Genes: informações e conduta

Os cientistas diziam que tínhamos cerca de cem mil genes. Nos últimos anos esse número caiu para bem menos, talvez cerca de sessenta mil; pouco mais que os genes existentes na frágil e pequeninha drosófila, nossa querida e conhecida mosca das frutas (bananas, laranjas e outras).

O genoma estabelece a estrutura exata ou próxima da exata de determinados sistemas e circuitos importantes nos setores evolutivamente antigos do cérebro humano: tronco cerebral, hipotálamo, o prosencéfalo basal e, provavelmente, a amígdala e a região do cíngulo. O principal papel dessas estruturas cerebrais é o de regular os processos vitais básicos (respiração, batimentos cardíacos, sexo, fome, etc.) sem ser necessário recorrer à mente ou à razão. Este é o comando mais simples e capaz de realizar condutas rápidas e intuitivas (nosso primeiro cérebro ou cabeça). Portanto, muitas especificações estruturais são determinadas pelos genes, isto é, nascemos com esse potencial.

Por outro lado, temos cerca de dez trilhões de sinapses (conexões ou associações de neurônios formadas após o nascimento) determinadas pela atividade do organismo vivo – aprendizado – à medida que este se desenvolve em interação com o meio ambiente (nosso segundo cérebro ou cabeça). As sinapses podem ser modificadas (evolução temporal individual) ao longo do tempo. Não se deve esquecer que todo esse segundo processo (o aprendido) é ajudado, formado ou regulado pelos circuitos inatos e mais antigos. Concluindo: os genes propiciam também a possibilidade do desenvolvimento de outros circuitos ainda não formados no nascimento (as sinapses); para que isso ocorra o organismo precisa ser estimulado ou ativado à medida que a pessoa interage com determinados ambientes físicos e sociais e, ainda, ser um organismo normal ou padrão. Todos sabem que a musculatura do bíceps irá aumentar somente se seu possuidor a usar, exercitando esse ou aquele músculo; que a fala, no homem, só aparecerá caso ele seja estimulado pelas conversas de seus criadores (a criança surda não aprende a falar como a não-surda); aprenderá a ler se esse hábito for incentivado.

Em resumo, os genes especificam e dirigem os circuitos inatos (coordenadores das funções vitais) a exercer uma poderosa influência sobre, virtualmente, todos os outros sistemas que sofrem modificações continuadas em virtude das experiências. Essa influência avaliadora e reguladora sofre modificações em virtude das interações do organismo total com o meio ambiente. Esse processo é realizado com a ajuda da produção de diversos neurotransmissores e peptídeos como a dopamina, noradrenalina, serotonina, acetilcolina, endorfinas e outros liberados em regiões do córtex cerebral e dos núcleos subcorticais.

Genes e meio ambiente

O córtex sensorial primário pode ser a parte do cérebro que é mais dependente dos estímulos (entradas, experiências) para um desenvolvimento adequado.

Para que o fêmur adquira a forma apropriada para um bom funcionamento, torna-se necessário que a cabeça deste se articule, durante a gestação, com o acetábulo no quadril (cavidade do osso do quadril onde se articula o fêmur) que é moldado por outros genes diferentes dos que lhe dão certa forma. Portanto, a plasticidade (mudança devido ao contato) do fêmur permite a ele adquirir a forma que tem; ela não é especificada de maneira exata através dos genes; precisa relacionar-se com o acetábulo. Assim, a cabeça do fêmur e o acetábulo ajustam suas formas conforme fazem rotação, um contra o outro, quando o bebê se esperneia no útero de sua mãe. Num laboratório, se o animal, experimentalmente, for paralisado no útero, ele nascerá, muitas vezes, com as articulações deformadas; muitas outras situações são semelhantes.

Os mecanismos que possuímos geneticamente não são projetados para permitir que ambientes variáveis moldem órgãos variáveis. Fazem o oposto; os genes asseguram que apesar dos ambientes variáveis desenvolva-se um órgão que seja capaz de fazer seu trabalho corretamente. Assim como o fêmur e o cristalino e todo o restante do corpo, o cérebro, também, tem de usar circuitos de retorno (“feedback”) para moldar-se e tornar-se um sistema que funcione efetivamente, e isso se aplica especialmente às áreas sensoriais que precisam lidar com os órgãos sensoriais (dos sentidos) em crescimento.

