Terceiro Ato

Toca a campainha e Piedade atende. Diante da porta de entrada está uma moça, de aproximadamente trinta anos, presa pelo braço a um senhor, de terno amarrotado, que ali vai pela primeira vez. Acompanha os dois, uma senhora, ligeiramente obesa, descuidada. A moça, bastante magra, mostra, na face, duas olheiras que circundam os olhos esbugalhados e vazios; dando a impressão de não dormir há dias. Veste uma calça jeans velha, desbotada e suja. Nada fala. Esforça-se para sair da sala a qualquer preço mas é contida pelo senhor que a impede de escapar. O homem que a segura, demonstrando irritação, pergunta, de modo áspero:

PaiÉ aqui o consultório do Dr. Otávio? Marcamos uma consulta urgente com ele, agora, as cinco horas. Já são cinco e quinze.

PiedadeQual é o nome do senhor?

PaiA consulta não é para mim! É para ela! Elisa Marcolina Peixoto. Eu sou o pai dela, esta é a mãe.

Piedade (Verificando na agenda, demoradamente e cansada após um dia tumultuado)Está marcada, sim, para as cinco horas. (preocupada com a reação do pai da paciente, que está nervoso, ela explica)Aconteceu um imprevisto… ele atrasou um pouco, não muito… o doutor irá atendê-la já; não vai demorar. Assenta um pouco, quer uma revista?

Pai (irritado e em voz alta)Então, teremos que esperar? Ela, como você vê, não está bem. Chegou a fugir de casa e foi um custo para encontrá-la. Dormiu junto à pedintes; esses vagabundos, sujos, que vivem bêbados, deitados pelas ruas. Ela pregava para eles, dizendo ser Nossa Senhora da Consolação, e que iria salvá-los.

Piedade (em voz baixa, amedrontada)Não demora, não.

Elisa (olhando para Piedade, confundindo-a)Meu amor, você por aqui? Vim te salvar. Onde andou? Desapareceu da igreja. Por quê? Não gostou de minhas pregações? Estou voltando para você. (assustada, dando um grito)Oh! Meu Deus! Transformaram você em mulher! O que fizeram com você…

Pai (bravo, ríspido)Cale a boca; pare de falar bobagens… ela é uma moça; não vê que estamos num consultório?

ElisaNão fique triste meu bem. Tenho poderes, poderes que eles não possuem, carrego, em minhas mãos, a força das orações… Deus encarnou em mim; fui escolhida, somente eu. Mudarei seu sexo novamente, você voltará a ser um homem, o mais belo dos homens, tudo para me amar. Construiremos nossa vida juntos, bem longe deste aí, (aponta para o pai) desses malditos demônios que nos perseguem. Eu sempre te amei. Vamos embora daqui comigo. Venha, venha meu amor, para bem longe dos inimigos. Eu te salvarei.

(Todos ainda estão em pé, Elisa, nesse instante, tenta se soltar das mãos do seu pai e pegar o braço de Piedade, que se afasta com medo da paciente. Elisa, depois de algum esforço, escapa, por instantes; o pai corre para agarrá-la; ela tenta nova aproximação com Piedade, vira-se, de repente e caminha para o lado da porta do Dr. Otávio. Parece assustada com o lugar desconhecido; seus olhos inexpressivos estão longe, no infinito. Seu pai irritado, com a ajuda da mulher que o acompanha, segura-a com mais firmeza, repreendendo-a e caminha até à mesinha onde Piedade se escondeu ao fugir. A conversa prossegue:

PiedadeCoitada, ela está assim há muito tempo? Quer um copo d’água?

MãeQuer, Elisa? ( ela não responde; começa a rir, ri muito, alto, fazendo gestos com as mãos levantadas. Os movimentos ora são lentos ora bruscos. Repentinamente, começa a chorar e a lamentar-se. Depois canta uma canção religiosa: “com minha mãe estarei, na santa gloria um dia… “. pára, fica imóvel, numa posição estranha: um dos braços semi-levantados, uma perna adiante da outra e flete um dos braços sobre o dorso, gira a face, olhando para a cima)

PaiEla sofre muito, quase não tem dormido; emagreceu demais. Ás vezes fala sem parar, ás vezes, nada fala.

