Quatro Amigos, Quatro Destinos

Tempos atrás liguei a televisão e presenciei um repórter da TV entrevistando populares nas ruas de São Paulo. O diálogo foi mais ou menos como descrito abaixo:

Repórter da TV: A Câmara Municipal de São Paulo está propondo o fim da “lei da gravidade” para a Cidade de São Paulo. O que você acha disso?

O entrevistado respondeu esforçando-se para mostrar conhecimento:

— É…concordo… Penso que a lei deveria ser estendida para todas as cidades do Brasil.

As diversas entrevistas continuaram com um e outro entrevistado:

Repórter da TV: Há uma lei tramitando no Congresso Nacional exigindo que todos os dinossauros do Brasil sejam transferidos para o Estado do Amazonas. Você é contra ou a favor dessa medida?

— Contra… Acho que, uma vez transferidos, eles serão mortos pelos caçadores.

Repórter da TV: Beethoven virá ao Brasil para dar um concerto de piano no Teatro Municipal. Você pretende ir ao concerto?

— Não tenho grana; se arrumar, irei.

Repórter da TV: O Coríntias está contratando Einstein para ser seu novo goleador. Você apóia essa contratação?

— É lógico, ele é um excelente jogador.

Estas perguntas e outras mais foram feitas e transmitidas através de um canal de TV. O repórter, sempre, ao finalizar as perguntas, perguntava aos entrevistados se eles tinham conhecimento da notícia relacionada à pergunta. Quase todos confirmavam tê-la escutado no rádio, lido nos jornais ou visto nas TVs; poucos foram os que criticaram as perguntas.

Não tenho informações se as “reportagens” foram montadas como piadas ou não. Creio que não.

Eu, pessoalmente, junto com colaboradores, realizei uma pesquisa acerca de crenças entre jovens pré-universitários. Foram testados milhares de vestibulandos candidatos a vagas nos cursos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Selecionamos 57 questões relacionadas a crenças jamais comprovadas empiricamente, algumas tão absurdas como as perguntas do repórter.

As questões foram apresentadas aos candidatos, nos moldes de qualquer prova de conhecimento. Pedimos ao vestibulando que marcasse, se a afirmativa fosse verdadeira (V) ou falsa (F), segundo sua opinião. Entre as 57 frases apresentadas aos candidatos estavam: “mulato de olhos verdes não é confiável”,“as mulheres loiras envelhecem mais depressa que as morenas”, etc. Os resultados da pesquisa, surpreendentes, foram publicados na Revista Ciência e Cultura. Foi constatado que crenças (ou preconceitos absurdos) fazem parte da maneira de pensar usual de um grande número de estudantes que haviam terminado o segundo grau.

Foi verificado que os vestibulandos ao curso médico, aprovados no vestibular, tiveram, no total, menos crenças absurdas que os não aprovados para o mesmo curso. Entretanto, os alunos da quinta série do curso de Medicina da UFMG, também avaliados com as mesmas perguntas, exibiram novas crenças, comparadas com os vestibulandos, e perderam outras. A hipótese é a de que durante o curso os alunos perderam algumas crenças, mas, também, adquiriram algumas poucas.

Que explicação existe para isso? Ignorância? Burrice? Incapacidade? De onde vem e como se desenvolve essa falta de conhecimento ou esse aprendizado de crendices sem comprovação? Seria devido ao país ter um sistema de ensino péssimo, fruto de centenas de anos de atraso? Seria o domínio de uma elite política e empresarial incompetente ou que deseja que assim continue para que eles tenham uma mão-de-obra barata e controlável? O leitor certamente terá outras perguntas e dezenas de hipóteses/afirmações como respostas.

Tentando conceituar o problema de um outro modo

Tentarei uma outra explicação fictícia através de histórias possíveis. Imaginemos quatro pessoas e quatro destinos, que chamaremos de Samuel, Rose, Horácio e Dina.

Samuel, filho de judeus, começou a ler desde o início da adolescência, não só as matérias escolares, mas, também, a literatura atual, os clássicos, o Alcorão, poetas diversos, um pouco de Latim, teologia e filosofia, e, às vezes, até a Bíblia. Portanto, a vida de Samuel tem sido voltada para os grandes pensadores e escritores, para a leitura de grandes obras. Mas Samuel só tem uma vida, sendo assim, não tem tempo para ler a revista “Placar”, “Amiga”, “Querida”, “Sabrina”, “Veja”, “Isto é” ,“Época” e outras.

