Os Donos do Poder

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Coitado do cidadão: aprisionado em si mesmo, sozinho, isolado do exterior por uma pele fina e frágil, cercado por todos os lados pelos donos do poder espalhados na natureza física, química, biológica e dos homens.

Nos meus delírios de perseguição visualizo um complô, arquitetado por homens tiranos, juntos aos seres vivos em geral e, também, pelas almas penadas – tudo muito bem coordenado – visando a controlar minha liberdade, bem como a sua. Não estou exagerando, darei exemplos, todos eles escolhidos ao acaso; os não lembrados ficarão por conta dos leitores.

Não acreditam? Pois vejamos: ora é uma mosca que vem pousar no meu nariz; ora um cão que me observa, mostrando seus belos e pontiagudos dentes, prontos para atacar-me. Mas não fica só nisso, depois é o convite de formatura que exige minha presença, o telefone que toca e me obriga a correr; o interfone oferecendo gás; a conta a pagar, o presente de Natal e de aniversário, o forno que não mais esquenta e, também, isso e aquilo. Mas tem também a chuva, a enchente, o imposto de renda, o terremoto lá longe, o trombadinha bem perto. Na rua, o carro disparado pronto para matar-me, obriga-me a correr desajeitado e envergonhado pela falta de forma, o trânsito que não flui, a rua esburacada e sem saída, meu time perdendo, o assaltante roubando meu sossego, às vezes, meu sonho de tranquilidade, o frio que me obriga a vestir o agasalho feio e fedendo a mofo, o calor que me faz suar e dormir mal, o café frio, fraco, fedorento e com formiga no fundo.

Onde buscar, nessa Babel de desgraças, forças capazes de suportar e orientar minha vida. Deus! Oh Deus! Onde está minha sonhada liberdade, a escolha individual, meu livre-arbítrio? Milhares de outras forças, além das minhas, me impelem a agir de um modo e de outro, não como gostaria. Estou aprisionado; a tudo isso e muito mais; a câimbra, o espirro, a tosse, o pedinte e o flanelinha, o som do vizinho, a gritaria dos meninos do colégio, a fumaça que me impede de enxergar os objetivos imaginados e sonhados.

Ao envelhecer, aos poucos ou rapidamente, não sei mais, vou perdendo a ilusão plantada cedo em minha cabeça mole da existência da liberdade, uma idéia inoculada pela igreja e pela escola, logo que nasci. Cansado de ser preso à família, ao partido político, à religião, ao time de futebol, à profissão e a tudo mais, percebo que o aprendido, acerca da liberdade, era tudo mentira, nascida de uma ideologia democrática falsa, incoerente: ela me enganou durante anos.

Onde encontrar a liberdade proclamada e esperada, que me fazia sentir feliz? “Foi um sonho que findou”, como diz a letra do poeta. Vejo agora que a liberdade é uma balela, um conceito belo, como algumas pessoas, mas sem conteúdo. Imagino, sem melhor idéia, que a inexistente liberdade foi construída pelo poder cultural para amenizar nossa infelicidade; foi fabricada, como várias outras ilusões, para nos amparar e nos proteger nesse mundo confuso.

Os poderes que esmagam meu fraco organismo vão desde a mosca que pousa, sem dar a mínima, de tempos em tempos, no meu velho e cansado nariz, até os decretos-leis de FHC, de Lula e de outros, que sei que virão. Mas, além disso, fui, há muito, dominado pelos dogmas religiosos, pelas ideologias marxistas, machistas e democráticas; mais tarde, aprisionei-me nas teorias científicas em voga; pulando de uma a outra sem parar. Corri como um burro atrás do milho inalcançável, em busca do “alimento” para minhas dúvidas. Desesperado, sem melhor orientação interna, esmagado por pressões e decepções, daqui e dali, agarrei-me, como náufrago desesperado, à “sabedoria” dos provérbios: “macaco que mexe muito está querendo chumbo”.

As terríveis forças malignas do poder trabalham para o mesmo fim e, em bloco, tentam me derrotar; todas elas têm um aspecto em comum: mudar meu comportamento, dirigir minha conduta para um rumo alheio à minha vontade. Meu saudoso livre-arbítrio, sem dizer adeus, desapareceu da minha vida há muitos anos; as forças do não-eu, em conjunto, lutam contra minha consciência, me impedem de alcançar minhas metas, se é que elas são minhas. Agora, já não tenho nenhuma certeza.

Aceito a definição de poder como a “capacidade para produzir determinada ocorrência”, ou, “a influência exercida por uma pessoa ou grupo sobre a conduta alheia, através de algum meio”. Portanto, para ser exercido o poder necessita-se de uma força atuante – a que desencadeia a ação (a mosca e o governo) – e, também, de um poder geralmente passivo ou bastante submisso – adequado para sofrer a ação (eu, eu, eu). Uma mosca não modificará a conduta de um boneco ao pousar em seu nariz; o imposto de renda, com todos os urros do leão, não conseguirá fazer com que o morto preencha sua declaração de renda.

Algumas vezes, muito raramente, o poder de um indivíduo ou grupo, sobre o comportamento do cidadão está em concordância, ou se identifica, com os objetivos ou necessidades deste, produzindo uma satisfação dos dois poderes envolvidos, o ativo e o passivo. Por exemplo, se você é convidado para ir almoçar na casa de um amigo – o que modificará o seu comportamento habitual – há a possibilidade estatística de você, naquele dia, desejar aquele encontro e até gostar das iguarias e do vinho servido; caso tenha sorte. Isso acontecendo, os dois participantes do poder – a força atuante e a passiva- podem atingir objetivos comuns: isso raramente acontece.

Além disso, o poder tem possibilidade de ser exercido visando a auxiliar uma pessoa; com um fim eticamente louvável. Convenço minha filha que é bom para ela frequentar a escola, comer determinado alimento, ter certos hábitos higiênicos etc. A aceitação de formas básicas de conduta por parte dela poderá facilitar sua vida, aumentar seu “poder pessoal” para tolerar e, talvez, driblar o poder institucional. Mas, mesmo esses valores amplos e gerais, podem ser questionados; posso estar equivocado e isso minha filha verificará com o tempo e experiência para encontrar seu caminho.

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