Segundo Ato

Chega à sala de espera, ligeiramente embriagado, o cliente, Jaime Caiado. Bem vestido, com um terno cinza, bem talhado, usa uma gravata vermelha com desenhos e um óculos escuros. Piedade, cantarolando uma canção de sua terra, limpa, com um espanador, as cadeiras e mesa.

Jaime (animado, desinibido, com a voz ligeiramente enrolada)Como está, Piedade? Alegre ou triste? Nunca te vi cantando. Estou no horário? (estendendo a mão para ela e olhando, com cupidez, para seu corpo)

Piedade (envergonhada ao perceber o olhar e imaginando que será cantada, como sempre, pelo cliente embriagado)Bem e o senhor? Dr. Otávio teve que ver um caso urgente no hospital e atrasou um pouquinho, mas a cliente que está lá dentro não deve demorar.

Jaime (satisfeito por ter que esperar)Estou sem pressa… cheguei cedo… bem, nem tanto… (olhando o relógio)Piedade, você está cada vez mais bonita (torna a olhar para o seu bum-bum). Já arrumou um namorado?

PiedadeAinda não (aborrecida com a conversa e os olhares de sempre). Não quer ler uma revista? A música está boa? Tá difícil arrumar um namorado.

JaimeNada! Para você basta querer, o que não falta é homem (levanta a voz). Tem até de mais. É uma bela música. (aos poucos vai ficando mais tranquilo; tenta mais uma aproximação com Piedade; esta, evita olhá-lo).Gosto de vir aqui. Estou em boa companhia. ( nova investida sem resposta). É um lugar bom para trabalhar… Dr. Otávio parece ser um bom patrão (insinuando a possibilidade algo entre os ela e o doutor). Você gosta muito dele, não é?

Piedade (amolada com as palavras)Sim, é um bom lugar; ah… não sei bem se é bom.

JaimeComo? Você está sempre de cara boa; parece sem problemas.

PiedadeSim, felizmente… (secamente e mudando a voz, tenta encerrar à conversa)

Jaime (continuando sua conquista; orgulhoso, elevando a voz)Eu tenho muitos problemas; ocupo um cargo de chefia no Banco do Brasil. (tossindo, para limpar a garganta seca e com uma voz ligeiramente enrolada)É… (suspirando e buscando um apoio para o que iria dizer em seguida)Sou um homem infeliz; bebo muito. É por isso que estou aqui, bem… não só por isso.

PiedadeJá tinha notado.

JaimeVocê é boa observadora.

PiedadeSim, sou. Meu pai bebia… bebe muito. Tenho horror ao álcool. Sofri muito e ainda sofro com o que assisti, brigas, gritarias, internações…

JaimeMas eu nunca fui internado; bebo sem ficar bêbado.

PiedadeTodos falam isso…

JaimeNunca caí nas ruas; o máximo que faço é conversar demais ou cantar, quando bebo, sou boêmio, desde rapaz. Fico alegre depois de uns tragos, me torno galanteador,… acho que tenho que conquistar todas as mulheres que encontro.

PiedadeEstá resfriado, doutor?

JaimeNão, nada. Estou é num beco sem saída. Venho aqui há muito tempo; você conhece alguns de meus problemas; eles são muitos… tem um pior do que os outros.

PiedadeMas todo mundo tem… até eu.

JaimeÉ… tem razão. A gente pensa que os nossos são piores. Sou casado há mais de vinte anos. Você conhece Clara, ela veio aqui comigo algumas vezes… sempre acompanhada de uma amiga.

PiedadeÉ … eu me lembro da amiga de Clara; uma mulher grande, meio esquisita, até olhou para mim, como os homens olham.

JaimeExato; quase todas as amigas de Clara são assim. Ela sai para dançar quase todas as noites. Outro dia resolvi ir ver onde era.

PiedadeNunca vi mulher sair à noite sem o marido! Desculpe-me … eu não tenho nada com isso.

JaimePode falar; não me importo com mais nada. Cheguei lá; uma espelunca, perto do mercado… subi por uma escada suja e estreita, tinha até mau cheiro. No alto tem um salão e, aí o espanto… só vi mulheres nas mesas. Umas dançando com as outras.

PiedadeHoje em dia tá tudo normal. E se ela estivesse dançando com um homem. Como se sentiria?