Ele caminha, obsessivamente, todos os fins de tardes. Após estas, toma seu banho, janta e lê um pouco antes de dormir. Com uma rotina dessas Samuel nunca pode desfrutar das novelas da Rede Globo e do SBT e sempre perde o programa Big Brothers, Gugu, Faustão e outros semelhantes. Com esse despreparo cultural diante dos companheiros, ele fica sem saber o que conversar. Durante os bate-papos com os amigos, ele, envergonhado, mais ouve que fala. Samuel nada ou quase nada sabe acerca do que é discutido pelos jovens instruídos e cultos de sua idade.

Não tendo noção da moda, Samuel é, constantemente, ridicularizado pelos companheiros por nunca vestir as roupas e calçados de “marca”. Ele, ingenuamente, quando compra uma camisa, não sabe que a “melhor” é a de “marca”, a da moda. Ao escolhê-la, ele, inocentemente, compra a que mais lhe agrada, exatamente a que não devia comprar. No dia seguinte, ele, orgulhoso, veste a camisa e a exibe para a turma. A risada é geral diante do seu mau-gosto, de sua incompetência para saber o que deve ser usado.

Mas Samuel apresenta algumas condutas valorizadas pelo grupo. Ele é um bom rapaz, disciplinado, sério, estudioso, honesto e, por isso mesmo, seus companheiros o toleram e permitem sua participação na turma. Entretanto, o grupo impõe certas condições. Ele não pode abrir a boca diante de estranhos e não deve comparecer a lugares onde se exige maior conhecimento de etiqueta e de civilidade. Seus colegas, condoídos de sua ingenuidade e incapacidade para adaptar-se ao mundo encantado dos jovens, permitem-lhe, envergonhados, é claro, participar apenas de algumas atividades grupais.

Os amigos têm razão, pois Samuel é incapaz de fazer o que todos fazem sem esforço, como saber as letras e músicas das canções atuais, os lugares da moda, as notícias acerca dos artistas, da política e do esporte. Ele bem que tentou, mas nunca aprendeu a dançar. Suas pernas compridas e duras não seguem nenhum ritmo, nem mesmo a valsa. Ele só memoriza e usa o conhecimento para conversar assuntos complicados e, quem sabe, inúteis para as conversas diárias com seus amigos.

Mas Samuel gosta de Rose. Entusiasmado, apaixonado, tentou namorá-la. Infelizmente não deu certo. Rose é seu oposto. Ela conhece muito bem o que os jovens apreciam. Começou a trabalhar como datilógrafa num escritório de materiais de construção. Perdeu esse emprego, por não aceitar a cantada do patrão. Poucos meses depois, fez um curso, por correspondência, de cabeleireira. Sendo inteligente e sagaz (esperta), aprendeu com facilidade esta arte e arrumou um emprego num salão.

O papo não falta onde ela trabalha. Suas frequentadoras são, em sua maioria, mulheres cultas e jovens dinâmicas de trinta a quarenta anos. Nas conversas, enquanto trata os belos cabelos de suas clientes, Rose aprende muito com as inteligentes e experimentadas damas acerca do mundo complicado em que vive. Assim, cada dia mais, Rose fica sabendo tudo acerca da vida íntima da maioria dos artistas de novelas, de seus principais papéis, quem é gay, qual é o novo amor de X ou de Y, quem está morando com quem e há quanto tempo. Sabe dos cachês, das fofocas dos artistas, de suas brigas e traições. Rose adora Michael Jackson e pronuncia, orgulhosamente, seu nome, num inglês bonito. Fala “de boca cheia” que “son” significa filho e, portanto, ele “é filho de Jack”. Comenta, entusiasmada, a agitada vida de Madonna e de Xuxa.

Em tempos de recessão, o salão muitas vezes fica vazio. Esta folga tem sido providencial para Rose aumentar sua cultura. Com a falta de clientes ela pode devorar as revistas existentes. Cada notícia é lida com rapidez e emoção. Dependendo do que lê ela respira feliz ou chora copiosamente, às vezes, de modo incontrolável. Durante a morte e enterro de Ayrton Senna e dos “Mamonas Assassinas” Rose chorou durante dias.

