Emoção: A história de Geraldo

Geraldo, um jovem de vinte anos de idade, descrito pelos amigos como sendo uma pessoa feliz, sempre gostou de esportes, principalmente de futebol e corridas. Como bom estudante de Direito, ele espera chegar bem alto na carreira de advogado. Naquela noite quente e abafada de novembro, Geraldo e seus amigos assentaram-se nas arquibancadas do estádio para assistir a uma partida de basquete. Enquanto esperava o início do jogo, Geraldo, segurando numa das mãos um pacote de pipocas, conversava animadamente com os amigos assentados ao lado. Vagarosamente, ele ia retirando, com as pontas dos dedos, algumas pipocas salgadas e ainda quentes que comprara ali mesmo e as colocava com prazer na boca enquanto ouvia as considerações dos companheiros acerca do jogo e observava moças sorridentes e belas que por ali passavam a procura de um lugar e, talvez, de um namorado.

Alice, uma adolescente de cabelos curtos, passou diante do grupo e provocou o olhar e a cobiça de todos; Geraldo, no momento em que focalizava seus olhos bem abertos para a graciosa morena, sentiu uma ponta de tênis no seu traseiro. Desviou seu olhar e pensamento da moça para o ocorrido, ficando, por instantes, ligeiramente irritado. Mas, em seguida, ajeitou-se novamente na arquibancada, perdendo de vista a graciosa gazela de cabelos curtos. Ele continuou comendo pipocas e examinando, detidamente, as diversas jovens que por ali transitavam. Alguns minutos após o primeiro esbarrão, ele levou um segundo chute, no mesmo lugar. Neste instante, enrijeceu-se, agora bem mais irritado do que da primeira vez que recebeu o pontapé. Apesar disso, Geraldo ainda conseguiu manter-se controlado. Parou por instantes de comer a pipoca, calou-se, arredou como pôde, levando seu corpo um pouco mais para frente, imaginando, nessa posição, ficar livre dos chutes do vizinho de cima da arquibancada. Mas, mais uma vez, apesar dos seus esforços, ele não conseguiu evitar um terceiro esbarrão, mais forte ainda, quando algumas pipocas caíram ao chão.

Geraldo se enfureceu. Tenso e trêmulo, colocou o pacote de pipocas no piso, junto aos seus pés. Interrompendo a conversa tranquila, as brincadeiras e gargalhadas, ele levantou-se bruscamente, girou seu corpo para trás em direção ao desconhecido assentado no lance de cima da arquibancada, preparando-se para agredi-lo caso este aceitasse a briga. Uma vez tendo girado totalmente o pescoço e tronco para trás, ele pôde, só agora, olhar e observar melhor, bem de frente, o mal-educado e chato, o perturbador de seu sossego e lazer. Num rápido e completo exame do chutador, Geraldo teve sua atenção voltada para os membros superiores do seu “agressor”. De suas mãos atrofiadas, desciam pequenos dedos disformes que nasciam logo abaixo dos ombros. Geraldo, ainda um pouco agitado e raivoso, ficou paralisado com o que viu. Ele, antes de perceber os braços do vizinho incômodo, estava possesso e decidido a “matar ou morrer” em defesa dos seus direitos, ou, no mínimo, bater ou apanhar, mas com honra. Agora, diante do que acabara de ver, sentiu sua raiva intensa e selvagem rapidamente ser consumida e transformada numa mistura de simpatia, perdão e até piedade para o agressor. Pálido, sorrindo sem graça, girou seu corpo novamente em direção ao campo de basquete. Ainda tremendo, abaixou-se pegando novamente o pacote de pipocas e enfiou seus dedos finos nele, segurando algumas delas com dificuldade e levando-as até sua boca seca. Ajeitou-se como pôde nas apertadas arquibancadas do estádio, chegando o traseiro o mais pra frente possível, pois assim esperava não ser mais chutado.

Aqui termina a história de Geraldo…

Comentários: Geraldo foi descrito como uma pessoa geralmente feliz, significando sua disposição habitual, possivelmente, uma condição geneticamente influenciada pelo seu sistema neural, operando mais ou menos de forma continuada, gerando um modo que caracteriza o estado emocional da pessoa. Nesse caso, seu traço de um humor feliz significa uma pessoa animada; o mecanismo da atividade neural é atribuído a atividade neuroquímica. Na noite do jogo, talvez, instigado pela temperatura – um dia quente – ele sentiu mais a dor diante do impacto do chute no traseiro e, além disso, o sofrimento emocional foi aumentado pela interpretação formulada por Geraldo: “Isso é um abuso, uma falta de respeito”, aumentando ainda mais sua raiva já desencadeada. Tudo isso gerou o desejo ou a prontidão para agir, defender-se, quando girou o corpo pronto para agredir o torcedor distraído.