JaimeNão sei. Talvez fosse menos ruim; seria mais esperado. Quando ela me viu ficou trêmula. Lá tinha homem também, mas para servir às mesas, o porteiro… Entende? Fiquei pouco tempo e retornei à minha casa sem ela. Não dormi naquela noite.

PiedadeÉ estranho; estando casada com você há anos.

JaimeEla só chegou às três horas. Estava acordado. Entrou sem fazer barulho mas notei que foi direto ao banheiro. Lá, guardou alguma coisa na gaveta. De manhã fui ver o que era… convites diversos para bailes… todos onde as lésbicas se encontram.

PiedadeVocê não sabia?

JaimeJá desconfiava… mas ela é boa mãe… os filhos gostam dela; ela gasta muito…

PiedadeAcho que vocês não vão se separar…

JaimeUm dia cheguei em casa de surpresa e a flagrei abraçada à cozinheira,… uma moça criada em nossa casa… é minha prima. A sala estava escura… um lençol de casal cobria as pernas das duas.

PiedadeUm cliente veio contou-me que seu filho, um caminhoneiro, apaixonou-se por um cabeleireiro. No início, ele brigou com o filho. Hoje, anos depois, os dois, já casados, vivem muito bem, o pai os visita sempre.

JaimeTive o desprazer de vê-la sendo massageada pela prima, descaradamente, com o quarto aberto, na nossa cama. Não sei o quê fazer?

PiedadeNão sei aconselhar ninguém, nem a mim mesma.

Jaime (sem ouvir, precisando desabafar)Já fui aconselhado por muitos; até pelo padre. Cada um fala uma coisa…

PiedadeAqui muitos me contam problemas. Fico, a cada dia, mais confusa. As idéias dos clientes entram na minha cabeça e afastam as minhas… não sei o quê fazer…

JaimeEu noto que, de certo modo, estou preso às amigas de Clara; fico dependendo da vontade de quem não conheço e pior, não gosto.

PiedadeNessa confusão, onde tudo vale, começo a aceitar e a concordar com todas as opiniões… ou com nenhuma, nem isso mais eu sei… enquanto sua mulher tem um objetivo certo, eu só tenho incertezas. Não sei mais escolher.

JaimeEnlouqueceu de vez!

PiedadeExato! Perdi meu antigo rumo, meu ponto de apoio; não consegui arrumar outro. A casa está em ruínas, para piorar, não tenho uma planta para me orientar; não sei se ergo, nos fundos, a parede do quarto de dormir ou a privada. Enfim, não sei como agir diante de situações que antes eram fáceis de decidir.

Jaime (ironizando, rindo)Vou voltar a orar para Deus te orientar…

PiedadeNão brinque com isso. Estou falando sério. Para me aliviar e fugir desse desespero passei a agir como uma cliente que aqui vem; aprisionei-me, passei a prestar atenção, às pequenas coisas, assim esqueço as grandes.

JaimeNós todos fazemos isso. Para que servem as diversões? Para fugirmos dos aborrecimentos, da realidade insuportável.

PiedadeMas, no meu caso, é uma obsessão: ao chegar em casa, cansada das idéias confusas e opostas que invadiram meu cérebro, deito-me. No meu quartinho, fico horas, parada, olhando uma figura ou, sei lá, um desenho maravilhoso… uma imagem que apareceu no teto.

JaimeO quê está acontecendo com você?

PiedadeNada, nada mesmo! É verdade. Não sei bem se quando aluguei o quarto a figura já existia. Só, há alguns meses, recebi essa revelação. Sinto uma coisa por dentro… incrível; acho que ela nasceu para mim… ora se parece com uma pomba ou cruz, ora com um homem de barba e de olhar terno, cativante.

JaimeVocê está com umas idéias esquisitas!

PiedadeEsquisitas? Essa figura é minha salvação, fico hipnotizada por ela. Divago pensando no nascimento daquela mensagem tão doce…

JaimePensando bem pode ser interessante…

PiedadeImagino seu construtor; se foi fabricada ao acaso ou por desejo de alguém; qual foi seu objetivo, há quanto tempo está ali. Extasiada imagino o que sentiria caso ela fosse diferente: se possuísse outras cores, outras formas.

JaimeVocê está apaixonada por este sujo?

PiedadeVocê chamou minha imagem de “sujo”; está zombando de mim. Para mim, na falta de coisa melhor, é a maior preciosidade que já tive.