Lendo a maioria das revistas e tendo uma memória prodigiosa para fatos simples, Rose armazenou uma multidão de acontecimentos acerca dos seus ídolos. Ela é desinibida, popular e amiga de todos, e tem talvez mais informações que seu amigo Samuel. Enquanto ela é capaz de conversar acerca de tudo que a revista publica após uma só leitura, Samuel, mais burrinho, às vezes, tem, como ele mesmo confessa, que ler e reler o mesmo livro, várias vezes, para guardar algumas de suas idéias. Samuel, diferente de Rose, depois de diversas leituras, fica em dúvida se entendeu ou não o que o autor queria dizer. Ele afirma envergonhado que, cada vez que lê e relê, aprende mais nos livros de outras eras. Rose ri triunfante, pois ela compreende e retém o que lê após uma só vez. Samuel conta que, às vezes, precisa ler outros textos para entender o que está lendo no momento, outras vezes, precisa consultar algumas pessoas para explicar-lhe certos assuntos não entendidos. Rose, ao contrário, despreocupada quanto a sua sabedoria, aprende tudo o que as revistas trazem, sem ajuda de ninguém. Ela sabe qual o xampu que Sabrina Sato usa atualmente após ganhar fama e posar para a revista “Playboy”.

Rose, muitas vezes, em lugar de aprender, ensina às amigas coisas interessantes. Explica para as companheiras qual o sabonete que Juliana Paes está usando para lavar a nova cachorrinha ganha de presente do atual namorado. Rose comprou, para experimentar, o mesmo sabonete; gostou tanto que passou a usá-lo nos seus próprios banhos. Aos banhar-se com o sabonete, Rose imagina-se transformada na cadelinha de Juliana Paes na pequena bacia de porcelana branca. Ela espicha seu corpo na água morna pondo a cabeça de fora, e aos poucos vai sendo ensaboada, delicadamente, pelas mãos mornas e sedosas de sua deusa. Um suave perfume canino, nesse instante, trescala pelo banheiro. Lamentavelmente, batidas fortes soam na porta do pequeno banheiro do condomínio; é um morador que espera sua vez. Assustada, Rose volta à dura realidade de ser gente.

Rose sabe também muito acerca dos direitos trabalhistas, datas-base de diversos grupos de trabalhadores; discute e ensina, com prazer, para as amigas da Vila da Felicidade, onde mora, os macetes para que estas possam “ferrar” suas patroas e não ser enganadas. Por outro lado, no salão, ainda que com certo sentimento de culpa, Rose ensina, quando se entusiasma com suas “aulas” para as “madames”, como não serem apanhadas de surpresa pelas suas faxineiras e cozinheiras. Ela transmite, nessas ocasiões, alguns truques sujos para escapar das exigências trabalhistas futuras de seus serviçais. Em resumo, podemos dizer que Rose armazenou uma imensa quantidade de conhecimentos enciclopédicos. Lamentavelmente, Rose não conhece tudo, pois é uma negação em esportes e política. Seu namorado Horácio é um craque nisso.

Horácio sabe tudo sobre esportes, principalmente futebol. Tem conhecimento das escalações dos principais times do Brasil, mesmo de muitos anos antes dele ter nascido. Assim repete constantemente o time do Atlético de 1938: Kafunga, Florindo e Quim, Zezé, Lola e Bala…Também decorou os nomes dos jogadores que vestiram a camisa brasileira nas seleções de todas as copas. Ele é culto também em outras áreas além das esportivas; conhece tudo acerca de automóveis, preços, potências, corridas de fórmulas 1, 2 e 3.

Conhece também a política nacional e internacional; faz parte do diretório do PT. Rose se delicia ao vê-lo falar com eloquência acerca de Capitalismo, Socialismo, Marx, Engels, Golfo Pérsico, Sarayego, Colinas de Golan, direita, esquerda, reacionário, Cuba, Nicarágua, Jerusalém, corrupto etc. Horácio, quando se apronta para sair nas passeatas grevistas, tem sua cara pintada por Rose no salão onde trabalha. Nessas ocasiões fica lindo, mais charmoso ainda.

