A Plantonista

Noite de sexta-feira; 22 de junho. Noite calma, calma demais para aquela sexta-feira, com fogueiras e festas. Por sorte, o Hospital Psiquiátrico São Judas Tadeu estava sossegado. Nos fins de semana, o número de internações crescia com aumento dos bêbados, drogados, esquizofrênicos e maníacos agitados.

Distante do hospital tranquilo, Clara, agitada, após ter vestido seu short ultracurto, saiu com os amigos para os pontos de sempre. Em cada local onde parou, fumou, bebeu e drogou-se como nas outras vezes. No bar, assentada nas cadeiras cheirando a frituras, ela bebia e discutia com os amigos dos fins de semana. Como suas palavras saiam velozmente de sua boca pequena, uma boca que parecia nunca se abrir, tornava-se difícil compreender o que Clara pronunciava. Entretanto, o que era falado ou entendido tinha pouca importância, pois os temas eram sempre os mesmos e conhecidos de todos: o custo de vida, as paqueras, a praia melhor para viajar durante as férias e os lugares da cidade que tinham uma melhor cerveja.

Clara era jovem, solteira, talvez até bonita, aparentando ter trinta anos. Ao terminar o curso superior, conseguiu um emprego razoável; um trabalho que não gostava, a não ser quando recebia o salário que sempre achava que era pouco. Seus cabelos loiros avermelhados, grossos e cheios de pequenas tranças, combinavam com suas roupas coloridas e extravagantes. Não tinha limites; geralmente falava mais do que devia, fumava muito e, às vezes, bebia tanto que não mais se lembrava do que havia feito.

A noite estava terminando e o cansaço se instalou entre os amigos do bar. Clara, jovem e forte, sozinha, continuou suas andanças pelos botecos. Ora num, ora noutro, os pileques continuavam. Já bem tarde, quando a manhã se aproximava, ao sair cambaleando de um dos bares, ela foi despertada por sons animados dos tambores, chocalhos, tamborins e pandeiros. Estimulada e atraída, caminhou, automaticamente, em direção aos sons produzidos por um grupo de rapazes que cantavam, sambavam e tocavam pelas ruas da cidade adormecida.

Clara, sonolenta, cansada das conversas e pileques, uma vez despertada diante da magia e força dos sons, aproximou-se do grupo e, facilmente, se enturmou. Sem inibições, entrou na dança bamboleante e, imediatamente, foi aceita, com entusiasmo, pelos componentes do grupo. Sendo a única mulher presente, os rapazes, após formarem um círculo em torno de Clara, começaram a gritar e a bater palmas, diante de cada balançar excitante e ritmado do seu bumbum. Cada requebro de Clara provocava urros que eram ouvidos à distância.

Encantada pelos sons do batuque, encorajada por gritos e palmas, ela sonhava: dançava, pulava e requebrava; cadenciada conforme os sons poderosos provocados pelas batidas dos tambores e berros da platéia excitada. A cada gingado dela, mais brados e mais liberdade de ação. Tudo dominava a mente receptiva de Clara.

Num rebolado mais ousado e violento, seu “short” apertado rompeu-se de uma só vez, abrindo-se de cima a baixo no seu traseiro. O entusiasmo dos presentes aumentou. A platéia foi crescendo; pessoas que voltavam para casa e alguns moradores da vizinhança aproximaram-se para presenciar o espetáculo inusitado. Clara, indiferente ao acontecido, parece que se tornou, com o incidente, mais e mais animada. Os uivos, à medida que ficavam mais fortes, gerava, da parte dela, mais movimentos ritmados, na orgia que ali se instalara.

Não demorou muito para que Clara, para alegria de muitos e espanto de poucos, tirasse de uma só vez, a blusa e restos do “short” rasgado, passando a dançar, em plena praça, apenas de calcinha e sutiãs vermelhos. A animação aumentava, contagiando todos os assistentes daquela festa inesperada; não era sempre que surgia ali um acontecimento como aquele.