JaimeDesculpe-me; não sabia que tinha tanta paixão ou adoração por um suj… Como vou chamá-lo?

PiedadeO nome não importa. Diante dela meu coração bate mais forte, minha respiração acelera. Ao olhar para cima e vê-la, sinto uma felicidade indescritível.

JaimeÉ como se fosse um namorado?

PiedadeChame-o do nome que quiser, já lhe disse. É muito mais do que tudo isso. Essa escultura, forma, desenho ou sei lá o quê, representa para mim diversas coisas; todos os mistérios agradáveis desse mundo. Devoto, parte de minha vida, a esse vulto, sem sua presença eu não seria o que sou. Essa imagem me salvou, somente nela encontro a paz desejada.

JaimeSalvou? (admirado)Estranho! De qualquer forma, se ajuda, tudo bem.

PiedadeSe ela não tivesse aparecido, eu já teria enlouquecido. Sinto culpa quando, ocasionalmente, por cansaço ou sono, dispenso pouco tempo para adorá-la e conversarmos.

JaimeEla aceita?

PiedadeAceita qualquer conversa. Nos fins de semana, nosso encontro é mais demorado e profundo pois posso dedicar mais tempo à ela. Espero, ansiosa, o fim de semana…

JaimeEu, nos fins de semana, passo o dia com minha mulher, ou melhor, passava. Quase sempre, como pouco temos em comum, ela fica louca para se ver livre de mim.

PiedadeEu, não; o vulto é o amigo que tenho. Morro de medo de ele sumir um dia, ir embora, não mais me querer.

JaimeAs manchas que aparecem nas paredes de minha casa nunca me deram prazer, ao contrário, incomodaram-me.

PiedadeDeus me livre! Essa figura, fonte de devoção e orientação, fortalece-me; inspira-me pensamentos e pressentimentos nobres, sublimes. Ela me permite tolerar às desgraças, às dúvidas e aos desesperos de todo dia.

JaimeComeço a te invejar; gostaria de ter uma ligação dessa natureza… que sirva de proteção.

PiedadeEla é o caminho para o bem, afasta-me do mal diante das seduções maléficas; é o fundamento de tudo; a paz para esse inferno no qual vivo. Bendita seja a hora em que ela nasceu, bem-aventurada seja a mão que a construiu.

JaimeSempre tem o dedo de Deus no meio de tudo isso. Um coisa que não compreendemos.

PiedadeSem sua presença iria me destruir, acharia tudo normal, seria atraída por qualquer coisa; transar com o primeiro que aparecer, ir para cama com uma mulher, fazer até o que dá nojo; nada seria proibido…

JaimeCada um tenta escapar dos azares à sua maneira; cada um tempera sua comida do seu jeito…

PiedadeAs conversas ouvidas no consultório me confundiram; as orações ou súplicas, que tenho tido no meu templo, tem me confortado, me fizeram reconquistar a tranquilidade perdida.

Jaime – Isso é bom…

PiedadeAs minhas meditações solitárias, me lembram a harmonia, a calma de Córrego da Lage. Num e noutro lugar, tudo é paz. Todos sabiam sempre o quê fazer pois tudo estava escrito, ordenado e estabelecido pela sábia lei; todos viviam felizes ao seguir os preceitos sagrados imutáveis pregados pela irmandade. Os que discordavam eram internados no Hospital Raul Soares como loucos; uns poucos, aprisionados na cadeia local. Era a ordem do lugar; isso nos acalentava.

JaimeQue horror! É… todos sabiam o que tinha que fazer e como deveriam pensar…

PiedadeSim! É uma forma de viver com limites claros. (pensativa, olhando para fora do consultório)Que saudade tenho das idéias simples de minha cidadezinha.., bem diferentes dessas daqui.

Jaime( continuando suas especulações)Todos lutam para evitar obstáculos ( dá uma longa pausa, e continua):existem muitas maneiras de escaparmos.

PiedadeLá era melhor! Aqui, se perder minha proteção, ficarei louca. Vejo que arrumei o emprego errado. Devia ter ficado lá, onde todos pensam iguais; onde não existem dúvidas. Aqui tudo é verdade e, ao mesmo tempo, tudo é mentira.

