Duas Memórias: Procedimento e Declarativa

Imagem - memória

As memórias podem ser divididas em duas grandes classes quanto à origem do conhecimento memorizado:

  1. Uma memória, fruto dos acontecimentos que se sucederam na vida particular do indivíduo; esta é uma memória instável, confusa, desorganizada, mistura de ruídos falsos e verdadeiros;
  2. Uma outra memória nascida dos genes; esta é inata, estável, abastecida pelos acontecimentos organizadores de um passado anterior ao indivíduo, bem protegida contra o “ruído” e a informação circulante.

As duas memórias trabalham juntas: a dos genes possibilita a aquisição das memórias ocorridas após o nascimento. Deve ser lembrado que cada espécie apresenta potencialidades diferentes para aprender conforme as facilidades e limitações fornecidas pelos genes do indivíduo. Por outro lado, dentro da mesma espécie, alguns indivíduos possuem cérebros que são melhores arrumados, capazes de adaptarem-se melhor às estimulações do meio ambiente desde a infância; podendo aprender mais, podem se tornar mais “inteligentes”.

A memória disponível para cada pessoa numa certa idade estabelece a individualidade de cada um. Somos quem somos porque nos lembramos, não só de quem somos, mas, também, como nós fomos e onde queremos chegar.

Memórias, procedimento e declarativa

Inicialmente, deve ser lembrado que nenhuma das memórias estudadas localiza-se num só lugar; todas envolvem circuitos complexos. A memória tem sido dividida em vários tipos e, frequentemente, autores diferentes, dão nomes diversos para o mesmo tipo de memória.

Dois tipos de memórias têm sido descritos: a memória de procedimento (também chamada de processo, não-consciente, implícita, de atividades), e a memória declarativa (recebendo ainda os nomes de episódica, consciente, de eventos e explícita). Uma terceira memória descrita, a memória de trabalho, que não será descrita aqui, é considerada como um ramo ou subtipo da memória declarativa.

Os pesquisadores concordam que o uso dos dois sistemas de memórias é uma regra mais do que uma exceção; as duas se sobrepõem, são usadas conjuntamente; assim, ambas são recrutadas nas experiências de aprendizagem. Na verdade, uma repetição constante de uma ação pode transformar a memória declarativa (explícita) numa de procedimento ou implícita, como pode ser observado na experiência de aprender a dirigir um veículo. Nesse caso, há, inicialmente, um envolvimento de um processo consciente, depois, automático ou inconsciente – o motorista perito não fica pensando, ao dirigir, como ele aprendeu e cada detalhe do aprendizado.

Memória de Procedimento (Processo mental inconsciente)

A memória de procedimento relaciona-se a atividades que são memorizadas como ações: nadar, escrever, tocar um instrumento, digitar, andar de bicicleta etc. Esta memória é aprendida lentamente, armazenada através de atos repetitivos, após diversas tentativas, envolvendo a associações de estímulos sequenciais. Ela permite o armazenamento de informações acerca de relações entre acontecimentos, que são expressas, primariamente, pela melhoria dos processos de atuação – não pela familiaridade com certas tarefas – sem que o sujeito seja capaz de descrever exatamente o que e como foi aprendido. Envolve, portanto, sistema de memória que não tem acesso ao conteúdo do conhecimento geral do indivíduo. Por isso é chamada de memória de processos e não-consciente. Esta memória relaciona-se, anatomicamente, a ativação de sistemas sensoriais e motores comprometidos na tarefa da aprendizagem; adquirida e retida devido à plasticidade do sistema nervoso, que varia de indivíduo para indivíduo como um bom e mau jogador de futebol, vôlei, tênis etc.

A memória de procedimento (inconsciente) inclui vários processos e estes envolvem diversas áreas cerebrais:

  1. O reconhecimento do estímulo encontrado é uma função dos córtices sensoriais;
  2. A aquisição de várias pistas dos estados afetivos sentidos envolve a amígdala (uma região do cérebro);
  3. A formação de novos hábitos motores e, talvez, hábitos cognitivos, exige o neo-estriatum;
  4. A aprendizagem de ações motoras novas ou a coordenação de novas atividades irá depender do cerebelo. Desse modo, diferentes situações vividas e, consequentemente, certas experiências de aprendizagem, estimulam o cérebro, fazendo entrar em ação diferentes subconjuntos de áreas, que agem em combinação com os sistemas de memória explícita localizados, principalmente, no hipocampo.

Tem sido aceita por alguns teóricos a idéia de que o desenvolvimento da conduta moral também seria adquirida através de meios da memória de procedimento e inconsciente. Para seus defensores, a pessoa geralmente não se lembra de forma consciente de que modo e em quais circunstâncias ela assimilou as regras morais que governam suas avaliações e a conduta moral ou ética. Sabe-se que essas foram adquiridas quase automaticamente, como as regras da gramática que usamos sem pensar e que governam cada linguagem nativa.

Memória Declarativa (O Processo Mental Consciente)

A memória declarativa tem sido também chamada de memória consciente, semântica, episódica, de evento, de conhecimento, de lugares etc. Ela, que envolve associações de estímulos simultâneos, permite o armazenamento de informações acerca de um acontecimento simples que ocorre num tempo e lugar particular, podendo ser aprendida e usada após uma única tentativa. De posse dessa memória, possuímos um sentido de familiaridade com o fato, pessoa, lugar, daí o nome de memória episódica, relacionada ao episódio.

Existem dois tipos de memórias declarativas: uma de curta duração (de 3 a 4 horas), outra de longa duração (acima de 6 horas, podendo durar dias, meses e anos). A primeira encarrega-se dos processos declarativos enquanto pode-se formar ou não uma outra memória, a de longa duração. Esta última, ao contrário da de curta duração, requer uma cascata bioquímica complexa no hipocampo, que geralmente leva horas para se instalar e poder, posteriormente, ser recuperada ou resgatada.

A memória declarativa é adquirida através de circuitos que ligam diversas regiões do córtex, principalmente os circuitos envolvidos com a memória de trabalho e com o hipocampo. Assim é que lesões de certa gravidade na região do lobo temporal não impedem o aprendizado da memória de procedimento, apesar de dificultar ou impedir o da memória declarativa, (episódica). De outro modo, essa região do lobo temporal, principalmente o hipocampo, é responsável apenas pelo tipo de memória declarativa e não a de procedimentos.

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