Para Mim Você Está Errado

Para Min, você está Errado

O meu nome é Alberto; minha namorada se chama Aspásia; tenho 30 anos, ela 21; sou formado em Direito, ela, terminou o segundo grau; tenho oito irmãos, ela é filha única; nasci e fui criado em São Paulo, ela nasceu e foi criada numa pequena cidade de Minas. Essa é uma história inventada, semelhante à de todos nós. Procurou-se mostrar acima algumas diferenças entre dois parceiros. Podemos prosseguir: Alberto gosta de futebol, Aspásia gosta de canto lírico; ele é ateu, ela, evangélica; ele defende um comunismo/autoritário, ela, um governo democrático.

Eles, sendo diferentes – sexo, idade etc. – entram em conflito com frequência. Se Alberto é homem e tem 30 anos, sua maneira de pensar e se expressar será forçosamente diferente de Aspásia que é mulher e tem 21 anos. Um homem, por ser do sexo masculino, como todo animal macho, age de modo diferente das fêmeas em função de terem organismos biológicos desiguais. Além disso, por ser do sexo masculino, Alberto receberá educação ou instruções diferentes das recebidas por Aspásia que é mulher. Em resumo: os dois têm organismos, treinamentos e aprendizagens diferentes. Mas também, como um é mais velho nove anos do que o outro, Alberto viveu mais tempo, possivelmente fez mais cursos e aprendeu mais devido aos nove anos a mais.

Mas ainda não é tudo: se Alberto é homem, foi educado como homem e viveu nove anos a mais que Aspásia, ele assimilou idéias diferentes do mundo e usa palavras diferentes dela. Mas como Alberto é formado em Direito, tem oito irmãos, nasceu na Cidade de São Paulo, gosta de futebol etc., tais fatos fatalmente contribuirão para que Alberto fale de modo diferente, aja, pense, faça suposições, alegre-se ou irrite-se e raciocine de modo diverso do de Aspásia. Em resumo: ele viveu e vive num ninho ou ambiente geográfico/histórico diferente de Aspásia.

Quando eles discutem – isso é frequente – cada um faz uso de termos diferentes para descrever formas de governos, fé religiosa, lazeres, pois que, cada um deles tendo suas tendências próprias, enxergam certas áreas do mundo como mais importantes e outras como menos importantes. Alberto poderá usar mais frequentemente termos como: gol, impedimento, cartão vermelho etc., enquanto Aspásia poderá usar palavras como: soprano, Traviata, ópera, Verdi, etc. Possivelmente Alberto acusa Aspásia de estar errada com respeito a diversas ações, objetivos e de meios para alcançá-los, uso de certas roupas, gasto com diversões, uso do tempo livre, modo de falar do interior de Minas; por outro lado, ela poderá acusá-lo de assistir, discutir e brigar por causa de 22 marmanjos chutando uma bola, por gostar de defender malandros diante da Justiça e outras acusações mais. Quem tem razão? Alberto ou Aspásia?

A “teoria” do cientista versus a do romancista

Um exímio psicólogo pode ser um bom descritor do homem em geral, entretanto, ele dificilmente poderá ser um bom conhecedor de Alberto ou de Aspásia, seres humanos concretos, singulares e não gerais.

Quando o psicólogo descreve a conduta do homem, ele não está falando de um homem particular (Alberto e ou Aspásia); seus conceitos tentam englobar todos os homens. Desse modo ele é obrigado a usar termos, como não poderia ser de outro modo, muito gerais.

Entretanto, o bom romancista quase sempre consegue descrever em sua obra as diferentes linguagens usadas pelo personagem conforme sejam suas diferentes condutas num certo ambiente e momento. A linguagem do prosador exprime, muitas vezes, franca e diretamente as intenções expressivas de cada personagem para mostrar suas peculiaridades e não “suas generalidades”, pois o geral não tem importância para o romancista como tem para o cientista.

Existem no nosso dia-a-dia, de fato, modos diferentes de falar quanto ao gênero (homem x mulher), quanto a função (médico x cliente, advogado x cliente e juiz, fazendeiro x lavrador), mas, também, conforme os locais onde nascemos e vivemos, as idades ou ainda se somos ocidentais ou orientais.

Cada grupo tem suas peculiaridades, seus jargões, seus modos diferentes de vida e sua maneira de enxergar o mundo. Essas concepções da realidade podem ser mais autoritárias ou mais democráticas, mais orientadas pelo grupo ou pelo indivíduo particular produzindo divergências e conflitos, mas podem também fazer nascer novos modos de pensar e de agir na realidade.

Em resumo: todas as palavras expressam ou evocam uma profissão, um gênero, uma tendência, uma região, uma época, um partido, uma obra determinada, uma pessoa definida, uma geração, uma idade e um dia ou momento. Cada palavra insinua, além disso, um contexto ou contextos, nos quais a pessoa nasceu e viveu e, por fim, as palavras e suas formas são habitadas constantemente por intenções.

