultantes das mudanças ambientais (uma explicação importante que alguém me disse; uma agressão sofrida, etc.). Nesses casos, quando ocorre uma plasticidade morfológica, novos circuitos neurais podem ser formados; altera-se o trajeto de algumas fibras nervosas; configura-se uma nova árvore dendrítica do neurônio; altera-se o número de células nervosas de uma determinada região cerebral, etc.

Em outros casos, apesar da existência da plasticidade, só se conseguem detectar correlatos funcionais (mudança da função, como: aprendi o nome do meu cobrador), sem mostras de alterações morfológicas evidentes. Quando assim ocorre fala-se que houve uma “plasticidade funcional”, não “morfológica”, geralmente ligada à atividade sináptica de um determinado circuito ou um determinado grupo de neurônios.

A rica variedade das personalidades, das capacidades e dos comportamentos humanos é, sem dúvida, produzida pela singularidade de eventos vividos por cada encéfalo humano, dando origem a cérebros diferentes. Essas fascinantes variedades neurobiológicas entre humanos originam-se de influências tanto herdadas como ambientais. A variedade possível é tão grande que desde o aparecimento das primeiras comunidades humanas – que antes não existiam – houve, por parte dos primeiros governantes, um esforço brutal de impedir essa enorme diferença entre os indivíduos. Com conhecimentos mais sofisticados, o Estado e a Igreja, unidos, impuseram formas de pensar uniformes para o bom cidadão e o bom religioso.

Homogeneizando a maneira de pensar entre os homens possíveis de se tornar cidadãos diferentes, os diversos governos conseguem impedir formas de pensar e agir extravagantes, as que se afastam muito do normal, do recomendado e imposto. O que sai da “norma correta” é preso, morto, internado em hospícios ou ignorado. Por outro lado, o que age conforme o estabelecido (instituído) ganha elogios, aplausos e, logicamente, poder, e, às vezes, dinheiro.

Vamos deixar a comunidade, o Estado e a Igreja de lado. Vamos pensar na família da qual você faz parte. Ela tem suas regras, normas e imposições. As antigas famílias do Brasil, formadas por ricos fazendeiros, exigiam que um filho fosse doutor (médico), um outro, padre, as mulheres professoras ou freiras. Essas prescrições, desde cedo, eram quase sempre seguidas, pois o tratamento era dócil e gratificante caso o filho fosse obediente. Essa é a palavra mágica: um seguidor das normas impostas. As mulheres deviam ser, como as mães, “donas de casa”, ou, no máximo, professoras primárias ou obedientes irmãs de caridade. Os homens deviam procurar prostitutas logo que se tornassem “homens”; enquanto as mulheres jamais podiam ter relações sexuais antes do casamento e, mesmo depois, elas não deviam ter orgasmos.

Pois bem, tudo isso foi impresso, isso mesmo, seus cérebros foram modelados (esculpidos, gravados) através da plasticidade neuronal. Uma vez plastificados, eles, docilmente, seguiram as normas impressas, ou seus “desejos”, como se fossem escolhas suas; um modo de pensar e agir que na realidade foram impostos anos antes.

Ai de quem ousasse ir contra as regras; a filha que copulasse com o namorado era classificada de prostituta e, algumas vezes, tornava-se mesmo uma, acreditando que não era mais digna de constituir uma família. Por outro lado, se o filho fosse homossexual, seria (homossexual é homossexual; não se torna homossexual) expulso da família ou renegado. Também, o indivíduo que não segue os preceitos da religião e ou do Estado, o filho ou a filha que não seguem os desejos da família são rejeitados, pois eles não fazem parte do grupo dos “normais”. Portanto, todos, na família ou na escola, que não vestiram a mesma camisa dos outros, não serviam como exemplares ou protótipos do bom menino, rapaz ou homem digno de confiança.

É mais fácil lidar ou governar os que pensam da mesma maneira dos outros, dos educados cordeiros. Somos marcados para seguir a correnteza desde o nosso nascimento à custa de elogios; somos criticados caso nadamos contra a correnteza.

O padrão básico de conexões encefálicas está estabelecido ao nascer, entretanto a atividade neuronal produzida com instruções (estímulos, informações) vindas do mundo externo durante a vida pós-natal (principalmente da família e da vizinhança mais próxima) fornece o mecanismo, através do qual o ambiente irá influenciar a estrutura (morfologia, forma) e, por conseguinte, a função do encéfalo (conduta do indivíduo).

