Valores: Informações resumidas

Imagem - David Hume

Somente quando a pessoa possui um conhecimento inicial e básico de que existem germens e bactérias capazes de produzir doenças, terá sentido para ela a atitude de forçar as crianças a serem vacinadas contra varíola, tétano etc. Quando as informações disponíveis para raciocinar acerca das doenças são formadas por demônios e espíritos, os problemas de saúde para esse grupo só serão resolvidos pelo curandeiro, feiticeiro e, consequentemente, haverá atitudes diferentes da médica quanto à vacinação e higiene.

Para o pensamento antigo as leis da natureza e as morais eram a expressão da vontade divina. Quando a experiência mostrava o contrário do afirmado pelas leis, sua defesa apoiava-se na “ignorância dos impenetráveis desígnios divinos”. Depois, a garantia da unidade da lei moral e natural deixou de ser Deus; passou a ser a razão humana; dando nascimento às grandes ideologias do séc. XIX. Para os teóricos, a razão deveria descobrir as regras de conduta e de organização da sociedade, em harmonia com as leis da natureza.

Enquanto as leis da natureza são cada vez mais bem decifradas e dominadas pelo exercício da razão (método científico), o crescimento das ciências não ajudou praticamente nada para a descoberta ou elaboração de uma ética individual e social.

O mundo desabou: as ideologias fracassaram, a própria razão caiu do pedestal e espatifou-se. A crença de uma razão livre ou neutra para fundamentar a ética individual e social foi enterrada.

Temos boas “razões” para duvidarmos da influência e do poder do raciocínio na construção do julgamento moral. Existem dois processos cognitivos trabalhando juntos: o raciocínio e a intuição. Historicamente, o processo do raciocínio foi superenfatizado e priorizado. Agora sabemos que, na maioria das vezes, o raciocínio é gerado pelo julgamento intuitivo. A intuição ocorre antes da razão, orientando-o; assim foi destruída a crença do raciocínio objetivo.

Poucas vezes usamos o julgamento racional para avaliarmos a conduta moral. Os estudos demonstraram que as pessoas se apóiam e seguem mais suas intuições/emoções que suas reflexões morais.

Os filósofos usaram e abusaram da metáfora para descrever o conflito entre a razão e as emoções; uma delas comparava a razão com a divindade e as emoções com o animal existente em nosso organismo. Platão relatou que Deus criou primeiro a cabeça do homem, encarregada do raciocínio; depois foi forçado a criar um corpo com as paixões para permitir a cabeça mover-se para um e outro lado. A intuição e, também, o raciocínio e o julgamento, são processos mentais conectados às emoções.

Intuição e raciocínio são palavras que indicam a compreensão de duas formas de pensamentos diferentes. A intuição ocorre rápida e automaticamente; a conclusão final é obtida por ela, isto é, não através de um processamento envolvendo uma mente consciente e possível de ser examinada ou avaliada pelo autor. Por outro lado, o raciocínio ocorre mais lentamente, exigindo algum ou muito esforço, implicando, no mínimo, passos que são acessíveis à consciência.

A intuição moral (“Ele não presta!”; “É um assassino!”; “Isto é um absurdo”) pode ser examinada como um conhecimento que se manifesta na consciência de forma repentina, produzindo um julgamento moral impregnado de aspectos afetivos, sentidos como bons ou ruins, prazerosos ou não-prazerosos. Além disso, seu possuidor sabe que não alcançou a conclusão através de uma procura organizada e metódica; ela formou-se automaticamente. Pensando assim, podemos afirmar que a intuição moral é um processo mental semelhante à avaliação estética: “Gostei desse quadro”; “Detestei essa melodia”; “Essa mulher é fantástica”. Num caso ou noutro, a pessoa observa algo e, instantaneamente, o aprova ou o desaprova.

David Hume sintetizou essas idéias com a frase: “A razão é escrava das emoções”.

Um comentário para “Valores: Informações resumidas”

  1. Ola Dr Galeno!
    Foi uma surpresa muito agradável ter descoberto o seu tão rico e completo blog. De há muito que os temas da mente me fascinam e tenho agora a oportunidade de os estudar mais aprofundadamente. Obrigada pela contribuição que dá a todos os que, por motivo de profissão ou hobby procuram saber mais sobre o tema!

    A propósito do seu post ” valores” é muito interessante verificar que se enalteceu de tal forma a razão pura que agora quando as descobertas revelam que, sem emoção, a tomada de decisão torna-se muito pouco vantajosa para o sujeito, mesmo assim, seja difícil para muitos aceitá-lo.
    Falo por mim, pois tenho sido uma defensora acérrima de tudo o que é lógico e racional, talvez intimidada pelo pensamento que durante tantos séculos nos manteve na escuridão – como na idade média – incentivando a aceitar o pensamento vigente na época cheio de preconceitos, superstições, rituais e tradições tantas vezes absurdas. Tenho a dizer que uma das minhas épocas históricas preferidas é mesmo o século xvııı com o iluminismo e apelo à razão.
    Tenho agora consciência que a razão tem de ser acompanhada pela emoção – como tão bem nos demonstra António Damásio – na tomada de decisão pois sem ela o sujeito não consegue decidir de uma forma vantajosa. Tantas e tão complicadas são as decisões do dia-a-dia, embora nos pareçam simples, que sem o recurso a essa ajuda preciosa da emoção arriscaríamos não conseguir sequer decidir que tarefa começar primeiro e qual deixar para última como um doente de Damásio fazia depois de uma doença que lhe afetou uma parte do sistema que controla a emoção.
    Penso, no entanto, que embora mais rápida e automática, a emoção deve ser temperada com a razão sempre que está em jogo um julgamento de ordem moral; só porque eu gosto de alguma coisa nem por um momento devo pensar que é o melhor para todos. Aí, é necessário um pouco mais de esforço para tentar compreender as motivações dos outros. Como costuma salientar uma pedopsiquiatra muito conhecida aqui em Portugal, devemos evitar o pensamento preguiçoso!
    Cumprimentos

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