A linguagem indica algo sócio-ideológico concreto e vivo, exibindo opiniões de várias linguagens ao mesmo tempo; sou do sexo masculino, tenho idade X, nasci na Cidade Y, Minas Gerais, Brasil, formei-me em Medicina etc., onde cada aspecto utiliza sua linguagem específica limitando seu território.

A palavra da língua é uma palavra um tanto sem dono; entretanto, ela se torna “própria” quando a pessoa que fala ou a escreve a habita com sua intenção, com seu acento, suas emoções e desejos próprios etc. Desse modo, as palavras ganham um estilo ou tom singular quando determinada pessoa, como Alberto ou Aspásia, domina a linguagem através do discurso proferido tornando-a familiar para quem a escuta por dar sua orientação semântica e expressiva particular, conhecida. Fica fácil descobrir que a fala é alheia ao ouvirmos uma pessoa falar de modo decorado; nesse caso, percebemos que a fala não é a dela naquele instante, a fala conhecida que permite conhecer melhor o falante. Quando se fala de forma “decorada”, comunica-se a maneira peculiar do outro. Em crianças isso é mais evidente ainda.

Pode-se concluir que nem todos os modos de falar se prestam a cada indivíduo particular de maneira igualmente fácil. Fica difícil ou impossível um lavrador assimilar a linguagem jurídica; do mesmo modo é impossível o advogado assimilar e utilizar-se adequadamente da linguagem do lavrador. Caso tentasse isso, a apropriação não se concretizaria de modo harmônico. A linguagem jurídica usada pelo lavrador permaneceria alheia naquele indivíduo; ela soaria, para quem a ouvisse, estranha, não fazendo parte do que se apossou da linguagem; seria como se ele estivesse falando fora do estilo habitual, como se a fala fosse colocada entre aspas.

Mas, apesar de tudo, um lavrador analfabeto morando bem pra lá do fim do mundo, ingenuamente mergulhado em uma existência quase solitária, mesmo assim, vive no meio de vários sistemas linguísticos: ele reza à Deus em uma língua; canta versos das canções melódicas em outra; fala numa terceira língua no seio familiar; e quando vai ao cartório para casar-se ele usa, junto ao escrivão, uma outra língua (a língua oficial correta e “cartorial”). Todas elas são línguas diferentes, porém, estas línguas não se comunicam na consciência linguística do lavrador, apesar dele ser capaz de passar de uma para outra sem pensar, automaticamente; cada uma delas está indiscutivelmente no seu lugar.

Na maior parte dos casos este lavrador imaginado não saberá examinar uma das línguas que usa e o mundo que ela descreve através dos olhos da outra. O lavrador provavelmente não examinará e interpretará, usando a língua da oração ou da canção, a língua usada no seu dia-a-dia, bem como o mundo descrito por essa linguagem.

Não será fácil para a mente do lavrador ter consciência das diferentes línguas usadas por ele; perceber estas línguas não como sendo diferentes, mas, também, originárias de ninhos ou ambientes diversos, encarcerando sistemas ideológicos e abordagens do mundo desiguais como o mundo de Alberto e de Aspásia.

O julgamento revelando o crítico

Além de tudo, todas essas linguagens e mundos descritos por elas, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, acham-se ligadas internamente em sua cabeça apesar de se combaterem entre si ao invés de permanecerem lado a lado. Cada uma das línguas usadas pelo lavrador, bem como por Alberto, esfacela o caráter decisivo e dominador de cada uma delas, desse modo, ele obedecerá ora uma ora outra, ficará um pouco mais livre, mas, também, em dúvida.

Seguindo o mesmo raciocínio, podemos supor que uma pessoa branca tende a criticar uma negra; o jovem tende a criticar o velho; se for criada em São Paulo capital ela criticará o morador do interior; a mulher critica o modo do homem e este o da mulher; o iletrado acha o intelectual fora da realidade; o roqueiro critica o amante do samba-canção; o heterossexual critica o homossexual; o criminoso acha absurda a vida do jovem bem comportado; o bonito critica o feio, o forte, o fraco; a loura acha feia a morena; o norte-americano debocha do brasileiro; o muçulmano, do cristão; Bush não tolerava Saddam Hussein, que, por sua vez, não tolerava Bush. “Assim caminha a humanidade”; cada um criticando o outro, achando que ele, o falante, é o certo.

Mas essas avaliações e críticas que uma pessoa faz à outra apresentam, subjacente, mais informações que aparentam. Aprofundando, descobriremos que cada crítica feita mostrará a maneira de pensar do crítico, suas suposições e os princípios nos quais ele construiu seus raciocínios. De outra forma, escutando com cuidado o criticador e não o criticado, nós descobriremos muito acerca julgador; de outra forma, como afirma a frase de Spinoza: “O que Pedro fala de Paulo diz mais de Pedro que de Paulo”.

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