Primeiro Ato

Nair, uma paciente, entra na sala de espera do consultório onde se encontra Piedade limpando os móveis.

NairBoa tarde, Piedade. Como vai?

PiedadeBem e a senhora? Hoje, eu estou bem. (examina as folhas de um vaso, retira uma estragada, sem olhar para Nair, joga-a na terra do vaso)

Nair (excitada, gesticulando muito, respirando fundo e andando pela sala de um lado a outro)Ah, eu nunca vou bem! Não gosto do lugar onde moro. Já falei com o Castro que a gente devia mudar de lá. Lá ninguém presta. Ele nunca resolve nada.

Piedade (olhando ocasionalmente para Nair; certa do que pensara, depois, em dúvida)Eu… gosto tanto do meu quartinho… das minhas coisas… do que encontro lá…

Nair (falando rápido, saindo de um lugar e indo para outro para ficar mais perto de Piedade)Ontem, para variar, ele bebeu feito um gambá… chegou em casa, nem quis comer… desmaiou na cama. Sempre faz isso. Bebe até no trabalho.

PiedadeTinha um tio que bebia… bem… meu pai também… (continuando sua inspeção nas plantas)

Nair (furiosa, quase gritando, irritada)Devia fechar aquela merda! Lá só tem pinguço. Parece uma zona boêmia. Eu já te contei que fui puta? (levantando-se e ficando frente a frente de Piedade).

Piedade (parando de examinar suas plantas; como se despertasse)Puta? Você tá brincando… não sabia não.(sem saber o que falar diante da confissão). Pra mim, puta era uma mulher diferente, que fala alto, nome feio, mexe com os homens… lá em Córrego das Lage, onde nasci, não conheci nenhuma.

Nair (com firmeza, ainda em pé, rindo da perplexidade de Piedade)Não precisa se espantar. Puta é uma profissão como qualquer outra.

PiedadeÉ… bem… eu sei… você sabe né… conheço pouco essas coisas; pra mim as putas usavam calças compridas, pintavam o cabelo de louro… fumavam, bebiam cachaça…

Nair (debochando, querendo provocá-la)Tá assustada?

Piedade (tentando não demonstrar estar incomodada com a conversa)Um pouco… você é parecida com todas as pessoas que conheço, é boa gente.

Nair (caminhando para assentar-se perto de onde Piedade estava)Eu já fui; não sou mais. Hoje sou casada. Casada não! Amigada.

PiedadeEu sei… você já me disse.

Nair (sem ouvir e desejosa de fazer mais revelações, sabendo que iria provocar a curiosidade da atendente)Comecei a “fazer vida” cedo, lá em Montes Claros. Foi depois de uma surra que levei de minha mãe… resolvi fugir de casa… tinha doze anos, hoje tenho quarenta. Logo, arrumei um namorado… um safado, que me aconselhou a ganhar dinheiro na zona. Ele ficava com tudo que eu recebia.

Piedade (interessada, largou o que fazia, indo se assentar na sua mesinha; enquanto isso, olhava para as mãos, passando uma sobre a outra como se as limpasse de algum sujo imaginário)Eu também…

Nair (interrompendo rapidamente a fala de Piedade; admirada)Já foi puta também?

PiedadeNão! Deus me livre! (assustada e tentando consertar, levantando-se e, automaticamente, voltando a passar o espanador nos móveis). Eu, com treze anos, sem ter o que fazer na minha terra, um dia, com raiva de tudo, peguei uma carona no primeiro caminhão que passou. Fugi de casa, como você.

NairAh! Você também não aguentou sua família. Então nunca fez vida?

PiedadeJá te disse que não! Eu não! Mas não estou te criticando.

NairJá me acostumei com as críticas… sou criticada sem parar.

PiedadeNão sabia onde desejava chegar… queria era sair de lá… acabei vindo parar aqui. Tive sorte; encontrei uma moça que também pegou carona – não tava fugindo não – foi ela quem arrumou meu primeiro emprego em BH.