MãeNão é bem assim. (Intervém a mãe da paciente)A primeira crise foi pior, ela ficou mais agitada, até agressiva. Fugiu, como agora, mas ficou desaparecida por três meses, morando debaixo do viaduto, chegou a pedir esmola na rua para comer. Foi procurada, por toda parte, procurada até pela polícia, ninguém a encontrou. Nessa época, ela cursava o terceiro ano de Psicologia.

PaiEra boa estudante, é inteligente, conseguiu terminar o curso, abriu até um consultório . Mas quase não tinha clientes; também, assim… quem iria procurá-la?

MãeEla é uma boa menina. Namorou um engenheiro, de quem gostava muito. Coitado, teve um câncer na garganta, foi ficando sem voz, operou uma vez, duas e ficou com uma cara horrível. Elisa lhe deu todo o apoio… até sua morte… (olhou para Elisa para obter sua concordância)morreu nos braços dela. Foi sua maior paixão.

Elisa (nesse instantes ela saiu do seu estado cataléptico)Ele não morreu, mentirosa, (xingando) esconderam-no de mim, por inveja, todos tinham inveja de mim. Devíamos ter fugido. Estão transformando tudo, mudaram até a face dele; fizeram um buraco no seu pescoço, para que eu não o reconhecesse e o abandonasse, pensando ser ele outra pessoa. Eu sou a culpada por não ter tomado conta dele, eu o abandonei… por isso ele sumiu. Estão acontecendo coisas estranhas comigo; sei quem está por trás de tudo isso, quem comanda essa armação, conheço o culpado… (dá uma risada sarcástica)

MãeQue é isso minha filha? Você fez de tudo para ajudá-lo. Não podia fazer mais. Ele morreu devido àquela doença ruim, feia que teve…

Elisa (ri escondendo o riso, em silêncio, virando a cara para o lado e grita)Mentira! Mentira(gritou novamente, depois de alguns segundos sem nada falar) Morreu? É verdade? (chora; novo silêncio, seguido de gargalhadas e risos estranhos). Ele está no céu, está brincando de roda (grita e canta uma canção de criança: “esta rua, esta rua, tem um bosque/ que se chama, que chama, solidão/ dentro dele, dentro dele, mora um anjo… )Mas ele não fala? Não pode cantar? Coitado! Quem fez isso com ele?

Mãe (falando para Piedade, num tom de voz mais baixo)Ele parou de falar antes de morrer devido ao câncer. Ficou tão feio…

Elisa (chora novamente, dirigindo-se para sua mãe)Você não é minha mãe… minha mãe era rica, nova e bonita. Já vi o retrato dela. Eu tenho ele, guardo-o comigo… ela usa outra roupa, é mais esbelta…

MãeEla está sempre olhando o meu retrato de casamento, quando eu tinha 20 anos. Também, eu era tão diferente… o vestido era do tempo antigo.

ElisaMinha mãe deixou-me uma herança para distribui-la com os pobres. Essa é minha missão aqui na Terra. Fui escolhida por Cristo. Esta aí, que quer tomar tudo, é uma ladra (aponta para a mãe que chora). Odeio vocês que me prendem, tudo por causa do dinheiro. (puxa a mão presa à do pai tentando escapar dele, este a segura com mais firmeza).

Mãe (Virando-se para Piedade, que trouxe a água)Ela é bem educada. Agora ficou desse jeito. (Dá o copo d’água para Elisa, que toma um gole e joga o resto na cara mãe)

Pai (repreendendo-a, a tomar o copo já vazio)Merda, pare com isso. Tem hora que tenho vontade de meter a mão em você. Que sofrimento! Minha paciência está se esgotando. Estou cansado dessa luta. O que está acontecendo como você, minha filha? Seu pai gosta tanto de você…

Tira um lenço e enxuga a roupa da mãe da paciente. Piedade sai e volta com um pano para passar na mesa que ficou respingada.

Elisa (olhando com rancor para o pai)Você me pergunta? Cachorro! Cachorro! Vou te responder, não vou mais esconder esse segredo. O que acontecia com você, que me chama de filha, quando, sorrateiramente, sem fazer barulho, entrava no meu quarto à noite? Eu tinha seis anos, todos em casa dormiam. Ou fingiam dormir. Não é mamãe?

PaiPare! Já vem você com suas loucuras. Não vamos falar sobre isso. É sempre assim, durante seus ataques…

ElisaVocê gostava de mim? Vinha, sim, passar suas mãos sujas e ásperas na minha bunda, no escuro.