A outra amiga do grupo é Dina. Como os amigos gostam de viajar no fusca de Horácio e como sempre o dinheiro é curto, ela é a consultora para assuntos ligados às estradas, restaurantes e hotéis. Dina é quem faz os planos das viagens, pois conhece quais hotéis têm quartos espaçosos, bons banheiros com água quente, atendentes amáveis e preços possíveis de serem pagos. Debocha dos conhecidos, que ela denomina de “turistas idiotas”, que gastam mais e se hospedam em lugares piores por falta de informações que ela sabe e guarda em segredo.

Portanto, e para resumir, Rose sabe mais que todos acerca de penteados, xampus, artistas etc; Horácio conhece carros, política e esportes e Dina é perita em hotéis e restaurantes. E Samuel? Este tem informações gerais acerca de história, filosofia e ciências. Fica a pergunta para o esclarecido leitor: quem é mais ignorante e quem é mais sábio?

Dependerá dos critérios adotados. Os quatro amigos talvez possuem um mesmo número de palavras, talvez de conceitos. Imagino que o homem mais potencialmente capacitado (pode não ser capacitado, apenas potencialmente) para resolver um maior número de situações sociais e outras seja o que acumula apenas certos tipos de conhecimentos e não todos ou qualquer um. É provável que o conhecimento que permita extrair dele hipóteses diversas seja mais valioso para a pessoa que o conhecimento concreto e simples, útil apenas para determinada situação ou específica. Mas essa idéia não pode ser aplicada sempre e para todos.

O saber que contém informações amplas e gerais, acerca do homem e dos acontecimentos, pode ser mais prático para o indivíduo que as informações acerca das roupas, amantes, sapatos dos artistas ou atletas em evidência e para viver no grupo no qual participa.

Acredito que quem possui princípios mais seguros, que servem de pilares para formação de outros raciocínios, fundamentos estes que resistiram ao tempo e às críticas e que, além disso, estão logicamente estruturados, deve estar mais apto para viver e agir nesse mundo do que o indivíduo que crê nos “ “princípios” de algumas “autoridades”, de peritos na arte de representar, de dirigir automóveis, cabecear bolas ou de fazer discursos bonitos. Estes ídolos, geralmente, construíram suas premissas, de onde saem suas deduções, intuitivamente, sem esforço e sem reflexão.

Os que supõem que suas conclusões e raciocínios podem estar errados estarão mais capacitados a aprender, comparados com os que têm fé exagerada em suas crenças básicas e nos processos usados. A leitura de obras clássicas, escritas pelos grandes pensadores de nossa história, fornece-nos, talvez, mais sabedoria do que as “notícias”, adquiridas sem esforço e num momento, acerca do relato e comentários do Faustão de um fato. Ler e reler obras difíceis geralmente indica que o assunto é mais profundo, complexo, isto é, contém mais idéias interligadas ao mesmo tempo. A leitura fácil de Rose apenas descreve o fato isolado, com pouca ou nenhuma relação a outros. Não há nas descrições assistidas, lidas e ouvidas por Rose abstrações de vários graus possíveis, para que o leitor possa enxergar diversos ângulos do problema. Essa leitura simples não permite deduzir o modo de usar roupas de um grupo de pessoas comparando-o com outros, relata apenas a maneira de um indivíduo agir. Rose não vai além do fato simples.

Por isso tudo parece que Samuel tem conhecimentos mais adaptados que seus amigos, (um cérebro mais funcional para enfrentar os problemas mais variados), capacitando-o a entender melhor o mundo onde vive, mas, por outro lado, encontra-se desadaptado no seu grupo, talvez na sua cultura. As informações de Samuel são duradouras, adquiridas vagarosamente e com grande esforço. Cada estudo de Samuel poderá ser integrado ou interligado a outros, acumulando, progressivamente, uma sabedoria. Seus conhecimentos formam um todo que, a cada dia, torna-se mais compreensível e, ao mesmo tempo, mais complexo. Seu conhecimento geral permite-lhe uma ordenação lógica e uma estruturação do seu conhecido.

Samuel possui um saber que assimila ou entende o conhecimento dos três amigos, possivelmente melhor do que eles próprios, quanto a suas origens e significados. Seu conhecimento é inacessível à estrutura simples, ingênua, específica e de fatos concretos dos amigos. Neste último há pouquíssima abstração. O conhecimento deles dificilmente irá compreender o de Samuel; este aprendeu a aprender; este aprendizado é mais amplo e de nível mais elevado. Mas tudo isso não facilitou – talvez tenha prejudicado – sua adaptação com seu grupo de referência.

