Formação de Modelos: Relação mãe/filho

Imagem - Relação Mãe e Filhos

Os modelos ou as representações internas na mente do recém-nascido começam a ser construídas durante os períodos iniciais da vida. Esta afirmação tornou-se uma idéia chave manifestada nos estudos cognitivos e neurobiológicos do desenvolvimento. Portanto, a construção dos modos de “ver o mundo”, entre estes, os modelos positivos ou negativos com respeito às relações humanas e de si mesmo, começam a ser estruturados logo após o nascimento, quando o cérebro da criança começa a interagir com o ambiente, principalmente com o cérebro da mãe.

As respostas dos pais a essa aproximação, quando eficientes, dão origem à formação de um esquema ou modelo cognitivo na criança de esperança e de prazer com respeito a futuras relações com pessoas. Quando ocorre isso, o modelo inicial, uma vez ampliado, reforça o estado emocional positivo da criança e atenua o negativo. A interação mãe/filho ocorre primordialmente nos primeiros dias de vida, em função do calor do contato, da alimentação, do odor e da estimulação táctil.

As experiências iniciais do bebê, provocadas durante suas relações com os cuidadores, são assimiladas e tornam-se codificadas na memória, dando origem à expectativa de possíveis contatos satisfatórios com outras pessoas; o contrário é verdadeiro com respeito às ligações deficientes e produtoras de sofrimento. Apesar da não existência plenamente desenvolvida da memória episódica – memória para situações concretas vividas – funciona, desde o nascimento, a memória de procedimentos, também chamada de memória implícita, relacionada ao aprendizado de ações motoras da criança, gestos, sorrisos, agarrar, andar, ou seja, respostas inconscientes e automáticas provocados pelos estímulos internos do organismo e do meio ambiente; uma memória que está ligada a regiões e circuitos cerebrais relacionados às emoções.

Essa memória inicial, exercendo um papel importante e básico na criação dos modelos gerais do indivíduo, do meio físico e social, relaciona-se também ao aprendizado inicial das ações morais, pois regula as expectativas favoráveis, ou desfavoráveis, o que deve e o que não deve ser feito no futuro e, também, a orientação para formar ou não vínculos com uma ou outra pessoa. Agindo conforme essas regras, aprendidas muito cedo, a pessoa, ao identificar-se com elas, irá sentir-se seguro, ao contrário, irá sentir-se estranho a si mesmo quando adotar posturas que vão contra regras conhecidas. A criança, ao enfrentar novas situações negativas parecidas com a antiga, irá manifestar diversas emoções e condutas desagradáveis, semelhantes a exibida durante a situação estressante primeira; sem decifrar o que o levou a sofrer tais emoções e conduta, ou seja, sem se lembrar que, numa ocasião, teve uma experiência ruim ou negativa daquele formato. Assim, as experiências com o criador, positivas e negativas, formadas em decorrência de boas ou más ligações, serão armazenadas na memória da criança e utilizadas, posteriormente, na construção de todas as outras ligações.

Através desses contatos precoces serão esboçados os futuros modelos ou padrões orientadores para a formação de laços afetivos futuros com outras pessoas encontradas, entre eles, o cônjuge e os companheiros. Conforme as diretrizes ordenadoras existentes na mente de cada um, acentuamos ou atenuamos determinados estímulos percebidos nas pessoas com as quais estamos em contato. Como subproduto dessa relação construída – a primeira da vida da criança – novos esquemas serão formados, apoiados no primeiro modelo e, também, nos sinais emitidos pelas pessoas encontradas. Estes esquemas, nascidos muito cedo, servirão de bússolas para clarear e facilitar o modo como o indivíduo deverá postar-se, cumprimentar, falar, afinal, agir nas relações interpessoais futuras.

Daí a extrema importância desse início de vida. Se o modelo inicial do indivíduo for inadequado à realidade, e frequentemente é, as idéias construídas que se originaram dele, consequentemente, serão, como o padrão, disfuncionais, conforme afirma o ditado: “pau que nasce torto cresce torto”. Como resultado, não serão saudáveis as futuras ligações afetivas do indivíduo possuidor do modelo defeituoso. Trabalhando com uma representação imperfeita acerca das relações humanas, ela não fornecerá ao seu possuidor o resultado por ele esperado: obtenção de tranquilidade e prazer; poderá causar, ao contrário, sofrimento e frustração.

Esse aprendizado, uma vez adquirido, passa a ser usado automática e inconscientemente, ou seja, o seu possuidor não sabe ou não se lembra de como ele foi adquirido. Pensando assim, a “amnésia infantil” é natural para o aprendido durante os dois a três primeiros anos de vida; o contrário do que muitos crédulos afirmam. Portanto, muito pouca ou nenhuma memória desse período da infância é acessível às recordações na idade adulta, entretanto, a conduta é determinada, em grande medida, por esse aprendizado não consciente. A não-lembrança de como a pessoa aprendeu não ocorre devido à repressão de memórias traumáticas na fase do “Complexo de Édipo” como, erroneamente, afirmava a teoria psicanalítica, mas sim, devido ao desenvolvimento demorado da memória declarativa ou episódica, que nessa idade ainda não está desenvolvida plenamente. A memória declarativa ou episódica tem a ver com a memória de fatos concretos, singulares: a pessoa lembra do que ocorreu com detalhes: do cheiro, cores, movimentos etc., como ocorre com o primeiro sutiã, a primeira vez que dirigiu um auto, um acidente etc.

Tudo indica que um inicial autoconceito negativo – uma baixa auto-estima – funcionará como um mecanismo central gerador de futuras ligações defeituosas e estressantes. Assim vai sendo construído o ser humano, preso aos primeiros modelos mentais formados; outros e outros esquemas, padrões, ou ainda, representações acerca do mundo externo e interno, vão sendo criados para serem usadas numa e outra conduta.

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