Todo esse processo pode ser descrito como mudanças motoras e sensoriais, mas, também, por ter abandonado a pipoca que, por ser alimento, o acalmava, juntamente com o papo com os amigos, que também tem um efeito tranquilizador. A interrupção brusca das emoções agradáveis e calmantes , transformadas em emoções desagradáveis e com possibilidade de produzir resultados incertos, levou Geraldo a sofrer irritado, deixando por instantes sua animação e prazer com a vida que existiam antes dos chutes. A raiva, consequentemente, gerou certas condutas motoras expressivas (levantar-se, enrijecer-se, partir para a briga). O próprio ato de movimentar-se para brigar aumentou ou promoveu mais ainda a raiva inicial, conforme disse William James: “Se recusarmos a expressar a paixão, esta morre”.

Mas a raiva existente no organismo de Geraldo, ao iniciar seu ataque ao “inimigo”, transformou-se, prontamente, em outras emoções após observar os braços e mãos do “agressor”. As novas emoções, bem diferentes das ocorridas antes do chutes e durante esses, levaram-no não ao ataque, mas à compaixão, união, um desejo de ajudar, ou, no mínimo, de compreender o que aconteceu com o “agressor” distraído. Dessa forma, a avaliação do fato, “Tenho que agredir esse chato”, ao se transformar num novo julgamento: “Coitado: tem os braços defeituosos; não conseguirá me dar um murro”, fez mudar, também, as diversas emoções existentes em um ou em outro momento. As interpretações acerca dos chutes levados no traseiro passaram a ser perdoados, provocando novas emoções, diferentes das anteriores, entre elas, talvez, a piedade. Pode ainda ter pensado, se teve conhecimento para isso, que o problema do vizinho talvez tenha sido o uso de talidomida por sua mãe durante a gravidez.

Ao perceber e imaginar os problemas do agente de seus aborrecimentos anteriores, uma vez livre deles, Geraldo pode ter ficado envergonhado, sentindo-se culpado do que pensou e de sua ação inicial: querer brigar, bater, numa pessoa menos capacitada fisicamente. Essas considerações mentais podem ter originado simpatia e tristeza e, possivelmente, felicidade por não possuir o problema do “agressor”.

Em resumo: Geraldo teve raiva e dor ao ser chutado, essas são emoções não-cognitivas; mais tarde, apresentou vergonha, piedade e tristeza e, novamente, felicidade pela comparação; todas essas emoções são chamadas de cognitivas, ou seja, aprendidas e relacionadas à maneira de pensar cultural. Durante toda a descrição dos fatos, aconteceram diversos processos geradores de emoções: a disposição de Geraldo “feliz” é função de um sistema neural geneticamente influenciado que opera mais ou menos de forma continuada para gerar e manter esta característica emocional; as transformações no sistema de emoção ao ser chutado foram devidas às atividades neuroquímicas instigadas pelo ambiente (temperatura), ao processo emoção/dor que o levou à raiva, e aumento dessa pelas ações sensório/motoras/expressivas necessárias ao uso do pensamento: “Vou agredir esse chato”.

As ações orientadas pelas emoções são utilizadas como defesa nas crianças de três semanas. Nessa idade, elas são capazes de sorrir junto ao seu cuidador quando começam a estabelecer vínculos que irão aumentar suas chances de sobrevivência; uma atitude que ocorre antes delas serem capazes de processar as informações com imagens, pensamentos e fazer uso da memória. Possivelmente, as expressões das emoções iniciais são inatas e universais, emergindo antes da criança ser capaz de defini-las.

A literatura acerca da evolução nos sugere que o sistema emocional precedeu o cognitivo na evolução. A emoção é um indicador, ou sinal, importante para que haja a adaptação do animal ao meio ambiente. Ela permite que o animal aja rapidamente – como fez Geraldo – diante das emoções sentidas ligadas às incertezas. Diante da dor provocada pelo fogo, por exemplo, retiramos a mão e, ainda, geralmente, ficamos com raiva; esta motiva ações defensivas e, às vezes, xingamentos.

Por todas as razões acima descritas, o estudo das emoções, cada vez mais, tem demonstrado uma extraordinária importância. Mas ainda não está claro se o que é chamado emoção em um nível, relaciona-se ao que chamamos emoção em outro. Serão as emoções básicas como a felicidade, tristeza, medo e raiva, relacionadas às emoções mais primitivas como o impulso sexual, domínio ou poder? Quais seriam as ligações das emoções básicas com os níveis mais elevados das emoções como o orgulho, ciúme, vergonha ou remorso? Interesse, tédio e curiosidade seriam emoções? O que se sabe da relação acerca dos fortes sentimentos associados aos julgamentos morais como admiração, veneração, desprezo, meditação, contemplação e ponderação? Quais são as bases da emocionalidade da simpatia, piedade ou compaixão e, também, da crueldade e da ferocidade?

2 comentários para “Emoção: A história de Geraldo”

  1. Foi ótimo ter encontrado este autor e seus livros. Sabia ser importante conhecer sobre nossas emoções, mas ainda não havia parado para pensar sobre a profundidade deste assunto e suas consequências em nossa vida. Muito bom. Estarei sempre aqui, pesquisando, refletindo, compartilhando, indicando para os amigos. Obrigada. Silvana

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  2. Boa tarde! Dra Nilza. Eu( Vanderlei surdo) estou com muitos saudades de familia. você conhece minha mãe Julieta Batista faleceu em 2004. Graças a Deus, Cristo Paz e Abençoes sua Familia. Abraço primo Vanderlei…

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