MãeCalma minha filha, quer mais água?

Elisa (sem se importar, continuando)Era um tormento; eu ficava horrorizada, tinha vontade de gritar, paralisada pelo medo, nada fazia. Esperava, rezando, desesperadamente, torcendo para o dia amanhecer, apreensiva com o que você ia fazer. Queria chorar, mas os soluços não saiam, queria protestar, mas, suas ameaças de castigo, amordaçavam-me.

Pai (gritando, enfurecido e envergonhado do que ouvia)Que isso, menina; não fale bobagem; tem gente de fora aqui. (Virando-se para Piedade e em voz mais baixa)Ela está louca; isso nunca aconteceu; é tudo imaginação dela… você compreende… ela só fala assim quando adoece. (Olha para a mãe de Elisa que abaixa o rosto e sai de perto, indo chorar num canto da sala; tira um lenço, passando-o nos olhos).

Elisa (caminhando, arrastando o pai junto dela através da sala, pára perto da mãe e esbraveja)Mamãe sabe disso. E, não foi só comigo. Foi com Eliete também sofreu nas suas mãos, (aponta para Piedade), com ela também; com todas as filhas. Somente Elzinha… ela, mesmo sendo a caçula, foi mais sabida ou mais corajosa; teve força para gritar. ( virando-se para sua mãe e dando um grito estridente)Sabe ou não? Não esconde não! Você também não presta, é uma vagabunda, safada, como ele. Deixou que tudo acontecesse. Lavou as mãos.

MãeCalma, minha filha, agora não é hora de discutir esses assuntos; estamos num consultório; depois em casa… conversaremos… com mais calma… você está nervosa.

ElisaNervosa? Tem medo! Até hoje? E eu, que só tinha seis anos. Acha que não ficava apavorada? (nesse momento Elisa interrompe seu discurso, solta-se do paimuda o semblantesobe na cadeira de Piedade, dali, pula por sobre a mesaolha, de cimia, para todos, encara sua mãe e retoma a fala)Agora; não precisa mais ter medo! Estamos no Tribunal de Justiça. Eu sou a juiz-vítima; ele, ( aponta para o pai com o dedo em riste) o réu. É tão ou mais culpada do que ele; propiciou o abuso para ficar se ver livre do sexo do marido, o que você mais detestava. Apoiou o dono do mundo, o poderoso, mandava em todos, era o prefeito da cidade.

Pai (virando-se para Piedade)Fui prefeito sim, nisso ela está certa – há muitos anos – nem me lembro mais dessa época. É terrível, todas as vezes é assim, despeja esses absurdos. (Pisca o olho para Piedade)

ElisaEu me lembro, tudo bem guardado aqui (mostra a cabeça. Como esquecer essas noites terríveis! Sim, carrego comigo, para sempre, essas cicatrizes… eu tinha… somente seis anos… foi uma covardia, fazer aquilo comigo. E quantas e quantas vezes o mesmo ritual. Durante o dia, era o homem sério, falava, com todos, que me amava muito, que era sua filha preferida.

Pai (desajeitado, tornando a piscar para Piedade e fazendo um gesto com um dos braços apontando para sua própria cabeça)Ela está doida; não repare não. Você já deve estar acostumada com isso… trabalha aqui há muito tempo?

Elisa (em voz alta, com muita raiva)Você sempre me ameaçava. Falava-me que se eu contasse para os outros, você me internaria num hospício como louca. Não sabia o que era hospício. Você me explicava que é o lugar onde são levados as pessoas esquisitas da cidade como: Titica Suja, Chico Doido, Maria Rodela e Diarréia.

PaiNunca tive essa conversa com você!

ElisaTudo igual! Como agora, a vida inteira você afirmou que era sua palavra, a do prefeito, contra a minha, a de uma criança boba. Quem iria acreditar em mim? Você era o prefeito, o rico fazendeiro. Agora, quem vai acreditar em mim? Sou a louca e você é o são. Não é assim?

Pai (usando, nesse momento, uma voz calma, lenta e bondosa)Minha filha, você está doente, descanse um pouco. Seu pai sempre quis te ajudar. Seu pai só quer o bem pra você…

Elisa (dando um grito, como descobrindo)Eureka! Era esse, era esse mesmo o tom de voz que usava todas as noites quando ia ao meu quarto. Agora você me despertou; o som da noite. Você falava desse jeito; aparentando bondade e calma. Essa sua voz não mais saiu dos meus ouvidos… nunca mais vou esquecer essa cena horripilante.

