Genética: Genoma, Genes, Transcrição

Uma célula-ovo fertilizada pesa cerca de cinco centilmilionésimos de uma onça (uma onça equivale a, aproximadamente, 28,349 g. Faça as contas). Assim, o peso de uma célula-ovo fertilizada pesa em torno de cinquenta bilhões de vezes menos que o peso de um adulto. Você, leitor especial, que não é tão burro como os outros, deduz que esse peso restante do adulto é adquirido através do meio externo, isto é, dos alimentos.

Um óvulo, uma vez fertilizado, origina uma multidão de células – bilhões nos seres humanos. Devemos observar células e genes. O comportamento celular é controlado pelos genes. As células são as unidades básicas do embrião em desenvolvimento. Nosso corpo possui 250 tipos de células diferentes que se submetem à morfogênese, padrão corporal, conforme uma organização especial, cada uma no seu lugar. É essa organização na formação corporal e consequentemente na organização espacial que nos distingue de outros vertebrados. Não há em nosso cérebro nenhum tipo de célula que os chimpanzés não possuem. Todas as células possuem a mesma informação genética recebida do ovo. Portanto, as diferenças entre elas resultam de diferentes genes serem ligados e desligados. As diferenças entre certos genes da mosca e do homem são sutis: os da asa da mosca e os membros de um vertebrado são semelhantes.

Gene é o que de fato transmitimos aos nossos filhos. Mas o gene, por si só, é incapaz de agir; não engordamos apenas devido ao gene. Aceita-se, com muita facilidade, a equivalência entre noção de “gene” e a de “programa”. Mas o gene não é mais que uma reunião passiva de moléculas químicas que poderá reagir frente a outros produtos químicos provenientes do meio ambiente externo. É um erro “personalizar” o gene atribuindo a esse um destino e uma vontade própria (fantasma, homúnculo, alma). Também, erra-se ao acreditar que o gene impõe, através do programa que carrega consigo, este ou aquele comportamento complexo. Essa idéia está errada.

Ovos são estruturas biológicas pouco complicadas, comparados com o que sai deles, como o cérebro ou o rim, por exemplo. Como pode a complexidade surgir da simplicidade? Há um princípio de vida, um princípio organizador. Este é formado por moléculas imensamente compridas, ao longo das quais há uma enorme quantidade de informação, escrita numa língua de quatro letras (que são os nucleotídeos) presentes no núcleo de cada célula. Essa molécula, supostamente, diz ao organismo em desenvolvimento, a mosca, o pintinho, você, como se construir. O organismo então é a informação de DNA transformada em carne e osso.

Mas na verdade não é assim que o DNA atua no desenvolvimento. O DNA não faz a mosca, e não basta um pouco de DNA de dinossauro para fazê-lo, assim como estrogonofe não é feito do papel e da tinta do livro de receita. O DNA da bactéria é repleto de ferramentas químicas; algumas lêem a fita de DNA; outras fazem novas ferramentas em função do que foi lido na fita, inclusive as próprias ferramentas para ler a fita. Outras são estruturais, ou bombas químicas, ou lidam com a comida e energia. A pequena oficina produz novas peças para ela mesma, como máquinas e tijolos para suas paredes; ela cresce. Algumas ferramentas duplicam o DNA; em certo momento algumas ferramentas realizam uma divisão.

A maior parte do que acontece na formação da mosca é igual ao que acontece para formar você e eu. Por que os organismos são diferentes? Não são devido a grandes mudanças no DNA. É o controle inicial onde os caminhos se divergem – moscas e galinhas poderiam usar o mesmo DNA – um kit de DNA não nos indicará que organismo será formado. O DNA do ovo não consegue iniciar o desenvolvimento por conta própria; as ferramentas para ler e trabalhar o DNA devem estar disponíveis e funcionando perfeitamente – fornecidas pelas regiões do ovo ao redor do núcleo original. O desenvolvimento de quase todos os animais começa no ovário da mãe, quando as células são construídas, não requerendo mensagens do seu próprio DNA até que a estrutura do ovo tenha moldado a arquitetura básica do futuro animal. Só então os genes homeobox – homeóticos, que controlam o desenvolvimento, sabem onde estão e o que devem fazer.

A fertilização ocorre tardiamente no desenvolvimento; o ovo estava preparado para começar a construção do animal e o espermatozóide serviu apenas para dar um cutucão, além de sua contribuição de DNA, que difere pouco da do ovo. O ovo é como uma arma carregada. O DNA é a fita, o ovo o toca-fitas. É preciso que a fita seja colocada no local certo para ser tocada, ajustar o volume, escolher quais trechos serão ouvidos e em que ordem; então, aperta-se a tecla. O DNA de dinossauros obtido de sangue de dinossauro preservado num carrapato em âmbar não faz um dinossauro. Para tocar a fita de DNA de um dinossauro você precisa de um ovo dele da mesma espécie: o toca-fitas adequado. O DNA é a metade do caminho.