Nair ( lembrando do passado, olhando para cima e para fora)Minha sorte foi ter encontrado o Castro. Ele apaixonou-se por mim; eu não era feia como sou agora. Tive muitos homens antes dele. (abre a bolsa e retira dela uma fotografia encardida).

Piedade (educadamente, pega a foto examinando-a e a compara com a Nair atual)Você ainda é vistosa, bonitona.

NairFoi o Castro que me forçou a largar aquela vida. Andei com todo tipo de gente: homens bêbados, aleijados, brancos e negros, meninos e velhos-caducos; até com mulheres eu transei; tudo quanto foi gente. Desde que ganhasse alguns trocados, eu ia para cama… (imitando um e outro enquanto ia enumerando-os; fazendo gestos com as mãos como se tivesse recebendo níqueis e, ao falar “até com mulheres”, olhando por todo o corpo de Piedade, assustando-a)

Piedade ( demonstrando asco e medo do olhar de Nair)Puxa! (parando e, depois caminhando na sala, indo até a porta de entrada do consultório do psiquiatra, olhando para dentro dele). – Não sei como aguentou.

NairFiquei lá sete anos. (gesticulando e mostrando sete com os dedos; com os braços indicando longe). Nesse tempo morei também fora da zona, por uns poucos meses, com um e outro homem. Muitos se apaixonaram por mim, mas, por pouco tempo…

PiedadeVocê gostava de lá, é da… dessa vida?

NairTenho saudade de alguma coisa: a gente fazia o que queria… (olhando internamente, sem fitar em nada) mas tinha coisa ruim; nunca gostei de homem (mudando o semblante, fechando a cara) e tinha que deitar, conversar e sorrir para eles, bandidos e policiais…

PiedadeEu nem namorado… não tolero homem me pegando, agarrado o meu corpo. (tremendo o corpo, demonstrando asco ao contato, fechando os olhos por segundos)

NairMuitos me bateram, outros me roubaram. Eu era uma boba e mole. (rindo sem graça, soltando e amolecendo a musculatura corporal; retomando um tom de voz mais firme)Gosto do Castro porque ele me ajudou muito. Ele me dá tudo que preciso. O Doutor tá aí? (levantando-se e caminhando até a porta do consultório do médico)

PiedadeTá. Tá examinando as fichas dos clientes de hoje. Não deve demorar; assenta e lê uma revista ou o jornal.

NairLê? Não sei não. Nunca li; fui à escola por uns poucos anos e parei. (demonstrando um certo orgulho por não saber ler). Acho que esqueci tudo que me ensinaram. Vivo bem sem a leitura. Para que ela serve? Será que os remédios que estou tomando fazem mal para a memória? (torna a levantar e chega perto de Piedade, assustando-a)

Piedade (em dúvida)Sei não. (presa às confissões de Nair, relembra fatos de sua vinda para a capital) -Eu nunca tive vontade de ser puta. Recebi conselhos para ser…

NairNão é tão ruim assim não, boba; (num tom de voz maternal, como dando um conselho) a gente aprende muita coisa, fica mais sabida.

PiedadeCoisas que eu não gostaria de aprender. Falaram-me que eu, com meu corpo… (fica em pé e olha para seu próprio corpo, passa suas mãos sobre os seios e nádegas )poderia ganhar muito dinheiro, fazendo-vida. Poderia comprar um quarto para morar…

NairAh, Ah… não é bem assim; (chega bem perto do ouvido de Piedade, como se fosse um segredo, sussurra)A gente gasta tudo o que ganha… sem pensar no dia de amanhã. Quando ganhava um dinheiro, torrava ele em seguida, com qualquer coisa: bebida, carteado, roupas, presentes; quando não era tomado antes pelo gigolô. No outro dia, passava fome, usava droga ou pinga vagabunda para aguentar. (sai de perto e caminha para onde estava, balança o corpo imitando um drogado)

PiedadeDroga ou pinga? Já usou droga? (pensativa e medrosa). Estou com a cabeça cheia. Você parece bem… já vi pessoas aqui no consultório que usam drogas. Elas são estranhas, não parecem com você. (levanta-se olhando para porta de entrada como se verificasse se tinha alguém que pudesse ouvir)

NairNão uso mais. Não é bem como você pensa. Lá no prédio onde moro, vários filhinhos do papai usam drogas… eles falam que são estudantes… (pausa longa; imita um livro aberto sobre as mãos e conclui).Hoje em dia todo mundo bebe, jovens e velhos.