Pai (mudando o tom de voz, falando mais rápido e forte)Então, não posso lhe tratar bem? Você acha ruim tudo.

ElisaIsso é tratar bem? Falar macio para aproveitar-se de mim? Ia para minha cama apavorada, não conseguia dormir. O ritual se repetia, de tempos em tempos: você, com essa mesma voz que usou agora, baixa e calma tentava me amansar; voz safada, de conquistador, de canalha.

PaiSempre te tratei bem, sempre fui amoroso com você.

ElisaVocê chama isso de tratar bem? Durante o dia, aparentava bondade e seriedade, falava grosso e firme, era respeitado; durante a madrugada, o porco sujo, despudorado. Eu não entendia esses dois homens. Confundia-me, a mesma figura com dois tons de voz e com dois comportamentos. (pulando da mesa e tentando escapar pela porta de entrada. O pai corre em seu encalço e a segura pelos braços, puxando Elisa para dentro da sala )

Mãe (Virando-se para Piedade, caminhando para auxiliar o pai)Por favor, ajude-nos.

Elisa (continuando sua fala, mesmo presa pelas mãos dos três)Não entendia como o prefeito, o trabalhador, o marido e o homem respeitado por todos, o pregador de moralidade, o frequentador de igrejas, amigo do padre e do pastor, pudesse, durante a madrugada, ir ao meu quarto, pegar na minha bunda, fazer coisas esquisitas comigo, coisas proibidas, que não podiam ser feitas diante dos outros. Tinha vontade de morrer para escapar do sofrimento.

MãeEsqueça isso, minha filha,(soltando a filha e afastando-se um pouco)é doloroso para todos nós; eu talvez tenha culpa.

Elisa (gritando e espichando para agarrar sua mãe)Tem sim! Desejava morrer, mas não sabia como. Imaginava que só Deus tinha esse poder. Rezava para ele, pedindo-lhe que me levasse.

MãeVejo que pouco ou nada fiz para impedir o que ocorreu. Tínhamos os nossos problemas, por isso separei-me dele, mas, tarde demais…

ElisaSeparou-se só depois que tudo tinha acontecido! Hoje, mais de vinte anos depois, ainda ouço sua voz arrastada de bêbado, seus sussurros melódicos, falando para mim, as mesmas palavras grosseiras que saíam das bocas imundas e mal-cheirosas dos bêbados da cidade, as frases que eles falavam para as prostitutas.

MãeSente ali, descanse um pouco, (tentando levá-la até a poltrona) compreendo seu sofrimento, mas agora já passou, felizmente… isso não mais acontece.

ElisaComo passou? E minha cabeça! Jamais passará! Ainda sinto o seu hálito, cheirando à pinga, sua saliva morna caindo na minha cara, sua mão pesada e grossa, passando por todo o meu corpo.

Piedade, cabisbaixa, envergonhada com o que escutava, sai da sala, deixando a família a sós. Caminha até a sala do Dr. Otávio para apressá-lo devido a urgência do caso.

PaiElisa, cale essa boca! (mais à vontade com a saída de Piedade ele grita, largando sua postura de negociador e apertando-a, mais ainda)

MãeVocê está machucando minha filha. ( a mãe grita irritada, quando retorna Piedade, desajeitada, traz mais um copo d’água que é colocado sobre a mesa).

ElisaAh! (grita)Não calo! Agora, posso desabafar; é bom que tenha ela por perto, ouvindo-me (aponta para Piedade que caminha na sala). Meu amor, ajude-me. Preciso de você.

PaiPois continue; fale todas suas idiotices e loucuras… fique sabendo que estou cheio delas. (termina a frase gritando contraindo todos os músculos da face)

ElisaEu escrevo, nas páginas do meu diário, o que vai acontecer no mundo. Agora, tenho ganhei esse poder. Posso, basta querer, transformar vocês no que eu desejar, num sapo, numa barata ou num verme. É isso que você é, verme imundo! Deus, ajude-me. (Pára de falar um instante, tentando sair dos braços do pai; não consegue. Sua mãe se aproxima; novo silêncio)

MãeEu sou sua mãe e gosto muito de você.