De onde vem a espantosa diversidade dos homens? Dos dois fatores gerais: hereditariedade e meio ambiente. Herdamos os genes que as células sexuais contêm. Mas os genes não são as granulações pigmentares da pele, nem a essência da inteligência; os genes condicionam ou permitem o aparecimento desses e de outros aspectos que exibimos. Eles forçam (obrigam) o desenvolvimento que deverá ser seguido de um determinado caminho (a pele poder ser um pouco mais clara, ou mais escura; podemos ter um grau maior, ou menor, de inteligência).

Os genes são bastante estáveis, resistentes à mudança do ambiente e mesmo independente deste, isto é, são conservadores. Eles constroem seus próprios “edifícios” fazendo uso de substâncias que não são genes, em última análise, do alimento. Os genes estão entre os constituintes celulares mais quimicamente ativos; eles trabalham para transformar as partes suscetíveis do ambiente – o alimento – em reproduções suas.

Ocasionalmente o processo dessa reprodução sai errado; há um erro de montagem. Na maioria das reproduções imperfeitas dos genes ocorre, também, a incapacidade de se reproduzir, como uma mercadoria fabricada com defeito que não tem saída, não é vendida; é jogada no lixo. Por isso, no caso de erro de fabricação, eles se tornam não-genes. Passando a não ser mais genes essas substâncias se tornam produtos imprestáveis e, desse modo, esses são abortados espontaneamente.

Entretanto, uma minoria dos genes alterados se reproduz; é comprada pelo mercado. Sendo os genes mutáveis, alguns deles, numa população (grande número de compradores), fornecem a matéria-prima para o processo evolutivo (mudança do gene, reprodução, novo indivíduo, de nova espécie, etc.). O desenvolvimento do organismo é efetuado através da atividade de uma constelação de genes. Estes se acham integrados, formando um todo coerente.

O desenvolvimento do indivíduo, ao contrário da estrutura dos genes, é, de certo modo, facilmente modificado pela influência do ambiente: alimentação, doença sofrida, criação, educação, relação com outras pessoas. Tudo isso afetará o desenvolvimento final. Além disso, o efeito do ambiente sobre uma pessoa é cumulativo. Os genes que você tem no corpo são reproduções dos que você nasceu com eles, mas sua personalidade e seu modo de ser podem continuar sendo transformados continuamente.

Genótipo, fenótipo e patogênese

O genótipo é a composição genética de um indivíduo; mais frequentemente usado a respeito de um gene ou grupo de genes. O fenótipo é a aparência do organismo em um dado momento ou fase da evolução; uma projeção dos ambientes que você viveu até a medida realizada e julgada.

As características pessoais são tanto herdadas como devidas ao ambiente, como, por exemplo, um resfriado. Uma pessoa precisa expor-se a um ambiente que contém o vírus para adquirir a infecção, mas ela precisa ter genes humanos para ser invadida pelo vírus. O vírus de nossa gripe não atinge gatos e ratos, como também o vírus da gripe aviária não atingia o homem; agora, alguns mutantes começaram a invadir o organismo de alguns homens. O que ocorrerá é uma incógnita, pois alguns homens são, provavelmente, mais sujeitos a se resfriarem que outros (grupos de risco). Haveria outra peste (gripe aviária) negra? Ninguém sabe.

Há certa proibição implícita das relações incestuosas (por exemplo, com filhos) entre as culturas diversas e também entre alguns primatas. Isso impede, em parte, os nascimentos de crias portadoras de mutações perniciosas à espécie. Ao mesmo tempo, devido à ação da cultura (governo, religião), há também uma rejeição para o comportamento dos diferentes dos normais. O desviante (transviado, divergente) não é aceito pela sociedade, pois sua conduta peculiar põe em risco a saúde e recursos da comunidade ordeira e homogênea. Tudo isso visa à preservação ou conservação da espécie como ela é.

A depressão está relacionada à diminuição dos neurotransmissores, serotonina e noradrenalina (mecanismo), mas não revela o processo subjacente (causa ou etiologia). A alteração biológica, diminuição da utilização dos neurotransmissores, pode ser um produto final comum refletindo uma etiologia do meio ambiente ou genética, ou de ambos. Por exemplo: sabe-se que há mais mulheres deprimidas que homens; sabe-se ainda que as depressões estão associadas a um menor poder social. Concluindo: as mulheres, historicamente, desfrutaram e ainda desfrutam de menos poder político. Assim, estudos mostram que a serotonina (associada à depressão) está alterada devido a mudanças no status social (diminui com a submissão). Por outro lado, os níveis de testosterona e cortisol sobem em resposta a uma variedade de eventos sociais. Essas mudanças químicas, por sua vez, alteram a probabilidade de comportamentos, tais como a vigilância e as respostas a outros.

Certas interações sociais são essenciais para a homeostase fisiológica e psicológica dos adultos e das crianças. As pessoas vulneráveis às doenças mentais tendem a ter capacidade reduzida para manipular seu meio ambiente para produzir homeostase (equilíbrio interno) e uma maior probabilidade de desenvolver um transtorno; parece que essas dificuldades associam-se a genes mutantes. Tudo isso são especulações que começam a ser estudadas.

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