PiedadeEu, não. Ouvi dizer que fumar maconha é divertido, que a gente fica mais calma vendo coisas interessantes. (pára, imita uma fumaça saindo dos lábios, olha para cima como se notasse algo atraente). Já tive vontade de experimentar… mas tenho medo. O meu mundo é tão chato. (decisiva)Mas não quero, não! Tenho medo.

NairVocê é nova. Ainda tem tempo… (divagando, ao olhar a revista que está em suas mãos e entusiasmada com a fotografia de um rapaz)

PiedadeEu? Nunca! Não quero nem pensar nisso! ( endurecendo o corpo, olhando firme para Nair)

Nair (sorrindo)Olha que bonitão. Esse aqui (mostrando). Com ele, eu largaria o Castro. Também, não preciso sonhar… ele não ia me querer…

PiedadeLargava seu marido por causa de um homem bonito?

NairPor que não? O quero mais? Castro não é mau não, devo muita obrigação a ele pelo que ele me fez e faz. Mas sei lá… poder abraçar um homem assim… (quase abraça Piedade que afasta-se assustada)

PiedadeQue esquisito, você falou que não gosta de homem; agora afirma que largaria o marido por um bonitão… Não é melhor continuar com ele?

NairIsso é idéia da Igreja: “até que a morte nos separe”. (faz um “nome do padre”, beija suas próprias mãos)Não mais existe isso, na zona… e, também, no prédio onde moro, é uma bagunça total. (balança as pontas dos dedos uns contra os outros). Na zona, às vezes, a polícia dava batida lá; eu, “de menor”, escondia-me. Mas, eles me pegaram várias vezes.

PiedadeFoi presa?

NairSim; depois de pouco tempo era solta; sempre depois de me “comerem” (bate a mão direita aberta sobre a esquerda fechada) e roubarem o dinheiro que tinha comigo. (abre a mão esquerda e roda o polegar direito aberto sobre a palma da outra mão, imitando a mímica de roubo)

Piedade“Comiam” você? Eles não iam lá dar batidas?

NairVocê é boba mesmo. Não conhece nada!. Precisa sair mais para saber o que existe do outro lado do mundo. É tudo esculhambação; cada um por si.

PiedadeNão é assim; conheço pessoas honestas; vivem de acordo com a religião. (olha para o teto do consultório)

NairSó um soldado não quis nada comigo. Era até bonzinho… para um policial, é claro. Mas sua fama era de ser “bicha”. Aqui vem “bicha”? Não gosto de “bicha” não.

PiedadeNão sei … tem clientes que requebram um pouco, falam cantado, têm as mãos moles; tudo muito esquisito. Eu fico curiosa; mas nunca perguntei. Não entendo bem disso… é, de uns tempos para cá fui forçada a entender.

Nair (Sem prestar atenção ao que Piedade queria dizer)Lá na zona de Montes Claros tinha um homem que era “bicha”. Fazia vida também como as mulheres. (levanta-se e caminha pelo consultório imitando seu andar requebrando e os gestos com as mãos. Piedade fica apreensiva de alguém chegar e ver a cena)

PiedadeTá brincando. Como? Como as mulheres? É… não entendo mesmo disso!