ElisaMãe? Você nunca foi mãe! Você foi uma cafetina! Saia! Você o detestava, tinha nojo dele; ( aponta para o pai que vira o rosto) não o suportando, cuspiu-o (dá uma cuspida no chão) em cima de mim e de Eliete. Queria se ver livre dele, não teve escrúpulos, ofereceu-nos para o sacrifício. Conseguiu o que queria, através das filhas: escapar do que mais detestava, transar com esse bêbado fedorento.

Mãe (chorando)Não diga isso, minha filha; você me mata!

ElisaVocê, que diz ser minha mãe, preferiu ver as filhas deitarem com esse canalha, (aponta) do que com você. Você nunca nos amou! Odiou-nos, isso sim!

MãeEssas lembranças são dolorosas, eu sei, mas já passaram. Esqueça isso, eu te peço, estou separada dele há anos.

Elisa As recordações passaram para você. Elas estão continuadamente na minha cabeça. A senhora sabia… fingia que não sabia… . além disso, nessa época, ele ainda era seu marido.

PaiNão quero mais discutir disso. Cale sua boca, sua mãe está sofrendo!

ElisaEla que sofra! Fique sabendo que na escola, após a aula de Psicopatologia, consegui uma conversa reservada com o professor. Contei-lhe tudo o que aconteceu comigo.

PaiO quê? Você falou para estranhos isso? Idiota! Ninguém tem nada com nossa vida particular. Além disso, você estraga a vida pública de seu pai. Sou político, hoje sou candidato a deputado. Como ficarei diante das pessoas? Todos têm admiração por mim; respeito pela minha integridade e honradez. Você é louca mesmo. Esse professor pode contar para outros essa mentira, um fato sem importância. Você mesma vai ficar mal perante ele. Ah, como tá tudo dando errado, as coisas vão piorando.

ElisaHonrado? Honesto? Coisa sem importância? Sua marca ficou na minha memória, não sai de forma alguma. Não consigo me aproximar de nenhum homem. Tenho medo de todos eles. Sinto mal, basta encostar uma ponta de dedo neles… para emergir tudo na minha consciência… me vem um impulso medonho, fujo… é uma cicatriz que nunca desaparecerá!

PaiVocê está pensando em seu namorado, o engenheiro, mas ele estava doente, deformado.

ElisaAconteceu com todos, com ele também… no instante do contato, vejo a sua figura embaçada, sua voz, baixa e imunda. Jamais ficarei livre da sua lavagem cerebral. Jamais abraçarei homem algum, por mais carinhoso e bondoso que seja, sem ver nele sua imagem. Lembro sempre do homem que disse ser meu pai.

MãeVamos orar, Deus vai nos ajudar… (pegando gentilmente em seus braços)

ElisaLargue-me! (tirando as mãos dela, gritando com rancor)Tire essas patas de cima de mim! Vocês são culpados. Você, papai, é um monstro. Incestuoso! Solta-me, sujo; tire, essas mãos detestáveis de mim, mãos que gostaria que apodrecessem… imoral, crápula. Mata-me; assim paro de pensar no que você me fez. Para que vocês me puseram no mundo? Para me usar?

MãeCalma filha, escute a música, ela tranquiliza…

Elisa (parando de falar por instantes escuta o som)A vida inteira tive medo de ser vista como louca, caso falasse a verdade. Fingi e fingi, isso foi o que fiz sempre!

PiedadeEla está sofrendo muito. Vou avisar ao doutor… talvez ele possa atendê-la mais depressa. (sai da sala, mais uma vez, assim fica livre da cena detestável)

ElisaEssa ferida transformou meu comportamento. Receosa de ser percebida, em virtude do sinal que julgava trazer estampado na testa, fugi de todos. Eu.., eu mesma, me estigmatizei, imaginai ser a pior pessoa. Passei a ter cuidados exagerados nas minhas relações com os outros, bem como com o que ia dizer. Suspeitava de todos, supunha que as pessoas sabiam, mas nada diziam, o que tinha acontecido comigo… todos, na minha mente, me avaliavam negativamente, me discriminavam e rejeitavam.

Piedade (entra novamente Piedade, com medo e curiosa)O doutor vai atendê-la daqui a instantes … felizmente.

ElisaA palavra certa sempre foi a sua. Quem era eu? Uma criança indefesa de seis anos, impotente, fraca, submissa. Talvez tenha enlouquecido, não era para menos. Forçando muito, cheguei, algumas vezes, a imaginar que não houve nada. Como gostaria que isso fosse verdade… teria sido melhor, muito melhor. Mas eu sei, mais do que ninguém, que não foi mentira. É desesperador, não poder fazer nada, nada mesmo.

