Duas faces: mecanismo interno x externo

As mudanças de estado de um organismo, como sua fome e, consequentemente, sua conduta – ir ao restaurante comer – ocorrem em domínios fenomênicos distintos (fome e ida ao restaurante) que não se intersectam (cruzam). A conduta de um indivíduo não é um aspecto da operação motora que está em andamento no seu sistema nervoso.

A rede neuronal, por permanecer fechada – interna – gera apenas mudanças internas no organismo, relações de uma atividade interna com a outra. Entretanto, há uma conjunção (acoplamento, conexão) do sistema nervoso com o restante do organismo; entre a estrutura sensorial e a motora (a realizadora, executora) e os setores encarregados da tomada de decisões.

A ligação do sistema nervoso com a via sensorial e a motora (executora) produzirá, necessariamente, uma conexão entre as mudanças estruturais internas do organismo (mecanismos subjacentes envolvidos) para provocar o comportamento observado do lado de fora. Desse modo, os comportamentos mostrados pelo organismo, visíveis para um observador (João sai à procura de água), são determinados, basicamente, em virtude das perturbações internas que estão ocorrendo no organismo (sede) e, em parte, devido ao meio ambiente (presença de água).

Existimos dominados (presos) por nossas interações e relações. Estas são vistas por um observador como condutas humanas (como decisões livres; de vontade livre), mas toda conduta decorre do que se passa no interior do organismo em virtude de mudanças estruturais. Somos governados por essas mudanças internas, independentes de nossos ideais; são essas modificações que nos forçam (levam) a fazer isso ou aquilo: ir ao cinema, tomar um café, estudar para a prova ou namorar.

Os dois aspectos (duas faces da moeda), o primeiro o da existência de trocas internas ou biológicas ocorridas nas estruturas (desequilíbrios provocados por situações internas ou externas ao organismo); o segundo, o comportamento observado de fora, a vida psicológica ou social exibida (possível de ser observada) pelo organismo que, uma vez desorganizado ou desequilibrado, busca o equilíbrio temporariamente perdido, isto é, a conduta. Nós descrevemos geralmente o visível do lado de fora, a superfície ou verniz percebido.

Os atributos, ou faces, são distintos. Cada uma pertence a um conjunto de atividades diferentes e, também, utiliza conceitos e leis diferentes. Além disso, o que é de um não pertence ao outro. Daí discussões intermináveis que jamais se encontram.

Postado em um lado está a biologia ou sua fisiologia. Ela é a que coordena o ser vivo, dando, como resultado, a constituição dele como totalidade. De outro lado, encontra-se a outra totalidade, a outra face. Esta se caracteriza (contém) pela relação observada percebida pelo observador, ou seja, a conduta, o modo de vida deste ou daquele indivíduo.

A fisiologia não só faz nascer, como dá origem ao comportamento observado ou percebido exteriormente. Além disso, ela torna possível e, ao mesmo tempo, limita a vida de relação do ser vivo com seu meio ambiente. Entretanto, a fisiologia não determina, não provoca, nem contém a conduta visível. Está confuso leitor? Vou tentar explicar o desejado de outra forma.

Devido ao determinismo estrutural, aspecto ou face biológica do organismo, qualquer mudança estrutural ocorrida no interior do ser vivo resultará ou provocará alguma mudança na sua vida de relação (no seu comportamento), isto é, com o meio ambiente. Portanto, a mudança estrutural irá modificar o que chamamos de “conduta” (sua totalidade), na sua busca de realização de seu modo de viver (reorganizar-se, retornar a harmonia) devido ao que está ocorrendo no interior de seu organismo biológico. Um exemplo simples é a fome. Esta, internamente, perturba o organismo devido a transtornos em alguns pontos do corpo, mas a totalidade do organismo acaba sendo alterada no seu conjunto (pensamento sobre alimentos, focalização das percepções, emoções de mal-estar, movimentos para procurar alimento, etc.). Esta é a segunda face, a que sai à procura do alimento para providenciar o retorno ao equilíbrio anterior: extinguir a fome. Uma vez alimentando-se, se fecha o mecanismo interno e termina a conduta externa. Estamos submetidos a esse vai-e-vem o dia todo; sem parar nós nos desequilibramos e nos reequilibramos.

A vida de relação ocorre nos atos (comportamentos); nesses são encontrados os meios necessários à obtenção de determinados resultados nas ações do ser vivo como totalidade, segundo as propriedades ou as características do organismo. Resumindo: existem dois aspectos ou domínios: o fisiológico e o comportamental.

Quando dois ou mais organismos interagem, José e Maria, atuando como sistemas moldáveis ou plásticos, cada um deles se torna o meio necessário (o nicho) para a realização da autopoiese do outro. O resultado é um acoplamento (conexão, ligação) estrutural mútuo que recebe o nome de domínios consensuais (os dois estão casados; ou, um é patrão, o outro, empregado, etc.). Nesse caso qualquer um dos membros pode ser substituído por um sistema novo, desde que tenha uma estrutura semelhante à do sistema anterior (trocar uma mulher ou um homem por outro; arrumar um novo patrão ou empregado).