JaimeQuer sair daqui? Vou tentar arrumar um lugar para você. Sabe datilografia? (Entusiasmado com a oportunidade da aproximação)

PiedadeNão é bem isso. Não sei mais se quero sair daqui; tomei um amor – um ódio também – não devia ter falado assim – por tudo que aprendi nessa cidade. A gente fica mais sabida, mais bem informada. Será? Não sei mais quem eu sou. Está vendo?

JaimeSe voltar estará fulminada, jamais será feliz… se eu continuar com Clara estarei acabado, se terminar, perdido… é muito triste pensar nisso: minha mulher deitada com outras… há uma saída: morrer…

PiedadeCruz credo! Você está pensando em se suicidar?

JaimeSim, já pensei, muitas vezes. Por que não? Minha mulher transando com outras. É terrível, engolir o que mais tinha vontade de vomitar. Morrendo, fico livre de tudo.

PiedadeMas perde o que te atrai, o que é bom.

JaimeMas não sofro, pois não tenho consciência de que perdi.

PiedadeAs coisas ruins passam… é, mas, pensando bem, as boas também…

JaimeEstou sem saber o que fazer. Viver ou não com Clara? Viver ou morrer? Tudo é possível; esse é o problema. Haverá uma outra vida? Haverá outra saída?

PiedadeNinguém jamais saberá…

Nesse momento, um silêncio invade a sala por segundos. Piedade tensa, anda, de um lado ao outro, pensativaolha para o alto como se estivesse procurando algo. Jaime, parece longe, imaginando uma saída no labirinto onde foi encarcerado.

Heloísa sai da sala do Dr. Otávio. Trata-se de uma velhinha magra e agitada, traz na mão uma receita. Piedade se sente aliviada. Está exausta e aborrecida com a conversa. Antes de verificar com Dr. Otávio se pode mandar Dr. Jaime entrar, Piedade avisa a D. Heloísa que o motorista que veio trazê-la deu uma saída rápida e que ela deverá esperá-lo por momentos. Oferece-lhe uma cadeira e ajuda-a a sentar-se. Ao aproximar-se da cadeira, D. Heloísa olha espantada para o bancário cabisbaixo e levemente embriagado. Ela, em lugar de se assentar para esperar, caminha em sua direção, olha-o fixamente, dirigindo-se a ele, quase gritando:

HeloísaÉ você Alcides? Como vai, meu tio querido?

Jaime (Levantando a cabeça, perplexo e irritado com a intimidade)Não senhora; meu nome é Jaime, Jaime Caiado de Almeida.

HeloísaMentiroso. Sempre brincando, hein? Sou Heloísa, filha de Álvaro, seu tio, irmão de seu pai.

JaimeO quê?

HeloísaOra, não me reconhece. Quantas e quantas vezes já nos encontramos, principalmente lá em Itapecerica; acho que você foi até no meu casamento?

JaimeEstá enganada minha senhora. Nem conheço Itapecerica. (mais Irritado ainda). Não tive o desprazer de ir ao seu casamento. Quando você se casou?

HeloísaEm 1911; você se lembra muito bem; você é mais velho do que eu.

JaimeVocê se casou em 1911. (duvidando da idade da paciente). Quando a senhora nasceu? Em que ano?

HeloísaNasci em 1917, lá em Itapecerica?

Jaime1917? Ah, ah! que dizer que a senhora se casou antes de nascer.

HeloísaComo? Está debochando de mim? Pensa que sou doida? O que faz aqui? Veio passear?

JaimeA senhora não sabe o que diz. Está trocando as datas. Não pode ser tão velha para ter se casado em 1911 e, perdoa-me, minha cara amiga, eu não sou seu parente. Já lhe disse!

HeloísaTem vergonha de ser meu parente? Não está tão novo assim… cheio de olheiras, a pele do rosto caindo, a maioria dos cabelos brancos. Está um trapo. Como vai Teresa?

JaimeQue Teresa?

HeloísaOra, sua mulher! Ou você se casou de novo? É… faz tempo que não encontro com vocês… mas também, nunca viveram bem…

JaimeContinuo com a mesma esposa; com Clara; vivemos muito bem.

HeloísaSempre tive dó dela por ter se casado com você… tudo por causa do dinheiro que esperava herdar. Coitada, deu tudo errado… seu pai perdeu tudo no jogo de baralho e com a queda do preço do café.

JaimeMeu pai nunca foi fazendeiro e nem jogava baralho.

HeloísaBem feito! Ela também se casou outra vez? Ou já morreu? (aproximando perto de seu ouvido, falando um segredo)Ouvi dizer que sua filha fugiu de casacom uma amiga… É verdade?