PaiPare! Basta! Eu fiz tudo que podia para ajudá-la. O que você deu em troca? Nada. Apenas muito trabalho, muita amolação. Quando terminou seu curso de Psicologia esperei alguma mudança, mas piorou, ficou mais doida ainda; começou a inventar coisas como essas baboseiras mentirosas e sem sentido.

ElisaVocê sempre foi duplo. Como agora, está representando para ela sua outra face, o outro lado do político, a canalhice em pessoa.

PaiSempre fui um homem sério e todo mundo sabe disso. Somente você duvida de mim. Honorina sabe que eu sempre a respeitei, assim como as minhas filhas; sou um homem voltado para família, um verdadeiro cristão.

MãeChega! Não queria entrar nessa conversa mas não aguento mais! Você nunca prestou, Altamiro. Você me enche com essa auto-proganda. Vou lembrá-lo, já que esqueceu. Tivemos que mandar embora lá de casa a cozinheira, Deusmira. Eu sei pela sua cara de cínico, que não se esqueceu.

PaiVocê enlouqueceu, também. Nossa senhora! O quê vim fazer aqui?

MãeEu, feito boba, ajudei-opara não piorar a situaçãoa procurar uma clínica de aborto! Você transou com ela, dentro de minha casa. O caso só veio à tona porque ela ficou grávida.

PaiPeço-lhe, por favor, pela alma de sua mãe, para não continuar essa dolorosa conversa.

MãeNão coloque minha mãe no meio. Falo o quero. Você parou de mandar em mim, há muito. E quem era ela? Uma boba, que você conseguiu enganar, prometendo me largar para morar com ela na fazenda. Aproveitou-se de uma mulher já feita, filha de Maria, frequentadora de igreja. Ela me disse que você a forçou a ir para cama. E em qual dia?

Pai (assustado)Ela lhe contou? Como? É uma mentirosa!

MãeVocê a procurou quando estávamos no velório de minha mãe. Saiu dizendo que ia em casa dar uma descansada. Aproveitou essa hora, quando não havia ninguém em casa, para embriagar Deusmira.

PaiEu nunca fui de conversar com cozinheiras. Não converso com essa gente.

MãePara fazer o que você fez não necessitava conversa. Deu-lhe um licor para “aliviar a dor que ela sentia” pela morte. As duas eram muito amigas. Depois, uma batida de limão e pronto. Ela me contou como aconteceu, na nossa imaculada cama de casal, no meu quarto! Voltou ao velório, às cinco da manhã, como se nada tivesse acontecido.

PaiNada! Uma mentirada. Tudo invenção dela, já lhe disse. Nunca tive nada com Deusmira. Ajudei-a, sim, a fazer o aborto, por convicção social. Acho que uma pessoa como ela não podia ter um filho, não tem capacidade para isso.

MãeMas tinha competência para decidir se devia ter ou não transar com você. Prefiro até não voltar a esse assunto, que me provoca náuseas. Você e sua família nunca prestaram. Só têm fachada, parecem pertencer a família imperial.

Pai (altamente perturbado)Você Honorina, só sabe reclamar, de tudo. Nunca fez nada na vida. Poderia, ao menos, evitar falar acerca de minha família. A sua, não é flor que se cheire, tem de tudo.

MãeEstou livre de você. Falo o que desejar. Jamais esquecerei nosso namoro. Sua família, puritanos para mostrar aos outros. Você se lembra de quando namorávamos e fiquei grávida? Naquela época, seus princípios ideológicos e religiosos, opostos aos atuais, não permitiam o aborto. Quem mandava era sua mãe que era contra relações sexuais antes do casamento e, muito menos, ter filhos sem se casar.

PaiJá vem você com esse detestável assunto antigo, que você já repetiu mil vezes. Chega!

MãeNão chega não! Nossa filha não sabe…

PaiMas não é hora de falar com nossa filha sobre isso! Idiota!

MãeEstou com raiva, isso me dá força. Preciso desabafar. Não podíamos ter o filho sem casarmos, mas ele foi gerado, Deus sabe como. Assim, tivemos que esconder a gravidez até casarmos às pressas. Sua mãe, a terrível moralista, que nunca fez nada errado na vida. Não é? Exceto ter por amante o padre da cidade, como todos diziam.

