Os Maiorais

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Alguns sujeitos têm mais sorte que outros: são percebidos pela população como possuidores de características muito “superiores” às normais, por isso são chamados de “gênios”, “santos”, “heróis”, artistas excepcionais, craques tipo Pelé ou Ronaldinho ou “grandes bandidos” como o “Fernandinho” e o “Bandido da Luz Vermelha”. Esses indivíduos não se transformaram apenas em bons médicos, excelentes atletas ou artistas, eles se transformaram em mitos; chamo a atenção do leitor, pois uma coisa é diferente da outra.

Alguns indivíduos abandonaram sua “humanidade”, isto é, as mazelas e singularidades positivas e negativas próprias dos homens; sofreram uma metamorfose, deixaram a pele humana e passaram a usar vestimentas gloriosas dos maiorais; tornaram-se “heróis”, “santos” ou “malfeitores” extraordinários.

Faço uma pergunta para mim mesmo: O que faz com que um determinado indivíduo, aos poucos, deixe de ser homem e torna-se mito? O que leva uma pessoa a receber uma categorização de tão alto nível? Não estou falando de uma habilidade comum como “ter um bom ouvido”, uma “bela voz” ou uma boa memória. E muito mais: Por que o processo de cristalização dessas honrarias ou acusações se deu em torno daquele determinado indivíduo e não de outro qualquer? De modo concreto: por que Santo Antônio tornou-se santo numa certa época e não antes ou depois e, além disso, santo casamenteiro; S. Judas Tadeu metamorfoseou-se em protetor das “causas perdidas”; Fernandinho Beria-Mar, virou um perigosíssimo bandido?

Frustro o leitor. Não tenho respostas; tenho especulações. Talvez certos indivíduos são possuidores de determinados aspectos físicos, intelectuais ou morais que se adaptam melhor a uma história mítica preexistente, bem conhecida, contada repetidamente. Um certo modo de ser, de olhar, andar, bem como as roupas usadas etc. facilitariam uma melhor assimilação conforme o modelo de “Cinderela”, enquanto outro se assemelha mais ao estereótipo de “demônio”.

Todos nós, muito cedo, ouvimos, emocionados, histórias míticas ou lendas, contadas pelos nossos pais, avós, professoras, entre elas: Gata Borralheira, Chapeuzinho Vermelho, Robin Hood, Gúliver. Por outro lado, também os jornais, filmes e TVs nos informaram acerca de bandidos espetaculares e craques fora-de-série. Pode ocorrer que, mais tarde, ao observamos certas condutas, determinamos e selecionamos certos aspectos da pessoa e, após enfatizá-las, identificamos os atributos com as características armazenadas em nossa mente do mito: “Oh! É a própria Gata Borralheira!”; “Esse é outro Pelé!”; “É outro bandido da mala”. Com as pistas e as noções memorizadas da lenda aprendida, associamos alguns fatos percebidos do indivíduo alvo. Os fatos selecionados e enfatizados, muitas vezes, são características quase ou nada significativas, seja no aspecto físico, seja na conduta do indivíduo observado para que seja dado o rótulo final de gênio ou de santo. De posse das idéias da lenda armazenadas em nossa memória, assimilamos o cidadão focalizado e passamos a classificá-lo disso ou daquilo. Não sei se essa explicação tem algo de verdadeiro; mas é um palpite meu nesse momento.

Mas vamos um pouco além dessa idéia; pois já penso ser ela simples demais; até um pouco boba. Talvez ganhe mais sua atenção com as novas suposições que acabei de ter. Na maioria das vezes, o rótulo colocado é percebido pelo “rotulador” como tal, ou seja, como rótulo. Nesse caso, o “rotulador” reconhece claramente que o rotulado não é o personagem do mito. Exemplificando: a pessoa sabe que o símbolo por ele usado ao chamar determinada mulher de “Gata Borralheira” não representa a realidade; pois ela é, de fato, a lavadeira Teresa.

Entretanto, algumas vezes ficamos confusos e podemos confundir as idéias estocadas em nossa mente com respeito ao mito com a pessoa identificada e, posteriormente, rotulada. Nesse caso, passamos a acreditar que Teresa é a “Gata Borralheira” e não a lavadeira. Não se assustem, isso não tão raro assim; é bastante comum; isso torna a coisa complicada. Passamos a denominar e, logicamente, a enxergar ou tratar a pessoa rotulada conforme o rótulo usado: gênio, herói, santo, milagreiro etc. Assim, passamos a acreditar totalmente na nossa categorização, no rótulo usado, deixando de lado o exame ou as observações possíveis de serem realizadas.

Vamos imaginar, como exemplo a afirmativa: “Minha mãe foi uma santa”. Se repetimos isso diversas vezes, contamos para os outros e para nós mesmos, aos poucos, para nós, ela se torna “santa”. Entretanto, ela jamais agiu conforme as determinações dos candidatos a santos, mas passamos a acreditar nas nossas idéias, que eram inicialmente meras suposições e, numa época, sabíamos que estávamos conjecturando. Aos poucos, com segurança, sem dúvida, passamos a acreditar na nossa idéia delirante; que nossa mãe, sem dúvida nenhuma, foi mesmo uma santa; não a do pau oco. Nesse caso, falamos que houve uma transformação do real para o ideal. Como afirmou o “gênio” Pascal: “Aja como se acreditasse; reze, ajoelhe-se e você acreditará, a fé chegará por si”. Você poderá lembrar de outros rótulos: burro, bonito, inteligente, esperto, molenga, educado.