Entretanto, se considerarmos o sistema sob o ponto de vista determinista (a face fisiológica do sistema humano, comandada pelo sistema subcortical e que não depende de nossa vontade) a escolha está fora de cogitação, como exemplificado nos exemplos: “Tenho fome”; “Estou furioso”; “Estou com sono”; “Meu estomago dói”, etc. Nesses casos não há o que substituir por um semelhante.

Criatividade e interações

Criatividade é uma característica difundida entre os sistemas vivos; o ser vivo “escolhe” mesmo havendo, por trás dele, o determinismo interno. Exemplo: Se tenho fome, posso comer uma feijoada para matar minha fome, mas posso ainda comer um pastel. Diante de minha “fúria” posso agredir fisicamente meu inimigo, ou, ainda, agredi-lo por palavras, matá-lo, contar até dez e esquecer, rezar e pedir a Deus que o perdoe, entender melhor o acontecido, tomar um remédio para me tranquilizar, etc.

Os sistemas políticos/ideológicos, religiosos e familiares são coercitivos. Eles procuram limitar, reduzir ou acabar com a criatividade e a liberdade de escolhas diante de inúmeras situações existentes no “menu” do meio ambiente. Essas várias forças do poder especificam para as crianças e os mais humildes os nichos “apropriados” e “corretos”, os que devem (têm de usar) ser escolhidos, sendo, muitas vezes, um somente. As ideologias não permitem outras escolhas segundo nosso interesse ou desejo, mas sim, segundo a “sabedoria” dos mais “importantes”.

A mente do indivíduo, desde cedo, é preparada para aceitar as decisões advindas do poder que se apresentam como “mais sábias”, das mudanças que ocorrem no organismo dos detentores do poder (rei, presidente, ministro, padre, pastor, papa, etc.). Em resumo, os “superiores” obrigam os “inferiores” a “escolher”, dogmaticamente, as interações sociais oferecidas como sendo as melhores e ideais do meio ambiente para solucionar os problemas da vida de cada um: o que fazer no domingo, que livro devo ler e que livro não posso ler, o filme indicado para assistir, o dia de comer carne e o dia do bacalhau, etc. Parece que tudo isso busca tornar as pessoas mais parecidas e, consequentemente, mais fáceis de serem domesticadas.

A política e a religião oferecem e pressionam, para a maioria da população, a busca de um meio ambiente mágico e solucionador de tudo para o ingênuo seguidor do político ou do religioso. Essa panacéia, receitada pelo líder – não escolhida pelo indivíduo – vai provocar uma limitação da ação da pessoa no seu meio ambiente, uma menor liberdade e, portanto, um impedimento para a diversificação do crescimento através do “alimento” possível de desorganizar o comum ou a mesmice.

A estrutura de um sistema se identifica com seus componentes reais e com as efetivas relações entre estes (as normas aceitas como adequadas à relação); isso mantém um sistema. Se os jogadores de um time de futebol, em vez de jogar com os pés, começarem a correr com a bola nas mãos, desorganizou-se o futebol; ele deixa de existir. Nesse caso houve a produção de mudança de estrutura, uma perda da organização anterior; desintegrou-se o que havia e nasceu uma nova organização, talvez um novo jogo (as regras ou normas estabelecidas foram modificadas). Se o patrão casa com a secretária, o primeiro sistema se findou e formou-se um novo sistema, com outras regras, outros direitos e obrigações.

Do mesmo modo, Luiz um dia é eleitor e, como tal, critica e combate o governo. No outro dia é Presidente da República e, portanto, chefe do governo. Nesse caso sua estrutura mudou (sua fisiologia) e, consequentemente, ocorreu também uma mudança na sua conduta. O ninho escolhido era um que se modificou conforme o resultado da eleição. Também pudera, ninguém é de ferro!

Na relação particular de dois sistemas que têm estruturas diferentes e independência com respeito à interação, cada sistema seleciona no outro o caminho da modificação estrutural respectiva. Nesse caso a conduta adequada é a congruente com as circunstâncias nas quais ela se realiza. Um bom exemplo disso é o comportamento denominado “amor”. Ele é a fonte da socialização humana e, ao mesmo tempo, um simples, humilde e desprestigiado fenômeno biológico. A competição, por outro lado, nega o amor e a aceitação do outro sem exigências. As diferentes emoções, como o amor, se distinguem precisamente porque especificam domínios de ações distintas.

Toda ação é determinada por uma emoção agradável ou desagradável, intensa ou fraca; isso ocorre inclusive quando raciocinamos, levando-nos a correr de medo, bater de raiva, abraçar por amor, etc.

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