NairNão é bem como as mulheres… Engraçado, certos homens preferiam transar com ele… não sei o que eles têm que nós não temos… (contrai os músculos faciais demonstrando desdém para eles)

PiedadeJá tive um amigo… começo a desconfiar dele. Antes… eu não sabia nada…

NairEsse da zona eu me lembro dele até hoje. Era magro e alto, cintura fina, tinha uns “mamás” enormes, maiores do que os meus. (enquanto fala, gesticula, andando pela sala, espicha o corpo, aperta a cintura e, com as mãos, aumenta os volume dos seios). Dizem que encheu seu peito de silicone. Seu nariz era bem feito, seus lábios grossos e sensuais, muito vermelhos… uns cabelos castanhos, anelados, de dar inveja (continua “explicando” com as mãos, o que descreve). O homem era bonito mesmo, mais bonito do que muitas de nós.

PiedadeDeus me livre! Homem fazendo vida. Que horror! Quê história mais esquisita. Não sabia que existiam essas coisas quando morava no interior. Lá era namoros, noivados, casamentos, família, filhos. (sua voz é nostálgica, cheia de saudade)

NairEu ainda não contei nada. Você ainda não tem idade de escutar.

PiedadeMinhas idéias estão ficando confusas, fico sem saber o que é o certo. Vejo agora que existem vários tipos de vida diferentes da que aprendi em Córrego da Lage…

Entra na sala um propagandista de remédios; já idoso, passadas lentas e cansadas, voz baixa. Ele olha, timidamente, para as duas que, animadas, conversavam. Piedade se cala de repente, assustada e envergonhada.

PropagandistaO doutor está? (quase sem som)

PiedadeSim, espere um pouco, por favor. Não vai demorar. (olhando de soslaio para Nair)

Nair (desinibida, falando alto)O senhor é cliente também? O próximo horário é meu. (voz firme e ameaçadora)

Propagandista (educadamente, com uma voz baixa, medrosa, olhando para o chão)Não senhora, vim apenas fazer uma visita e entregar, ao doutor, amostras.

NairAinda bem. Assim você não vai me atrasar. Acho que já te vi (examinando-o de cima a baixo). Foi bom você estar aqui; sempre tive uma curiosidade. Você toma os remédios que vende?

Propagandista (acabrunhado com a pergunta, tossindo e limpando a garganta)Alguns, sim. Os que trago para o doutor; os do sistema nervoso… é, nunca tomei… nunca precisei deles, felizmente.

Nair (raivosa, vermelha, olhando-o e desafiando-o, levantando a voz)Tá fazendo pouco caso de mim? Você acha que sou louca? Só porque estou aqui esperando uma consulta, estou mal arrumada e tomo remédios para o sistema nervoso? (levanta-se de onde estava, olha-o, e fica esperando a resposta)

Propagandista (confuso, sem graça, desculpando-se)Não, não senhora. Perdoa-me, por favor. Não quis ofendê-la. Não há nada de errado tomar esses medicamentos; eles são muito eficazes.

NairAh… tá dando uma de educado; falando palavras difíceis. Tá parecendo os pastores lá da igreja, a que frequento.

PropagandistaNada; sou um homem simples e pacato. Frequento a igreja também.

Nair (animada, alegre, já sem raiva)Você já me viu na igreja? Lá todos gostam de mim. (novamente agressiva, desafiando-o)Por que você fez pouco caso de mim? Eu não te fiz nada.

PropagandistaNão minha senhora. Não pretendi, nem pretendo lhe tratar mal. (tenta acabar com a discussão)

Nair (crítica, brincando, sem raiva)Você tem um modo de falar parecido com as bichas, é muito delicado. Eu falo o que penso. Não sou como você!. Sou grosseira mesmo e não escondo. Na hora que você chegou, tava falando com Piedade que já fui puta.

Propagandista (espantado)O quê?

NairIsso mesmo que você ouviu. Puta da zona de Montes Claros.