Vamos a outro exemplo: por mais que a pessoa demonstre que ela é gente como a gente, como ocorreu com Maria da Silva que tem diarréia, menstruações dolorosas, alimenta e defeca, age, muitas vezes, burramente, como todos nós, passamos a imaginá-la como santa, gênia ou uma perigosa bandida, isso não importa; ela passa a ser classificada como muito diferente de nós. Num grau semelhante e muito frequente, não sei bem se pequeno ou grande, a rotulação inadequada ocorre quando amamos ou odiamos alguém. Embevecido, arrebatado pelo desejo e paixões avassaladoras, Amadeu visualiza e categoriza sua amada não como ela é de fato: com sua perna fina e as coxas grossas, um ombro mais alto do que outro, a testa cheia de rugas. Ele a enxerga sim, conforme os mitos que possui acerca da beleza e elegância e, inconscientemente, como afirmou Pascal, passa a enquadrá-la: “um corpo esbelto, uma testa lisa e sedosa, olhos brilhantes e sedutores e uma sagacidade de espantar, um amor de mulher”. A “sabedoria” popular tem um provérbio para resumir tudo isso de forma mais simples e mais exata do que escrevi: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”.

Portanto, algumas pessoas se transformam em mito para um indivíduo – como exemplifiquei acima – outros, para um grupo, país ou para grande parte da população, como ocorreu com a Irmã Teresa de Calcutá. Esta, como consta na sua história, viveu parte de sua vida como uma santa, mas não toda a vida. Sei que é difícil ir contra esse estereótipo para os seguidores do catolicismo; alguns leitores não gostaram, franziram a testa reprovando minhas especulações. Mas essa afirmação encaixa-se no exemplo geral do que estou descrevendo: uma transformação ou um estereótipo mítico de uma pessoa que viveu, até uma época de sua vida, como todos nós.

Podemos dizer, de uma outra maneira, que a população absorveu a pessoa indicada, que ela se encaixou no assimilador mítico preexistente (mito do herói, do rei justo, do fora-da-lei, do nobre, do santo, do sábio etc.) como pessoa mítica, isto é, possuidora de características excepcionais anteriormente já descritas para outras figuras mitológicas. Esse encaixe do indivíduo ao mito do herói, santo ou demônio, apareceu muito cedo na imaginação dos homens.

Uma vez iniciada a construção do mito, ou seja, a transformação de um homem normal num mítico-excepcional, esta edificação continua através de sua vida. A partir do seu reconhecimento como homem extraordinário, seus novos feitos ou condutas, geralmente semelhantes às de todos nós, passam a ser vistas de forma deformada pelo novo estereótipo existente. A conduta do ser mítico é observada e julgada com os novos óculos usados, o novo prisma deformador da realidade, de acordo com o rótulo recebido: santo, herói, malfeitor, um amor de mulher, super-honesto ou outro qualquer.

Nomeado herói, santo, craque, grande artista, os esforços são feitos para que ex-candidato à figura mitológica, uma vez empossado no cargo, se estabilize, ou seja, não retorne à sua normalidade anterior, a de um homem medíocre como são os homens comuns como eu e você leitor. Dessa forma, os fatos ocorridos anteriormente – antes da pessoa ter se tornado uma “figura mítica”, a “santa” ou o “herói” – passam a ser examinados de maneira deformada; procuramos dar aos fatos comuns uma conotação “santificada”, “heróica”, para se adaptar ao novo status atingido. Ele não é mais um homem qualquer, logo, não mais pode ser examinado como tal, ele agora é Chico Xavier, um santo, um homem extraordinário, boníssimo; não poderemos mais enxergar nele as características humanas que todos possuímos, pois ele é um ser diferente; só pode ser examinado, observado e avaliado conforme o molde mítico existente na mente dos observadores; sentimos mal, asco, se usarmos nosso assimilador mental normal para examinar Moisés, Chico Xavier, Madre Tereza, Freud, nosso pai, mãe e, logicamente, nossa amada namorada.

Temos a tendência de manter inalterável um determinado modelo que temos das pessoas com as quais lidamos. Assim, por exemplo, se gosto de uma pessoa, procuro atos seus que comprovem minha hipótese, inclusive os fatos que aconteceram antes de conhecê-la, por outro lado, não percebo, não aceito ou não acredito nos eventos que negam as crenças existentes em minha mente; se odiar, uso o raciocínio oposto.

Muitas vezes, após aceitarmos por muito tempo algum indivíduo como super-homem (herói, bandido etc.) damos uma rasteira no seu prestígio, destruímos sua santidade ou heroísmo, transformando-o num homem normal. Isso tem ocorrido entre os grandes estadistas e mesmo entre os santos, alguns foram destituídos do status que gozavam.

O candidato a covarde ou herói, demônio ou santo, dando tudo certo, não surgindo nenhum acidente de percurso, se transforma em mito e passa a ser admirado como tal. Mas não devemos nos esquecer do essencial: fomos nós, os “rotuladores”, que o construímos, para isso usamos mais os símbolos de histórias míticas anteriores, e menos a realidade observada.

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