Outros e outros espectadores paravam para ver o espetáculo: casais que voltavam cansados para casa, homens que se dirigiam ao trabalho, andarilhos diversos. Moradores insones da vizinhança, diante do barulho, largavam suas camas ou TVs e se debruçavam nas janelas para desfrutarem da cena ousada, interessante, divertida e “ao vivo”. Alguns poucos, desejosos de dormir, reclamaram do barulho e ameaçaram chamar a polícia.

Clara, cada vez mais estimulada, dançando e cantando, alcançou o clímax. Num piscar de olhos, como um furacão, tirou o resto de suas minúsculas e últimas peças vermelhas. Exclamações de prazer e de apoio dos assistentes foram ouvidas a centenas de metros; os tambores rufavam estrondosamente com batidas superanimadas, enérgicas e rápidas.

Mas, “o que é bom dura pouco”. Para tristeza da platéia alvoroçada, de repente, a festa acabou. Chegaram os policiais. Clara, sem perceber, continuava sua dança, mesmo sem os sons dos tambores, até que foi paralisada pelos fortes braços de dois soldados. Através dos gritos de um deles ela foi intimada a se vestir imediatamente. Os espectadores pesarosos e frustrados, diante da interrupção brusca do prazer gozado naquela noite fria de junho, exatamente quando imaginavam cenas ainda mais ousadas e interessantes, se dispersaram tristonhos.

Clara mostrava-se agitada; embriagada, continuava a ter uma conduta e conversa estranha, pois, aos berros, exigia dos policiais seus direitos de cidadã por não ser uma qualquer:

— Tenho uma profissão. Ouviu! Não sou uma merda não! Solte-me!

Colocada no camburão; cada vez mais seguros de que se tratava de uma doente mental, os policiais decidiram levá-la para o hospital de loucos. Cinco horas da manhã, o camburão chega à porta do Hospital São Judas Tadeu que, felizmente, continuava, naquela noite de sexta feira, sem a ocorrência de nenhum caso complicado; todos os pacientes estavam calmos sem exigir cuidados especiais, não houve brigas entre os internos e, até aquele instante, nenhum louco tinha sido levado às pressas pela polícia ou familiares para ser internado.

O militar sonolento chega ao hospital trazendo Clara segura pelas suas mãos fortes. Ela sai do camburão esperneando e gritando:

— Solte-me, solte-me. Idiota! Desgraçado!

O soldado, calmo quanto à sua força, indiferente aos berros, toca a campainha. Chega à porta Mateus, com seus cabelos desarrumados e seu rosto inchado:

— O que foi?

— Vim trazer esta louca, esta bêbada e drogada…

— Entra…, aqui está escuro, deixe-me acender a outra lâmpada…

— Esta mulher aí; apontando para Clara: — Estava dançando nua na rua…, continuou a falar o policial, — Quando a agarramos…: disse que era uma profissional de valor e não uma qualquer. É uma louca! Nesse instante o soldado deu uma sonora gargalhada.

— Meus Deus! É você Dra. Clara! Exclamou Mateus olhando espantado para ela.

— Estou dizendo para esse imbecil, há muito tempo, quem sou eu… ele não acreditou… Falei com ele que hoje era o dia do meu plantão aqui no hospital. Ele não quis me ouvir! Tornou a repetir, irritada.

— Mas você me telefonou dizendo que não podia tirar o plantão, pois estava acamada, com TPM, com uma dor terrível devido a enxaqueca.

— Tomei umas aspirinas; melhorei, saí para tomar uns ares.

O atendente levou a doutora para dentro do hospital, despediu-se dos policiais, pedindo-lhes desculpas pelo ocorrido. Em seguida medicou a médica com água doce e com um resto de café bem forte existente na garrafa térmica. Logo depois, a Dra. Clara vestiu um jaleco e assumiu o plantão daquele fim de madrugada fria e calma de junho.

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