JaimeMinha senhora, já tenho problemas demais. Respeito-a muito mas peço-lhe que não me amole, não há nada disso.

HeloísaNão entendi… ando meio confusa…

JaimeNão a conheço, não sou seu tio, nunca fui à sua casa, minha filha mora comigo. Está tudo errado! Entendeu agora!

HeloísaEssas coisas acontecem; não precisa ter vergonha. A única pessoa que está escutando nossa conversa é Oféliaela trabalha comigo há mais de cinco anos. (aponta para Piedade que já voltou da sala do Dr. Otávio)além disso ela é meio burrinha, não entende nada.

JaimeQuem é ela? (apontando para Piedade)Ah… a senhora sabe o nome do médico que a senhora consultou ?

HeloísaOra essa! Esta é Ofélia, ela trabalha na minha casa, é minha ajudante… agora lembrei-me, o nome do médico é Dr. Zeferino. Por sinal, um ótimo médico de coração.

JaimeMédico de coração? Ah… Ah… (dando boas gargalhadas e relaxando-se)

HeloísaEle trata da minha pressão há tempos… ela está alta. Também, com essa vida… atualmente todos os velhos, como nós, têm pressão alta, você também deve ter…

Jaime (continuando a rir, debochando desrespeitosamente)Ah, Ah, Ah, Não falei? Ele é psiquiatra, médico de cabeça e o nome dela é Piedade; não é sua empregada. Não trata de pressão alta… minha pressão é boa. Ouviu?

Heloísa (confusa)Não precisa de gritar. (assustada)Ela então me largou? Não trabalha mais comigo?

Jaime (já preocupado com a cliente)A senhora veio aqui sozinha… sem acompanhante… é casada?

Heloísa (chorando copiosamente)Meu marido morreu. Ele era tão bom. Mataram-no de tanto que o maltrataram. Ele teve um enfarte.

JaimeÉ uma causa de morte frequente…

HeloísaEra forte ainda; bem mais novo do que você… faz dez anos, não, vinte. Não sei bem as datas; minha cabeça anda tão ruim! Também, o que importam as datas nessa nossa idade?

JaimeAgora é que importam; para os mais velhos, o tempo passa mais rápido.

HeloísaMeus filhos me abandonaram. Ninguém mora comigo. (alegremente, dirigindo-se para Jaime)Por que você, que também mora só, não vem morar comigo?

Jaime (espantado) Eu?

HeloísaEm minha casa cabe nós dois: eu e você, Ofélia é uma boa ajudante. (aponta novamente para Piedade)

JaimeQuem lhe falou que moro sozinho? Moro com minha mulher e filhos.

HeloísaNão faz mal. Eles podem vir também. A casa é grande, tem lugar para todos.

Jaime (nervoso, sem saber o que falar)É … tenho minha casa, não preciso de ajuda de ninguém, que chatura…

HeloísaNão fique zangado. Posso ajudá-lo, ainda mais sendo parente. Meu filho mais velho, Eduardo, tem muito dinheiro, pôs até um motorista para mim.

JaimeTem filhos, então?

HeloísaClaro que tenho… escute aqui, (chegando, outra vez, bem perto do ouvido de Jaime), não servem para nada. Eduardo, com essa gentileza, fugiu das obrigações…

JaimeOs filhos são bons…

HeloísaAgora não precisa mais me visitar. A mulher dele é que, às vezes, me telefona.

JaimeDeviam ajudá-la… é difícil para senhora fazer o que necessita…

HeloísaSe não fosse uma vizinha, eu já teria morrido… caí no banheiro.

JaimeMachucou-se?

HeloísaEra um fim de semana, dia da folga dela, (aponta para Piedade); ela também não ajuda nada. Agora, até do banho tenho medo. Foi tão difícil!

JaimeO que ocorreu?

HeloísaEu, nua, caída com uma terrível dor aqui (aponta para as nádegas), pensei que tivesse quebrado; fui arrastando até o telefone e pedi a Marilda que viesse me acudir.

JaimeNão vai me dizer que a senhora deixa a porta da casa aberta?

HeloísaMarilda tem a chave do meu apartamento. Se não fosse ela, não sei o que seria de mim!

JaimeUm amigo faz muita falta.

