As três Marias: Informações resumidas

Imagem - Aprenda  a não ser tolo

Deve ser lembrado que todos os comportamentos verbais, bem como outros comportamentos comunicativos, visam, antes de tudo, a prender a atenção do sujeito alvo. Não há possibilidade de nos comunicarmos com alguém caso este não preste atenção às nossas informações.

Quando transmitimos uma determinada mensagem para alguém, nós, como emissores, tentamos sempre formar na mente do receptor ou ouvinte outras informações, além das literalmente expressas: Pedro, interessado em conquistar Cláudia, ao vê-la, afirma: “Você tem belos olhos”. Em outro caso, ele pretende ajudar uma pessoa que está trocando o pneu furado do seu carro e lhe pergunta: “Seu pneu furou?”. Essas informações, que têm recebido o nome de “intenções informativas”, não são claramente verbalizadas. No caso do Dr. José, as intenções informativas deste foram seus gestos calmos, o tom de voz, a maneira de olhar etc.

As intenções informativas simples nada mais são do que outras informações que a pessoa – a que emite a mensagem – tenta transmitir além do expresso literalmente. Muitas vezes, após ouvirmos uma frase, segundos depois, percebemos o que não tínhamos notado, falando para nós mesmos: “Ah! Só agora, percebi. Que burro fui! Ele disse que estava gripado como desculpa para não ir; fiquei preocupado à-toa.”

A provocação ou realização de uma intenção informativa é geralmente intencional. Uma intenção de comunicar – ou uma “intenção comunicativa” – procura tornar conhecida uma intenção informativa inicial (de primeira ordem), a primeira informação, a que se deseja que seja aceita pelo receptor. Podemos imaginar que Maria Sofisticada está ciente que Dr. José tem por intenção, ao demonstrar calma e falar que não há nada, fazer com que ela acredite no que está sendo dito. Nesse caso, podemos supor que Maria Sofisticada, não a Ingênua, está de posse do seguinte raciocínio/complexidade: “Dr. José quer que eu saiba que ele pretende fazer-me acreditar que ele não precisa fazer nada por mim, pois tudo está bem”.

De maneira simples, podemos afirmar que a comunicação nada mais é do que usar um meio, ou estratégia, especial para realizar uma intenção informativa; de um modo mais seco e desagradável, de administrarmos nosso egoísmo junto ao outro. Através de uma intenção informativa fornecemos indícios, genuínos ou falsos, a respeito da informação que desejamos que o outro acredite como verdadeira.

Nós, seres humanos, alguns mais, outros menos, usamos e abusamos de técnicas para construir, ou melhor, inocular estados mentais e emocionais nas pessoas. Constantemente estamos provocando intenções como no exemplo:

Luiz come diante de Marta, demonstrando extremo prazer pela feijoada preparada por ela.”

Com esse gesto, Luiz tenta agradá-la para mudar as intenções de Marta para com ele. Naquele dia, ela estava possessa. Era preciso acalmá-la. Um observador que não conhecesse as intenções de Luiz poderia imaginar que ele estivesse faminto. Por outro lado, se Marta percebesse a intenção de Luiz – comer muito para agradá-la e acalmá-la – a conduta de Luiz poderia não surtir o efeito desejado.

Um comportamento comunicativo, construtor de idéias, emoções e intenções no espírito dos receptores, pode ser feito por meios não-verbais e verbais. João pode estabelecer contato visual com Lúcia, sua superiora; pode ainda olhar para o chão, andar devagar, esfregar o rosto com as mãos etc., tudo isso para auxiliar a compreensão de sua intenção afirmativa; a de que está doente, precisa ir para casa e procurar um médico.

Conforme o discutido, não há possibilidade clara e objetiva de sabermos as intenções mais escondidas do Dr. José; sabemos as mais superficiais, por exemplo, uma de suas intenções básicas foi fazer com que Maria acreditasse no que dizia. Mas durante uma ironia podemos fazer o oposto; falar algo de um certo modo que leva o receptor a saber que o afirmado quer dizer outra coisa diferente. No caso do médico, o Dr. José, ao fazer gestos e usar certos tons de voz, tentava mostrar calma intencionalmente para provocar nas Marias que ele não estava tenso e nem preocupado com estado físico delas, pois tudo estava bem. Mas é possível que ele quisesse dizer alguma coisa a mais do que foi falado e demonstrado pelos seus gestos. Hipoteticamente, tudo o que ele fez pode ser falso; não só em virtude dele ter uma intenção falsa por algum motivo próprio e desconhecido para nós, como também devido a uma incapacidade dele de fazer o diagnóstico mais acurado. Se pensarmos conforme essas hipóteses, o Dr. José podia estar enganando Maria, fingindo que tudo estava bem, para, posteriormente, tomar outras medidas necessárias junto a outros médicos ou familiares dela devido a gravidade do caso.