PropagandistaNasci lá perto. (falando mais baixo o final da frase, arrependido de ter falado o que não desejava)

NairQuem sabe você já me visitou lá. (curiosa e depois, demonstrando ironia). Estou brincando; você é muito velho. Quando morava lá, você não mais funcionava; pelo jeito não dá mais no couro há muitos anos. Na igreja os pastores sempre me pedem para falar no “púpito”, é… lá na frente, no lugar onde eles falam, contar o meu sofrimento e arrependimento por ter sido puta.

PropagandistaEu nunca fui homem de frequentar esses lugares. (pára, fica em silêncio uns instantes e continua)Como contar no púlpito sua vida? A gente esconde o que fez de errado.

NairErrado! Já contei muitas vezes o que já fiz. Todos ficam curiosos para ouvir. Todos escutam sem dar um pio. Minha fala, na igreja, dá “Ibope”. Até parece que eles nunca treparam. (Nair levanta-se; fala alto, gesticula e faz gestos imitando sua fala)

PropagandistaMas isso é um abuso, uma exploração de sua desgraça. (fala mais alto, mudando seu modo habitual de falar)Comentar seu passado sofrido para desconhecidos da igreja!

NairIsso, no seu modo de pensar. Eu gosto! Lá na frente de todos, pareço uma artista no palco fazendo “estriptise”. Quando conto meus casos, todos ficam me comendo, só com os olhos. Ouviu?. (animada, como se estivesse na Igreja, pregando)

Propagandista (indignado)Os pastores deixam?

NairClaro, eles são os que mais gostam. Pedem para repetir as partes mais emocionantes. Você entende, né? As bem íntimas, as cabeludas. Sabe? Eles ficam excitados. (abre bem os olhos, fingindo-se de espantada).

PiedadeQue vergonha!

NairQuando noto que eles estão muitos animados com minha história, invento outras, mais picantes ainda, umas que ouvi e que jamais existiram. Ficam entusiasmados. Outras vezes, para apagar o fogo deles, ou da platéia, conto um fato triste, no meio dos cabeludos… todo mundo chora, até os pastores… eles são uns bobos. Me divirto muito lá.

PropagandistaEles não percebem que você está representando para excitá-los?

NairE daí? Que diferença faz? O resultado é o mesmo… tudo que emociona é bom, é bem aceito.

Propagandista(confuso com o argumento, pigarreando )Deve ser… Um relato é a realidade; o outro, a fantasia, a mentira.

NairVocê é mesmo um bocó… não sabe de nada… (rindo debochada) as pessoas gostam mais; ficam mais animadas, com as histórias falsas… com as inventadas.

PropagandistaGostam mais da mentira?

NairA minha história, a de minha vida real, é conhecida… vivida por muitas putas como eu. São todas iguais, por isso mesmo chatas… .é preciso aumentá-la, pôr alguma coisa apimentada, inventar uma outra história mais estranha acerca da história, fazer uma nova… diferente… . é essa que provoca as emoções fortes que tanto apreciamos… (segura de suas afirmações, colocando o dedo perto do rosto assustado do propagandista)

PropagandistaVocê está brincando com as pessoas, brincando com coisas sérias. Devia ter mais respeito, pelo menos da igreja.

NairEstá fora do mundo. A galera gosta disso… de atrações, do extraordinário; é o falso que anima… Alguém vai à Igreja para aprender, enxergar ou pensar acerca da realidade? Nunca! Eles vão ali para sonhar e sentir. (levanta os olhos para cima, abre os braços e as mãos, contraindo-as)

PropagandistaNão acredito! Os pastores não participam disso… eles não podem concordar… (empolgado com a conversa)

NairQue nada! Você só entende dessas porcarias que vende. (aponta para a pasta). Alguns entusiasmados, perguntam-me detalhes; querem saber tudo: que homem mais me excitou, o mais estranho deles, quanto tempo durava, quanto recebia por cada serviço.

Propagandista (curioso acerca do que foi dito)Como?

NairVocê está querendo saber… é só ir à igreja. Mas vou falar: não sentia nada! (agitada com as lembranças, falando rápido)Além do mais, lá tudo valia; não achava nada estranho; lá na zona era tudo normal.