PaiNão ponha minha mãe nessa calúnia. Não admito; ela já morreu e não pode mais se defender.

MãeOh, uma santa… coitada… .Tivemos que nos casar rápido, com dois meses de gravidez. Usei uma cinta para apertar a barriga para dar a impressão que não estava grávida e continuei a usá-la para ela pensar que a gravidez tinha menos tempo. Como sempre, segui sua família. Sinto mal em pensar como agradei aquela desgraçada.

PaiVamos parar. Não use essa palavra contra minha mãe. Estamos num consultório, Elisa não está bem. Pense um pouco, pelo menos agora, uma vez na vida. Esta conversa deveria ficar para outro momento. Por favor…

MãeAgora você está mais manso; talvez, mais velho e fraco, em todos os sentidos; não é mais homem.

PaiPare! (grita, apertando o tórax, ao sentir uma pontada e apertando a mão contra o peito)

MãeEu já te obedeci bem como fiz com sua mãe. Hoje, não; já nos separamos há muito; não mais tenho medo de seus fingimentos. Infelizmente, devido aos problemas de Elisa, estamos aqui juntos novamente. Mas rezo para não te ver, para ficar longe de você. Falo o que quiser e cale a boca, você, seu cafajeste, vestido de homem. Gravata e profissão não bastam para transformar um porco num homem.

PaiDesabafe! Você sempre precisou desabafar. Grite! Grite bem alto! (contrai o rosto de dor, aperta o tórax)O que mais fez na vida? Gritar, para que todos possam ouvir … desabafe, é o que sabe fazer. Durante toda a vida, você reclamou de tudo e de todos. Não fez, e não faz nada, reclama; faça o que você aprendeu. Sempre manipulou as pessoas, xingando e criticando. A culpa é sempre dos outros. Você nunca errou, é uma santa.

MãeÉ melhor não fazer nada do que fazer o que você fez. Não desvie meu pensamento… hoje, contarei essa história que me engasga, até o fim. Fomos obrigados a fingir para sua mãe que íamos ter a filha nove meses depois do casamento. Entretanto, apesar das rezas, Deus não ajudou e a nossa filha nasceu sete meses após o casamento, com os nove meses usuais.

PaiEu não tive culpa; você concordou com tudo o que ocorreu.

MãeEra uma boba. Lembra-se da palhaçada e da tragédia arranjada pelo seu irmão padre? Que Deus o guarde; pagou seus pecados, morrendo de AIDS.

PaiContinua, idiota; fale; conte tudo; invente o que quiser. Chame o médico para aumentar a platéia. Você gosta disso! (nova pontada no peito)

MãeNão me interrompa. Tivemos que ir para o hospital e lá, nossa primeira filha nasceu. O que devia ser uma alegria e comemoração tornou-se um pesadelo. O pior de minha vida.

PaiMeu irmão opinou porque nós pedimos seu conselho. Sei que ele também sofreu com a decisão.

MãeFoi um irresponsável. Sua preocupação única foi a de esconder a relação que tivemos antes do casamento, não ferir os desejos e princípios infantis de sua mãe.

ElisaMãe, não estou entendendo, a senhora teve uma outra filha?

MãeEspere, vou contar tudo. Não sabíamos como levar para casa nossa filha, nascida com “sete” meses e apresentando todas as características de uma menina normal com nove meses… pesou dois quilos e oitocentos gramas. Que pecado mortal!

PaiFomos educados assim, era difícil ir contra as idéias dela. Ela dominava a todos; isso eu concordo.

MãeSeu irmão não admitia esse sofrimento de sua amada mãe e teve a belíssima idéia de doá-la.

PaiNão quero lembrar-me disso; sei que foi um erro meu, ter concordado com ele. Eu sofro com isso.

MãeSofre nada. Se sofresse, teria evitado que a perdêssemos.

ElisaA senhora deixou, mamãe? Também não presta!

MãeEra preferível ela ter nascido morta. O santo da família nos forçou a entregá-la para uma família desconhecida. Era muito penoso para sua avó saber que não me casei virgem e que ao me casar estava grávida de dois meses. Arrumou um casal, sem que nós tivéssemos notícias de quem era, e fez a doação de nossa filha com nossa assinatura.