O comportamento não provém diretamente da cultura ou da sociedade. A flexibilidade dos humanos existe por eles serem programados (determinados, sem escolha) para serem flexíveis; a estrutura dos programas não muda com as culturas. O comportamento inteligente é aprendido com êxito porque temos sistemas inatos que promovem esse aprendizado.

Todas as pessoas podem ter motivos bons ou maus para agirem de um modo ou de outro, mas nem todas irão converter seus pensamentos ou intenções em comportamentos da mesma maneira; nem todos matam o inimigo asqueroso, ainda que, muitas vezes, tal idéia nos venha à cabeça.

Hoje se pode afirmar que a atividade de processamento de informações do cérebro dá origem à mente que exibimos; nossa vida mental depende inteiramente de eventos fisiológicos existentes nos tecidos do cérebro. Todo aprendizado decorre de mudanças em algum lugar do cérebro, isto é, da sua estrutura inicial (ao nascer) e das mudanças ocorridas nessa estrutura original desenvolvida conforme as experiências ocorridas. Todo o potencial para pensar, aprender e sentir, que distingue os humanos dos irmãos chimpanzés, ou primos em primeiro, segundo e terceiro graus, dos outros animais, reside nas informações contidas no DNA do óvulo fertilizado. O cérebro monta a si mesmo sob orientação dos genes, antes de o córtex ser formado, isto é, ainda na vida intra-uterina. Nesta formação os neurônios destinados a compor diferentes áreas organizam-se em um “protomapa” (modelo primário, anterior); os axônios são atraídos e repelidos.

A comunicação emocional “genética” social entre os indivíduos

As características grupais da comunicação evoluem pela seleção de características individuais através da evolução da comunicação. A comunicação emocional origina-se, ou funda-se, pela exibição inata e pré-ajustada, por parte do emissor (produtor e exibidor da informação), e pré-afinada (em harmonia) com o receptor (o que recebe e decodifica a mensagem). De outro modo: sinais inatos e fixos emitidos por um possuidor de determinada emoção (raiva, medo), pré-ajustados nos seus genes onde estão codificados, são exibidos, expostos, para um receptor ou destinatário. Assim, se José ficar irritado com algo que ele desejava e não conseguiu, ele deverá ficar com raiva e seu organismo informará para ele e para João, seu inimigo, seu estado emocional. Por outro lado, João já nasce, também, com dispositivos corporais capazes de notar que José está com raiva. Este último está também pré-afinado geneticamente para perceber a mensagem e decodificá-la (entender). Sendo tanto o emissor da mensagem, quanto o receptor, da mesma espécie, cultura e meio ambiente, eles expressam e compreendem a mesma linguagem emocional: raiva, medo, vergonha, etc. Traços dessa linguagem estão armazenados nos genes da espécie; há também aspectos das emoções aprendidos conforme a cultura vivida, inclusive ocultar ou dissimular o sentimento. Portanto, nós automaticamente expressamos pela face nossas emoções e, também, sabemos ler as emoções a nós transmitidas pela face do outro.

Embora a comunicação emocional seja geneticamente estabelecida nos indivíduos de cada espécie, para que essa funcione são necessários grupos, especificamente, troca de informação ou comunicação. Vamos a exemplos: diante de ameaça, na submissão, no acasalamento (namoro, corte) e na advertência, tanto o emissor como o destinatário precisam estar dispostos e atentos à comunicação para que sejam envolvidos nessa troca de informações. Na seleção da informação teremos, simultaneamente, tanto a exatidão e a clareza do emissor para expressar a informação com seus diversos veículos, como a habilidade do destinatário para recebê-la sensorialmente e interpretá-la adequadamente. Podemos afirmar, mais especificamente, que quando o animal ameaça (intimida), corteja (namora) ou adverte um outro animal, este, por sua vez, precisa decodificar, ou seja, interpretar acertadamente a mensagem dada: sentir-se ameaçado, aceitar o namoro ou a advertência; caso contrário, não houve informação.