HeloísaEla é muito boa e religiosa: evangélica e católica… às vezes, frequenta as sessões espíritas. Explica-me muito bem acerca da outra vidaé no que mais presto atenção… não entendo nada não, mas gosto muito do que ela fala; ela me trata melhor do os filhos.

JaimeNada, (mostrando seriedade) a gente, no fundo, reclama dos filhos mas gostamos deles.

HeloísaDou razão a eles. Quem gosta de velho? Aposto que acontece o mesmo com você que é mais velho do que eu!

JaimeNão! Já lhe disse. Eu trabalho, sou funcionário do Banco do Brasil , tenho família graças a Deus… e não sou velho como a senhora pensa. Desculpe-me a grosseria, não sou disso, hoje não estou bem…

HeloísaJá estou acostumada, todos me xingam e tratam-me desse jeito. Peço a Deus Santíssimo, rezo, constantemente, para que ele me tire a vida.

JaimeNão pense nisso. A vida é tão boa…

HeloísaPara que uma pessoa como eu continua a viver?

JaimeA senhora está forte e tem muito que fazer nesse mundo.

HeloísaTenho sim. Eu sei; minha única missão: aborrecer os outros, parentes como você, que têm vergonha da gente.

Jaime (educadamente)Gosto muito de conversar…

HeloísaAcho que já vivi o que tinha direito; daqui para frente, qualquer dia a mais, tudo é lucro.

JaimeEu espero viver muitos anos; junto à minha mulher, ver meus filhos casando, viajando, carregar os netos…

HeloísaOra… nessa idade, nem viajar a gente aguenta. Sou um trapo que nada mais faz do que dormir, acordando várias vezes à noite; comer, sem ter a mínima vontade e sem sentir o sabor dos alimentos; enxergar mal e somente as desgraças da vida; ouvir, alguns poucos sons, geralmente xingamentos das pessoas. Ainda bem que escuto mal e vejo tudo embaçado.

JaimeDeve haver alguma coisa boa na sua vida…

HeloísaEu quase não saio; nem mais rezo…

JaimeDevia passear; visitar as pessoas; isso faz bem.

HeloísaFora de casa, até na igreja, somos tratados como bichos estranhas, seres que só atrapalham a ordem dos jovens apressados. Eles empurram a gente, fecham a cara para mostrar que estamos importunando a rotina.

JaimeMas isso não ocorre com todos…

HeloísaAo atravessar uma rua, os motoristas tentam, de todas as formas, amedrontarem a gente; nós que já estamos em pânico.

JaimeÉ, a senhora tem razão, em parte…

HeloísaUns motoristas jogam o carro em cima; outros buzinam estridentemente para agredir-nos e, alguns, os mais gentis, que não fazem nem uma coisa nem outra, fingem que não estão com raiva, demonstrando claramente que estão com dó, devido a nossa fraqueza.

JaimeExistem os educados que dirigem com cuidado. Eu sou um deles.

HeloísaEstes, não agridem porque percebem nossa impotência, ela é tão grande que eles não têm o prazer de nos ferir.

JaimeA senhora está exagerando…

HeloísaTambém, para que nos matar, se já estamos com um pé na cova. Eu, sempre que posso, me vingo; só no pensamento, é claro. Torço para que eles vivam bastante, para que sintam, quando velhos, o meu sofrimento atual.

JaimeÉ uma boa punição.

HeloísaOra, você que é velho me compreende, sabe de que estou falando. Ninguém gosta de velhos…

JaimeNão sou velho e gosto deles…

HeloísaAlguns toleram; os filhos fingem, por instantes, que gostam. Nos trazem presentinhos inúteis e nos abraçam por segundos.

JaimeEstá criticando o que existe de mais bonito nesse mundo: o amor filial.

HeloísaA sociedade inventou, erradamente, que certos gestos representam amor. Nossos queridos filhos se utilizam desse engodo.

Jaime (duvidando)Talvez a senhora tenha razão…

HeloísaMas o amor onde está? No meu aniversário ganhei panelas, pratos e um chinelo que detesto.

JaimeNão gosta de presentes? (tentando agora receber apoio de Piedade)

HeloísaDepende… criou-se uma lenda que dar presentes, qualquer porcaria, significa amizade ou amor. Muitas vezes, pode simbolizar o ódio, o deboche ou desprezo

JaimeVivemos para cumprir essas lendas, esses mitos…

HeloísaNas visitas, que sempre são rápidas, um fim de tarde de domingo, por exemplo, percebo, na fisionomia deles, a pressa para ficar livre daquela situação.