PropagandistaDeve ter sofrido…

Nair (balançando a cabeça para um lado e outro antes de responder)Não sei. Sei que detestava todos! (com raiva no olhar)Como detesto os homens da Igreja que me perguntam e exploram…

PropagandistaEntão, por que vai lá?

NairBoa pergunta. Não sei. Acho que me acostumei… como na zona… depois de um certo tempo, fico animada; acho que nos habituamos com tudo… até com o que era insuportável.

PropagandistaCompreendo… (lembrando do seu próprio trabalho que também detestava no início)Os hábitos nos protegem…

Nair (admirada)Não entendi bem o que disse, mas você tem razão. São nada mais nada menos do que gigolôs engravatados e educados. Ganham a vida, como muitos, com o sofrimento alheio, exploram a desgraça.

Piedade (entrando desajeitadamente na conversa, medrosa)Que isso Nair! Eles ajudam muito às pessoas, são piedosos.

NairPiedosos? Selecionam os sofredoresdetestam os que gostam da vidaoferecem-lhes o mundo do futuro. Para quê?

Piedade (sem saber o que falar, medrosa)Eu já fui à Igreja … agora parei.

NairArrumou um emprego, tem comida e não tem filhos. Se todos vivessem bem, todos eles estariam desempregados. Vivem da desgraça dos outros. Como você; (virando-se para o propagandista)vende muitos medicamentos quanto mais doentes existirem. Se todos fossem sãos… você morreria de fome.

PropagandistaOh! Que idéia esquisita! A senhora está enganada. Levo uma vida honesta e boa, além disso, gosto de frequentar a Igreja.

Nair (rindo, criticando)Boa? Velho, cansado e trabalhando; isso é vida boa? Você, meu amigo, que fala bonito e nada sabe da vida, já trepou com putas?

Propagandista (boquiaberto, surpreendido com a pergunta indiscreta)Bem, quando era rapazinho… é… nem me lembro; isso foi há tanto tempo. Por que essa pergunta? Respeite-me, por favor. Não vim aqui pra isso! É um abuso! (irritado e tenso, dando a impressão de ir embora)

NairFicou envergonhado, uai. Por quê? Vai ver que você não é muito fanático por mulheres…

Propagandista (recompondo-se e enérgico)O que você está dizendo? Não admito que fale assim comigo! Já lhe disse! Sou um homem sério e estou trabalhando.

Nair (inteiramente desbocada e desafiadora)E você acha que era fácil o meu trabalho… Gostaria de ver você debaixo de um homem sujo, embriagado, louco ou mendigo. Ele, enfiando um negócio dentro de sua … Você ia preferir mil vezes fazer propaganda com os médicos.

PropagandistaEssa conversa não está me agradando. Há coisas que são íntimas, a senhora está falando demais…

Nair (no mesmo tom anterior, sem ligar para as críticas)Ser puta, andar com vagabundos e doidos, é mais difícil do que vender remédios, todo bonitinho como você, num consultório com ar refrigerado. No quarto sujo, não tinha nada disso. Era um velho estrado com um colchão manchado de tudo que é imundice.

PropagandistaEu sei; já vi isso; já lhe falei. Sinto mal em lembrar.

NairAh… Então, já entrou nos quartos imundos onde se vê paninhos úmidos, que foram usados para limpar as sobras do sexo, pendurados, num varal improvisado dentro do quarto, exalando aquele cheiro acre, horrível… cheiro que jamais sumiu de meu nariz.

PropagandistaInsiste ainda em falar dessa vida podre que você teve?

NairPodre? E a sua? Será que sua vida é melhor do que a que tive? Pelo menos, eu já larguei a minha antiga. E você, até quando vai continuar nessa merda de vida?

PropagandistaTrabalho há trinta e quatro anos nisso. Minha profissão é mais digna do que a sua. Gosto dela! A sociedade sabe disso… condena e proíbe a prostituição e aceita e concorda com a minha.

