Evolução

Imagem - Evolução do Homem

A evolução pode ser pensada em termos de alteração do programa de desenvolvimento, de maneira que estruturas sejam modificadas e novas estruturas formadas. São apenas os genes que mudam na evolução; portanto, compreender como eles controlam o desenvolvimento é fundamental para compreender a evolução dos animais e plantas.

A chave do desenvolvimento é a célula. Desde que as proteínas essencialmente determinam o comportamento celular, o desenvolvimento pode ser imaginado como o controle de quais proteínas serão produzidas e onde, ou seja, o controle da atividade dos genes que as codificam.

Quantos genes estão envolvidos no controle de quais proteínas do desenvolvimento e não na manutenção das funções normais da célula? Não sabemos a resposta, mas podemos conjeturar. Estimativas do número de genes são de 4 mil para a Escherichia coli, 7 mil para levedura e 15 mil para o verme nematódeo. Não é absurdo pensar que dos 60 mil (falava-se em 100.000) do homem cerca de 30 mil podem estar relacionados com o desenvolvimento. Sabemos que a embriologia dos insetos sugere que apenas cerca de 100 genes estão envolvidos no controle dos padrões; no nematódeo, 50 genes controlam o desenvolvimento da vulva.

Nos humanos existem aproximadamente 250 tipos diferentes de células, e se cada célula é caracterizada por dez proteínas diferentes, e cada proteína precisa de dez genes para a sua especificação, sendo estes valores bem modestos, então chegamos ao número de 25 mil genes para o desenvolvimento. Um pressuposto central é o de que o estado de uma célula é determinado pelos genes ativados e, portanto, pelas proteínas presentes. Desenvolvimento significa, em grande parte, células tornando-se diferentes da maneira ordenada.

Ativar um gene é um acionamento que pode resultar na produção de uma nova proteína, a qual, por sua vez, pode alterar totalmente o comportamento da célula. Uma nova proteína produzida pela ativação de um gene pode modificar e interagir com outras proteínas e assim gerar uma cascata de eventos, os quais, junto com a proteína inicial, podem modificar o comportamento celular que leva ao próximo estado.

Evolução: esclarecimentos

A evolução não é uma lei, ela é um fenômeno ocorrido. Ao contrário da crença de muitos, o privilégio dos seres vivos não é o de evoluir, mas sim o de se conservar, isto é, possuir uma estrutura e um mecanismo que lhes asseguram duas coisas: reprodução fiel ao tipo da própria estrutura (continuar a ser homem, gato, pulga) e reprodução, igualmente fiel, ao tipo de qualquer acidente ocorrido na estrutura (formação de outra espécie ou um indivíduo modificado, mais eficiente ou menos capacitado).

A “teoria” da evolução de Darwin é uma teoria de segunda ordem, por ser uma teoria cujo objetivo é o de explicar um fenômeno que nunca foi e nem jamais será observado, a saber, o da própria evolução. Podemos observar no laboratório situações criadas que nos permitem isolar mutações numa dada linhagem de bactérias – um fato isolado, concreto – mas isso não é o mesmo que observar a evolução – uma generalidade que inclui todos os organismos vivos e milhões de outros desaparecidos, uma grande parte antes do aparecimento do homem.

Os livros sobre evolução partem sempre de certos dados reais: a estrutura, o comportamento e a anatomia de determinado animal, passando em seguida a examinar o registro fóssil e daí as considerações clássicas da anatomia comparada; assim se infere filiações desta ou daquela característica. Essa reconstrução não pode ser provada e nem refutada; mas uma teoria precisa, segundo Karl Popper, ter uma estrutura tal que torne possível a refutação. Esse não é o caso da teoria da evolução; ela não tem como ser provada e nem negada, portanto, não se encaixa nessa prisão de Karl Popper. Não fiquem tristes; isso não a invalida. Ela é uma “teoria” especulativa importantíssima que mudou a maneira de perceber os seres vivos, entre eles, nós.

Quando Darwin publicou a primeira edição da “A Origem das Espécies”, ele jamais podia imaginar o grande conteúdo preditivo de sua teoria. Após a publicação surgiram críticas pesadas e destrutivas. Lord Kelvin, religioso e cientista da época, o refutou alegando que a vida não podia exceder a 25 milhões de anos como se imaginou. Darwin, confuso, aceitou as críticas como certas. Isso o obrigou a reexplicar suas suposições, pois, segundo sua teoria, era preciso muito mais tempo para que ocorressem as mutações e mudanças.

Muitos criticaram a teoria por desconhecerem as idéias mendelianas (o religioso das ervilhas), descritas num estudo quase completamente ignorado quando Darwin publicou seus próprios princípios. As críticas foram tão violentas que Darwin chegou a voltar atrás; estranhamente defendeu as idéias de Lamarck acerca da transmissão dos caracteres adquiridos. Mas com as novas descobertas no campo da genética, surgiram novas teorias da evolução afirmando que a unidade de transmissão, conservação em hereditariedade e a unidade de mutação é a mesma: o gene. E, ainda, que a unidade de seleção é o indivíduo, e não o gene.

