Organismo Humano: O que são Seres Vivos?

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Os seres vivos são sistemas estruturados de uma certa forma. Tudo o que ocorre em nós – ou em qualquer outro organismo vivo – acontece em função do aparecimento, em cada momento, de determinadas mudanças nas estruturas. O que observamos – do lado de fora – que está ocorrendo num organismo, como o ser humano, que tem sido chamado popularmente de conduta, nada mais é do que as mudanças verificadas nas estruturas internas. Deve ser lembrado e enfatizado que mesmo quando há uma ação do meio externo sobre o meio interno do organismo, o ocorrido – o produto final – nunca é determinado pelo meio. Explicando melhor: uma barata – isto é, um organismo – por mais treinada que seja, nunca aprenderá a ler ou a falar, pois seu meio ou estrutura interna não a capacita a realizar tal proeza; o organismo da barata, sendo diferente dos homens, não tem condições de alcançar esse aprendizado próprio – não superior – dos seres humanos.

O que notamos sob forma de ações através dos nossos órgãos dos sentidos e cognições, a conduta observável do homem ou da barata em um contexto determinado é, digamos assim, a representação externa, visível para o observador, o possível de ser percebido, das mudanças estruturais que estão ocorrendo lá dentro, no organismo vivo. No caso da auto-observação, o observador é o próprio agente das ações.

Os seres vivos são sistemas estruturais dinâmicos, que se constituem e se delimitam como redes fechadas de produção de seus componentes a partir de substâncias que retiram do meio, ingeridas, inspiradas, absorvidas pela pele etc. De outro modo: os seres vivos são verdadeiras fábricas em constante funcionamento, encarregadas de produzirem seus próprios componentes e, para isso, utilizam substâncias do meio ambiente. Essas substâncias participam, transitoriamente, da continuada renovação dos componentes do organismo impedindo a interrupção da produção. Com a morte, a produção encerra-se; a fábrica se fecha, os componentes – matérias-primas – que davam corpo àquele determinado organismo, substâncias como o H, N, C, O, Ca, Fe, K e outros, se separam daquelas ligações anteriormente existentes e passam a fazer parte de outras organizações diferentes da antiga, contribuindo para a formação de novas estruturas, isto é, as substâncias passam a ter outro destino. Portanto, uma vez encerrada a existência de um organismo vivo, seus componentes, dispersos, sem função naquele ex-corpo, passam a fazer parte do estoque de substâncias físico-químicas do meio ambiente, podendo ser, a partir de então, reaproveitadas para a constituição de outros seres vivos, vegetais ou animais, ou para outra coisa qualquer.

A fábrica viva, animal ou vegetal – bactéria, roseira, carrapato, homem ou elefante – é uma continuada realização de si mesma, através da produção incessante e renovada de seus componentes. Os organismos-fábricas têm recebido os nomes de Sistemas Autopoiéticos (do grego “autopoiesis” = autoprodução ou auto-renovação), Sistemas Vivos, Sistemas Complexos e outros nomes.

Os sistemas autopoiéticos apresentam como característica mais importante a sua capacidade de organização. Enquanto o sistema autopoiético produz a si mesmo, o sistema alopoiético, seu oposto, é construído pelo homem. Assim, o sistema alopoiético é resultado da produção de algo diferente do produtor, como o computador, rádio etc. Resumindo: existe uma espécie de organização – tipo máquina – que é fabricada pelo homem, designada para nos servir e que produz algo externo a ela mesma; por outro lado, existe uma segunda forma de organização, a natural, onde se inclui o organismo vivo e, também, os ecossistemas, como as sociedades, que se autoproduzem. As organizações naturais como o homem, a roseira, a sociedade, o mosquito, foram criadas por elas mesmas, através da evolução e de mudanças continuadas; elas se auto-reproduzem, sendo sua identidade inseparável de sua história.

O sistema autopoiético, ao contrário do sistema alopoiético, é autônomo, ou seja, coordena e subordina todas as mudanças que ocorrem nele visando a manter sua própria organização. A conservação de sua organização representa a sua constante fundamental, seu processo básico, isto é, preservar a si próprio, evitar sua morte. Quando a coordenação para sustentar a organização fracassa por algum tempo, ou seja, quando as disposições e funcionamento das partes passam a trabalhar anormalmente, fora do padrão habitual, surge o que chamamos de doença. E mais, quando a desorganização atinge um grau elevado, ou seja, essa passa a ser muito intensa, “sem remédio”, ocorre o que chamamos de morte do sistema individual. A morte, num sentido biológico, nada mais é do que a incapacidade do organismo, diante de determinadas situações, pressões do meio interno e ou externo que impedem o organismo de ser o que ele é. A autonomia de um organismo tem sido definida através de termos como: “autodeterminação” ou “autodecisão”. Esta é uma propriedade crucial existente em qualquer sistema auto-organizado.

A meta máxima do organismo vivo é a automanutenção e a auto-renovação de si mesmo. Para que exista a conservação da organização, o organismo assimila informações (alimentos, idéias, desorganizações) produzidas no meio externo e interno devido às desordens resultantes dessas trocas ou, de modo mais simples, em virtude do sistema estar vivo.

Um sistema autopoiético perde sua identidade ao perder sua organização, a barata perde, ao ser esmagada por um sapato, sua organização de barata – transforma-se, entre outras coisas, em restos alimentícios para formigas, mosquitos e bactérias. Por outro lado, o sistema alopoiético também se mantém como uma unidade apenas enquanto sua organização não variar; uma cadeira só será cadeira enquanto a sua organização for a de uma cadeira; uma vez quebrada, poderá virar lenha, bengala e porrete. Nesse caso, ela perdeu sua identidade de “cadeira”. A organização de um sistema são as relações entre os seus componentes, os que lhe dão sua identidade de classe, como as cadeiras, uma fábrica de pregos, os seres vivos. O modo particular pelo qual realiza-se a organização de um sistema particular – classe de componentes e as relações concretas que se dão entre eles – constitui sua estrutura.

Nós não instruímos um sistema, não especificamos o que vai acontecer nele. De maneira semelhante, se você põe um toca-fitas para tocar, você não o instrui, você o aciona, você ativa o que o toca-fitas é capaz ou foi preparado para fazer; suas funções são as determinadas e possibilitadas pela sua estrutura. Assim, não se pode imaginar certas pessoas agirem de um certo modo quando sua estrutura o orienta para outro. Certas transformações estruturais são acionadas pelas interações do organismo com o meio ambiente; outras, pela própria dinâmica interna do sistema: agora, meu organismo está com sede; saio à procura de água.

Mas dois sistemas totalmente iguais – duas baratas ou dois homens – terão histórias diferentes de interações pessoais e de mudanças estruturais que foram iniciadas de forma diferentes quando o organismo começou sua existência como uma célula; ela terá uma história de vida singular.

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