Se alguém em quem você confia quer que você acredite em algo, há, frequentemente, boas razões para que você acredite no falado. Essa situação acontece nas relações usuais que temos com nossos pais e educadores. Estes nos informaram, em épocas passadas, uma série de dados e interpretações acerca das relações entre pessoas, da nossa família, da constituição e formação do mundo etc., todas bem intencionadas. Mais tarde, lamentavelmente, percebemos que muitas informações eram falsas. Nossos educadores e pais nos informaram tudo isso com a boa e santa intenção de nos ajudar; de não nos fazer sofrer diante da realidade dura e crua. Além disso, eles foram competentes para pôr em prática suas intenções; nos informar erroneamente acerca do mundo e das pessoas.

Quando uma pessoa tem uma intenção fundamental, espera-se que ela se esforce para que outras crenças ligadas à principal sejam aceitas para que a intenção principal seja realizada. Uma condição necessária para que ocorra isso é a de que o receptor, ou alvo da intenção, acredite que a informação que o comunicador quer transmitir é importante e, também, que é verdadeira. Em outros termos, todo ato de comunicação e, em particular, toda afirmação, contém uma presunção de sua própria relevância, do contrário ela não seria emitida.

Se o ouvinte postular que o falante é bem intencionado e competente, como fez Maria Ingênua e, portanto, que a afirmação dele é importante e verdadeira para ela, nesse caso, fica simples e fácil decifrar a mensagem. Isso acontece mais nas relações entre pais e filhos, menos um pouco entre os cônjuges e amigos, e menos ainda em outros encontros.

Mas na terceira estratégia, a da Maria Sofisticada, a interpretação fica extremamente mais complicada. Nesse caso, não se supõe que o falante seja bem intencionado, também não se acredita piamente na sua competência: todas essas características são examinadas através de outros dados da experiência e do conhecimento geral do ouvinte fora do contexto enfrentado no momento. Neste modelo admite-se ou acredita-se somente que o Dr. José procura formar uma intenção no ouvinte de que é bem intencionado e competente.

A Maria Sofisticada, como nas outras estratégias interpretativas, deve seguir o caminho de menor esforço, mas não se deter na primeira interpretação tida como importante que vem à sua mente – na primeira idéia acomodada ao ninho – nem na primeira interpretação que o falante pode ter pensado que fosse importante o suficiente para ele.

Quando se considera a ironia, bem como outras interpretações de notícias e outros conteúdos que comentam o afirmado, isto é, informam além das informações fornecidas literalmente pela fala ou escrita, torna-se evidente que os comunicadores usam muito suas interpretações particulares acerca das informações primárias, e muitos interpretam, por sua vez, as interpretações existentes, e assim por diante, tornando o informado cada vez mais complexo e difícil de ser entendido e exposto em nossa mente, ao mesmo tempo. Isso não implica que os comunicadores, durante esse tipo de informação estejam conscientes da complexidade de seus raciocínios. O que está implícito é que cada uma dessas representações mentais assenta-se em diferentes camadas, uma em cima da outra; sendo que cada uma das camadas terá que ter um papel diferente na compreensão do ouvinte ou leitor. Por isso elas são difíceis.

Boa parte da comunicação cotidiana se efetua entre pessoas que são bem intencionadas umas em relação às outras; elas se conhecem bem reciprocamente. Em tais circunstâncias, a técnica da Maria Cautelosa – mesmo da Maria Ingênua – pode servir como estratégia de interpretação “usual”; não havendo necessidades de utilizar níveis mais altos e complicados como as envolvidas nas compreensões sofisticadas. Mas quando a estratégia ingênua ou cautelosa fracassa, seria interessante usar as estratégias sofisticadas para realizar deduções complexas.

O Dr. José transmitiu à Maria uma informação que pode, como vimos, ser interpretada de diversos modos, indo do mais simples, aceitando as intenções dele e sua alta competência; que foi bem codificada na frase “Você não tem nada” sem outras intenções ou objetivos. Pode também ser examinada sob a ótica mais complicadas como a das duas Marias; Cautelosa e Sofisticada, que colocaram em dúvida suas intenções explicitadas ou sua competência. Essas Marias utilizaram diversos comentários ou análises das informações exibidas pelo Dr. José: o que ele disse, gestos, histórias particulares delas e outros conhecimentos adquiridos. Diversos outros exemplos nos levam a imaginar o uso de técnicas semelhantes para examinar informações usadas frequentemente por todos nós: “Vamos dar um tempo”; “Para mim está tudo acabado”; “E agora José…”

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