JaimeFicar livre da mãe? Isso não ocorre!

HeloísaEles querem voltar rápido à vida normal, a deles, longe dos velhos. Quem gosta de cuidar de velho?

JaimeEu nunca vivi coisa parecida. (amargurado, lembra-se de sua família, levanta o tom de voz). Eu não!

HeloísaNão é difícil para mim ler, nas expressões dos filhos, a pressa para terminar a comédia do amor à mãe. Fazemos juntos um enorme e cansativo esforço para fingir nossa alegria com o encontro.

JaimeEsses encontros são salutares…

HeloísaEssas visitastive uma pneumonia que quase me matoulembraram-me os velórios a que fui. Nesses, temos que ir para consolar os parentes e, ao mesmo tempo, queremos sair dali, o mais rápido possível.

JaimeCreio que a senhora está generalizando, falando de sua experiência… nem todos os filhos têm essa conduta. (incomodado com a conversa que despertava seus problemas)

HeloísaOh, que inocência! Até as enfermeiras cobram mais caro quando aceitam esse penoso trabalho.

JaimeNão é bem assim…

HeloísaSe adoecemos, pioram as coisas. Durante as visitas apressadas, as expressões dos amáveis visitantes são de tédio, desprazer com a conversa tola e monótona que temos.

JaimeDe fato. Já visitei amigos no hospital e ia para cumprir as chamadas “obrigações sociais”.

HeloísaA gente percebe quando a visita olha o relógio e se sente aliviada. Já visitou o necessárioum tempo mágico de 30 a 45 minutos… cumpriu o dever, já pode ir.

JaimeGosto de conversar, de visitas prolongadas; não de 45 minutos.

VelhaNesse momento a visita começa a imaginar coisas mais interessantes; depois dessa penitência ele já poderá ganhar indulgências. Então, a fisionomia muda, o parente torna-se mais alegre e descontraído. O terrível castigo já foi cumprido com êxito; ninguém notou a farsa.

JaimeConcordo em parte, existem certas visitas que são como a senhora descreveu, mas outras…

VelhaApenas, nos instantes finais da visita, somos tratamos com carinho, somos vistos como amigos e, não, como fonte de sofrimento. Os bons momentos, os finais, duram pouco.

JaimeTodo o tempo de visita é agradável quando os filhos amam seus pais… eu amo minha família…

VelhaChega o tempo de se despedir, de alívio. Então eles partem felizes por serem bons filhos conforme o código social.

JaimeTenho dois filhos maravilhosos ( vieram lágrimas nos olhos, lembrando dos filhos que tinha, das queixas que sempre fazia deles, de sua vontade de abandonar sua família)

VelhaSorte sua…

JaimeEles não me dão trabalho, são estudiosos, trabalhadores, ajudam em casa, obedecem. (sua voz sai com dificuldade, falsa)

VelhaNão tenho visto isso na nossa família… .você faz parte dela. É cada um para si.

JaimeNunca, felizmente…

VelhaTambém temos culpa. Para existirem filhos maus é necessário que os criemos desse modo. Nós é que construímos os monstros que depois queixamos.

Toca a buzina na rua. Piedade avisa para D. Heloísa que seu motorista a espera e a ajuda a se levantar da poltrona. Ela, com dificuldade, ergue-se suspirando:

VelhaAh! Até logo, tio, gostei muito desse encontro. A conversa me aliviou, tem muito tempo que não desabafo como hoje.

JaimeAinda bem…

VelhaÉ sua mulher que está consultando? Eu gosto muito desse ginecologista, consulto com ele desde minha menarca e foi ele quem fez meus partos. Quando ela sair, dê minhas lembranças.

Jaime (sem saber o quê falar)Não, ela não está aqui.

VelhaFico esperando vocês dois para jantar. Farei o que você mais gostava de comer lá na fazenda quando meu pai era vivo: frango ao molho pardo com quiabo. Vamos lembrar nossa infância. Eu me lembro bem; você era um rapaz muito peralta, mas, também, muito formoso. Até logo.

JaimeFoi um prazer. (levantando e dando-lhe um abraço)Irei sim. Pode esperar. (Virando-se para Piedade)Com os diabos! Dr. Jaime, acabrunhado, a pedido de Piedade, entra no consultório.

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