As idéias acima são diferentes das descritas ingenuamente por Darwin e pelo seu grande defensor, Spencer, quando esses utilizaram o conceito simplificado – que se vulgarizou – da luta pela vida, pelo poder, ou o da sobrevivência do mais apto. O que importa não é a sobrevivência do indivíduo, que em si mesmo não tem interesse para a seleção; importa a manutenção do gene para que esse tenha a oportunidade de estar presente na primeira, segunda e enésima geração. Isto é o que precisamos para ter a evolução, ou seja, pressões seletivas modulando a probabilidade dos genes, provenientes desse ou daquele indivíduo, serem encontrados na geração ulterior, depois de uma, duas, três ou “n” gerações. A unidade de evolução não é o gene, nem o indivíduo, mas a população, não qualquer uma, a que partilha de certo genoma, a saber, a “mendeliana”, com recombinação sexual conduzindo a contínua produção de novos genomas, através de recombinação; esta é capaz de evoluir.

A teoria da evolução e associações de outras ideologias

A resistência à Teoria da Evolução tem surgido em virtude de crenças de que “tudo quanto existe e, em particular, o homem, tem boa razão para estar aí ou permanecer no genoma”. Ora, se aceitarmos a teoria da evolução, somos forçados a concluir que o surgimento de vida na Terra foi, provavelmente, imprevisível, antes de ter ocorrido. Os defensores dessa teoria (grande maioria dos biólogos) aceitam a idéia de que a existência de qualquer espécie particular decorreu de um evento singular, um evento que se manifestou apenas uma vez em todo o Universo. Consequentemente, um acontecimento que é, ainda, fundamental e inteiramente imprevisível; essa afirmação inclui a espécie a que pertencemos, ou seja, o homem, bem como qualquer outra espécie faz parte desse conglomerado.

Somos uma espécie singular, um acontecimento único, e, como todas as espécies, éramos imprevisíveis antes de aparecermos; “Pequenas diferenças levam as grandes diferenças”, como afirmou Darwin. Somos inteiramente contingentes com respeito não apenas ao resto do Universo, mas também com respeito aos demais seres vivos. Poderíamos não estar aqui, não ter aparecido, não ter escrito o acima, nem você lido.

Entretanto, devemos nos precaver. A evolução, bem como qualquer área de ciência, não é capaz de sondar certas questões, como a das origens fundamentais ou a dos significados éticos. A ciência busca explicar fenômenos e regularidades do universo empírico (não do imaterial, do mundo fantástico), sob o pressuposto de que leis naturais são uniformes no espaço e no tempo. Desse modo, a evolução não deve ser olhada como visando o aparecimento do homem, sendo essa sua função principal. Para a teoria da evolução não existem motivos para isso ou aquilo e nem acerca de que uma espécie é mais importante que as outras. Essas e muitas outras questões escapam da área científica, pois são problemas filosóficos (metafísicos) e ou teológicos.

Além disso, como toda idéia espalhada entre os povos, na qual se inclui a científica, a evolução também invadiu a mente popular. Nesta, as idéias evolucionistas foram misturadas por idéias espúrias (falsas) já existentes. Desse modo, na mente popular – nós todos fazemos parte – se infiltraram, como é frequente, ideologias simples, versões de fácil digestão, que serviram de fundo para o entendimento e as explicações populares; uma série de conceitos e significados que representam antigos preconceitos sociais e crenças psicológicas das diversas culturas.

Entre essas idéias está a de que a evolução associa-se ao progresso. Assentada na crença do progresso apareceu a noção de que a evolução possui uma motivação, ou manifesta uma poderosa tendência, de caminhar em direção à maior complexidade, ao projeto biomecânico mais eficiente, a cérebros maiores, ao maior poder ou alguma outra definição paroquial como forma de maior desenvolvimento usada na nossa cultura. Essas intromissões na teoria da evolução (comum em qualquer teoria científica) mostram a contaminação do nosso desejo, intenção, principalmente na sociedade ocidental, de nos colocar sempre no ápice do mundo natural, pois, segundo a crença, “somos os mais importantes” ou “os mais inteligentes”.

Resumindo: evolução para Darwin é a adaptação dos seres vivos a ambientes que mudam, não de “progresso” universal. Um exemplo é o de elefantes que evoluíram para adquirir uma pelagem mais densa à medida que se esfriou o tempo, até que eles se tornaram mamutes peludos, uma espécie classificada com outro nome. Nesse exemplo, os mamutes não são superiores nem inferiores aos elefantes, mas sim, animais melhor adaptados às condições locais, isto é, um frio muito intenso. De modo semelhante, a cor branca da pele do homem “branco” foi uma adaptação ao clima frio (menor quantidade de melanina, pois esta dificulta a penetração dos raios solares no organismo). A região mais fria, com menos Sol, exigia uma adaptação que facilitasse a penetração dos raios solares.

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