Rose, Horácio e Dina conseguiram, quase sem esforço, vários megabytes de informações, simples e pouco úteis como é o conhecimento geral e superficial acerca da moda, da novela e dos hábitos dos artistas atuais etc. Estes fatos não os capacitam a compreender e discutir nem mesmo as próximas novelas, os novos mexericos etc. Para que isso pudesse acontecer estas informações deveriam ser, não relatos de um fato particular, mas abstrações gerais, onde seriam incluídos os particulares, ou seja, todos os vestidos já usados, ou a moda em geral, usada pelo homem desde seu aparecimento na Terra. Rose conhece apenas a saia que Elba Ramalho vestiu na festa do aniversário de Chitãozinho. Esta informação só servirá para discutir esse fato, depois, a informação será jogada no lixo.

Pobres Roses, Horácios e Dinas – talvez Samueis – desse vasto mundo. Seus amplos conhecimentos estão mal organizados quanto à forma; suas premissas são crenças mal fundamentadas. Samuel pode confiar mais na sua sabedoria estável; através dessa ele poderá construir novos conhecimentos interligados e até criticá-los, se for o caso, mas também está desadaptado.

Rose, Horácio e Dina ficaram “bem informados” acerca de eventos simples e isolados uns dos outros. Possuem, na verdade, um “cemitério” de dados, sem uma lógica para uni-los. Suas ligações são apenas quanto às categorias. Reuniram num grupo geral, sem distinções, os artistas de novela; os corredores de fórmula 1; os restaurantes que vendem pizza etc. Na sua classificação não existem princípios básicos, nem críticas quanto ao modo como foram reunidos. Não existem conceitos universais – grandes categorias – apenas particularidades, sem sentido e, por tudo isso, existe uma continuada alteração que invalida a sua aplicação na semana ou no mês seguinte. Para isso basta que os fatos novos, modas, carros, futebol, cinema, mudem.

Aprender é se tornar perito numa área, mas a moda muda a toda hora, como sabem os estilistas. A formação de Samuel não fica obsoleta como a de Rose, a nova canção, o novo livro de P. que Rose adora, ou o boato acerca de L. que ela acha muito útil.

Samuel tem uma idéia plena do passado; seus companheiros, ao contrário, apenas do atual. Rose e amigos suspeitam que houve um passado, uma vida anterior, talvez no início do século I, já que os filmes por eles vistos fornecem alguns indícios desse mundo antigo. Eles assistiram a filmes em que foram mostrados dinossauros, a vida de Cristo, Cleópatra, Adão e Eva e Sansão e Dalila. Este grupo detesta o passado, os antigos filmes, os livros escritos anos ou séculos atrás. Estes são, necessariamente, ruins por serem antigos. Seu rádio e televisor velhos são jogados no lixo. O jornal do dia deve ser lido, se possível, no momento, bem como o maldito livro moderno e mais vendido.

Rose está pronta para explodir de tanta informação. Mas estas estão desconectadas, desarrumadas. Samuel, por outro lado, se imunizou contra diversas informações que possivelmente nada dizem acerca do que ele deseja. Ele evita ler os anúncios diários, as promoções de vendas do Natal, do dia dos pais e do dia dos namorados. Mas Samuel se sente só no grupo, incompreendido, quase não consegue conversar com ninguém. Leva uma vida, talvez, até infeliz.

Para que mais serve o conhecimento de Rose, Horácio e de Dina além de lhes permitir conversar um com o outro, o que talvez todos já sabem. Para que serve também saber de cor o discurso de Cícero nas Catilinárias: “Quousque tandem Catilinia abutere patientia nostrae…” ou a teoria dos conjuntos na mente do menino “gênio”, de 7 anos?

Já ia me esquecendo de dizer: os conhecimentos dos amigos de Samuel servem para as entrevistas na TV e no rádio. Estas são vistas, com grande emoção, por uma multidão de pessoas, clones de Rose, Horácio e Dina, existentes em todas as partes do mundo, e admirados por possuírem uma “incrível” inteligência.

Um comentário para “Quatro Amigos, Quatro Destinos”

  1. Eu li, reli e prefiro refletir antes de enviar meu comentário!
    Preciso refletir e conversar sobre, mas achei interessante, inteligente, atual e necessário esse texto.
    Parabéns!
    Raquel

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