NairÉ muito pouco. Talvez, tenha aprendido mais nos meus sete anos de profissão do que você nos seus trinta e quatro anos. O meu curso é superior; o seu, primário.

PropagandistaVocê aprendeu tanto que só fala idiotices. Você bem sabe, esconde de si mesma, que sua vida foi terrível.

NairNão sei se foi pior do que a sua. Sofri muito. Quem não sofre? (dá uma pausa, olha-o, falando com uma certa dose de sofrimento; o tom alto e rápido, diminui para baixo e lento)Certo? Suportei tudo e estou viva ainda. O curso que nos faz aprender muito é sempre difícil e penoso. Tenho recordações que nunca mais saíram de minha cabeça.

PropagandistaFiz e faço cursos para exercer minhas atividades; eles são difíceis e puxados.

NairAh, ah! Puxados! Lembro-me do velho guarda-roupa vazio, contendo apenas uma garrafa de pinga, toalhinhas e sabão em barrao único móvel do quarto além do estradoquebrado, amarrado com barbante para não se despedaçar. Vivia nisso. Nunca sabia se seria ou não procurada e por quem. (fala a frase final, lamentando, lentamente)

PropagandistaVive melhor ou pior do que antigamente?

NairNão sei! Como não sei se a sua vida é melhor do que a das putas. Se bem que na sua idade, se você fosse uma delas, não teria nenhum freguês. Ainda mais com essa cara feia e esses óculos fora de moda.

PropagandistaEra só o que faltava: vir aqui hoje. Maldito dia. (pensando que já está na hora de largar tudo aquilo; levantando-se e caminhando até a porta decidido a ir embora).

Nair (sem ligar para a ameaça de ir embora)Já tive muitos clientes de terno e gravata como o senhor e que na cama viravam outros. Um deles me pedia para usar uma calcinha o dia todo. Na hora da relação, ele a punha na boca e ficava mastigando-a. Era um dentista respeitável.

Propagandista (voltando para seu lugar, assentando-se e tornando a ficar em pé)Sua conversa está inconveniente; não está vendo que ela é muito nova? Estamos num consultório médico e não na…

NairAh! Ela precisa aprender. Esse dentista grã-fino ainda me pedia uma calcinha, limpaeu arrumava uma nova, ainda não usadapara ele vestir durante a transa. Ele levava uma lata de creme de leite para que eu lambuzasse seu corpo. Sujava tudo. Uma porcaria! Também, como ele era rico, eu cobrava mais.

Piedade ( estupefata com o que ouvia)Que nojeira!

NairVocês, como todos os santos do pau oco, são parecidos. Gostam de ouvir as histórias escabrosas e fingem estar horrorizados. Tudo de mentira. Todos são iguais, todas as profissões são semelhantes.

PropagandistaNão é à toa que você está aqui. No lugar certo.

NairNão percebo a diferença entre trabalhar com a cabeça e as mãos, como você e o doutor fazem, e com a cabeça e as partes baixas do corpo, como fazem as putas. Eu tinha que usar a cabeça também, além das outras partes. Sabia?

PropagandistaHoje é meu dia de azar.

NairAzar? Sorte, não? Você hoje terá assunto para conversar em casa com sua mulher. A maioria dos casais não tem o que conversar.

PropagandistaEu tenho amigos para conversar além de minha mulher…

NairAmigos! Precisam sair aos pares, todos juntos, para arrumarem assuntos, tão amolados que ficam com vocês próprios. E que assuntos! Os de sempre: queixas e queixas.

PropagandistaNão sou disso; minha mulher gosta um pouco…

NairQuase sempredesculpe-me, mas é o que escutocomo cada um, marido e mulher, não se suportam, cada par decide, geralmente após alguma bebedeira ou uma noite regada a pó, trocar de parceiro. Você, que é casado, sabe disso. Já trocou sua mulher nessas festas particulares?