Um exemplo simples de plasticidades diversas. Um carro em disparada perde a direção e explode num poste. O motorista sofre fratura do crânio e vai para o hospital. Ele não morreu, mas tem uma restauração incompleta das funções atingidas. Um segundo indivíduo presencia o acidente; tem uma visão do ocorrido e este o impressiona fortemente e nunca mais esquece o observado. Um terceiro lê no jornal o fato acontecido; lembra do evento lido por um pequeno tempo. Nos três casos o ambiente externo influi sobre o sistema nervoso de diferentes maneiras e com diferentes intensidades. No motorista acidentado houve lesão do cérebro. Na testemunha, a visão do acidente provocou uma forte impressão emocional, mas nenhum dano físico imediato. O leitor do jornal teve modificado seu comportamento por um curto período, através das informações obtidas pela leitura. Os três cérebros responderam ao ambiente e se modificaram; houve, nos três, plasticidades diferentes.

Assim, os neurônios podem se transformar por um pequeno período (guardar o número do telefone e esquecê-lo), de modo permanente, ou pelo menos prolongado, quanto a sua função e, também, sua forma, em resposta à ação do ambiente externo.

Quando um insulto ambiental incide sobre o tecido nervoso, pode atingir muitas células, mas não necessariamente todas. Dentre as atingidas, as que tiveram o corpo celular lesado provavelmente morrerão, mas as que tiveram apenas os prolongamentos danificados podem regenerar-se. A regeneração neural deve ser vista com uma capacidade própria de população de neurônios cujos prolongamentos são atingidos por um insulto ambiental. A história de sucesso da plasticidade regenerativa das fibras nervosas periféricas não se repete no caso dos axônios centrais, e essa diferença marcante constitui um grande enigma.

Os terminais sinápticos reforçados por atividade correlacionada (muito usados ou de enorme importância) serão mantidos ou formarão mais ramificações; aqueles que são persistentemente enfraquecidos (pouco ou não mais usados) por não experimentarem atividade correlacionada irão, consequentemente, perder suas conexões com a célula pós-sináptica.

Comente!

Você precisa fazer LogIn para publicar um comentário.

Você está lendo...

Homem, animal de duas cabeças

Capa  Homem, animal de duas cabeças

Somente há mais ou menos vinte anos que as principias revistas de Medicina e Biologia do mundo começaram a despejar sobre os leitores curiosos texto ...

Livro online (leia aqui!)

Painel de acesso

Veja também…

Abuso / Violência Sexual Abusos nas Receitas Médicas Agressividade e Violência Alcoolismo (vício em álcool) Ansiedade Ansiolíticos Antidepressivos Aprenda a não ser tolo Avaliação Psicológica / Diagnósticos Casamento: felicidade e problemas Charlatões / Manipuladores Comportamento / Condutas Consultas médicas / Exames / Tratamentos Crenças antigas / Mitos / Superstições Cérebro e Mente Dependência Psicológica Dependência Química / Drogadição Depressão Desenvolvimento Cognitivo / Cognição Disfunções Sexuais (Problemas Sexuais) Divórcio / Separação Doentes Mentais - Pacientes Psiquiátricos Doenças e Doentes Doenças Mentais (transtornos) Dopamina Drogas / Medicamentos / Remédios Educação e Conhecimento Efeitos Colaterais Emoções Primárias Emoções Sentimentos Controle Entendendo o Ser Humano Esquizofrenia Estresse (Stress) Estresses Problemas e Adversidades Estruturas Neurais Estímulos Emocionais Estímulos Sensoriais Evolução da Mente Família e Casamento Festas populares e Lazeres Filhos Filosofia Funções Cerebrais Guerra dos sexos Ideologias e sonhos Informação Linguagem e comunicação Jovens Ligações Amorosas / Afetivas / Sociais Linguagem médica / Jargões Livros Online Grátis Livros Psicologia Livros Psiquiatria Mapa mental Medicina Antiga Medo Pânico Memória e Indivíduo Médico vs Paciente Neuro-hormônios peptídeos Neurociência Neuropsicologia Neurotransmissores Oxitocina ou ocitocina Pensamento / Raciocínio Percepção Estímulo Poder da mente Política: Políticos e Corrupção Problemas sociais Psicologia Psicose (Delírios / Alucinações) Psicoterapia / Psicanálise Psiquiatria Psiquiatria Antiga Razão vs Emoção Receitas Médicas / Prescrição de Medicamentos Relacionamentos Religião Riscos para Saúde Saúde mental Serotonina Sexo e Sexualidade Simbolismos Sinapses Sistema Emocional Sistema límbico Sistema Motivacional Sistema Neural Neurônio Sistema Sensorial Sociedade: Valores e Cultura Solidão Suicídio Suicidas Síndrome de Abstinência Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) Transtorno de Personalidade Anti-social (antissocial) Transtorno de Personalidade Narcisista Transtornos de Ansiedade Transtornos de Personalidade Transtornos dos Hábitos e dos Impulsos Transtornos Emocionais (de Humor) Transtornos Sexuais Uso de Drogas (Consumo)