Assim, para que a informação inata, existente e trocada entre indivíduos da mesma espécie, seja conservada é preciso que ela funcione produzindo o que é esperado dela pelo emissor e pelo receptor, conforme os impulsos ou motivações/emoções de um e de outro. Só assim haverá seleção da informação e o resultado da troca de informações será relevante para a sobrevivência dos genes de ambos os indivíduos. O que é selecionado, o enviado e o recebido são características dos indivíduos envolvidos (exibição e pré-ajustamento, respectivamente), mas a seleção ocorre no nível da relação de ambos ou de mais indivíduos.

As características do grupo, relação comunicativa entre o emissor e o destinatário, são mantidas na espécie através da seleção dos mecanismos individuais de enviar (codificar) e de receber (decodificar). De outro modo, é preciso codificar para expressar certos sinais e decodificar ao interpretar esses sinais; agir conforme a existência das diversas posturas possíveis existentes na relação entre os indivíduos. Ocorrendo esses relacionamentos continuados, em todos os tempos e lugares, tais como as relações de dominância (pais com filhos; do leão da receita federal com o fraco contribuinte) e de namoro (olhares, tom de voz, gestos e aproximação), os papéis são mantidos dentro do grupo, os quais, como os genes, são mantidos através das gerações (o aprendido culturalmente tem sido chamado por alguns de “memes”.)

Exemplos extraordinários (muito bem estudados) da manutenção rígida dessa codificação e decodificação (da expressão de sinais e de recebimento desses) incluem as sociedades de insetos (formigas, abelhas, cupins). Nesses insetos os papéis de um e de outro dentro do grupo têm sido mantidos por dez milhões de anos através de comportamentos fixos nas relações de comunicação entre indivíduos diferentes: rainha, operárias, zangões. Na realidade, as relações de comunicação e os papéis determinados são cópias ou réplicas que estão sendo mantidos virtualmente intactos nos genes, há milhões de anos, nas espécies, de geração em geração.

Nós temos alguma semelhança com esses insetos. Desse modo, o elemento de comunicação espontânea (não-aprendida) é, geneticamente, a qualidade codificada nos indivíduos emissores e recebedores, que funcionam no nível de inter-relação. Quando isso ocorre, a unidade da seleção natural não é o indivíduo, mas a relação de comunicação, um fenômeno grupal, baseado na comunicação.

Filhotes de lobos, de ninhadas separadas, uma vez criados e crescendo juntos, sem um tutor adulto, desenvolvem, com naturalidade, os papéis sociais de uma matilha natural selvagem através de sua própria e solitária interação. A ninhada de lobo é, com efeito, uma unidade sócio-genética organizada pela comunicação. Portanto, o gene armazena, podendo promover, se estimulado para ser expresso, certa conduta que só tem sentido e função quando realizada no contato entre dois ou mais organismos. A produção e expressão de uma conduta, emitida por um e recebida por outro, mantém o gene selecionado para aquela conduta que está sendo atualizada e realizada com sucesso. De outro modo, uma conduta, emitida e recebida conforme o organismo de ambos os envolvidos, dando nascimento à resposta pretendida durante o contato, tende a ser preservada, como, por exemplo, a expressão de raiva e fuga, de poder e submissão, namoro e aceitação deste, cuidados de um lado e concordância em recebê-los de outro.

Em resumo: As emoções inatas podem ser analisadas como maneiras pelas quais os genes influenciam ou persuadem o indivíduo para que ele se comporte de uma maneira conforme seu comando (do gene) para que a espécie seja preservada e, logicamente, o indivíduo possuidor do gene. O gene “passa a conversa” no indivíduo para que este o obedeça, pois só assim ele, o gene, seu possuidor poderão sobreviver. Nesse sentido, os afetos são vozes dos genes nos organismos. A conduta, nos animais ditos superiores, é flexível e modificável pela aprendizagem, mas, de fato, os organismos complexos, como os nossos, são pré-fixados pelos genes para serem flexíveis. Assim, nós apresentamos uma escolha “livre” que é, biologicamente, pré-fixada (não-livre), determinada pelos genes. Não temos como escapar desse poderoso domínio genético. Onde está nossa liberdade? Talvez nos detalhes de menor importância: “Gosto de comer caviar”; “Eu prefiro saborear um mexidão”.

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