ElisaE onde ela está agora? Mora aqui? Vocês tem notícias? Está viva?

MãeNunca mais descobrimos seu paradeiro. Seu tio disse que ele também não sabia com quem ela ia ficar… que quem resolveu tudo foi o obstetra, através de uma instituição. Disse-nos, quando arrependemos, que ninguém fica sabendo quem são os pais adotivos.

ElisaMãe! (abraçando-a e chorando nos seus ombros) Isso é terrível; quer dizer que temos uma outra irmã, que não sabemos onde está, como vive e nem como se chama? Como a senhora deixou? A filha era sua! Miserável! (afastando-se, abruptamente da mãe, Elisa dá-lhe um tapa na rosto, o pai a segura quando ela começa tenta enforcá-la, a mãe cai no assoalho desajeitadamente e o pai contrai-se de dor)

Mãe (levantando-se com ajuda de Piedade e afastando-se da filha. O pai segura Elisa)A família dele mandava em mim como sempre mandou, até hoje. Mesmo depois de separada ainda todos dão palpites no que devo fazer. Voltei para casa, chorando, inventando que tivera um aborto e que a menina nasceu morta fora do tempo.

PaiVocê precisa de dramas para viver e esse foi bem recebido. Seu sofrimento é superficial, muito mais para mostrar do que internamente. Nunca percebi um sofrimento autêntico em você, sua missão neste mundo é colocar a culpa nos outros.

MãeAssim, fiquei por vários meses. Nunca sofri tanto. Emagreci dez quilos. Morávamos com a mãe dele. Ela, parece até que gostou, para ficar junto do filho querido e não ter outros concorrentes.

PaiEla gostava muito de você; não pode negar. Ela lhe ajudava a viver, coisa que jamais aprendeu. Você sempre falou em abrir uma casa comercial e voltar a estudaraprender inglês ou qualquer outro modismo. Nunca fez uma coisa ou outra, nunca saiu do lugar; não passava da matrícula. Jamais completou nada. É um fracasso. Se não fosse os fatos que deram errados não tinha onde se apoiar para explicar sua incompetência e parasitismo. Sempre precisou de fatos ruins e negativos para viver, para justificar e explicar sua incapacidade; por isso você os procura.

Mãe (Chorando)Você está me ofendendo. Sempre tive dificuldades na vida. Meus pais não me educaram adequadamente; casei nova e sem experiência. Obedeci sempre, primeiros meus pais, depois, sua mãe, em tudo. Até as iguarias, as empregadas e os nomes dos filhos foi ela quem determinou. Ela só não decidiu sua morte; sofreu com sua diabetes. Teve que amputar uma perna; mais tarde, a outra; ficou cega e depois, para felicidade dela, esclerosada e passou a não perceber mais nada. Urinava e defecava nas roupas. Sabe quem cuidava dela? Eu; ainda tive dó dessa mulher que nos obrigou a doar nossa filha!

PaiObrigou? Que poder ela possuía? Continua culpando. É fácil acusar os outros e escapar da própria participação na história. Nunca você foi responsável por nada. Deixou as soluções dos problemas para os outros; depois do fato consumado, culpa-os e torna-se a vítima. Foi sempre assim, seu padrão “ninguém foge ao seu destino”; “quem nasceu para dez reis não chegará a tostão”.

A família, tendo Elisa no centro, rodeada de um lado por seu pai, que geme de dor e, de outro, por sua mãe que choraminga, entra no consultório. Há um silêncio profundo que permanece até eles desaparecerem na sala do psiquiatra. Piedade acompanha o grupo, fechando a porta com delicadeza. Suspira fundo e liberta seus pensamentos. Uma vez não mais presos à prisão das conversas, eles, desimpedidos, começam a flutuar pelo espaço, para o infinito claro. Enquanto isso Piedade vai de um lado a outro na sala de espera, agora sem ninguém, fingindo limpá-la, preparando-a para o dia seguinte. Vagueando, canta, baixinho, a canção triste, como aquele fim de tarde, ouvida e decorada das procissões simples de sua querida Córrego das Lages:

“Com minha mãe estarei,

Na Santa Glória um dia

Junto a Virgem Maria.

No céu triunfarei

No céu, no céu,

Com minha mãe estarei… ”

FIM

Um comentário para “Terceiro Ato”

  1. EXCELENTE ESTAS PULICAÇÕES ESTÃO ÓTIMAS.

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