Propagandista (irritado, surpreso com a pergunta inesperada e grosseira)Não! Não sou de fazer essas coisas. Vivo bem. Além disso, não converso certos assuntos com minha esposa e não quero falar sobre isso; muito menos com você.

NairOh, que mentira! Tudo é feito às escondidas. Se não conversar isso, terá que conversar coisas piores: o pão que a empregada roubou, a camisa mal-passada, a toalha que não foi colocada no banheiro, as notas ruins do filho, o nariz que está escorrendo, a gravidez da filha, a morte do amigo, o casamento chato para ir e a falta de dinheiro. Não é mais divertido conversar acerca de putaria?

Propagandista (Confuso, sem saber o que fazer ou falar)A senhora está indo longe demais.

NairNinguém tem o que conversar. É preciso de algo excitante. Hoje será um dia de festa para você. Terá assunto em casa. Devia me agradecer por isso.

PropagandistaTenho coisas melhores para dialogar com minha esposa.

Nair“Diabolar” palavras bonitas nada dizem. Mas, como amiga, te dou um conselho: não chegue em casa e fale logo. Espere, espere bastante tempo. Faça suspense, crie um clima de expectativa, fale com calma, já na cama. Dá mais resultado. Por que as pessoas assistem novelas?

PropagandistaQue pergunta! Porque gostam, é claro!

NairNão! Porque não têm nada melhor para fazer e tem sexo nelas. Todas giram em torno de historietas inventadas como as que conto na igreja. Só que relacionadas com putaria doméstica, as que ocorrem entre as famílias.

PropagandistaEu não assisto novelas.

NairMas garanto que vê filme pornô, lê a revista “PlayBoy”, “Eles e Elas” e outras mais.

PropagandistaNão sou dado a isso.

NairEntão, é doente da cabeça; devia consultar. Eu também faço outras coisas. Ouviu? Lá no prédio ajudo uma mulher que bebe muito e também, frequento a igreja também para orar.

PiedadeAinda bem, pensei que só ia à igreja para contar histórias de sua vida?

NairÉ… mas se não fosse eu, com minhas histórias, não sairia nada que preste. Com meus casos, ajudo as pessoas, de uma forma ou de outra. Cada um deve fazer sua parte. Não é assim que é ensinado?

PropagandistaAfinal, estamos concordando em alguma coisa.

NairNão estou mais aguentando a igreja; tá chato. Falar e ouvir as mesmas coisas. Sempre o mesmo papo: pecado, orar, perdão, bondade, Deus. Deviam inventar alguma novidade para atrair os crentes: discutir um crime, estupro, incesto, isso sim, daria Ibope. Ah, Piedade, ia me esquecendo, tô doida para mijar; posso entrar? Gostei muito do senhor, sabe?

Propagandista (custando a falar)Eu também, a senhora é espontânea e simpática.

NairEu sou assim mesmo. Gosto de todo mundo. Só não gosto da irmã do Castro. Ela não presta. Vai lá na oficina só para tirar dinheiro dele e do Clóvis. Dessa eu tenho raiva. Gostaria que ela morresse. Com licença, meu querido.

O doutor chama sua secretária através da campainha. A atendente vai até à sala e volta em seguida. Manda o Propagandista entrar. Este caminha lentamente em direção à sala. Enquanto isso Nair entra no banheiro. Logo depois retorna.

NairEu, quando entro na sala do doutor… como é que ele se chama Piedade?

PiedadeDr. Otávio.

NairEu sempre confundo o nome dele com “otário”. Mas ele não é bobo, não. Ele sabe cobrar e como! É gente fina. Eu entro e só saio quando a campainha toca. Ele tem que me mandar embora, senão fico falando sem parar.

Sai o Propagandista. Não se despede de ninguém.

NairO velho ficou com raiva. Também não quero nada com ele.

Piedade chama Nair para entrar.

PiedadeO Dr. está chamando você, Nair. É sua vez…

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